Liberdade, privacidade e direitos humanos

“O uso da Internet deve guiar-se pelos princípios de liberdade de expressão, de privacidade do indivíduo e de respeito aos direitos humanos, reconhecendo-os como fundamentais para a preservação de uma sociedade justa e democrática”.

Resolução CGI.br/RES/2009/003/P


O conceito fundamental para a Academia tem sido a liberdade de expressão e de cátedra. Sem liberdade o progresso científico e acadêmico é muito lento ou quase impossível. A pesquisa caracterizou-se historicamente como uma atividade livre. Os pesquisadores procuram divulgar, tanto quanto possível, suas descobertas para receberem os méritos acadêmicos. No passado o resultado das pesquisas era considerado, na maior parte dos casos, como um bem comum da humanidade. Esta visão sempre teve limitações, algumas trágicas como o assassinato de arquitetos de tumbas egípcias, logo após a conclusão das mesmas, para que o conhecimento do segredo de sua construção não se difundisse. Invenções ligadas à guerra, também, sempre foram restritas. A pesquisa mais ampla, tradicionalmente foi considerada pública. Atualmente, muitas vezes uma equipe ou pesquisador mantém um período de silêncio e discrição até que os resultados estejam suficientemente “maduros” para a publicação. Outros passam a considerar estes resultados como “produtos comerciais” e nada divulgam de essencial para garantir seus lucros futuros. Este problema da liberdade da pesquisa e das publicações livres tem sido tema de muitas de minhas Crônicas.

A abertura na publicação dos resultados é uma consequência direta do método científico que consiste em criar uma hipótese, validá-la ou negá-la por prova experimental, tirar as conclusões e divulgar os resultados bem como os detalhes das experiências. Isto é essencial para que outros pesquisadores possam verifica a correção do trabalho. Esta abertura é parte essencial da ciência. A liberdade de divulgação da pesquisa permite que sejam descobertos erros, que novas ideias sejam criadas e que a velocidade de obtenção dos resultados seja multiplicada. Outra característica é o estímulo à fertilização cruzada de ideias com a aplicação dos resultados em campos correlacionados. Isto ocorre, por exemplo, com a aplicação de resultados de física em problemas econômicos.

Vou citar dois exemplos onde a perda da liberdade causou ou causa efeitos muito negativos na pesquisa. O “Caso Lisenko”: quando, em 1948, Stalin – apoiado pelo ministro da Agricultura Lisenko – declarou as teorias da hereditariedade de Mendel como burguesas e banidas da URSS, décadas depois a agricultura soviética sofre as consequências. O segundo é atual quando correntes religiosas nos USA tentam forçar restrições às pesquisas em células tronco. Os dois casos evidenciam que a falta de liberdade trás resultados negativos.

O que é essencial para a pesquisa, a liberdade de publicar seus pensamentos e hipóteses, também o é para a Imprensa. O item 7. Inimputabilidade da rede diz:

“O combate a ilícitos na rede deve atingir os responsáveis finais e não os meios de acesso e transporte, sempre preservando os princípios maiores de defesa da liberdade, da privacidade e do respeito aos direitos humanos”.

Deixa claro que a censura prévia, impedindo o funcionamento da Web, é inaceitável. Não é o meio de comunicação o responsável, mas seus agentes podem ser responsabilizados, se for o caso. O bloqueio dos canais de comunicação é a ferramenta mais importante para os regimes que não querem a discussão pública de seus atos. Isto pode ocorrer para manter ditaduras ou para acobertar a corrupção. A “Primavera Árabe” demonstrou o poder de meios de comunicação social.

Há algum tempo escrevi uma crônica denominada: “Estamos sendo olhados!”. Precisamos saber que somos referenciados na Internet, quer pública ou privada, dezenas de vezes todos os dias. Nossas mensagens para as listas de discussão são públicas, o mesmo se passa nos Blogs. Cada transação bancária, passagem por pedágios, compras são registradas. Se você tem perfis em máquinas de busca cada acesso à Web está registrado em sua conta. Aqui surge o problema de privacidade e de censura. Mas o que é evidente é que, cada vez mais, nossos atos e posições serão mais públicos. A única forma de termos paz, daqui para frente, é sermos coerentes em nossas posições e ações, a fraude e a mistificação são logo descobertas, o crime também.

