Mediocridade na escrita! ou Globish & Shopenhauer

Já tive alguns problemas com alunos que escreveram textos quase incompreensíveis. Por exemplo: uma frase com 15 linhas e inúmeras vírgulas. Problemas de concordância, de ortografia e, principalmente, de semântica são comuns. Cada vez tenho observado uma piora na formação básica dos alunos. Aparentemente a mediocridade na escrita, e acho que na abstração, está se espalhando como uma praga. É a falta de tempo para pensar, ou o pensamento consome muita energia? Acho que falta exercício e esforço para se concentrar em um assunto e expor com clareza o essencial. Precisamos reformular o ensino fundamental e médio. Em decorrência destas observações escrevo esta pequena e ácida crônica com apoio de um grande filósofo alemão.

Indo para um congresso aproveitei o longo voo para reler um texto de Schopenhauer: “A Arte de Escrever” (L&PM Pocket, 2009, ISBN 978-85-254-1464-9) . Com esta leitura é possível perceber que alguns problemas são recorrentes, algumas citações e comentários sobre as mesmas:

“… deve-se evitar toda a prolixidade e todo o entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela”  (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 15)

É um ataque à escrita redundante, à falta de tempo para meditar e escrever o essencial. Por um acaso o marcador de páginas que estou utilizando neste livro traz a seguinte frase: “A perfeição é filha do tempo”. Um poeta gaúcho, Mário Quintana, dizia que para um poema parecer ter sido escrito com inspiração deveria ter sido rescrito vinte vezes!

Deveria ser determinado por lei que todos os estudantes universitários, no primeiro ano, fizessem exclusivamente os cursos da faculdade de filosofia, e antes do segundo ano não tivessem permissão para assistir aos das três faculdades superiores”. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p.37)

Esta frase é crítica! Antes de realizar estudos superiores é preciso apreender a pensar. Isto está em conflito com a atual visão de que tudo tem que ser rápido e sem que “percamos” tempo com o estudo dos fundamentos, não diretamente aplicáveis na vida prática.

No fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios, lidos, são como as sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa”. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 41)

“O sinal característico dos espíritos de primeiro nível é a espontaneidade de seus juízos. Tudo o que vem deles é resultado de seu pensamento mais próprio e se mostra como tal já na sua maneira de se expressar. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p.50)

Estas citações são indicadas para os doutorandos. Depois de apreender a pensar e a escrever é preciso apresentar textos autênticos e com seu próprio pensamento. Esta é a essência da vida acadêmica: pensar autonomamente e discutir, divulgar este pensamento. Apenas citar os outros é decadência.

“O douto emprega a sua força em dizer sim ou não, em criticar o que já foi pensado por outros; quanto a ele, todavia, não pensa mais…”  Nietzsche, Ecce Homo

Voltando para nosso pesquisadores: não seria melhor uma produção de melhor qualidade mas com menor quantidade? Para mim a obtenção de qualidade na pesquisa é algo parecido com o desenvolvimento dos vinhos de alta qualidade: há regras que limitam o peso das uvas colhidas por acre para a produção dos melhores vinhos, é melhor menos com maior qualidade do que mais com mediocridade. Não esta na hora de começarmos a descontar pontos por produção quantitativamente grande mas de pequena relevância? Ou avaliarmos os pesquisadores por, digamos, suas dez melhores produções?

Vamos agora para analisar a qualidade da escrita:

“O pretenso melhoramento “atual” da língua, empreendido por garotos que saíram cedo demais da escola e cresceram na ignorância, também tornou a  pontuação sua presa, manipulando-a hoje em dia, em geral, com uma negligência proposital e presunçosa”.  (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p.108)

“Quem escreve de maneira displicente confessa com isso, antes de tudo, que ele mesmo não atribui grande valor a seus pensamentos”. Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 114)

