Uma história de EaD e similares

Passamos por uma séria crise no ensino, mas mesmo em situações de grande perigo e dramas surgem resultados bons. Após a grande peste em Florença tivemos o Renascimento, após a II WW tivemos a difusão da penicilina, após a COVID-19 teremos a renovação do Ensino. A história que vou contar é uma auto autobiografia focada nesta dimensão do ensino e, portanto, parcial com a minha interpretação histórica dos eventos. Gostaria de salientar que esta é uma visão do ponto de vista de um professor e que vista pelos alunos certamente surgirão problemas que precisam ser analisados. Como afirmam Souza e Fornari (Souza e Fornari 2008): “a memória aparece como elemento fundamental na articulação de sentidos entre o individual e o coletivo” e o uso da abordagem biográfica abre espaços e oportunidade para os professores em formação “de falar-ouvir e de ler-escrever sobre suas experiências formadoras, descortinando possibilidades sobre a formação por meio do vivido” apresento aqui uma visão para os jovens professores de como se desenvolveu um contexto de EaD que suportou a transição para o ensino remoto durante a crise da pandemia.

Introdução, o início

Há muito tempo tive o primeiro contato com o ensino apoiado por computador durante meu mestrado. Naquela época o suporte oferecido para o ensino era a automatização de um modelo muito rígido composto por textos para estudo seguido de questões com diversas opções de resposta. Uma resposta certa que conduzia para o próximo conteúdo e as demais levando para outros textos explicando o motivo de não estarem certas e oferecendo material complementar para tentar ensinar o conceito que causou o erro. Imaginem o trabalho de preparar todo este material e de tentar identificar as causas dos erros possíveis. Um análogo a este sistema são as check-lists para verificar algum erro de funcionamento em um celular, então não é demasiadamente difícil listar as alternativas e as ações possíveis com seus resultados. O modelo empregado no ensino é semelhante: uma árvore de alternativas cobrindo todas as possibilidades previamente pensadas pelo professor. Na aula programada o objetivo é o ensino de um conceito e a verificação da capacidade de um aluno responder corretamente as questões. No caso da check-list de empresa de celular o objetivo é identificar o problema de configuração ou de defeito do celular. Dá para se verificar que se este modelo é muito adequado para a identificação de um problema é bem limitado para o ensino. Naquela época esta classe de ferramenta de apoio ao estudo foi a transformação em uma aplicação computacional de um material que era distribuído em papel nos cursos a distância. Aí começou meu interesse pelo ensino apoiado por computadores.

Aqui vocês têm um vídeo sobre os modelos de Ensino a Distância EaD.

Evolução da tecnologia

Muito tempo se passou e as capacidades computacionais e de redes de transmissão de dados também, então surgiram outras possibilidades. Agora se sentia a necessidade de plataformas muito mais avançadas para a disponibilização de recursos educacionais. Em um mestrado interinstitucional coma Universidade de Londrina desenvolvemos um projeto associando quatro dissertações de mestrado para o desenvolvimento de uma plataforma, o AdaptWeb[1] (Palazzo M. de Oliveira, et al. 2003)  utilizando-se parcialmente recursos obtidos por projetos do CNPq. Em 2002 e 2003 as quatro dissertações de mestrado foram defendidas. Conseguimos então dispor de uma plataforma adaptável ao perfil e aos conhecimentos dos alunos para disponibilizar recursos educacionais em diferentes formatos. Esta primeira versão era ainda um protótipo para a validação das ideias que havíamos desenvolvido para a geração dinâmica de sequências de aprendizado. Certamente, naquele período, apenas estudos de caso puderam ser implementados. A partir de 2006, os pesquisadores da UDESC, coordenados pela Profª Isabela Gasparini, que participou no desenvolvimento deste projeto na UEL, passaram a contribuir com o desenvolvimento e melhorias na plataforma. Atualmente a plataforma está disponível e totalmente operacional sendo utilizada por diversas disciplinas na UDESC de Joinville. Este projeto permitiu o desenvolvimento de uma competência importante em adaptabilidade e na geração de conteúdo para EaD.

Implementação do EaD no Instituto

Em 2003 fui a uma conferência em Leuven, na Bélgica, apresentando o projeto AdaptWeb, aproveitei a viagem para fazer contato com o grupo que desenvolveu o sistema Claroline[2] para EaD em Louvain La Neuf. Aí começou mais uma etapa de desenvolvimento, a possibilidade de começarmos a criar a cultura de EaD aqui no Instituto de Informática da UFRGS. A plataforma AdaptWeb nesta época ainda não estava em um estado de produção, ainda era um ambiente de pesquisa, então precisávamos de algo estável e, além disso, mais simples de utilização.

Nesta época eu estava estudando e orientando sobre as possibilidades do ensino apoiado por computadores na formação profissional (Guizzo 2003) então a existência de uma plataforma operacional e bem amigável foi algo muito positivo. Com o apoio do Instituto e usando nossa plataforma de servidores locais instalei o Claroline aqui. Esta iniciativa teve o efeito de gota de óleo, uma vez colocada em uma superfície de água se espalha por toda a superfície. É claro que não foi tão fácil assim, mas aos poucos o conceito de EaD, naquela época ainda não se chamava assim, se difundiu e começou a fazer parte da cultura local no Instituto. Em um momento posterior instalamos a plataforma MOODLE para utilização opcional nas disciplinas. Com esta disponibilidade a cultura de utilização de sistemas para apoio das aulas presenciais foi se instalando. Esta cultura foi essencial, muito mais tarde, para o enfrentamento da pandemia.

