Horizonte 2026 das pós-graduações em computação

 

Continuando em uma análise do que deve ser a qualidade em um programa de Pós-graduação em Ciência da Computação estou apresentando algumas percepções e ideias para o futuro. Inicialmente vou escrever um pouco sobre a evolução, no sentido de variação ao logo do tempos, da minha experiência pessoal no PPGC da UFRGS, por isto coloquei vários links para páginas postadas anteriormente (sugiro estas leituras). Entretanto estas considerações são razoavelmente válidas para os cursos consolidados de pós-graduação do país que iniciaram mais ou menos no mesmo perído. 

O início do nosso programa foi uma ação conjunta entre o Centro de Processamento de Dados da UFRGS, onde estava localisada a Divisão Acadêmica que foi a antecessora do Instituto de Informática (história) e departamentos e o Instituto de Física. Naquela época não havia curso de graduação em Computação no Brasil, então foi um trabalho de formação básico. Naquele tempo os  professores podiam ter apenas o mestrado (e eram mestrados recentes), os únicos professores com doutorado eram os provenientes do Instituto de Física que tinha já uma tradição em pesquisa. Um pouco sobre o início do PPGC da UFRGS pode ser lido aqui. O folheto da primeira turma do CPGCC (1973) mostra o elenco de disciplinas, hoje seria uma pequena parte da formação de um graduado. Este foi o começo heróico. Por outro lado o curso de mestrado levava quase sempre três anos, ou pouco mais, de dedicação intensa a estudo e trabalhos de pesquisa com forte interação entre os alunos e os professores de todas as áreas (voltarei a este ponto). Um aluno devia obter um mínimo de 32 créditos, mas muitos obtinham mais. Naquele momento (quatro décadas já se passaram) ao terminar o mestrado o aluno tinha uma visão ampla dos conhecimentos da área. Para obter estes créditos precisava cursar 8 disciplinas.

Neste tempo o grande diferencial do PPGC, e de outros dos programas iniciais como o da UFRJ, era a integração forte entre software e hardware, resultado da interação entre o CPD e a Física. O SEMISH foi iniciado em nosso programa em 1974 da integração é que surgiu seu nome: Seminário Integrado de Software e Hardware. Aqui volto a salientar a palavra-chave: integração. O nosso egresso saia com uma formação geral. O tempo passo e ocorreu uma grande evolução na qualificação do corpo docente tendo todos os professores iniciais obtido doutorados em instituições de qualidade no Brasil e no mundo. Com o retorno dos doutores, os cursos e os projetos de pesquisa experimentaram um salto de qualidade, sendo fortemente incrementado o intercâmbio com importantes instituições estrangeiras, especialmente aquelas situadas na Europa, mais especificamente na França e na Alemanha.

As áreas de pesquisa foram consolidadas, surgiram projetos de pesquisa fiananciados pela CAPES, CNPq e outras fundações. Posteriormente a Câmara de Pós-graduação exigia de cada programa um elenco obrigatório de disciplinas básicas, o kernel do curso. Nós tínhamos este elenco central e as disciplinas adicionais, alternativamente os alunos poderiam fazer exames nos temas destas disciplinas para obter a liberação.

A seguir começou a pressão dos orgãos do governo federal para a redução do tempo dos cursos (economia de bolsas) o que causou uma mudança visando a racionalização dos programas de pós-graduação. O objetivo não era mais a qualidade mas o número de formandos por ano e o número de artigos publicados: (leiam “A doença da pressa“) a qualidade dificilmente é associada com a pressa. Isto é o produtivismo em sua pior faceta. Pós-graduações não são linhas de produção, nós não somos trabalhadores da educação mas pesquisadores e alunos de pós. Não somos pagos para publicar artigos mas para pensar.