Na área acadêmica um ótimo exemplo de publicitação foi a implantação do Currículo Lattes pelo CNPq. No início muitos reclamaram sobre a necessidade de tornar sua vida acadêmica pública, parecia uma defesa de privacidade, mas realmente o que estavam defendendo era a possibilidade de enganarem a comunidade com uma fama de “notório saber” não comprovada por fatos reais como publicações, participações em comitês de eventos científicos, orientações entre outras atividades.

Quando Orwell escreveu o famoso livro “1984” e criou o Big Brother (O Grande Irmão), no ano de 1949, certamente não fazia a menor ideia do conceito de complexidade de algoritmos. O Big Brother é um perigo, são os governos ou corporações invadindo a vida pessoal e podendo interferir ou chantagear pessoas para que aceitem suas decisões. Por outro lado eu gosto do Pequeno Irmão, o Small Brother. Quem é ele? O acesso à informação aplicado à Web gera o Pequeno Irmão, se todos tiverem acesso às informações cada um pode verificar se o que é de meu conhecimento está corretamente representado, todos juntos podemos muito. Corrupção pode ser detectada, promessas políticas mirabolantes desfeitas, casos de desrespeito a direitos humanos denunciados por uma rede distribuída de usuários.

A Wikipedia consegue toda a qualidade que conhecemos por este trabalho social de cooperação e de mútua correção. O Pequeno Irmão pode fazer muito mais. Acho que os maiores defensores exagerados da privacidade, como os que eram contra o CV Lattes, e de uma pseudo-liberdade de fazer tudo sem uma avaliação externa estão defendendo interesses escusos. Eu utilizei muito o site da Transparência Brasil para me orientar nas últimas eleições e vou continuar usando aquelas informações. Atualmente a Folha de São Paulo abriu um canal para o envio de denúncias sobre fatos que possam gerar atividades de jornalismo investigativo. Este é o real controle social da informação e não a censura governamental.

Como conclusão: a liberdade de publicação na Web e um acompanhamento social são essenciais para o avanço do conhecimento e da pesquisa. Por outro lado a privacidade deve ser garantida para preservar os direitos de proteção da vida pessoal, mas não pode ser utilizada para silenciar a liberdade de imprensa.

Computação ubíqua, o possível, o útil e o razoável

Alguns desafios se apresentam para o desenvolvimento da pesquisa em computação. Um deles, e não o menos importante, é a razoabilidade das tecnologias. Na atual situação de crise econômica e de necessidade de repensar o modelo de consumo e o modelo de desenvolvimento industrial e tecnológico é necessário que consideremos a diferença entre o possível, o útil e o razoável. Grande parte da crise atual é devida ao distanciamento da economia e da tecnologia da análise das conseqüências éticas das ações tomadas. Os pesquisadores e os empresários de Computação são, também, agentes éticos que devem ponderar sobre a razoabilidade de suas decisões.

Voltemos às origens. O sentido de razoabilidade pode ser trabalhado a partir do sentido dado por Aristóteles no Livro III da Ética a Nicômaco: razoável há de ser a conexão entre a norma e as exigências contingentes do caso; razoável, a valoração e a eleição entre as diferentes alternativas que tem que realizar o intérprete no jogo combinado de passos lógicos e de avaliações em que consiste seu procedimento, não somente deve viabilizar um efetivo equilíbrio entre exigências contrapostas como, e muito particularmente, lograr uma maior aceitabilidade e consenso por parte da comunidade na qual se insere. No livro III Aristóteles estuda o valor das ações voluntárias e involuntárias. A virtude relaciona-se com as paixões e ações voluntárias. Uma ação deliberada tem origem no desejo do sujeito. Este desejo pode ser racional e pode provir de uma escolha ou de uma intenção. O homem, assim, é responsável por sua virtude e por seus vícios. Não é aceitável tentar realizar tudo o que é possível, isto seria o vício, as ações voluntárias realizadas pelo desejo incontido de realizar o tudo o que conseguimos imaginar, apenas pelo prazer de fazê-lo.

A atual crise foi desencadeada, provavelmente, por esta ambição de acreditar em um crescimento exponencial para sempre. Em acreditar que a tecnologia por si só levaria ao desenvolvimento contínuo e aperfeiçoamento da humanidade. Esta crença está levando, entre outras coisas ao declínio do número de candidatos às áreas de tecnologia e ao aumento de candidatos para a área das ciências sociais. O que é necessário é utilizar com sabedoria a tecnologia e utilizar o conhecimento com ética. O essencial é o uso razoável do conhecimento, como já Aristóteles, há mais de 2300 anos, tratava no seu estudo da ética das ações humanas.

