Produtividade, COVID-19 e crise

 

Em 2007 escrevi sobre a doença da pressa que é uma doença psicológica causada principalmente pelo ritmo frenético em que a sociedade moderna se submete nas zonas urbanas e no trabalho. A síndrome não tem reconhecimento médico nem psicológico factível, mas é estudada desde a década de 1980. O aumento excessivo de ansiedade é o principal fator que causa a síndrome da pressa (Wikipédia). Atualmente na Academia a pressão pelo produtivismo tem levado as pessoas a um nível inaceitável de estresse. Com a crise da COVID-19 se nota uma pressão sobre o trabalho remoto. Os colegas estão se pressionado para trabalhar continuamente, sem horários, e achando que precisam produzir mais.  Um texto que me chamou a atenção foi este da The Chronicle of Higher Education: “Why You Should Ignore All That Coronavirus-Inspired Productivity Pressure“.  Então resolvi trabalhar os temas ali reportados.

Um ponto essencial é a observação de que a atual crise se compara a uma real Guerra Mundial, nada mais será igual ao que tínhamos hábito de conhecer. Nossa vida não poderá mais ser uma corrida sem fim para um lugar incerto, a única certeza é que a morte nos espera no fim do caminho. Será que a Qualidade é resultado desta corrida desenfreada? Será que a qualidade consiste em publicar inúmeras variações sobre um mesmo tema ou consiste em elaborar um trabalho denso e criativo? A atual corrida pelo trabalho esgotante e remoto pode ser um comportamento de fuga para não enfrentar a realidade. Este comportamento é essencial para que seres vivos possam fugir de situações perigosas. Esses comportamentos são importantes para a sobrevivência, mas pela Generalização de Estímulos, o organismo tende a fugir ou se esquivar de grande parte daquilo que ele considera hostil. Mas isso não funciona quando a situação hostil é de muito longa duração e o comportamento de fuga é um problema psicológico. Precisamos nos esforçar para fazer um ajuste mental muito forte.

Parece que a mania dos nossos vizinhos do norte de competir numericamente em qualquer coisa está criando situações bizarras ou de real loucura. Não se preocupem com pessoas que postam que estão escrevendo magníficos artigos e que sua vida acadêmica está muito melhor. Isso é como a imagem das pessoas no Facebook ou Instagram, todo o mundo é feliz e vive em um mundo de sonho em lindas paisagens. Cada vez mais nós precisamos deixar de lado a competição de performance e nos preocuparmos com o essencial. Agora temos tempo para pensar com calma, buscar artigos relacionados, trocar ideias com colegas e procurar achar a essência de nossa pesquisa e não o desempenho de número de publicações no Indice Restrito da CAPES. O problema: popularidade x qualidade é de solução muito difícil. É claro que os dois problemas estão interligados, todos nós conhecemos produtos inúteis ou de qualidade alimentícia deplorável que são top de popularidade, o mesmo acontece com autores. Mas este problema precisa ser enfrentado, o tempo da Crise é uma oportunidade para a reflexão. 

Por outro lado é importante manter o relacionamento com suas comunidades acadêmicas, grupos de WhatsApp com os colegas mais próximos é uma forma de trocar ideias e não nos mantermos isolados socialmente. Esta estratégia permite que você se adapte ao novo mundo de trabalho virtual. Nosso grupo marcou um cafezinho virtual todas as terças e quintas usando a plataforma Mconf. O isolamento físico não deve implicar em isolamento social.

Feito isso o importante é organizar o trabalho e se adaptar à nova realidade. Continue com um esquema de horário para levantar, para tratar o e-mail e para trabalhar. Continue a marcar as reuniões virtuais com seus alunos e as administrativas. Não se esqueça que existe o Fim de Semana! Vamos nos preparar para um longo período de mudanças. Agora, aos poucos, as coisas começam a ficar mais normais, e o positivo é que ao final desta crise a vida será diferente. Espero que os empregadores acadêmicos entendam a mudança e passem a ver o trabalho remoto como trabalho, e não contem apenas as horas de relógio ponto. Este assunto, a possível crise mundial, foi discutido brilhantemente em um livro de 2007 – quando tinha escrito o texto sobre a pressa. A pressa, o produtivismo irracional e o esquecimento do Iluminismo são as causas desta crise atual.

Precisamos mudar nossa forma de vida, precisamos valorizar o essencial e não o acidental. Precisamos mudar radicalmente nosso método de avaliação do sucesso, senão continuaremos a corrida sem sentido e sem fim, ooops… com fim pois a Velha Senhora está nos esperando, e agora com o auxílio do virus SARS-CoV-2.