EaD após a pandemia

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O Ensino a Distância é muito mais do que o uso de ferramentas de TIC. Esse é apenas um dos aspectos. Ao longo destes dois meses de distanciamento social temos discutido muito o tema. Muito deste texto foi obtido destas discussões, agradeço a todos os colegas do Inf UFRGS pelas inúmeras ideias e algumas frases das quais me apropriei para a redação deste texto. Com a COVID-19 estamos percebendo que muita coisa pode ser realizada com as plataformas de Tecnologias de Informação disponíveis. Depois de passada a crise será possível analisar os resultados obtidos com as diversas alternativas desenvolvidas. Mas nunca devemos nos esquecer que a utilização de EaD exige uma dedicação intensa dos professores e uma mudança importante dos gestores das universidades e inclusive da legislação, a EaD nunca pode ser vista como uma forma de reduzir custos. A qualidade exige esforço e recursos, não se obtém bons resultados sem esforço, dos professores, dos gestores e dos alunos. O Ensino a Distância requer um envolvimento didático diferente do ensino presencial, justamente por não existir o contato presencial.

A Open University  no Reino Unido desenvolveu uma proposta utilizando meios impressos, televisão e cursos intensivos para produzir cursos acadêmicos de qualidade. A UNED, na Espanha, começou em 1972 seguindo o mesmo modelo. Na França existe o CNED. No Brasil, nas décadas de 1940 e 1950, foram iniciados cursos sobre assuntos profissionais, liderados pelo Instituto Monitor, mais tarde pelo Instituto Universal do Brasil. Nas décadas de 1960 e 1970, várias iniciativas de educação a distância surgiram em projetos para ampliar o acesso à educação, promover a alfabetização e a inclusão social de adultos. Durante esse período muitos cursos eram transmitidos pela televisão. Esse modelo de EaD coexistia com formatos mais antigos, como textos e transmissões por rádio. No meio da década, as instituições começaram a usar a Internet para publicar conteúdo e promover as interações. Portanto, o EaD não é nada novo, em todas estas iniciativas o primeiro objetivo foi a inclusão de pessoas que não tinham acesso ao estudo formal. Na Inglaterra a motivação inicial foi a qualificação de trabalhadores após a gerra, mas todas trabalham o conceito de long life learning, talvez aprendizado vitalício em Português. Gradualmente foram evoluindo para cursos universitários e de pós-graduação, então o aprendizado foi longo.

No Brasil surgiram algumas experiências como a UAB, em cujo site podemos ler:

O programa busca ampliar e interiorizar a oferta de cursos e programas de educação superior, por meio da educação a distância. A prioridade é oferecer formação inicial a professores em efetivo exercício na educação básica pública, porém ainda sem graduação, além de formação continuada àqueles já graduados. Também pretende ofertar cursos a dirigentes, gestores e outros profissionais da educação básica da rede pública.  Outro objetivo do programa é reduzir as desigualdades na oferta de ensino superior e desenvolver um amplo sistema nacional de educação superior a distância. Há polos de apoio para o desenvolvimento de atividades pedagógicas presenciais, em que os alunos entram em contato com tutores e professores e têm acesso à biblioteca e laboratórios de informática, biologia, química e física. Uma das propostas da Universidade Aberta do Brasil (UAB) é formar professores e outros profissionais de educação nas áreas da diversidade. O objetivo é a disseminação e o desenvolvimento de metodologias educacionais de inserção dos temas de áreas como educação de jovens e adultos, educação ambiental, educação patrimonial, educação para os direitos humanos, educação das relações étnico-raciais, de gênero e orientação sexual e temas da atualidade no cotidiano das práticas das redes de ensino públicas e privadas de educação básica no Brasil.

Mas na maior parte das Universidades o desenvolvimento da EaD foi limitado. Com a crise econômica, principalmente depois de 2008, muitas Universidades não públicas passaram a investir em Ensino a Distância. Agora com a grande pandemia ocorreu uma disrupção do processo de ensino presencial. Mas já havia uma decisão anterior do MEC sobre o Ensino a Distância.

Ensino a Distância é caracterizada como modalidade educacional em que ocorre o afastamento físico entre professores e alunos (PDF: MEC – Resolução Nº 1, DE 11 DE MARÇO DE 2016).