No ano de 2002 foi criada a Secretaria de Ensino a Distância da UFRGS. Fui membro da Comissão Gestora do Sistema de EaD da UFRGS em 2005 e 2006. A partir deste período o Ensino a Distância passou a fazer parte da estrutura administrativa da universidade. Desde então, são utilizados três Ambientes Virtuais de Aprendizagem institucionais: NAVI e ROODA, ambos desenvolvidos por grupos de pesquisas da UFRGS, e o MOODLE, que foi institucionalizado em 2007.

Então o ambiente tecnológico estava disponível para toda a Universidade, em particular o Instituto conta com uma versão local do MOODLE o que permite maior flexibilidade na instalação de plugins e ajustes mais específicos para uma comunidade de computação.

Ao se aberto o Edital de Seleção UAB nº. 01/2006-SEED/MEC/2006/2007 encaminhei pelo Instituto uma proposta para o Curso de Especialização em Informática Instrumental para Professores da Educação Básica. O objetivo foi a melhoria da qualificação profissional de professores do ensino básico em plena atividade, em termos de conteúdos de informática, de aspectos conceituais, metodológicos e epistemológicos do ensino da Informática, e do uso de novas tecnologias de informática no ensino básico. Utilização da tecnologia como recurso didático que auxilia o professor no processo de ensino de conteúdo, tendo como foco principal a instrumentação nas tecnologias da informação e comunicação (TIC). Este projeto foi aprovado e consistiu em 18 disciplinas oferecidas por professores do Instituto. Considero que esta etapa foi muito importante para o desenvolvimento das competências necessárias para cursos realmente em EaD e com o apoio de polos distribuídos pelo estado. Posteriormente o curso foi gerenciado pela SEAD[3] tendo sido apresentadas três edições.

A crise, a adaptação e o futuro

Então chegou a crise, as aulas presenciais forma suspensas e tornou-se necessária uma adaptação aos novos tempos. Nossa experiência anterior permitiu uma conversão menos traumática para a situação de aulas totalmente a distância. Mas qual foi a parte mais difícil? Certamente ocorreu uma adaptação devido ao grande volume de alunos que passaram a participar do novo modelo de ensino. A UFRGS adotou, além das três plataformas suportadas pelos servidores locais, os serviços fornecidos pela Google e Microsoft. Mas o uso de ferramentas de apoio às aulas presenciais, as competências adquiridas no curso de especialização a distância foram um elemento essencial para a transição. Muita experiência foi trocada por um grupo criado no WhatsApp e pela lista dos professores do Instituto. Estas considerações mostram que um preparo prévio e a colaboração intensa entre os professores permitiu uma transição razoavelmente bem sucedida. As maiores dificuldades não foram no uso das plataformas, nem todas muito intuitivas, mas na criação das aulas. Criação dos vídeos para serem disponibilizados para acesso não síncrono, principalmente foi um ponto crítico. Diferentes disciplinas têm necessidades diversas, partes gráficas, formulas complexas, estudos de caso e outras. Esta experiência mostrou que, além do domínio da tecnologia, é preciso muito esforço e atenção nos aspectos didáticos e de comunicação.

Neste texto procurei simplesmente falar informalmente sobre uma experiência de vida no desenvolvimento de experiências no ensino a distância sem um rigor formal procurando apenas mostrar que o essencial para a adaptação a uma nova realidade, infelizmente neste caso traumática, é a preparação consistente ao longo do tempo. Mudanças sempre ocorrerão e precisamos acompanhar o que está acontecendo no mundo e adquirir ao menos uma experiência nas ferramentas e conceitos. Se nota uma discussão sobre a capacidade de adaptação das gerações mais antigas, aí incluídos os professores afeitos ao ensino presencial tradicional, a nova realidade, penso que isso não é um problema da idade, mas é causada pela falta de interesse nas novidades, nas oportunidades das tecnologias. Então esta pequena história mostra como uma instituição pode se preparar e dar o suporte necessário para a conversão de um grande número de professores a nova realidade.

Bibliografia

Guizzo, Michelle Alda Rosso . Ensino a Distância e Formação Profissional. Dissertação de mestrado, Porto Alegre: PPGC UFRGS, 2003.

Palazzo M. de Oliveira, José, Lydia Silva, Veronice de Freitas, Viviane P Marçal, Isabela Gasparini, e Marília Abrahão Amaral. “AdaptWeb: an Adaptive Web-based Courseware.” III Anual ARIADNE Conference. Leuven, 2003.

Souza, Elizeu Clementino, e Liege Maria Sitja Fornari. “Memória, (auto)biografia e formação.” Em Profissão docente: novos sentidos, novas perspectivas, por Ilma Passos Alencastro Veiga e Cristina Maria D’Ávila, 109-134. Campinas: Papirus, 2008.

 

[1] http://ead.joinville.udesc.br/adaptweb/

[2] https://github.com/claroline/Claroline

[3] http://www.ufrgs.br/sead/cursos/cursos-especializacao