Crise no ensino da computação

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Para começar uma pequena história. Quando me formei, em Engenharia Elétrica, alguns colegas passaram em um concorridíssimo concurso de seleção para um curso de programação oferecido pela IBM. Dois deles, contratados após os meses de curso foram os exemplos para a turma. Se me lembro bem o curso consistia, essencialmente, de programação assembler, uma linguagem de programação e conhecimentos de sistemas de arquivos. Eles eram considerados os “sortudos” da turma pois ganhavam muito mais que um engenheiro em início de carreira, e o status! Sempre estavam com impecáveis fatiotas e engravatados. Pois é, o tempo passou, a sociedade mudou e hoje programadores trabalham via Internet por algumas dezenas de dólares subvertendo o mercado mundial de trabalho. E olhem o que aconteceu com o software terceirizado do Boeing 737Max!

É claro que não estou me referido a bons alunos dos melhores centros de ensino e pesquisa, estou considerando uma população gigantesca de alunos seguindo os diversos cursos de computação. Há muito tempo eu esperava a chegada na Universidade de alunos que tivessem crescido em um ambiente onde a computação fosse um elemento diário e não uma nova tecnologia. Isto finalmente aconteceu! Os alunos atuais nasceram quando o computador já era um eletrodoméstico e passaram toda a sua vida de estudo utilizando computadores. Estava na hora de verificar as novas competências que, certamente, tinham sido adquiridas neste ambiente intelectualmente estimulante. Mas o que chegou foi a decepção: a maior parte dos alunos estava utilizando toda esta tecnologia de busca de informação da forma mais naïf possível: copy and paste! É claro que qualquer generalização é perigosa, mas esta é a impressão geral que sinto. Conversando com colegas chega-se a mesma conclusão: falta capacidade para filtrar toda a informação disponível e, principalmente, falta o hábito e a competência para criar interpretações pessoais a partir do material encontrado. No outro extremo da carreira está ocorrendo uma caça aos doutores ao inverso, pois muitas Universidades e Centros Universitários estão despedindo o pessoal com maior titulação para contratar “mão de obra” mais barata. Isto não é uma decisão míope mas sim uma decisão forçada por um público que não consegue pagar cursos de melhor qualidade, é reduzir custos ou fechar. É triste! Por outro lado há os cursos de baixo custo e baixa tarifa, como aquelas linhas aéreas que servem pacotinhos de amendoim em vôos de quatro horas. O pior é que há pessoas que pensam que aquelas belas propagandas em outdoors de cursos de baixa tarifa são uma alternativa de trabalho profissional e e sonham com a ascensão social oferecida por estes diplomas. Bem, terão um lindo diploma, talvez colorido e dourado, para colocar na parede. A competição, hoje, está baseada em critérios mundiais, não adianta ter um título universitário é preciso ter alta competência para ter alguma chance de sucesso.

Precisamos achar uma saída e esboçar um plano de ação. Algumas ações estão sendo tomadas, principalmente para mostrar a importância da Computação nas múltiplas areas de conhecimento. Por outro lado precisamos regionalizar a imagem da Computação e fazer apresentações e discussões nos colégios sobre aplicações para tratar temas de interesse local. Para os pesquisadores de outras áreas a proposta é de realizar encontros, por área de conhecimento, com o objetivo claro de solicitar que eles nos apresentem os temas que consideram importantes e nos quais a computação poderia auxiliar devido a complexidade intrínseca do problema. Precisamos ter um comportamento proativo em todas as áreas da computação. Uma proposta, tanto para a atração de novos e bons alunos como para reapresentar a Computação para a sociedade como algo importante, desafiador e rentável, é trazer os parceiros sociais e da comunidade de pesquisa para criarem conosco temas de pesquisa e desenvolvimento. A atual crise da COVID-19 está mostrando à sociedade a importância de atividades de stratups de computação, precisamos aproveitar o momento e, após a crise, não perder o contato com os meios de divulgação.

Para os alunos devemos recomeçar uma atividade que ocorria no passado O dia da Computação onde se mostrava o que era esta nova ciência para os alunos do secundário. Agora isto precisa ser reiniciado com outra roupagem, sugiro algo como O que a computação pode fazer para você, abordando as inúmeras possibilidades modernas de aplicações. A ideia é apresentar a Universidade para os futuros vestibulandos mostrando as suas possibilidades e abrindo novos horizontes. Uma bela ação de divulgação e extensão.Para divulgação para a sociedade em geral, é preciso ações de extensão, cursos, desenvolvimento de páginas Web para mostrar as possibilidades de aplicações da computação para o público geral, participação de professores e pesquisadores em eventos de interesse geral para demonstrar as possibilidades de aplicações da computação. Precisamos sair do casulo.

Uma forma para conseguirmos visibilidade são as atividades de extensão, principalmente aquelas utilizando os recursos de Ensino a Distância – EaD. É possível oferecer cursos rápidos, com uma parte presencial e outra em EaD, para as outras áreas de conhecimento. Na parte a distância seriam apresentadas alternativas, estudos de caso e sugestões criativas para aplicações de computação. O trabalho final, com apresentação presencial para a turma, poderia ser uma proposta inovadora para a solução de um problema da área específica com base nas sugestões do módulo a distância.Esta lançada uma proposta para repensarmos nosso comportamento frente às mudanças que ocorreram desde o início de nossa área de trabalho. A computação não é mais o Santo Graal da ciência, procurado por todos, mas uma atraente possibilidade de encontrar trabalho.

Precisamos mostrar a importância da área, ela existe é essencial, para o cidadão em seu dia-a-dia. Imaginem a vida sem computadores, é inimaginável mas ficou tão banal que as pessoas não conseguem mais perceber sua importância. Precisamos reverter logo esta situação. Espero que estas idéias iniciais estimulem um ampla discussão e, principalmente, novas ações. Como diz aquele ditado: “Uma jornada de mil léguas começa com o primeiro passo“.