É essencial que para apresentarmos boas ideias que escrevamos corretamente. O desprezo pela boa escrita, a falta de estudo e a tendência a rapidez não pensada levam à mediocridade. Recentemente surgiu uma nova língua: o Globish. Globish é um subconjunto do idioma Inglês formalizada por Jean-Paul Nerriere. Este dialeto usa um subconjunto da gramática Inglês padrão, e uma lista de 1.500 palavras em Inglês. O Globish não é uma linguagem em si, mas é a base comum para ser adotada pelos não falantes nativos de inglês no âmbito dos negócios internacionais. McCrum escreveu o livro Globish: Como o Inglês linguagem tornou-se uma língua mundial (ISBN 9780393062557) descrevendo Globish como um fenômeno econômico, ao contrário de “global Inglês”, cuja utilização é muito mais diversificada do que apenas um negócio. O termo Globish é uma junção de “Global” e “English”. (Wikipedia) Há uma alternativa popular nos Estados Unidos chamada de Espanghish, um dialeto falado pelos hispânicos morando nos EEUU. Horrível! Sabem o que significa “llamando a detrás“? Callback

Esta ideia, o Globish, só leva em conta o empobrecimento do texto e uma sintaxe simplificada. Mas isto não resolve o problema de compreensão e de troca de informação. Olhem só o problema: em português a palavra tanque pode significar um veículo de guerra, um depósito de líquido ou um objeto para lavar roupa. Em alemão este conceito pode ser expresso por: kampfpanzerwagen => veículo blindado de guerra, não há nenhuma dúvida sobre o seu significado. Não é com a imbecilização do inglês que se vai conseguir uma melhor troca de informação e de compreensão entre os parceiros sociais. O mesmo ocorre com o XML, é apenas uma sintaxe e não trata do real problema da semântica associada, conforme John Sowa:

“The latest attempt to integrate all the world’s knowledge is the semantic web. So far, its major contribution has been to propose XML as the common syntax for everything. That is useful, but the problems of syntax are almost trivial in comparison to the problems of developing a common or at least a compatible semantics for everything.”

No Spanglish encontramos a mediocridade, em vez de melhorar o estudo do Inglês procura-se uma simplificação supondo que isto melhorará a troca de conhecimento e a interação. Engano e fraude, como a língua fica simplificada perde-se o sentido profundo e as pessoas pensam que usam os mesmos símbolos para se referir a um conceito quando estão pensando coisas diferentes (Semiótica). Sobre isto Schopenhauer escreve:

“Primeiro é preciso compreender corretamente todos os conceitos que a língua a ser aprendida designa com suas palavras e, a cada palavra dessa língua, pensar imediatamente no conceito exato correspondente, sem traduzir primeiro a palavra por uma da língua materna, para depois pensar no conceito designado pela tradução. Pois nem sempre o segundo conceito corresponde com exatidão ao primeiro, e o mesmo pode ser dito em referência a frases inteiras. Só assim se compreende o espírito da língua a ser aprendida, dando-se com isso um grande passo para o conhecimento da nação que fala essa língua, porque a língua é, para o espírito de uma nação, o que o estilo é para o espírito de um indivíduo” …Pessoas pouco capazes também não assimilarão com facilidade uma língua estrangeira: elas chegam a aprenderas palavras da língua, no entanto sempre as empregam no sentido do equivalente aproximado que existe em sua língua materna e só decoram as locuções”. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 152)

Creio que podemos finalizar, é precisa uma reação importante para que consigamos um ensino e pesquisa de qualidade. Não é possível mais aceitar provas com questões de marcar opções, o vestibular de cruzinhas” é um dos maiores inimigos da cultura. A partir de agora vou formular sempre questões dissertativas que obriguem o raciocínio e a estruturação do conhecimento.


