O primeiro modem (1973)

 

No Instituto de Física havia um grupo de engenheiros e físicos ligados à área de instrumentação eletrônica que desenvolvia projetos ligados à área de processamento digital de dados. Foram desenvolvidos diversos equipamentos como um espectrômetro de efeito Moessbauer e um analisador multicanal para espectroscopia nuclear, ambos baseados num mini-computador Modelo 2114 da HP.

Tendo em vista que o main-frame da UFRGS, nesta época, o famoso Burroughs 6700, localizado no campus médico, distante em torno de 3km, tanto do Instituto de Física como do Departamento de Engenharia Eletrica, que ficava no fim da Av. Osvaldo Aranha, foi definido em 1973, um projeto no Instituto de Informática, sob a coordenação do Prof. Juergen Rochol, que viabilazasse estender o potencial de computação do B 6700 para estes locais, via terminais remotos, e transmissão de dados por linha telefônica.

Surgiu então o projeto do modem analógico para canal de voz telefônico, que viria a ser fabricado mais tarde pela PARKS Indústria Eletrônica Ltda., sob a sigla comercial de UP 1200 (UP: Universidade e Parks, 1200: a taxa máxima do modem). O modem é considerado o primeiro modem de fabricação nacional (1974), que foi totalmente desenvolvido e produzido no Brasil, através de um esforço conjunto entre a Universidade e uma Indústria genuinamente nacional. O modem foi comercializado durante mais de 3 anos, inclusive para o Sistema Telebrás, após sofrer algumas modificações. O modem na sua versão comercial atendia o padrão V.23 do CCITT, e transmitia em duplex 2×1200 bit/s ou 1200×75 bit/s.

A partir destas idéias, posteriormente, surgiu a Digitel S.A. Indústria Eletrônica. Gilberto Machado fundou com os colegas Jaime Wagner e Francisco Wendt e do professor Juergen Rochol, a empresa em novembro de 1978. Inicialmente, a Digitel fabricou um produto de alta velocidade para curtas distâncias em linhas físicas, que Machado havia projetado nas aulas do professor Juergen. Coincidentemente, o AD9600 transformou-se no líder de vendas da empresa por mais de cinco anos.

SED – Sistema de Entrada de Dados (1972)

 

Final da década de 60. Todo o sistema de informações da UFRGS era manual, exceto a Contabilidade que contava com a ajuda de algumas máquinas tabuladoras. Em 1967, chegou o primeiro computador da universidade: IBM 1130, com 8 Kb de memória e 1 Mb de disco removível. Era um computador para toda a universidade, administrado pelo Centro de Processamento de Dados/UFRGS (CPD)..

O governo militar, de vocação nacionalista, iniciou o processo de “substituição das importações”. Para tanto, era importante investir em ciência e tecnologia, e foi criado o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FNDCT, administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDE). Assim, muitas universidades foram convidadas a submeter projetos de pesquisas teconológicas com vistas à aquisição de know-how e formação de recursos humanos na área de computação.

Em 1972, o Instituto de Física e o CPD apresentaram um projeto de pesquisa ao BNDE, para desenvolver um Sistema de Entrada de Dados – SED. No mesmo ano, o professor Daltro José Nunes propôs a criação do curso de pós-graduação em Ciência da Computação que, em 15 de dezembro de 1972, foi autorizado a funcionar.

Aprovado o projeto do BNDE, o CPD e o Instituto de Física entenderam que o melhor lugar para desenvolver os projetos era no curso de Pós-Graduação, recém criado, mesclando pesquisadores do Instituto de Física (hardware) e do CPD (software). Os recursos do BNDE ajudaram a alavancar a pós-graduação.

O SEDSistema de Entrada de Dados foi o primeiro trabalho de porte executado pela equipe do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação/UFRGS. O equipamento deu lugar às versões industriais ED 100, na indústria EDISA, ELO 32, na empresa ELO, e outras. As idéias e experiências neste projeto confirmaram a capacitação da equipe em projetar computadores o que veio a se concretizar nos futuros projetos desenvolvidos na empresa EDISA.

 

sed

 

O primeiro chip (1983)

 

O Instituto de Informática foi pioneiro na capacitação de recursos humanos especializados em microeletrônica e também no desenvolvimento do primeiro chip inteiramente projetado e fabricado fora de São Paulo. Nos anos 80, o Instituto incorporou docentes e infra-estrutura para fomentar localmente o projeto de chips.