Um dos grandes tópicos de pesquisa e de desenvolvimento atual é a Computação Ubíqua. Esta tecnologia é candidata a uma análise aprofundada de sua razoabilidade devido a sua grande interação com a vida diária. A computação ubíqua cobre essencialmente a forma pela qual os usuários percebem e utilizam seus dispositivos móveis para realizar as tarefas, a forma de criar e implementar estas aplicações assim como do “aumento” do ambiente físico pela disponibilidade e ubiqüidade das informações e serviços. Em uma visão ideal espera-se mesmo que os usuários não percebam sequer a existência de dispositivos, sendo o próprio ambiente modificado por equipamentos embutidos. Um dos pontos centrais da ubiqüidade consiste na obtenção de informações sobre o contexto e sobre o usuário. Entre os elementos desta adaptação encontram-se a normalização e o intercâmbio de informações pessoais; os formalismos que permitam exprimir as regras de adaptação dos serviços em função do contexto e do usuário; a definição de contextos e de preferências dos usuários.

Um cenário possível seria a chegada de uma pessoa em uma sala, o sistema identifica esta pessoa através de uma etiqueta RFID ou reconhecimento visual de faces, recupera suas preferências sobre a temperatura ambiente, o registro médico informando as restrições sobre o nível de umidade devido a asma, suas preferências sobre a música ambiente, seu grau de stress e adapta as condições ambientais a esta pessoa. No caso limite poderemos ter a situação retratada no filme Minority Report. O drama se passa em Washington no ano de 2054 quando a Divisão Pré-crime conseguiu acabar com os assassinatos, pois o futuro é visualizado antecipadamente e o culpado é punido antes que o crime seja cometido. Mas quando o próprio chefe da Divisão é acusado de um futuro assassinato por manipulação do sistema… Ou, ainda, quais são as conseqüências de automatizar a decisão sobre aceitar ou não uma pessoa em uma empresa por suas preferências, conteúdo do Orkut, acessos históricos a Web, amigos (virtuais). Outros aspectos ligados ao big-brother são referenciados no artigo Airport Safety: A Case Study for Infrastructure Security, M. E. Kabay, Ubiquity, Volume 5, Issue 34, Oct. 27 – Nov. 2, 2004. A pergunta que não quer calar é: quanta informação pode ser mantida sobre uma pessoa? Qual é o limite da razoabilidade das decisões? É ético manter estas informações pessoais? É ético criar aplicações ubíquas, adaptáveis com base em que dados pessoais, em que nível? Esta pequena história demonstra claramente o problema:

Telefonista: Pizza Hot, boa noite!
Cliente: Boa , eu quero encomendar pizzas…
Telefonista: Pode me dar o seu NIDN?
Cliente: Sim, o meu número de identificação nacional é 610204791993-8456-54632107.
Telefonista: Obrigada, Sr. Lewis. Seu endereço é 1742 Meadowland Drive, e o número de seu telefone é 494-2366, certo? O telefone do seu escritório da Lincoln Insurance é o 745-2302 e o seu celular é 266-2566.
Cliente: Bem, tudo certo! Como você conseguiu essas informações todas?
Telefonista: Nós estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
Cliente: Ah, sim, é verdade! Eu queria encomendar duas pizzas, uma quatro queijos e outra calabresa…
Telefonista: Talvez não seja uma boa idéia…
Cliente: O quê? Telefonista: Consta na sua ficha médica que o Sr. sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a sua saúde.
Telefonista: Por quê que o Sr. não experimenta a nossa pizza Superlight, com tofu e rabanetes? O Sr. vai adorar!
Cliente: Como é que você sabe que vou adorar?
Telefonista: O Sr. consultou o site “Recettes Gourmandes au Soja” da Biblioteca Municipal, dia 15 de janeiro, às 14:27h, onde permaneceu ligado à rede durante 36 minutos. Daí a minha sugestão…
Cliente: OK, está bem! Mande-me duas pizzas tamanho família!
Telefonista: É a escolha certa para o Sr.,sua esposa e seus 4 filhos, pode ter certeza.
Cliente: Quanto é? Telefonista: São $49,99.
Cliente: Você quer o número do meu cartão de crédito?
Telefonista: Lamento, mas o Sr. vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu cartão de crédito já foi ultrapassado.
Cliente: Tudo bem, eu posso ir ao Multibanco sacar dinheiro antes que chegue a pizza.
Telefonista: Duvido que consiga, o Sr. está com o saldo negativo.
Cliente
: xxxxx