Avaliação da CAPES, Vestibular e QUALIS

Logo da CAPESEstava pensando sobre a avaliação realizada pela CAPES dos programas de pós-graduação. Tenho escrito bastante sobre o assunto, afinal a pesquisa e o ensino em Computação é minha atividade essencial. Um dos textos publicados foi sobre Individualismo ou o QUALIS e a Avaliação onde me preocupava com o problema da utilização do QUALIS para avaliações de pessoas, o que é dito como uso inadequado pela CAPES. Mas agora estava pensando sobre o que acontece, então me surgiu a analogia com o vestibular. Este exame foi criado para selecionar os candidatos para a Universidade. Qual seu real objetivo? No início era evidente: avaliar o real conhecimento dos candidatos. Quando a competição começou a aumentar surgiram os cursinhos, segui um dos primeiros aqui em Porto Alegre. Como funcionavam estes cursinhos? Eram aulas ministradas por professores bem conhecidos no secundário ou mesmo nas universidades que ministravam aulas revisando e explicando os fundamentos e os conteúdos das disciplinas. Começavam com o primeiro ano do secundário, seguiam para o segundo e terceiro. Era de fato um condensado do secundário tirando as dúvidas e  procurando aumentar a compreensão dos candidatos. O exame vestibular era textual, com questões que deveriam ser respondidas com textos e cálculos, um verdadeiro exame. Ai surgiu um problema: com o aumento dos candidatos o modelo não escalava! O vestibular passou a ser composto por questões de cruzinha. Nesta época eu participava tanto da Comissão de Vestibular quanto do CPD da UFRGS, conheci bem o problema nos dois sistemas: fiz o vestibular com questões textuais e participei do processo do vestibular com múltiplas provas de escolha simples ou múltipla. Ai os cursinhos degeneraram, passaram a ser treinamentos sobre a melhor forma de responder as questões. O treinamento são verdadeiras gincanas. As aulas, de um ponto de vista tradicional, são sessões de teatro ou de circo. Certamente a qualidade do processo de seleção piorou, ou se degradou. 

 Com a avaliação dos programas de pós-graduação se passou o mesmo. Também participei de toda a evolução. No início era feita uma avaliação detalhada de cada programa, uma comissão visitava o programa, entrevistava professores e escolhia alunos ao acaso para entrevistas individuais. As bibliotecas, salas de aula, equipamentos eram analisados. Havia um julgamento. Ai houve um aumento gigantesco de cursos de pós-graduação (mais tarde farei uma análise comparativa com outros países) e o sistema, novamente, não escalava! Já vimos isto antes… Conclusão: é preciso achar uma forma de avaliar os programas sem gastar muito. Foi, então, criada a obsessão pela métrica das publicações. E ai surgiu a distorção. Em um texto anterior escrevi:

Há uns meses avaliei um artigo internacional e, como sempre faço, realizei uma busca na Web para encontrar as demais publicações do autor. Hoje existe uma enorme pressão para avaliar os pesquisadores por suas publicações e, muitas vezes, pela quantidade delas. Esta pressão leva muitas pessoas a uma atitude que chamo de “mass publication process” onde o mesmo conteúdo é maquiado para parecer diferente e é publicado várias vezes. Por isto um revisor responsável precisa verificar o grau de originalidade de um artigo antes de emitir um parecer conclusivo. Fiquei impressionado pela quantidade de publicações encontradas daquele autor nos últimos dois ou três anos! Analisando com mais cuidado descobri que em apenas uma conferência ele tinha 7 publicações registradas no DBLP, 6 em outra e 5 em uma terceira. Ao analisar os artigos deu para ver que, agregados os de cada conferência, dariam um  artigo adequado e denso. Como os artigos foram estrategicamente distribuídos para vários workshops associados e para a conferência principal acabaram sendo aceitos. Será que este pesquisador é melhor por ter 18 artigos nestas conferências, além de mais umas 12 variações sobre o mesmo tema, do que seria se tivesse publicado dois ou três artigos densos em vez de 30 pontuais tratando, maquiadamente, do mesmo assunto?

Uma justificativa foi que era preciso achar uma métrica objetiva para realizar a avaliação, isto é, fugir da responsabilidade do julgamento. Mas neste caso nenhuma métrica é objetiva, os dados escolhidos são subjetivos e ideológicos. Hoje há uma visão de que a única cois que vale são publicações. Agora me surgiu uma ideia: não seria melhor colocar uma montanha de dados para um algoritmo de ‘superhuman’ DeepMind AI e verificar os resultados? A menos que a resposta fosse 42… Como vemos há uma tendência a perdermos o foco de qualquer coisa e procurar a solução mais fácil e barata. Aliás, há a famosa frase sobre os caminhos:

“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem”.