O professor Altamiro Susin, o primeiro doutor em microeletrônica da UFRGS, que retornou em 1981 da França, acompanhou em conjunto com os professores Joel de Souza e Sérgio Bampi o trabalho que resultou no primeiro chip gaúcho. O circuito escolhido na época foi um processador de 1 bit inspirado num produto comercial usado em controle de processos industriais nos anos 80, e que tinha pouco mais de mil transistores. Com linhas de mais de 5 micrômetros, este chip foi feito na UFRGS. De 1983 a 1986, o grupo de Microeletrônica projetou o RISCO, micro de 32 bits. Este, porém, não podia ser fabricado no Brasil. Para Susin, desde 1982 a tecnologia do circuito integrado avançou muito, até chegar a nano-eletrônica. “Poderíamos colocar um milhão de processadores de 1 bit dentro de um único chip atual”.

Em 1982, pelo incentivo do Programa de Pós-Graduação, os alunos do Instituto já faziam o layout de chip integrado de mil transistores. Um circuito integrado projetado, em 1983, por alunos do mestrado foi fabricado na Universidade de Louvain, na Bélgica, e, neste mesmo ano, o Instituto iniciou a pesquisa que se tornou vanguarda no Brasil – especialmente em projeto de chips e software associado. Desde então, os estudantes passaram a aprender a conceber chips mais densos, com funções complexas. Em 1991, num esforço idealista de professores e alunos, foi fabricado na Universidade o primeiro chip, com a mobilização de computadores e alunos do II e equipamentos de difusão do Instituto de Física da UFRGS. Em 2002, com apoio de um programa da CAPES, foi criado o programa de Doutorado em Microeletrônica da UFRGS – o único interdisciplinar do País

 

Mais de 20 anos do primeiro chip gaúcho

1968

No Brasil, USP funda Laboratório de Microeletrônica – LME

1981

Primeira dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Computação (PPGC) da UFRGS com projeto sobre circuitos integrados

Retorna ao PPGC/I.I. o 1º doutor em microeletrônica da UFRGS, Altamiro Susin

1983

Primeiro chip MOS da região Sul do País é projetado por alunos do PPGC do II. Ele é fabricado na Universidade de Louvain, na Bélgica

1991

Professores e alunos do II e Instituto de Física da UFRGS fabricam na universidade protótipo do 1º chip gaúcho

2000

Assinatura protocolo do Ceitec, Governo do RS e Motorola (doação de equipamentos de processo)

2002

Criado Programa de Pós-Graduação interdisciplinar em Microeletrônica na UFRGS;

Grupo inicial de professores do CPGCC

 

Celso Müller, Dr.
Clésio Saraiva dos Santos, M. Sc. 
Daltro José Nunes, M. Sc.
Genaro Celiberto, M. Sc.
Harvey N. Rutt, Ph. D.
John D. Rogers, Ph. D.
José L. Medero, M. Sc.
Juergen Rochol, M. Sc. 
Luiz Fernando Ramos Centeno, M. Sc.
Marcus G. Zwanziger, Dr.
Paulo Alberto de Azeredo,M. Sc.
Philippe Navaux, M. Sc.
Sérgio M. Bordini, M. Sc.

V SECOMU e XI CLEI

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
Curso de Pós-Graduação em Ciência da Computação

Porto Alegre, 20 a 27 de julho de 1985.

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 Anfiteatro do Colégio Rosário, Porto Alegre

 

Foto por José Palazzo M. de Oliveira

II SEMISH – 1975

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
Curso de Pós-Graduação em Ciência da Computação
Porto Alegre, 22 a 25 de julho de 1975.  

 

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Anfiteatro da Faculdade de Arquiteturada UFRGS

 

 

O início do PPGC da UFRGS (1973)

O grupo inicial da Informática foi criado junto ao CPD e era formado, majoritariamente, por estagiários recrutados dentre os estudantes da UFRGS que se destacaram nos cursos de treinamento oferecido pela Cia. IBM. Após, foi iniciado um programa de qualificação pelo envio de estagiários recém graduados para realizar o mestrado na PUC e na UFRJ, no Rio de Janeiro. Ao retornarem, reuniram-se ao grupo de hardware que atuava em instrumentação eletrônica no Instituto de Física, criando em 1972 o Curso de Pós-Graduação em Ciência da Computação (CPGCC) formando o grupo inicial de professores. O espectro das áreas de trabalho era bastante amplo, abrangendo hardware e software. A primeira turma da pós-graduação em computação iniciou seus estudos em 1973. A partir de 1975 foram formados os primeiros mestres desta primeira turma, muitos dos formandos eram professores de computação na UFRGS.