Art. 2º Para os fins desta Resolução, a educação a distância é caracterizada como modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica, nos processos de ensino e aprendizagem, ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com pessoal qualificado, políticas de acesso, acompanhamento e avaliação compatíveis, entre outros, de modo que se propicie, ainda, maior articulação e efetiva interação e complementariedade entre a presencialidade e a virtualidade “real”, o local e o global, a subjetividade e a participação democrática nos processos de ensino e aprendizagem em rede, envolvendo estudantes e profissionais da educação (professores, tutores e gestores), que desenvolvem atividades educativas em lugares e/ou tempos diversos.

  • Mediação didático-pedagógica ocorre com a utilização de meios de TICs;
    • com pessoal qualificado (no ensino EaD),
    • com políticas de acesso (as instituições e os alunos devem ter acesso a meios para acompanhar as atividades),
    • acompanhamento dos alunos, compatível com essa modalidade de ensino (acompanhamento da efetividade da aprendizagem),
    • avaliações, compatíveis com essa modalidade de ensino,
    • envolvendo estudantes, professores, tutores e gestores (o EaD requer tutores),
    • que desenvolvem atividades educativas em lugares e/ou tempos diversos (vejam a diversidade de lugares e/ou tempos).

Os professores devem ser os facilitadores de aprendizagem se dedicando de forma personalizada a cada aluno (cada um deles tem sua própria Trajetória de Aprendizagem). Por isto, o grande esforço exigido dos professores e a presença necessária de tutores. Um problema é que muitos sites que tratam do EaD  misturam das funções do professor e do tutor. Pior do que isso, muitas IES sobrecarregam os professores com os dois papeis. O professor deve ser o responsável pela definição das estratégias a serem adotadas, a forma de autoavaliação e avaliação formal dos alunos. Deve, também, ser um profundo conhecedor da matéria ministrada. Por outro lado, o acompanhamento individual, a resolução das dúvidas tecnológicas e as dúvidas específicas sobre o material e os exercícios são a responsabilidade do tutor. O tutor deve ser quem acompanha o andamento de cada aluno, seus acessos aos conteúdos e resolução de exercícios. Atribuir ao professor estas tarefas significaria o emprego de conhecimento aprofundado, que deveria ser utilizado para a elaboração de material e estratégias de ensino, para tarefas operacionais. Mas é importante, também, a avaliação da carga atribuída aos professores, preparar e manter atualizada uma aula em EaD requer muito mais esforço do que o necessário para uma aula presencial.

O que se passará após o fim da pandemia? Certamente “Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã“, então termos alguns pontos a trabalhar:

  • Os currículos precisarão ser adaptados para suportarem aulas presenciais e cursos em EaD. Mas será que faz sentido mantermos o modelo brasileiro paternalista de um número infindável de horas-aula?
  • A compatibilidade precisa ser definida, as duas formas de aprendizado serão equivalentes? No caso da avaliação multidimensional será preciso encontrar indicadores iguais ou equivalentes para as duas modalidades.
  • O conteúdo pode ser igual, mas as competências interpessoais são desenvolvidas de forma equivalente?
  • Qualidade: os MOOCs surgiram para salvar universidades da maior bolha financeira, maior do que a da especulação imobiliária. Atualmente os estudantes devem $1.6 trilhões nos USA. Há um grave risco de o EaD ser usado para resolver problemas financeiros sem uma criteriosa avaliação da sua qualidade.
  • As Universidades terão condições de alocar o suporte de tutoria necessária para uma EaD personalizada? E o desenvolvimento de material adequado para diversas trajetórias de aprendizado? Disponibilizar arquivo PowerPoint e apresentar uma palestra por videoconferência é simplesmente digitalizar uma aula presencial.
  • A legislação permite uma certa flexibilidade, mas poucos cursos e professores aproveitam esta flexibilidade nos cursos presenciais. Poderemos adotar um sistema similar aos créditos europeus?
    • Assim sendo, estima-se que a 1 crédito europeu (ECTS) correspondem cerca de 25 a 28 horas de trabalho efetuado pelo estudante, repartidas entre as horas de contacto presencial em contexto de aulas e as horas de trabalho autônomo do aluno no âmbito de cada unidade curricular.
    • Será que estamos dispostos a criar um sistema como este permitindo aos alunos escolherem os melhores cursos sobre um assunto e acumularem os créditos para a obtenção de um título ou certificação?

Espero ter discutido um pouco o que nos espera para depois da pandemia. Mas esta crise somente deu ênfase a vários problemas que caracterizam uma situação existente no Ensino Superior no Brasil. Precisamos aproveitar o tempo de afastamento social para pensarmos nas adaptações necessárias.