É isto que realmente ocorre, achar a qualidade é essencial, achar um método que escala é fácil mas de menor qualidade. Esta qualidade desejada se consegue trabalhando em bons problemas e com grupos consistentes. A escolha destes problemas reais é essencial, a criação de grupos hierárquicos para trabalhar com estes problemas é essencial. Um assunto que precisa ser discutido é a diversidade cultural e de perfis de trabalho na pós-graduação. Atualmente está aceito que a diversidade nos grupos sociais e acadêmicos é um dos melhores fatores para aumentar a eficiência e a criatividade. Culturas, gêneros e opiniões diferentes favorecem o convívio e abrem novas possibilidades para o tratamento dos temas de trabalho. Pergunto: “Por que isto não acontece nas pós-graduações?”. O consenso é que só devem participar dos programas professores-pesquisadores com um número alto de publicações em journals com alto fator de impacto. Mas um grupo criativo é algo bem diferente. Os coordenadores de programas de pós-graduação expurgam ótimos professores (que poderiam ministrar ótimas aulas) para aumentar os índices CAPES. Isto é uma exclusão. Aqueles que são dotados para a implementação também são excluídos, sobram apenas os publicadores. Com este comportamento perdemos muitas pessoas que seriam importantes para a formação de nossos alunos e para o desenvolvimento dos projetos. Isto sem contar com a criatividade oriunda da diversidade de perfis. O ponto central não é a qualidade e criatividade do grupo, mas sua adequação à bibliometria avaliativa. Se quisermos qualidade real será preciso uma profunda mudança em nossos critérios.

Resumindo: precisamos de bons problemas, grupos com diversidade e qualidade, hierarquia na pesquisa e avaliação por julgamento. Mas como este dito anônimo retrata:

As Universidades e os cemitérios são refratários às mudanças, os que ali estão não querem se mover.

A parte disto considero que estamos dando a mensagem errada para os jovens, tanto alunos quanto pesquisadores. O importante não é a contagem de artigos, mas a pesquisa de qualidade. Entendo que dependemos do dinheiro da CAPES e que devemos nos preocupar com a avaliação, é o caso de fazer o que quem paga quer (não vou considerar profissões assim…). Mas a avaliação deveria ser consequência de uma boa pesquisa e não obtida por regras.

 

Legitimidade social da ciência

Em 10 de Outubro de 2017 a FAPESP publicou este texto: Ciência enfrenta crise de legitimidade em âmbito mundial

Agência FAPESP – A ciência enfrenta uma crise de legitimidade de âmbito mundial. Cresce o questionamento sobre até que ponto os recursos públicos investidos no financiamento de pesquisas são, de fato, revertidos em benefícios à sociedade. Segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, no Brasil, diante do atual cenário de escassez, essa discussão tende a se tornar ainda mais aguda nos próximos anos.

CiênciaO problema é real e global. Com recursos escassos a decisão política de onde aplicá-los tem que ser considerada com muita atenção pelos pesquisadores. 

“Vai ficar ainda mais difícil para a ciência competir por recursos com o setor de saúde pública, com a educação, com a construção de rodovias e também com outros gastos menos defensáveis. Isso vai exigir dos pesquisadores uma maior conexão com as necessidades e os interesses dos contribuintes. É uma preocupação legítima da sociedade saber o que será feito com o dinheiro dos impostos e é nossa obrigação explicar”, disse Brito Cruz no debate “Crise do financiamento em ciência no Brasil”, realizado em 6 de outubro pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pelo jornal Folha de S.Paulo.

Esta realidade precisa ser entendida e os nossos grupos de pesquisa devem mostrar os resultados de seus trabalhos de forma perceptível para a sociedade. Uma recente publicação da Nature enfatiza este ponto no editorial Researchers should reach beyond the science bubble onde escreve explicitamente que “Scientists in the United States and elsewhere ought to address the needs and employment prospects of taxpayers who have seen little benefit from scientific advances”. O Cnpq tem exigido nas prestações de conta a descrição em termos compreensíveis para o público geral o que é a pesquisa e seus resultados. Recentemente estive lendo este texto da The Netherlands Organisation for Scientific Research (NWO) onde é deixado bem claro que o conhecimento deve ser tornado público e de forma a ser utilizado pela sociedade. 