Os novos professores retornaram de seus doutorados, para nosso programa e para os demais programas no país, com temas de pesquisa bem específicos, não passaram pelas fases de consolidação da área que obrigava a uma atuação bem mais abrangente. Suas pesquisas atuais são bem focads em tópicos específicos, isto é uma necessidade para a obtenção do reconhecimento na sua área. Entretanto, em seus doutorados, devem ter tido a experiência de uma formação mais ampla do que a específica de suas teses. Ai surge a dicotomia: a pesquisa individual ou do grupo e a necessidade de formação dos alunos. Isto são duas realidades e necessidades diferentes. Como resultado do produtivismo de tempos imposto pelos órgão de fomento e pela visão de ser importante formar os alunos para os grupos de pesquisa pois isto gera as produções necessárias para as bolsas dos professores e para aconcessão dos projetos estamos formando doutores e mestres que só tiveram cursos com seu orientador e seus pesquisadores associados.

Para criarmos um modelo de um programa de qualidade é importante que estudemos os líderes na área. Um bom início é a lista Academic Ranking of World Universities in Computer Science – 2015. Com base nesta lista estou fazendo uma análise, baseada na documentação disponibilizada pelas Instituições, sobre os modelos lá implementados. Começei com Stanford e tenho várias análises sobre o programa de doutorado daquela instituição disponíveis no site. Mas aqui vou me ater ao ao assunto das disciplinas. É evidente que um doutor em computação precisa ter uma visão global da CC. Uma redução dos créditos ou limitação de créditos em um grupo de pesquisa implica em que um aluno de doutorado pode ser titulado tendo seguido apenas as disciplinas de seu grupo. O critério de seguir disciplinas de pelo menos quatro membros diferentes do corpo docente, como é obrigatório em Stanford, obriga uma maior abertura de visão. A necessidade de seguir disciplinas das três grandes áreas dá a visão global necessária para um doutor. Este modelo vem ao encontro do que tenho defendido seguidamente: não é possível permitir que alguém ganhe um título de doutor em computação sem que tenha uma visão global e heterogênea (diversos professores de diferentes grupos) da computação. A obcessão brasileira por um produtivismo (no sentido que um doutorado precisa ser concuído em quatro anos ou menos e que a qualidade é medida por uma métrica naïf unidimensional de publicações QUALIS) vai contra a qualidade da formação. 

Assim chego à conclusão: cada um de nós, antigos conservadores e novos muito focados, precisa abdicar de ter a sua disciplina e precisamos ter definida uma área kernel com os temas obrigatórios, como as três grandes áreas de Stanford. Não é possível, em minha visão, formar doutores em computação que só conheçam a sua área específica de pesquisa. A alta competência específica é absolutamente necessária, mas a visão abrangente da Ciência da Computação é essencial para o título de doutor.

Para aqueles que discordam desta posição peço que coletem dados das Universidades líderes no mundo que tenham modelos similares ao nosso modelo atual em que formamos mestres e doutores com poucas disciplinas oferecidas por seu grupo de pesquisa ministradas por dois ou três professores do grupo e trabalhos individuais. Qualidade é essencial e não quantidade, termino com uma citação bíblica: “Muitos são os chamados poucos os escolhidos”, precisamos de prêmios Nobel e não de um bando de doutores "meia boca".

Editei uma crônica anterior que voltou à atualidade com a crise que passamos nas universidades, acho que vale a pena a leitura, precisamos preparar uma boa discussão no próximo Congresso da SBCConfissões: A Universidade ontem, hoje e amanhã

Confissões: A Universidade ontem, hoje e amanhã

RousseauNão esperem algo inspirado em Rousseau, esta crônica é mais uma análise da história de nossas Universidades Públicas nestas últimas décadas; em particular de minha Universidade. O título procura mostrar que o conteúdo é muito mais decorrente da minha vivência pessoal do que de uma análise acadêmica baseada em dados quantitativos e análise formal. Mas considero que as experiências vividas devem ser analisadas com muito cuidado pela sua real contribuição. As análises, mesmo as ditas metodológicas e rigorosas, sempre tem o direcionamento ideológico dado pela seleção dos dados a serem analisados. Uma seleção de dados implica, sempre, em uma posição do analista. Apenas recentemente o conceito de big data tem permitindo que algoritmos “a la Google” processem gigantescos volumes de dados sem a seleção prévia dos mesmos. Mas ainda neste caso a interpretação das regras descobertas necessita da compreensão e da interpretação humana, que não é isenta da visão de mundo do pesquisador. Desta forma minha contribuição para a compreensão da evolução da Universidade no Brasil, e em particular da área da Computação, concentra-se na narração de um a experiência pessoal e de sua interpretação.

