Imortalidade Digital

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FantasmaEm uma crônica escrevi que havíamos chegado ao Incrível Mundo Novo, onde a próxima versão de sistema operacional não terá mais pastas de arquivos mas prateleiras para guardar os documentos e se eu colocar um destes documentos na mesa de um colega o documento lá apareça, se a mesa no virtual corresponder a uma mesa no real o documento será materializado por meio de uma impressora integrada na mesa. O mesmo ocorre com a TV em casa ou com o computador, todos operando com a mesma interface em que o virtual e o real se confundem. Daqui para a frente não existirá mais real nem virtual em computação, vamos viver com uma nova realidade expandida, as possibilidades são imensas: óculos sobrepondo mapas às ruas pelas quais caminhamos, pára-brisas de carros com informações sobre o roteiro e avisos de chuva, computadores integrando grupos virtuais com o espaço físico.  Qualquer dia destes nos encontramos no espaço virtual expandido, para discutir estas crônicas, até lá… Mas ai me lembrei de algo mais, seria possível passarmos a viver eternamente nos computadores? Logo vieram à mente dois filmes: 2001 Uma Odisséia no Espaço e Tron, este último sobre dois programadores que foram absorvidos por um computador. Mas vamos ao primeiro, que é uma obra-prima baseada em um livro de Arthur Clarke do qual reproduzo, a seguir, o parágrafo relevante para esta crônica.

“Agora, em meio às estrelas, a evolução buscava novos rumos. Aqueles primeiros exploradores da Terra tinham, há muito, ultrapassado as limitações do corpo de carne e osso. Assim que suas máquinas se tornaram mais eficientes que os seus corpos, fora feita a transferência. Em primeiro lugar, os seus cérebros, depois apenas os seus pensamentos, foram habitar os brilhantes domicílios de metal e plástico. Nesses novos envoltórios ficaram perambulando pelas estrelas. Não mais construíam naves, eles próprios eram as naves. Porém, a era mecânica passou rapidamente. Através de incessantes experiências aprenderam a armazenar conhecimentos na própria estrutura do espaço, preservando suas idéias para a eternidade em compartimentos de luz congelada. Mutavam-se assim em criaturas da radiação, livres, e finalmente, da tirania da matéria. Estavam agora transformados em pura energia. Em mil mundos, as cascas vazias por eles abandonadas contorceram-se nos estertores da morte, esfarelando-se e desfazendo-se em ferrugem. Haviam-se tornado os senhores da Galáxia, insensíveis ao tempo. Podiam vagar a seu bel-prazer por entre as estrelas, penetrando, qual neblina, em todos os interstícios do espaço. Entretanto, apesar dos seus poderes quase divinos, não haviam esquecido completamente a sua origem, no lodo quente de um oceano desaparecido”.

2001, Uma Odisséia Espacial, Arthur C. Clarke, Set 1968, I Ed. portuguesa
Editora Expressão e Cultura, Rio de Janeiro, p. 245.

O livro de Arthur Clarke “2001 Uma Odisséia no Espaço” e depois o filme de Stanley Kubrick, lançado em 2 de Abril de 1968, criaram uma enorme efervescência cultural. Para muitos as cenas finais do  filme tornaram-se assunto de grandes discussões ao lado do chopinho. O tempo passou, a tecnologia evolui enormemente mas a qualidade técnica do filme garantiu a sua durabilidade. Se você ainda não o assistiu vá logo à sua vídeo locadora! Mas além da perfeição na projeção das funcionalidades técnicas apresentadas o livro/filme lançou uma abertura enorme na interpretação do que pode ser considerado vida. Arthur Clarke continua a discussão do assunto em uma série de livros  sendo que em “3001 A Odisséia Final” apresenta a explicação, menos esotérica do que supúnhamos, sobre a transmutação de David Bowmanem um ser imaterial.

Eu tentei criar uma experiência visual, que se desviasse do campo das palavras e penetrasse diretamente no subconsciente com um teor emocional e filosófico… Projetei o filme para ser uma experiência subjetiva intensa, que atinja o espectador num nível profundo de consciência, exatamente como a música faz… Você está livre para especular como quiser sobre o sentido filosófico e alegórico do filme.

Stanley Kubrick (1968)

Os anos se passaram, a tecnologia evoluiu, as grids computacionais se desenvolveram e nós continuamos morrendo… Até que um dia destes encontrei este artigo na CACM: Digital Immortality1, imaginem em que ano? Claro: de 2001! Imediatamente me lembrei da, agora já antiga, Uma Odisséia no Espaço, todas as discussões e interpretações voltaram, mas agora com uma referência acadêmica.