Knowledge Utilisation in the Physical Sciences
  
It is important to that scientific knowledge and skills are also applied outside of academia and/or in other disciplines of science. In short: knowledge that is gained should also be utilised. For that reason, knowledge utilisation plays a role as a selection criterion in all of NWO’s funding instruments. Physical Sciences is eager to help researchers form the contours of knowledge utilisation in their research proposals.

Como venho escrevendo há tempos precisamos mudar os critérios de avaliação das pesquisas e deixar a bibliometria como somente uma ferramenta de apoio ao processo de julgamento. Na Holanda, como visto acima, está claramente escrito que a utilização do conhecimento é utilizada como critério de avaliação dos projetos. Há até um guia sobre o assunto: Guide to Knowledge Utilisation. Petições, marchas, abraços às Universidades não vão adiantar muito enquanto não convencermos a Sociedade da relevância da Pesquisa. A Utilização dos conhecimentos na solução de problemas reais não implica nem em perda de qualidade da pesquisa nem em enfraquecimento da pesquisa básica. Por um lado precisamos trabalhar em problemas reais e por outro é preciso um sólido embasamento formal para garantir a qualidade da pesquisa. Está na hora de mudarmos nosso comportamento antes que seja muito tarde pois cada vez vemos mais neo-luditas atacando a Ciência.

Conferências: ACM SAC, QUALIS e Utilidade

Atualmente está ocorrendo uma discussão e a emissão de opiniões dos avaliadores nacionais da qualidade das publicações sobre algumas conferências e journals. O problema surge quando foi definido um critério bibliométrico pela CAPES para a avaliação de meios de apresentação de pesquisas. Há anos venho escrevendo que os índices de avaliação de publicações são importantes AUXILIARES na avaliação da qualidade da pesquisa. Quando estava na vice-presidência da Câmara de Pós-gradução da UFRGS implantamos a necessidade de recredenciamento dos orientadores a cada cinco anos com base, naquela época novo, currículo Lattes: qualidade É importante. Este ano a Comissão de Computação da CAPES retirou do documento de área, que é o referencial mais conhecido, os limiares da indexação e os transferiu para outro documento denominado “Considerações sobre Qualis Periódicos – 2016” apesar de tratar de Periódicos e de Conferências.

Recentemente alguns detentores de Prêmios Nobel afirmam o que venho defendendo: o importante é a qualidade da pesquisa não os índices. Mas a discussão atual foca um outro aspecto: apesar de de ser definido um critério, dito objetivo de avaliação e rankeamento de conferências e journals há pessoas (muitas as mesmas que defendem ardentemente o QUALIS atual) que se sentem desconfortáveis com este critério. Qual o critério? A estratificação da qualidade em níveis calculados pelo h-index ou JCR. Anteriormente as Comissões Especiais da SBC fizeram um rankeamento das conferências e os avaliadores da CAPES afirmaram que esta classificação estava enviesada (biased) pelas pessoas que haviam feito a classificação. Na Comissão Especial de Banco de Dados fizemos um trabalho exaustivo e muito sério para receber esta crítica, o mesmo deve ter se passado nas demais Comissões. Então foi criado o método “impessoal” da estratificação por percentagens de indicadores bibliométricos. É claro que há uma ideologia atrás da escolha deste critério único, eu acredito que as avaliações das Comissões Especiais da SBC eram muito mais interessante: por exemplo, um WS organizado por pesquisadores top de uma área pode ser A1 por sua excelente qualidade, no h-index não pode aparecer.

O que me deixa chocado é que agora pessoas ficam descontentes com a classificação e, mais um exemplo, dizem que o Simpósio ACM SAC é uma (perdão, mas estou apenas repetindo a palavra) “porcaria” apesar do alto h-index. Então que voltemos para as classificações da Comunidade, das Comissões Especiais da SBC e não pela opinião de poucos. E o pior, opinião emocional pois não tem suporte em dados. Um dos critérios exigidos para a classificação bibliométrica de conferências é a taxa de aceitação. Olhem a taxa de aceitação deste simpósio além da classificação A1 pela CAPES.