Mas qual o motivo desta crônica? Estou me propondo fazer uma análise crítica das conquistas obtidas e dos desafios a que estamos sendo submetidos. Para podermos projetar o futuro é importante que compreendamos o caminho que nos levou à situação atual. Da mesma forma que o processo de análise psicológica permite a uma pessoa conhecer melhor sua mente, seus problemas e enfrentar as causas de suas dificuldades as instituições precisam desta análise profunda e crítica. Uma instituição não sendo um ente racional não possuía esta capacidade, apenas seus membros podem fazer uma análise de suas experiências. 

Os primórdios da computação na Universidade

Vamos começar a análise pelo relacionamento da Universidade com seus professores. Quando eu era aluno da Escola de Engenharia da UFRGS a grande maioria das pessoas considerava que um bom professor de engenharia era um profissional de engenharia bem sucedido que vinha “ensinar” para os alunos como se procedia na vida prática. Isto porque este profissional “sabia como se fazem as coisas”. Os poucos, ou pouquíssimos que só estavam ligados ao ensino eram chamados de “leitores de livros”. Tive um professor que repetia fastidiosamente um livro sobre máquinas elétricas, há anos, o melhor aluno (para este professor) era um colega que acompanhava pelo livro e funcionava como “ponto” ditando as variáveis que o mestre se esquecia… A inovação era nula. Isto começou a mudar quando alguns, poucos, professores da Engenharia Elétrica voltaram de um mestrado no ITA e passaram a dar ótimas aulas, com fundamentos consistentes. Estes professores foram a minha motivação para gostar da pesquisa. Junto com o Instituto de Física, naquela época um dos poucos locais da Universidade onde havia pesquisa, estes professores ofereceram cursos extras de matemática e fundamentos de física para eletrônica (era o início dos semicondutores). Isto porque os professores ditos “práticos” nem conseguiam entender o que era uma transformada de Laplace.

Alguém acha que poderíamos querer ter indústria competitiva, ou qualquer tipo de importância no cenário internacional? Naquela época entrava-se para a Universidade por convite do “catedrático”. Eu já estava entusiasmado pela pesquisa e passei a ensinar, só ensinar, no Departamento de Física e Matemática da Escola de Engenharia. No primeiro ano uma especialização em Análise Matemática, o que me valeu até hoje. Muito depois vieram os concursos em que fui aprovado para Professor Assistente e para Professor Titular. Ai vocês já vem o problema da época, eram engenheiros ministrando aulas de Física e de Matemática, só podia ser transmissão de conhecimento. Logo surgiu o regime de Tempo Integral e Dedicação Exclusiva – RETIDE – e fui dos primeiros a estar todo o tempo na Universidade. Naquela época quando alguém perguntava: “Onde trabalhas?” e a resposta era: “Na Universidade!” vinha logo: Sim, dás aula, onde trabalhas mesmo?”. A Universidade era um “bico”, um complemento extra de outras atividades.