Fisicamente o CPGCC localizou-se nas antigas instalações do CPD, térreo da Escola de Engenharia da UFRGS, que ficaram disponíveis com a transferência do IBM 1130 e dos analistas e programadores para a nova sede no Campus Médico. Na mesma época, 1972, foi comprado um computador de grande porte, o Burroughs B 6700 (Fig. 1), com 1 M de memória e processador de 1 MHz instalado no novo prédio do CPD. Este computador foi elemento essencial no desenvolvimento do curso de pós-graduação devido a sua grande capacidade de processamento aliada à possibilidade de acesso aos programas fonte, tanto do sistema operacional MCP quanto dos compiladores e demais programas do fabricante. De noite o espetáculo na sala do sistema era impressionante com centenas de mini-lâmpadas piscando (imaginem a manutenção!) Os registradores eram mapeados para um painel mostrando os valores “0” ou “1” dos bits acionados. Haviam, também, sensores do posicionamento das fitas e a leitura óptica dos cartões era realizada com luz visível.

b6700 01Fig. 1 – O B 6700 a noite

Em 1972 a Divisão de Computação do CPD foi transferida para ao Campus Médico, no espaço liberado foram instaladas a Biblioteca (Fig. 2) e as salas dos professores e alunos em tempo integral (Fig. 4).

biblioteca ppgc 2  biblioteca ppgc 1 Fig. 2 – O acervo inicial e a mesa de leitura da biblioteca do CPGCC (1973)

Em 1973/74 falta espaço para sua organização e o acervo é anexado ao da biblioteca da Escola de Engenharia. Quando volta para a Divisão Acadêmica do CPD, no térreo, ocupa a sala do computador, que havia sido transferido para o atual prédio do CPD na rua Ramiro Barcelos. No antigo espaço ocupado antes pelo CPD ficou instalada a Divisão Acadêmica do CPD, que correspondia a um Departamento de Computação. Havia apenas uma mesa de leitura para os professores e alunos (Fig. 2 à esquerda). O acervo: uma coleção inteira de livros e manuais para atender as necessidades de informação de alunos dos cursos de Pós- Graduação – PG – em Ciência da Computação – coordenado pelo Profº Daltro Nunes – de Formação de Tecnólogos em Processamento de Dados, projeto 15 – coordenado pela profª Magda Bercht –, de graduação que cursavam disciplinas de processamento de dados e dos técnicos da Divisão de Computação do CPD. O acervo bibliográfico, disponível na época, estava armazenado nas duas estantes e no armário que aparecem na foto Fig. 2 à direita, e naquele época não havia Internet! Complementarmente, existia a possibilidade de trabalhar com os manuais de software da Burroughs e da IBM, disponíveis no CPD. Eram tempos heróicos, para muitos estudos de compiladores era necessário analisar o código fonte dos compiladores do B 6700. O nome: Biblioteca do CPD/PGCC.

Visando acomodar seu crescente acervo e serviços, numa época prédigitalização de documentos, em 1978 a Biblioteca transfere-se novamente. Agora para o térreo do Instituto de Eletrotécnica. Em 1989 passa a denominar-se Biblioteca do Instituto de Informática. Em 1991 o acervo é transferido para o Campus do Vale e instalado, provisoriamente, em 3 salas do prédio da administração do Instituto.A mudança para sua área atual ocorre em 1996, Fig. 3.

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Fig. 3 – Biblioteca atual (2012)

 

fig-002 Fig. 4 – Professores Daltro J. Nunes, ao fundo, e José M. V. de Castilho

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Fig. 5 – Sala de digitação (térreo do atual prédio da Engenharia Elétrica)

Os programas eram digitados e perfurados em cartões, sendo estes enviados ao CPD para serem lidos e processados pelo IBM-1130 ou pelo B-6700. Nas laterais da sala (Fig. 5) podem ser vistas as perfuradoras de cartões, no centro há uma mesa para a verificação e montagem dos lotes (batches) de cartões. A seguir um exemplo de cartão perfurado.

cartao perfurado

Com a consolidação do programa começamos a discutir e a participar de órgão colegiados e a debater a evolução da PG em Computação no Brasil.