Não estou analisando a dita “qualidade” intrínseca do evento (aliás o que é isto mesmo?) mas sua utilidade. Quem o organiza não é um grupo predador, é a ACM, e está na trigésima terceira realização! Qual a sua utilidade? É a reunião anual de pesquisadores de diferentes áreas para uma produtiva troca de ideias permitindo o desenvolvimento de pesquisas multi-orientadas. A seguir mostro outras duas conferências, em que participei, com o mesmo objetivo: fazer uma reunião anual de pesquisadores de várias áreas, uma da ACM e outra da IFIP, duas sociedades sérias. A ACM Student Research Competition do SAC é suportada pela Microsoft, isto é algo de baixa qualidade? Predador? Caça niqueis? É claro que não! A participação em eventos de grande escopo evita o famoso problema da “bolha social” onde não há diversidade de opiniões e, como sabemos bem, em muitas conferências apenas os participantes do grupo conseguem publicar. Minha posição é: sejamos revolucionários e tenhamos coragem de entender que há múltiplas dimensões para avaliar a utilidade de uma conferência. Não podemos ficar presos e prejudicados por uma avaliação unidimensional. 

ACM 85 IFIP 84
ACM SAC 2018

 

Repensando a universidade e a pós-graduação


Diversidade

Com a atual crise nas Universidades estou considerando a necessidade de repensarmos a pós-graduação. O corte de verbas é uma consequência do estado falido por despesas irresponsáveis e por roubos inimagináveis, isto todos sabemos. Mas qual o motivo de não serem poupados, ou pelo menos sofrerem menos algumas áreas? Certamente a Saúde e a Segurança estão na boca do povo como demandas sérias e principais. Por que não a Educação? Recentemente li um livro, estava em minha lista de leituras há muito tempo, sobre o Design Thinking. A ideia essencial apresentada neste livro é utilizar a forma de pensar de designers industriais para a modelagem de soluções criativas. O livro prega a análise multidimensional dos problemas com a inclusão de pessoas com múltiplas formações. Esta fase inicial precisa ser muito menos estruturada e contar com a participação livre de ideias, de criação de cenários (storytelling) e contato real com os usuários. Ou seja, descobrir no mundo real as necessidades a serem enfrentadas para soluções revolucionárias. Na Academia tudo isto me fez lembrar um dito bem impactante:

“As Universidades e os cemitérios são refratários às mudanças, os que ali estão não querem se mover”.

Será que não precisamos repensar o nosso comportamento? Devemos sair da Torre de Marfim e desenvolver atividades ligadas aos problemas reais? Isto não implica em perda de qualidade, apenas em tratar problemas de interesse da sociedade e não de problemas de interesse de pesquisadores e intelectuais. Afinal é a Sociedade que nos financia (ou deveria). Talvez o descolamento da Universidade e da Pesquisa com as reais necessidades das comunidades seja o motivo principal da crise global de financiamento. Se a Sociedade não tiver esta compreensão não haverá demanda social por recursos para a Pesquisa e para a Educação, e este é o motivador dos políticos. Por que irão se empenhar em alocar recursos escassos para uma área que os únicos defensores são os diretamente implicados? Ai é gerada a impressão de que defendemos interesses corporativos, a Sociedade não vê este setor como o setor essencial para o desenvolvimento e a superação da crise. Precisamos agir.

Um assunto que precisa ser discutido é a diversidade cultural e de perfis de trabalho na pós-graduação. Atualmente está aceito que a diversidade nos grupos sociais e acadêmicos é um dos melhores fatores para aumentar a eficiência e a criatividade. Culturas, gêneros e opiniões diferentes favorecem o convívio e abrem novas possibilidades para o tratamento dos temas de trabalho. Pergunto: “Por que isto não acontece nas pós-graduações?”. O consenso é que só devem participar dos programas professores-pesquisadores com um número alto de publicações em journals com alto fator de impacto. Mas um grupo criativo é algo bem diferente. Vejamos a sinopse do Livro Criatividade e Grupos Criativos de Domenico De Masi: 