O ambiente era basicamente estudar os livros, não havia a biblioteca na Web da CAPES, aliás ainda não haviam inventado a Web, e as revistas disponíveis que eram limitadíssimas. Quando vinha um raro professor de uma Universidade no exterior só tínhamos a possibilidade de escutar o que faziam lá e nos atualizarmos. Ainda hoje há muitos colegas, que apesar das mudanças (que veremos a seguir) continuam com a visão colonial de que somente as publicações no exterior são boas. Um dos poucos mestrados disponíveis próximos da área era o de Física Experimental, me inscrevi no mesmo. Alguns colegas saíram para fazer mestrados no Rio de Janeiro. Não havia sequer um Doutorado em Computação no Brasil e acredito que os dois mestrados disponíveis eram os da UFRJ e da PUC do Rio. Quando voltaram foi iniciado o Mestrado em Ciência da Computação, uma associação entre o Centro de Processamento de Dados e o Instituto de Física. Notem a peculiaridade desta associação: de um lado um órgão técnico da Universidade, que era responsável pelas aulas de Computação e pelo outro um Instituto de Ensino e Pesquisa. Ainda era a visão de que “quem faz sabe, quem não faz ensina” no lado da Computação/Engenharia. Mudei para o novo mestrado. Notem que naquela época alguém um professor com mestrado era credenciado como professor de Pós-graduação em nível de Mestrado! 

A evolução

Mas as coisas começaram a mudar, iniciamos a desenvolver projetos, alguma pesquisa começou. Nesta época o grupo de Banco de Dados, em um projeto conjunto com a Alemanha, desenvolveu do zero um SGBD, o MINIBAN. Começamos a ter competências mais formais e a ter capacidade de desenvolver tecnologia com base conceitual sólida. Neste ponto começaram as publicações destes resultados. No início no Brasil, depois na Argentina e Chile que eram consideradas publicações “internacionais”. A próxima etapa foi a formação dos professores em nível de doutorado, fizemos uma escala de saída e praticamente todos foram, os primeiros para o Rio de Janeiro, os demais para o exterior. Ai as coisas se aceleraram, a pesquisa ganhou fôlego, a inserção internacional aconteceu e a exigência de qualidade atingiu níveis compatíveis com o cenário mundial. O processo de avaliação da CAPES, para Instituições, e do CNPq para pesquisadores atingiram um ponto em que são referências mundiais. Hoje para entrar como professor em nosso grupo (e nos grupos de excelência no Brasil) o mínimo exigível é o doutorado e boa demonstração de produção. Nossos alunos de doutorado praticamente sempre tem um período de um ano de trabalho em laboratório no exterior e tem boas publicações. Parece que a guerra foi ganha. Inserção internacional, trabalhos de qualidade, reconhecimento pelos melhores centros de pesquisa no mundo como parceiros de qualidade.

A crise

Agora surgem os fantasmas, a Alemanha desenvolveu um processo de competição e selecionou um número reduzido de Universidades para serem os centros de excelência. Uma Universidade Huboldtiana (ver) é cara, mas essencial para a formação de um núcleo de pesquisadores de alta qualidade. Criou-se no Brasil um mito de que uma Universidade para ser boa deveria seguir o modelo criado por Humboldt de associação estreita entre pesquisa e ensino. Muitas Universidades que não têm condições para implantar este modelo de alto custo se sentem inferiorizadas se forem consideradas como Universidades de Ensino. É preciso ter clara a visão que tanto uma Universidade de Pesquisa como uma Universidade de Ensino são essenciais se forem de ótima qualidade e não vendedoras de títulos acadêmicos.

Por outro lado foi criada a visão errônea de que a ascensão social é feita pelo título universitário. Esta percepção foi desenvolvida por uma interpretação inadequada de qual é a variável independente. Nos tempos em que comecei a descrever o processo de qualificação da Universidade as famílias de maior nível econômico tinham seus membros com títulos universitários. Criou-se a visão de que era a titulação a variável independente, mas na realidade é o contrário que acontece: eles tinham os títulos acadêmicos por terem recursos financeiros para enviá-los e mantê-los na Universidade. A conclusão foi: “Devemos abrir as portas a todos para que entrem na Universidade, assim poderão ter a desejada ascensão social”. Mas um título acadêmico de uma Universidade fraca ou um título acadêmico em uma boa Universidade de um estudante fraco hoje não serve para nada.