Todas estas possibilidades apresentam as dimensões do possível e do razoável. Acredito que a falta da análise ética destas duas dimensões deve-se, em grande parte, aos preconceitos inerentes à avaliação da pesquisa. Uma corrente opina pelo “engajamento” em um desenvolvimento tecnológico dentro de uma visão de estratégia nacional enquanto outra corrente opina pela “ciência pura” em que a qualidade da pesquisa está associada ao limite do conhecimento e não tem fronteiras nacionais. Poucos tratam da análise do que é eticamente razoável e não somente do que é possível realizar. No caso da computação ubíqua, e da adaptação ao usuário, como demonstrado na história acima, temos uma situação realmente crítica em relação à razoabilidade. Saliente, em particular, este tópico dos Grandes Desafios por sua grande ligação com a privacidade e com a interferência nos direitos individuais. Alguns pontos a serem considerados quanto à ética da razoabilidade do uso da tecnologia de forma a lograr uma maior aceitabilidade e consenso por parte da comunidade na qual se insere:

  • Qual a quantidade de informação deve ser mantida sobre os indivíduos?

  • Para sistemas ubíquos e adaptáveis o conhecimento do perfil dos usuários é essencial. Mas quanta informação pode ser mantida sem que a privacidade e os direitos civis sejam agredidos?

  • O aumento dos custos da tecnologia aplicada vale a pena para suportar as adaptações?

  • Como avaliar um pesquisador levando em consideração os aspectos sociais e éticos de suas pesquisas?

  • Como evitar que posições políticas partidárias se sobreponham à avaliação com base em percepções filosóficas de ética e de razoabilidade?

Alguns indicadores que poderiam ser levados em consideração:

  • Quanto uma pesquisa contribuirá para a melhoria do IDH da região ou da população?

  • Qual a percentagem a ser atribuída entre os indicadores: índice de impacto das publicações, formação de recursos humanos, utilidade social, aceitabilidade da pesquisa?

  • Qual a percentagem de recursos para garantir a pesquisa básica em relação à pesquisa aplicada e socialmente aceitável?

Estes indicadores certamente influirão na atribuição de recursos públicos à pesquisa em função, não só dos tradicionais indicadores como h-index, patentes e outros, mas de critérios mais filosóficos e éticos. Finalmente, a atual crise com fortes restrições às fontes de financiamento, nos mostra que um novo modelo de desenvolvimento sustentável deve ser criado. A pesquisa faz parte da estrutura econômica e social e deve, portanto, ser repensada. Precisamos assegura a qualidade intrínseca da pesquisa sem nos esquecermos que “Cada ação humana é um engajamento Humanidade inteira” (Sartre).

Second Life: esquizofrenia, alienação ou realidade?

Um dia destes eu vinha para a Universidade e escutei uma propaganda no rádio de uma empresa se propondo a criação de locais no Second Life para que organizações do mundo real passassem a ter seu espaço naquele mundo virtual. Cheguei na Universidade e um colega me comentou sobre uma aula virtual interessante que ele havia acompanhado (como um avatar) no Second Life, em uma ótima universidade dos Estados Unidos. No almoço alguém falava sobre ter encontrado uma amiga no Second Life (SL). Parece que algo virtual está acontecendo nas vidas das pessoas ou seria um comportamento de fuga criando uma segunda vida sem os problemas da vida real? Eu tinha uma tendência a pensar no SL como uma forma branda de esquizofrenia:

Mas talvez esta interpretação fosse muito exagerada. Quem sabe se a SL não fosse algo tão sério, mas sim uma forma de alienação, de afastamento da realidade, com a fuga dos problemas ou de tentativa de fuga das responsabilidade de um sistema opressivo.