A maior parte das criações humanas é obra não de gênios individuais, mas de grupos e de coletividades nos quais cooperam personalidades concretas e personalidades fantasiosas, motivadas por um líder carismático, por uma meta compartilhada. Hoje, mais do que nunca, todas as descobertas científicas e as obras-primas artísticas não decorrem do lampejo de gênio de um único autor, mas do aporte coletivo e tenaz de trabalhadores, troupes, teams, squadre, equipes. Não são mais do que etapas de um processo sem pontos de partida nem pontos de chegada, em que forças contraditórias como linhas retas e linhas curvas, razão e intuição incessantemente se alternam e entrelaçam. Talvez na sociedade pós-industrial esses dois opostos possam finalmente chegar a uma síntese feliz. Para isso, De Masi apela às neurociências, à psicanálise, à psicologia, à epistemologia e sobretudo à sociologia – compreendendo as dinâmicas secretas do processo criativo, quem sabe não se possa aumentá-lo e colocá-lo em sintonia com a eterna aspiração humana pela felicidade.

Está na hora de repensarmos nossos critérios excludentes. Os coordenadores de programas de pós-graduação expurgam ótimos professores (que poderiam ministrar ótimas aulas) para aumentar os índices CAPES. Isto é uma exclusão. Aqueles que são dotados para a implementação também são excluídos, sobram apenas os publicadores. Com este comportamento perdemos muitas pessoas que seriam importantes para a formação de nossos alunos e para o desenvolvimento dos projetos. Isto sem contar com a criatividade oriunda da diversidade de perfis. O ponto central não é a qualidade e criatividade do grupo, mas sua adequação à bibliometria avaliativa. Se quisermos qualidade real será preciso uma profunda mudança em nossos critérios.

Lendo a Communications of the ACM de outubro de 2016 encontrei um artigo magnífico: Addind Art to STEM. Neste artigo um dos bloggers da CACM trata da forte interação e resultados obtidos com a combinação da Música com a Computação. Tenho tratado eventualmente deste tema em posts e em um artigo para o Encontro sobre os Grandes Desafios 2006-2016 da SBC. Cada vez mais estou convencido que precisamos refundar o nosso modelo corporativista de considerar que as areas de conhecimento são herméticas e só os que aderem a esta visão podem ser os eleitos. Leiam este trecho do artigo citado:

“Specialization is necessary to garner expertise, but striving and working to become a skilled multidisciplinary generalist creates a whole person that can create, cope, build, refine, test, and use in practice. Plus, they can explain difficult concepts to novices, and carry the magic of combining art and technology to others. In other words, they are good teachers, too. That has been my goal in life, and I think I am succeeding (so far)”.

Author: ACM Fellow Perry R. Cook is Professor (Emeritus) of Computer Science, with a joint appointment in Music, at Princeton University. He also serves as Research Coordinator and IP Strategist for SMule, and is co-founder and executive vice president of Kadenze, an online arts/technology education startup.

Tudo o exposto acima justifica a necessidade de aplicarmos o Desing Thinking, onde a diversidade de percepções é essencial, para encontrarmos problemas reais sobre os quais possamos desenvolver ensino e pesquisa de real qualidade de pesquisa e com ampla visibilidade. A qualidade da pesquisa implica em trabalho tecnológico competente apoiado por uma sólida base conceitual e formal. Trabalhar com definições claras de problemas permite, por um lado, termos boas publicações indexadas e, por outro lado, mostrar para a Sociedade que somos de valor para o desenvolvimento. É preciso mudar a mentalidade que um diploma de  curso superior (graduação, especialização etc.) serve para  apenas promoção em alguma carreira pública e não para apoiar uma carreira promissora pessoalmente e de real interesse para a Sociedade.

O QUALIS não deve ser usado para a avaliação de pesquisadores – a solução

 

 CAPESA CAPES vem afirmando continuamente através de seus representantes que o QUALIS deve ser usado exclusivamente para a avaliação de programas de pós-graduação, não para a avaliação individual de pesquisadores. Mas os programas de pós-graduação, avaliados pela CAPES, continuam fazendo isto. O pior é que faculdades que sequer têm pesquisa usam este critério para a seleção de seus professores. Há, ainda, quem faz a alocação de espaço físico baseado em QUALIS de pesquisadores… Finalmente achei a solução!