Como escreveu José Goldenberg:

“Daí a necessidade de manter universidades de alto nível, isto é, centros de estudos, pesquisas e inovação, como é feito na Europa há quase mil anos. São as grandes universidades de hoje, algumas delas no Brasil, que produzem as novas ideias e novas tecnologias que vão dar, amanhã, origem a empreendimentos comerciais, e não o contrário. É uma ilusão esperar que elas, por si sós, modernizem o sistema produtivo, mas precisam estar preparadas para responder às demandas da sociedade.  É por essa razão que qualquer medida que leve à redução da qualidade e do potencial das universidades brasileiras, como a criação de cotas raciais, por exemplo, é equivocada”

Universidade não é o local para a recuperação de dívidas históricas e sociais, por mais válidas que sejam estas dívidas. Minha posição é que estamos enfrentado uma das maiores crises da Universidade Brasileira, pois nossos políticos não estão tratando do essencial do problema. A causa principal é que deixamos o ensino público decair, pagamos muito mal aos nossos professores do Fundamental e do Médio. Voltando ao início da crônica, nos anos 60 e 70 não havia grande diferença entre os alunos que ingressavam na Engenharia vindos do ensino público ou do particular. Um ótimo colégio público de Porto Alegre, o Julho de Castilhos ou Julinho, era um dos grandes formadores das lideranças gaúchas. O tempo passou e o ensino básico público foi sucateado. Recentemente entrou um aluno cotista com UM acerto em matemática na Engenharia, depois melhoraram um pouco os critérios. Por mais esforços que sejam feitos não há como recuperar este déficit em Ciências Exatas na Universidade.

Pior se passa em Português, a capacidade de abstração e de representação de conceitos precisa se desenvolver ao longo dos anos. Em um destes programas de “universalização” querem impor uma taxa de conclusão de 95% dos ingressantes, só se for implantada a progressão continuada, sem possiblidade de reprovação na Universidade, pois precisaríamos de cerca de 0,99% de aprovação em cada disciplina para atingir esta meta final. Esqueceu-se o princípio da qualidade e do esforço pessoal. Alguém disse que a famosa frase de Churchil: “Blood, Toil, Tears and Sweat” foi convertida no Brasil para “Carnaval, Cerveja e Suor”. Olhem como modelo a carreira do brilhante ministro do Supremo o Joaquim Barbosa (Wikipédia), é o exemplo de que dedicação e esforço recompensam. Mas a reabilitação do Ensino Público não está na agenda de políticos que tem como horizonte a próxima eleição.

A solução

Minha proposta é que a solução está em dar condições plenas para cada um de acordo com sua capacidade e esforço. A solução para a recuperação de dívidas históricas e sociais da Sociedade deve ser real e não uma tentativa superficial de oferecer acesso à Universidade. Isto (a possibilidade de efetuar estudos até o mais alto nível de sua capacidade) deve ser independente da situação socioeconômica da família do estudante. O Ensino Público Fundamental e Médio precisa ser valorizado. Em nosso estado, RS, dão-se incentivos fiscais para fábricas de cigarro e para a plantação de fumo, mas não para o Ensino. Os alunos devem ser motivados e acompanhados desde o início dos estudos e os mais dedicados e com maiores resultados devem receber o apoio do Estado para irem para as melhores Escolas. Se inicialmente não for possível levar todas as Escolas do Ensino Público a um patamar mais elevado devem ser escolhidas as mais promissoras como Centros de Excelência. Todos, devem ter a possibilidade de atingir, com apoio educacional adequado para suprir as deficiências decorrentes de um meio desfavorecido, o nível mais alto a que puderem e para o qual se esforcem e tiverem capacidade. 

Constituição do Brasil

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
... ”.

Para assegurar esta igualdade os meios financeiros devem ser alocados a todos alunos que demonstrem qualidade e desempenho sem distinção de qualquer natureza. Cada um deve ser exclusivamente dependente de sua capacidade e esforço e não de suas condições econômicas ou sociais para progredir. Minha visão é que é obrigação do Estado de dar estas condições.