  • Alienação. Processo que deriva de uma ligação essencial à ação, à sua consciência e à situação dos indivíduos, pelo qual se oculta ou se falsifica essa ligação de modo que o processo e os seus produtos apareçam como indiferentes, independentes ou superiores aos homens que são, na verdade, seus criadores. No momento em que a uma pessoa o mundo parece constituído de coisas – independentes umas das outras e não relacionadas – indiferentes à sua consciência, diz-se que esse indivíduo se encontra em estado de alienação. Condições de trabalho, em que as coisas produzidas são separadas do interesse e do alcance de quem as produziu, são consideradas alienantes. Em sentido amplo afirma-se que é alienado o indivíduo que não tem visão – política, econômica, social – da sociedade e do papel que nela desempenha. (Dicionário de Sociologia)

Depois comecei a achar que estava sendo muito reacionário, será que não havia algo mais no SL que justificasse toda esta atividade e adesão. Mas o que seria? Como início do estudo achei que o caminho seria pensar no SL como um sistema de informação distribuído, espécie de Web 2.0. Resolvi ver o que tinha de material interessante nas minhas aulas de Sistemas de Informação. Naquele curso explico as diferentes formas de interação de sistemas de informação com a realidade. Por este critério os sistema de informação podem ser classificados em: Modelo de Componentes, Modelo de Informações Dinâmicas e Modelo de Controle.

Modelo de Componentes

Os componentes são os objetos sendo trabalhados. São dinâmicos, inertes independentes. A sua natureza dinâmica é elementar como, por exemplo: colocar o caractere a na posição {24,32}. Os eventos no domínio dos componentes só ocorrem se iniciados externamente. As solicitações de operações são feitas pelos usuários da máquina para serem executadas pelos componentes. A função do desenvolvedor é a de construir uma máquina que que conecte o domínio de solicitações ao domínio dos componentes de forma a que os requisitos sejam satisfeitos. Nesta categoria podem ser incluídos os editores de texto e as ferramentas de modelagem espacial. O importante é que “A realidade é  um modelo interno ao sistema e esta representação é modificada exclusivamente por ações dos usuários”. Estes sistemas são completamente isolados da realidade, apenas a descrevem por intermédio dos usuários.

Modelo de Informações Dinâmicas

O sistema é a máquina a ser construída. O mundo real é o domínio sobre o qual as informações são solicitadas. Este é um domínio autônomo e independente, completamente isolado do comportamento do sistema. O sistema é afetado pelo mundo real pois possui algum modelo interno que representa o domínio de forma a poder gerar as informações de saída. O mundo real não é reativo, isto é, não reage ao comportamento do sistema. Esta classe de sistemas representa uma realidade externa quer seja por meio de dados entrados pelos usuários quer seja por meio de sensores que registram valores obtidos da realidade.

Modelo de Controle

Nesta classe de problema estão aqueles que devem ser controlados pela máquina, agora denominada controlador. O domínio controlado é ativo e reativo. Isto é causa eventos e muda de estado espontaneamente e inicia outros em função dos estímulos do controlador. O controlador tem por função manter o domínio controlado dentro de um comportamento desejado. O controlador possui um modelo completo da parcela da realidade a ser controlada de forma a saber como agir em função das mudanças de estado no sistema real. Neste modelo o sistema controla a realidade.

Mas o SL não se enquadra em nenhum destes modelos. Em uma primeira análise rápida poderia parecer que é um sistema do primeiro tipo, algo que só existe dentro do computador. Mas então qual o motivo de empresas estarem colocando sites neste mundo virtual? Então li um artigo “O virtual não se opõe ao real”  de Juremir Machado da Silva, publicado no jornal Correio do Povo de Porto Alegre, dia 11 de agosto, sobre a palestra de Pierre Lévy está sendo apresentada hoje. 

O virtual é um problema que demanda uma resposta. Para explicar isso, Lévy recorre a uma metáfora simples: o virtual é a semente. O atual é a árvore que dela brota: “Contrariamente ao possível, estático já constituído, o virtual é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forcas que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou novidade qualquer, e que chama um processe de resolução: a atualização (…) A atualização aparece então como a solução de um problema, uma solução que não estava contida previamente no enunciado. A atualização é criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e de finalidades (…) O real assemelha-se ao possível; em troca, o atual em nada assemelha-se ao virtual: responde-lhe”. Não há ilusão. Somente criação. De algum modo, Pierre Lévy parece empregar to­das as suas forcas para advertir a todos de que algo muito mais importante do que se diz está acontecendo. A Internet não é apenas um bom instrumento para arranjar amigos ou parceiros sexuais, nem somente um extraordinário banco de dados, mas principalmente uma ferramenta cognitiva que altera a percepção, a memória e o sistema de produção e gestão do saber.