É preciso a CAPES tenha a coragem de assumir a sua responsabilidade pois o QUALIS é sua produção e, portanto, ela tem o Direito Autoral sobre este produto. Vejam o seguinte texto do ECAD:

Direito autoral é um conjunto de prerrogativas conferidas por lei à pessoa física ou jurídica criadora da obra intelectual, para que ela possa gozar dos benefícios morais e patrimoniais resultantes da exploração de suas criações. O direito autoral está regulamentado pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98) e protege as relações entre o criador e quem utiliza suas criações artísticas, literárias ou científicas, tais como textos, livros, pinturas, esculturas, músicas, fotografias etc. Os direitos autorais são divididos, para efeitos legais, em direitos morais e patrimoniais.

Os direitos morais asseguram a autoria da criação ao autor da obra intelectual, no caso de obras protegidas por direito de autor. Já os direitos patrimoniais são aqueles que se referem principalmente à utilização econômica da obra intelectual. É direito exclusivo do autor utilizar sua obra criativa da maneira que quiser, bem como permitir que terceiros a utilizem, total ou parcialmente.

Ao contrário dos direitos morais, que são intransferíveis e irrenunciáveis, os direitos patrimoniais podem ser transferidos ou cedidos a outras pessoas, às quais o autor concede direito de representação ou mesmo de utilização de suas criações. Caso a obra intelectual seja utilizada sem prévia autorização, o responsável pelo uso desautorizado estará violando normas de direito autoral, e sua conduta poderá gerar um processo judicial.

A obra intelectual não necessita estar registrada para ter seus direitos protegidos. O registro, no entanto, serve como início de prova da autoria e, em alguns casos, para demonstrar quem a declarou primeiro publicamente.

Texto completo no ECAD

Encontramos no site da CAPES, na area da Computação, o seguinte texto:

É importante observar que os critérios adotados pela Coordenação de Área para avaliação de publicações em periódicos e em anais de conferências destinam-se à análise de programas de pós-graduação e são inadequados para avaliação individual de pesquisadores.

A solução é simples: basta a CAPES proibir o uso de seu produto para outros usos que não a avaliação de programas de pós-graduação. Ela tem este direito pela lei. 

Frase a ser publicada:

“O QUALIS, propriedade intelectual da CAPES, destina-se exclusivamente à avaliação de programas de pós-graduação. Qualquer outra utilização como critério exclusivo de avaliação não é autorizada.”


 

Apresentação no CSBC 2017: Avaliação da qualidade de programas de pós-graduação

 

A comunidade tem perguntado sobre o caminho que estamos trilhando para construir uma pós-graduação de excelência. Encontramos opiniões divergentes, alguns acreditam que se obtém qualidade pelos altos níveis de exigência, outros por estimular o trabalho individual dos alunos. Uns pensam que a pós-graduação é uma forma de crescimento social e encaram os critérios altos como elitistas. Atualmente alguns programas de PG estão reduzindo o número de créditos com o racional que o importante é o trabalho de dissertação ou de tese. Há, ainda, a discussão sobre se vale a pena o investimento no mestrado e se o doutorado deve ser o fim último da PG, sendo o mestrado algo considerado como um prêmio de consolação para quem não consegue obter o doutorado. Certamente estamos em um período turbulento, onde poucas certezas existem. As perguntas que não querem calar são: Teremos realmente universidades de primeira linha? O que é uma universidade primeira linha? É uma universidade com prêmios Nobel? É uma universidade para onde os pesquisadores top querem trabalhar em seus sabáticos? É uma Universidade para onde os melhores alunos do mundo aplicam como forma de ter seu futuro assegurado? Este é o tema central da Avaliação da Qualidade tratada neste texto: Como avaliar a qualidade de um programa de pós-graduação, que critérios devem ser utilizados? 

2017 CSBC Avaliação