Adendo para os dias de hoje

Hoje há algo que me preocupa é um retorno para aquela visão inicial de práticos ensinando: há cursos fazendo a propaganda de serem muito orientados para o mercado. Seus professores são pessoas que atuam no mercado e seus alunos teriam uma inserção rápida. Isto é um retorno aos tempos antigos? Acredito que é uma consequência da crise no trabalho e uma falta de competitividade das empresas brasileiras. Certamente esta formação é uma orientação tecnológica para empresas locais e sem competitividade internacional. Certamente os egressos não são os candidatos para trabalhar em um Google, Facebook ou empresas realmente competitivas. Nem serão capazes de criar novas empresas de tecnologia de ponta no mercado mundial. Certamente devem existir IES com orientação tecnológica orientadas para o mercado, mas devem existir centros de excelência para a formação dos futuros líderes do mercado. 


Doutorado em Computação (Stanford VI – Os custos)

Quando discutimos qualidade na Universidade quase nunca aceitamos que o valor do curso é algo importante. Olhem os valores cobrados em uma das melhores Universidades do mundo, Stanford. Não é possível qualidade sem o investimento correspondente!


–> For Credit (member) $3,360.00 

Tuition Profile Information:  Graduate Course Tuition (NDO) Member Spr 12-13
Provides Stanford University credit that may later be applied towards a graduate degree or certificate. Includes access to online course materials and videos for the duration of the academic quarter. See if you qualify for member company discounts.

–> For Credit $3,960.00

Tuition Profile Information:  Graduate Course Tuition (NDO) Spring 12-13
Provides Stanford University credit that may later be applied towards a graduate degree or certificate. Includes access to online course materials and videos for the duration of the academic quarter.

–> Audit (member) $995.00

Tuition Profile Information:  Audit (Member) Spring 12-13
Includes viewing access to course lecture videos only. Does not include access to course materials, interaction with the faculty or teaching assistants, access to or grading of homework assignments and exams.

–> Audit $1,150.00

Tuition Profile Information:  Audit (Non-Member) Spring 12-13
Includes viewing access to course lecture videos only. Does not include access to course materials, interaction with the faculty or teaching assistants, access to or grading of homework assignments and exams.

Posts da série:

Doutorado em Computação (Stanford V – A tese)

Depois de ser aprovado no Exame de Qualificação, o aluno deve obter o acordo de um membro do corpo docente do departamento como orientador. Além disso, o aluno deve formar um Comitê de Leitura da Dissertação composto pelo orientador e, pelo menos, dois leitores adicionais. Isto deverá ser feito no prazo de um ano após o exame de qualificação exame de qualificação. O aluno deve apresentar a proposta de tese em reunião pelo menos nove meses antes da data prevista de diplomação. O objetivo da apresentação oral de tese é permitir aos alunos um melhor feedback formativo de seu Comitê de Leitura orientando a direção a tomar para concluir com êxito uma dissertação de qualidade. O formato sugerido deve incluir:

  • Uma descrição do problema de pesquisa e sua importância; 
  • A descrição do trabalho anterior na área e o “estado da arte”;
  • Uma descrição do trabalho preliminar que o aluno realizou sobre o problema, e os resultados desse trabalho de pesquisa;
  • Um esboço do trabalho restante a ser feito e um cronograma para realizá-la.

A Universidade exige um exame oral da tese. Tradicionalmente, o formato da defesa é uma apresentação pública com duração de aproximadamente uma hora, seguido por perguntas da comissão examinadora em uma sessão privada. (Tempo total de 3 horas no máximo). A banca da defesa deve ter pelo menos cinco membros que incluem um presidente e quatro vogais. Quatro dos cinco devem ser membros do Conselho Acadêmico.


Comentário: Esta estrutura de proposta e defesa é bastante semelhante às normalmente existentes em nossas Universidades.


Posts da série:

Doutorado em Computação (Stanford IV – O exame de qualificação)

O Exame de Qualificação avalia a profundidade de conhecimento de um aluno e a familiaridade em sua área de especialização. Exames de Qualificação geralmente são oferecidos em todas as áreas abrangidas pelo exame de abrangência escrito. É possível para um aluno solicitar um exame de qualificação em uma área que ainda não foram oferecidas, como um que seja multiáreas. A viabilidade deste pedido é determinada caso a caso pelo comitê do programa de doutorado. Um estudante deve passar pelo exame de qualificação o mais tardar no final de seu terceiro ano de estudo.