Alain M. Turing propôs, em “Computing Machinery and Inteligence”, Mind, 1950, um teste através do qual seria possível decidir se os estados cognitivos humanos são manipulação de símbolos. O teste proposto por Turing consistia em levar a cabo uma experiência com duas pessoas e um computador. Nesta experiência uma pessoa isolada faz uma série de perguntas que são respondidas pelo computador e pela outra pessoa. O computador passa o teste se o indivíduo que faz as perguntas não conseguir descobrir qual dos interlocutores é a máquina e qual é humano. O teste de Turing estabelece o seguinte critério para decidirmos se uma máquina pensa: se o comportamento de uma máquina for indistinguível daquele exibido por um ser humano, não há razão para não atribuir a essa máquina a capacidade de pensar. Transcrevo, a seguir, a primeira seção deste artigo, pois acredito que muito poucos o leram.

The Imitation Game

“I propose to consider the question, “Can machines think?” This should begin with definitions of the meaning of the terms “machine” and “think.” The definitions might be framed so as to reflect so far as possible the normal use of the words, but this attitude is dangerous, If the meaning of the words “machine” and “think” are to be found by examining how they are commonly used it is difficult to escape the conclusion that the meaning and the answer to the question, “Can machines think?” is to be sought in a statistical survey such as a Gallup poll. But this is absurd. Instead of attempting such a definition I shall replace the question by another, which is closely related to it and is expressed in relatively unambiguous words. The new form of the problem can be described in terms of a game which we call the ‘imitation game.” It is played with three people, a man (A), a woman (B), and an interrogator (C) who may be of either sex. The interrogator stays in a room apart front the other two. The object of the game for the interrogator is to determine which of the other two is the man and which is the woman. He knows them by labels X and Y, and at the end of the game he says either “X is A and Y is B” or “X is B and Y is A.” The interrogator is allowed to put questions to A and B thus: C: Will X please tell me the length of his or her hair? Now suppose X is actually A, then A must answer. It is A’s object in the game to try and cause C to make the wrong identification. His answer might therefore be: “My hair is shingled, and the longest strands are about nine inches long.” In order that tones of voice may not help the interrogator the answers should be written, or better still, typewritten. The ideal arrangement is to have a teleprinter communicating between the two rooms. Alternatively the question and answers can be repeated by an intermediary. The object of the game for the third player (B) is to help the interrogator. The best strategy for her is probably to give truthful answers. She can add such things as “I am the woman, don’t listen to him!” to her answers, but it will avail nothing as the man can make similar remarks. We now ask the question, “What will happen when a machine takes the part of A in this game?” Will the interrogator decide wrongly as often when the game is played like this as he does when the game is played between a man and a woman? These questions replace our original, “Can machines think?”

Onde este teste se conecta com a Imortalidade Digital? É fácil, se for possível transferir a mente de uma pessoa para um computador e se este computador responder de tal forma as interações com outras pessoas de forma que seja impossível distinguir a pessoa original e a sua versão computacional podemos dizer que a mente desta pessoa passou a ser imortal, tal como a citação inicial sobre a transferência das mentes dos primeiros exploradores da Terra para as suas máquinas.

O jornal The New Yorker apresenta uma seção (em inglês) muito interessante sobre um projeto para registrar tudo em uma vida. Com o aumento da capacidade de armazenamento de dados e com a enorme redução de custos chegamos perto da possibilidade de registrar todos os estímulos visuais, acústicos e outros a que somos submetidos ao longo da vida. Podemos, também, registrar todas as nossas palavras, opiniões artigos, fotos etc. Por exemplo, para registrar tudo o que uma pessoa ouviu durante sua vida seriam necessários menos do que um terabyte de armazenamento [1]. Com uma boa máquina de inferência seria possível que o sistema oferecesse exatamente as mesmas respostas que nós ofereceríamos a um determinado estímulo, isto não é a Imortalidade Digital?

Neste cenário uma pessoa poderá interagir com as futuras gerações e incluir novos conhecimentos, se adicionarmos aprendizagem de máquina ao ambiente nossos personagens virtuais poderão evoluir e criar uma competência extrema. Estes “avatares”  seriam os seres de inteligência pura do 2001. Eles poderiam interagir conosco através das interfaces normais dos computadores atuais e, ainda mais, em interfaces no estilo do Second Life, imaginem interagir com avatares inteligentes que tenham incorporado o conhecimento de um grande cientista, filósofo ou artista?

Para ampliar as idéias apresentadas aqui sugiro a visita a esta página da CMU, em breve teremos avatares autônomos em nossos mundos e, mais tarde, poderemos interagir com personalidades falecidas.


1 Digital Immortality. Gordon Bell, Jim Gray. Communications of the ACM, Volume 44 , Issue 3 (March 2001) Pages: 28 – 30 ISSN:0001-0782