Podemos, então, entender o que está se passando: um mundo virtual está criando uma nova realidade. Acho que quase todos nós já utilizamos a expressão: “Vou ao banco paga esta conta” mas o que faz é acessar o seu banco pela Internet.  Ou “Vou comprar uma entrada para o cinema”, na Internet ou mesmo: “Vou fazer compras no supermercado, na Internet. Nossa percepção de realidade está modificada pela virtualidade.

 

Qual o futuro: imagino que depois do grande boom do SL – parece que está diminuindo rapidamente – o que vai se passar é uma modificação da interface de nossos computadores. Há alguns anos assisti uma demonstração de um ambiente virtual para alunos do primeiro grau, no Chile, onde havia uma praça de uma pequena cidade típica. O aluno poderia entrar no correio e escrever uma carta, a carta era transformada em uma mensagem de e-mail e transmitida para o destinatário, na recepção a mensagem era transformada em um envelope tradicional de carta que podia ser aberto e lido como uma carta normal. Isto era realidade ou virtualidade? A mesma coisa acontece no SL, vejam o exemplo a seguir (cedido pelo Prof. Marcelo Johann): uma aula real da Universidade de Edimburgo apresentada no mundo virtual do SL. Mas ainda podemos falar de virtual? Uma aula em EAD é real ou virtual? E uma aula real transmitida por vídeo apresentada em uma sala virtual do SL?

Chegamos ao incrível Mundo Novo, espero que minha próxima versão de sistema operacional não tenha mais pastas de arquivos mas prateleiras para guardar os documentos e se eu colocar um destes documentos em uma impressora – mas para que impressora? – na mesa de um colega o documento lá apareça, se a mesa no virtual corresponder a uma mesa no real o documento será materializado por meio de uma impressora integrada na mesa. O mesmo com a TV em casa ou com o computador, a mesma interface em que o virtual e o real se confundem. Mesmo que esta experiência do SL o prospere, atualmente há um forte indicativo de sua decadência em número de usuários, a metáfora está criada e consolidada. Daqui para a frente não existirá mais real nem virtual em computação, vamos viver com uma nova realidade expandida, as possibilidades são imensas: óculos sobrepondo mapas às ruas pelas quais caminhamos, pára-brisas de carros com informações sobre o roteiro e avisos de chuva, computadores integrando grupos virtuais com o espaço físico.  Qualquer dia destes nos encontramos no SL, ou quem sabe se em nossos computadores, para discutir estas crônicas, até lá…


Estamos sendo olhados!

Estamos sendo olhados! ou Big Brother e Small Brother uma revisão da importância e dos problemas gerados pela disponibildade de dados pessoais na Web.
Há algum tempo (Jornal da Ciência e-mail 2869, de 05 de Outubro de 2005) foi publicada esta notícia no boletim da SBPC “CNPq envia carta aos bolsistas sobre a plataforma Lattes e possíveis fraudes”, incrível. Leiam este trecho:

“Há tempos que recebemos denúncias de que dados cadastrais de alguns pesquisadores são incorretos. A comissão já vem verificando essas denúncias, mas, mais recentemente, tem varrido, por amostragem, os dados cadastrais. Os resultados vêm revelando desde erros atribuíveis a simples descuido até erros mais sérios, alguns (felizmente poucos) aparentemente fraudulentos.    Os pesquisadores têm sido notificados desses descuidos enquanto a auditoria do CNPq tem cuidado dos casos de aparente fraude”.

No dia 27 de setembro deste ano o mesmo Jornal da Ciência publica: (JC e-mail 3110, de 27 de Setembro de 2006) “Professores da PUC(SP) são acusados de fraudar currículos”, vale a pena ler todo o artigo. Simone Iwasso escreve para “O Estado de SP”:

“Dois professores da Pontifícia Universidade Católica de SP (PUC-SP) são acusados pela própria direção da instituição de terem fraudado dados de seus currículos profissionais na Plataforma Lattes – sistema que agrupa informações acadêmicas e de experiência de trabalho de professores e pesquisadores do país, mantido pelo CNPq.Os problemas incluem falta de comprovação de graduação, de mestrado, de pós-doutorado, de bolsas de estudo, de número de orientandos, de publicações em livros e revistas e de horas contratuais prestadas à universidade”.    

Neste caso o que funcionou foi a pressão social, como os CV Lattes são disponíveis na web todos podem acessá-los e verificar a veracidade dos fatos ali registrados. Leiam este trecho:

        ‘A plataforma é um grande avanço, melhorou e evitou muita burocracia. No entanto, a idoneidade das pessoas é diferente, e sabemos que há fraudes. Há uma estimativa de que de 10% a 20% dos currículos de lá tenham problema. E todas as universidades e agências de fomento o usam como referência’, afirma Robson Mendes Matos, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e secretário da SBPC.

Ele conta que foi vítima de uma fraude.

“Descobri que um professor, para concorrer a uma bolsa, tinha colocado no currículo dele um trabalho de pesquisa que tinha sido orientado por mim. Fui atrás e hoje ele foi banido da plataforma”. (Jornal da Ciência)

Qual será o motivo para o sucesso do QUALIS, das avaliações abertas dos programas de Pós-graduação disponibilizadas pela CAPES, e do CV Lattes no Brasil? Estes dois sistemas são invenções brasileiras, pelo menos em meu conhecimento. Eu acredito que isto é o resultado de uma necessidade da Sociedade de ter diretrizes claras e públicas de avaliação. É claro que alguns gostam de reclamar da avaliação, normalmente quem é mal avaliado não gosta de receber um parecer negativo. Um dos mais claros exemplos deste comportamento foram os recentes fatos ocorridos no INSS quando médicos foram agredidos por não atestarem fraudes em licenças-saúde. Ouví no rádio que, a partir de agora, os atestados e demais documentos serão entregues pelo correio! Estamos no fundo do poço da integridade, ética e seriedade. Qual a solução? Para mim é clara: o controle social com a liberação mais ampla possível de dados, de avaliações e de critérios na Web. O CNPq e a CAPES têm sido campeões nesta abertura. Só assim a sociedade pode ter parâmetros melhores que a propaganda dos interessados. Seria bom se surgissem mais institutos privados de avaliação, então seria possível comparar os resultados. Na área da avaliação da Universidades e dos cursos universitários o Guia do Estudante da Editora Abril tem apresentado resultados muito compatíveis com as avaliações do MEC. 
Dai o nome desta crônica: “Estamos sendo olhados!”, e isto é bom! Todos nós acompanhamos os recentes fatos com as câmaras gravando cenas em hotéis… Precisamos saber que somos gravados dezenas de vezes todos os dias na vida normal. Nossas mensagem para as listas de discussão são públicas, o mesmo se passa nos Blogs. A única forma de termos sucesso, daqui para a frente, é sermos coerentes em nossas posições e ações, a fraude e a mistificação são logo descobertas. 
    Quando Orwell escreveu o famoso “1984” e criou o Big Brother (O Grande Irmão), no ano de 1949, certamente não fazia a menor idéia do conceito de complexidade de algoritmos. Os americanos tentaram uma versão mais recente com o projeto de espionagem denominado Echelon, com resultados que aparentemente não foram bons… A dificuldade é que o problema de fazer quase infinitos cruzamentos de dados não é computável em um tempo finito. Sem estas considerações teóricas, o personagem de Orwell termina no último parágrafo do livro fazendo a seguinte constatação:

“Levantou a vista para o rosto enorme. Levara quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh, mal-entendido cruel e desnecessário! Oh, teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gim escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograra a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão”.

Pelo que escrevi acima parece que também estou gostando Dele! Nada disto, o que eu gosto é do Pequeno Irmão, o Small Brother. Quem faz isto? Ora é simples, acho que todo o mundo que é da área de computação conhece o método de tratar problemas grandes e complexos: dividir para conquistar. Isto é o Pequeno Irmão, se todos tiverem acesso às informações cada um pode verificar o que é de seu conhecimento, todos juntos podemos muito. A Wikipedia consegue toda a qualidade que conhecemos por este trabalho social de cooperação e de mútua correção. O Pequeno Irmão pode fazer muito, acho que os maiores defensores da privacidade e de uma pseudo-liberdade de fazer tudo sem uma avaliação externa estão defendendo interesses escusos. Eu utilizei muito o site da Transparência Brasil para me orientar no primeiro turno das eleições e vou continuar usando aquelas informações.