Um estudante pode fazer o exame de qualificação apenas duas vezes. Em alguns casos uma aprovação condicional é concedida. Se um aluno não passa no Exame de Qualificação em uma segunda vez é a causa para desligamento do programa. Os exames de qualificação são uma exigência da Universidade e são levados muito a sério. Portanto, o tempo suficiente de estudo em profundidade deve ser dado à área que o aluno escolhe para garantir o sucesso.

O formato dos exames de qualificação varia de ano para ano e uma área para outra, dependendo do membro do corpo docente ou chair do exame para cada exame específico. Passando pelo Exame de Qualificação o aluno está certificado de que está pronto para começar o trabalho de dissertação na área escolhida. Se um aluno deseja fazer trabalho de dissertação em uma área diferente da sua área do Exame de Qualificação, orientador do aluno e / ou a faculdade da nova área irá determinar se um exame adicional é necessário.


Comentário: Aqui se verifica a abrangência e liberdade do Exame de Qualificação, este exame tem por objetivo a verificação da capacidade do aluno desenvolver pesquisa de qualidade em sua área. Aliado a esta verificação o exame determina se o candidato apresenta a visão abrangente necessária para um receber o título de doutor em Computação.


Posts da série:

Doutorado em Computação (Stanford III – A seleção para o doutorado)

A Universidade exige que todos os alunos de doutorado devam se candidatar até o final do sexto trimestre de residência. Depois de ter definido um orientador permanente e de ter completado os requisitos de abrangência e cursado três unidades com quatro instrutores (professores que são membros do conselho acadêmico) o aluno pode se candidatar para o doutorado. O aluno deve listar 135 unidades de cursos (concluídos ou planejados). A proposta deve ser aprovada pelo orientador permanente do estudante indicando a adequação acadêmica do programa de estudo proposto. O formulário de candidatura serve como um “contrato” entre o departamento e o aluno. O departamento reconhece que o aluno é um candidato de boa-fé para o doutorado e concorda que o programa apresentado pelo aluno é suficiente para justificar a concessão do título de doutor após a conclusão. O departamento não pode alterar os requisitos de forma unilateral. O estudante pode solicitar ao departamento de alteração do seu programa.

A candidatura ao doutorado expira cinco anos a partir da data da apresentação do formulário de candidatura. Em casos especiais, o departamento pode estender o período de um estudante, mas não tem qualquer obrigação de fazê-lo. O salário é ligeiramente aumentado após a candidatura.

Uma forma de manter os alunos de doutorado durante seu curso e, ainda mais, durante a fase que antecede a aceitação formal como doutorando é a função de Assistente de Ensino, (TA Teaching Assistant) ou Assistente de Pesquisa (RA – Research Assistant). No caso que estamos estudando (doutorado em CC em Stanford) os professores que recebem um aluno no 1º ano de Doutorando, dentro da rotação entre grupos, paga 25% e o departamento paga 25%, de um RAship de 50%. Se o aluno tem uma bolsa, então o pagamento de um RA não é necessário.

A assistente de ensino (TA) é um indivíduo que auxilia um professor com responsabilidades de ensino. Isto dá a oportunidade estudante de pós-graduação para desenvolver suas habilidades de ensino, pois muitos estão em busca da carreira docente. De forma similar um RA têm, também, responsabilidades de pesquisa junto ao grupo que o recebe. Assistentes (TARA)de pós-graduação são estudantes de pós-graduação que trabalham com um contrato temporário em um departamento. Por definição, TA ajudam com aulas, mas muitos estudantes de pós-graduação podem ser o único instrutor para uma ou mais classes. Os TARA têm um salário fixo determinado pelo cada período de contrato (geralmente um semestre ou um ano letivo). No entanto, alunos de pós-graduação são, por vezes, não remunerados e recebem créditos do curso, em troca de sua atividade.

Requisito de Ensino

Durante sua carreira acadêmica, cada aluno deve completar, pelo menos, 4 unidades como assistente de curso (TA) ou teaching fellow (TF) para os cursos de Ciência da Computação que são numerados de 100 ou acima. Para ganhar uma unidade o aluno deve trabalhar 10 horas por semana em um trimestre. Um TA recebe o mesmo pagamento e redução de taxa de matrícula como um RA. Um TF recebe um pagamento um pouco maior, pois é responsável pelo ensino de um curso.


Comentário: Este modelo permite manter os alunos junto aos programas de doutorado e, além disto, permite que somente sejam aceitos para o doutorado aqueles alunos que já demonstraram competência nas disciplinas. O mecanismo de rotação e de cursos em abrangência permite uma formação ampla e adequada a um doutor. Para nós este modelo poderia ser perfeitamente adaptado com a substituição dos professores temporários por TA. Recursos não faltam, é só olhar o valor dispendido com o programa Ciência sem Fronteiras para se verificar que o Brasil tem recursos suficientes para suportar programas ligados ao ensino e formação. Após a seleção para o doutorado o candidato tem mais cinco anos para concluir o curso, aqui o importante é a qualidade e não a produção de doutores por ano.


Posts da série:

Doutorado em Computação (Stanford II – Os cursos)

Um estudante deve planejar e concluir com êxito um programa coerente de estudo abrangendo as áreas básicas de Ciência da Computação e áreas afins. O orientador do aluno é o responsável pela adequação do programa, aqui fica evidenciada a necessidade da definição clara da participação em um grupo de pesquisa e a escolha consistente do orientador. Existem dois requisitos principais relacionados com os cursos: (i) cada aluno deve completar 135 unidades curriculares (não incluindo ai o atletismo e aulas de arte). Os alunos devem seguir de 9 a 10 unidades por trimestre; (ii) os alunos devem seguir cursos de pelo menos quatro membros diferentes do corpo docente. Não há cursos exigidos pelo Departamento de Ciência da Computação, com exceção dos seminários CS300 e CS499 (Advanced Reading & Research) ou equivalente.

Requisitos de abrangência

O propósito deste requisito em abrangência é garantir que cada pós-graduado tenha conhecimento adequado das áreas centrais da Ciência da Computação. Os requisitos de abrangência são divididos em três áreas: (i) fundamentos matemáticos e teóricos, (ii) sistemas de computçãor e (iii) inteligência artificial e aplicações. Cada aluno precisa ser aprovado em duas subáreas dentro de cada uma das três grandes áreas.

Os cursos em abrangência são:

   Area A: Mathematical and Theoretical Foundations

  1. Analysis of Algorithms
  2. Automata and Formal Languages
  3. Numerical Analysis and Convex Optimization
  4. Logic    

   Area B: Computer Systems

  1. Computer Architecture
  2. Compilers
  3. Networks
  4. Programming Languages
  5. Software Systems

   Area C: Artificial Intelligence and Applications

  1. Artificial Intelligence
  2. Computational Biology
  3. Computer Network and Security
  4. Databases
  5. Graphics
  6. Human Computer Interfaces

 


Comentário: É evidente que um doutor em computação precisa ter uma visão global da CC. Uma redução dos créditos implica em que um aluno de doutorado pode ser titulado tendo seguido apenas as disciplinas de seu grupo. O critério de seguir disciplinas de pelo menos quatro membros diferentes do corpo docente obriga uma maior abertura de visão. A necessidade de seguir disciplinas das três grandes áreas dá a visão global. Este modelo vem ao encontro do que tenho defendido seguidamente: não é possível permitir que alguém ganhe um título de doutor em computação sem que tenha uma visão global e heterogênea (diversos professores de diferentes grupos) da computação. A obcessão brasileira por um produtivismo (no sentido que um doutorado precisa ser concuído em quatro anos ou menos) vai contra a qualidade da formação. Como vamos entrar no grupo restrito das melhores universidades do mundo com estas limitações?


Posts da série: