História da Alemanha Moderna – de 1800 aos Dias de Hoje {Martin Kitchen} 2007


Capa do livro

Uma visão da história da Alemanha a partir da sua transformação de um agrupamento de estados fragmentados, em 1800, numa das nações mais poderosas da Europa em nossos dias. A narrativa começa com o impacto causado por Napoleão sobre a colcha de retalhos que era a Alemanha, descreve o desenvolvimento de uma consciência nacional dentro do contexto da mudança social e tensões entre a reforma e a reação, e culmina na análise da Alemanha depois da unificação nacional.

Este livro é muito interessante para quem deseja ter um conhecimento aprofundado sobre a evolução da Alemanha. Para aproveitar realmente o seu conteúdo é bom que o leitor tenha uma visão geral da história da Europa nestes últimos 200 anos. Mutas coisas passam a ficar mais claras com a leitura, o conceito de kleine Deutschland e groβe Deutschland e suas consequências me esclareceu muito sobre a história moderna da Alemanha. Mas um aviso: o texto é de um detalhamento extremo, os fatos são analisados com uma descrição minuciosa das pessoas envolvidas e em suas ações e orientações ideológicas. Será precisa uma capacidade de abstração para que se consiga ter uma visão agregada da história. Há trechos com análises mais abrangentes, posteriormente detalhadas com ampla documentação da personagens envolvidas.

Une histoire buissonière de la France {Graham Robb} 2011


O original deste livro é The Discovery of France mas a tradução francesa é de muito boa qualidade e o título muito melhor do que o original. O autor, Graham Macdonald Robb é um escritor inglês. Em 28 de abril de 2008 ele recebeu o prêmio Ondaatje Prize da Royal Society of Literature por este livro. É uma leitura realmente interessante pois mostra a França como um mosaico de culturas e regiões se integrando, aos poucos, para formar o país que hoje conhecemos.  O autor, professor de literatura, conta a história da França profunda além dos subúrbios de Paris. Esta é uma França muito diferente da que estudamos na história escolar, que trata da Monarquia, da Revolução e da República, mostrando a vida real do povo e das localidades com suas culturas específicas e, muitas vezes, ignorando o poder central. A descrição não é livresca, o autor adicionou aos seus estudos formais vinte e dois mil e quinhentos quilômetros de bicicleta pelo interior. A isto somou quatro anos de pesquisas bibliográficas. Uma leitura indispensável para conhecermos mais profundamente a cultura real francesa.

Perda da memória ou a preservação digital


Lendo a CACM de Outubro de 2016 encontrei este artigo do Vinton G. Cerf sobre a perda da memória digital: “We’re going backward“. Então lembrei de um post que publiquei em 2005 tratando exatamente do mesmo assunto. Com pequenas modificações estou republicando-o a seguir.


Há bastante tempo fui contatado para apresentar um artigo convidado em São Paulo, no Memorial da América do Sul, em uma conferência de uma  Sociedade de História e Computação. Tive algumas dúvidas sobre do que se trataria, afinal eu não sou um especialista em História, nem em história da computação e nunca tinha ouvido falar daquela sociedade. Uns colegas disseram que era para testemunhar… Nada disto, o assunto que esperavam que eu discutisse era modelos de dados temporais. A apresentação e a discussão a seguir foram muito estimulantes pois os participantes estavam interessados na manutenção de estados de conhecimento em diversos pontos no tempo e em consultas do tipo: “o que se sabia sobre o Estado Novo em março de 1945?”. Eu havia trabalhado neste assunto em meu doutorado e orientei uma tese sobre banco de dados temporais. O mais interessante, para mim, foi a descoberta do fenômeno de perda de memória ligado ao armazenamento digital. Naquela época havia pouca evolução nas mídias de armazenamento mas fiquei sabendo que mais de 60% dos dados, na época, do governo americano não eram mais legíveis pois estavam armazenados em fitas de 7 trilhas! Os discos flexíveis de 8” são objetos de museu, hoje vocês já tentaram recuperara aquele arquivo importante em um disquete (o que é isto mesmo?) de 3 ½”? Impossível! Isto é uma terrível perda de memória digital. Estamos vivendo uma incrível situação: cada vez temos mais conteúdos digitais disponíveis e, ao mesmo tempo, estes conteúdos estão se tornando ilegíveis cada vez mais rapidamente. Vejam a situação dos CDs com fotos digitais, os melhores prometem uma duração de cerca de 100 anos, ótimo! mas quem terá, daqui a 100 anos, algum equipamento capaz de lê-los? Uma das atividades daquela Sociedade de História e Computação estava ligada à instalação e manutenção de laboratórios em que antigas máquinas eram mantidas operacionais para permitir a leitura de mídias obsoletas. A ideia não é de fazer um museu mas sim um laboratório equipado com equipamentos antigos e utilizáveis, é possível imaginar o custo desta aventura! Comparem esta situação com, por exemplo, os pergaminhos do Mar Morto ou com os papiros egípcios, de 3.000 a 5.000 anos e ainda legíveis. O assunto foi anotado como interessante, mas ficou armazenado na memória. 

Por outro lado o histórico das páginas Web tem sido mantido, de um lado pelas máquinas de busca que possuem um acervo gigantesco de páginas, mas com acesso restrito às suas máquinas de busca. Ao lado destas fontes há uma série de atividades que procuram preservar a história da Web em um país, região ou sobre um assunto. O acesso a estes dados pode estar limitado por razões de privacidade mas a história está preservada. Um exemplo bem conhecido de arquivamento e de acesso livre é o serviço Internet Archive que provê versões antigas de sites e arquivos disponíveis na Web (vale a pena experimentar suas diversas possibilidades).

Recentemente, com minhas atividades de pesquisa em bibliotecas digitais e em editoração e revisão aberta de artigos na Web, a idéia voltou: como vamos tratar da obsolescência das mídias digitais? Fisicamente a preservação do acervo em papel é missão da Biblioteca Nacional, no Brasil, e da Biblioteca do Congresso, nos USA. Para o acervo digital comecei a estudar o assunto a partir das palavras chave que me recordava daquela antiga conferência, e encontrei material muito interessante. No ano passado a Biblioteca do Congresso Americana e a National Science Fundation lançaram um edital ligado à Digital Information Infrastructure and Preservation Program (NDIIPP) para tratar exatamente deste problema. A missão desta iniciativa é:

Develop a national strategy to collect, archive and preserve the burgeoning amounts of digital content, especially materials that are created only in digital formats, for current and future generations.

Por outro lado as bibliotecas em todo o mundo estão trabalhando sobre o problema de normas para suportar a preservação digital, um tema realmente interessante e de grande atualidade. Do ponto de vista da pesquisa há enormes possibilidades tais como o desenvolvimento de mecanismos de consulta temporal, manipulação de metadados para a indexação deste conteúdo, formas de armazenamento diferencial e muitas outras possibilidades. 

Qual é a situação da preservação digital aqui no Brasil? Nas empresas, nas Universidades? No Governo? Esta consulta nós dá uma idéia sobre a situação. Vamos investir nesta linha de pesquisa?


Sapiens – Uma breve história da humanidade {Yuval Noah Harari} 2012

 


Este livro trata da nossa história. É uma leitura muito interessante para formar uma visão antropológica da evolução. Desde o início do desenvolvimento dos Humanos até os dias de hoje é feita uma descrição das lutas, da competição e da criatividade que permitiram o Homo Sapiens se tornou a espécie dominante. O importante é que a evolução está apresentada como uma sequência de revoluções: a cognitiva, a agricultural e a científica. Aliás é um modelo de revoluções parecido com o desenvolvido por Darcy Ribeiro com as Revoluções Agrícola, Urbana, do Regadio, Metalúrgica, Pastoril, Mercantil e Industrial. Este conceito é elaborado por Darcy Ribeiro no livro O Processo Civilizatório:

“Empregamos o conceito de revolução tecnológica para indicar que a certas transformações prodigiosas no equipamento de ação humana sobre a natureza, ou de ação bélica, correspondem alterações qualitativas em todo o modo de ser das sociedades {…} A sucessão destas revoluções tecnológicas não nos permite, todavia, explicar a totalidade do processo evolutivo sem apelo ao conceito complementar do processo civilizatório, porque não é a invenção original ou reiterada de uma inovação que gera conseqüências, mas sua propagação sobre diversos contextos socioculturais e sua aplicação a diferentes setores produtivos.”

O ponto fraco é o capítulo final que procura profetizar o futuro com a evolução da tecnologia, aqui considero que o razoável rigor acadêmico dos capítulos anteriores é prejudicado por uma visão limitada e pessimista das possibilidades tecnológicas

“Harari é brilhante […] Sapiens é realmente impressionante, de se ler num fôlego só. De fato, questiona nossas ideias preconcebidas a respeito do universo.” (The Guardian)

Um relato eletrizante sobre a aventura de nossa extraordinária espécie – de primatas insignificantes a senhores do mundo. O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras? Yuval Noah Harari aborda de forma brilhante estas e muitas outras questões da nossa evolução. Ele repassa a história da humanidade, relacionando com questões do presente. E consegue isso de maneira surpreendente. Doutor em história pela Universidade de Oxford e professor do departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, seu livro não entrou por acaso nas listas dos mais vendidos de 40 países para os quais foi traduzido.


 

Uma Breve História dos Estados Unidos {James West Davidson} 2015


 

Recomendo fortemente este livro. Apesar de conhecer bastante bem a história dos USA a leitura apaixonante dete livro me permitiu entender muito melhor sua cultura. Tradicionalmente os livros de história apresentam a evolução de uma forma abstrata, como se os eventos ocorressem por motivações ideológicas ou econômicas sendo os indivíduos apenas citados como agentes do processo. Neste caso o Dr. James West Davidson apresenta a história pela visão, ação e experiências de seus personagens. Uma leitura obrigatória.

Em capítulos curtos e instigantes, organizados em ordem cronológica, o livro dá vida a centenas de indivíduos – célebres e desconhecidos – que simbolizam momentos e questões norte-americanas cruciais: William Bradford (líder de um dos primeiros grupos de peregrinos a chegar no Novo Mundo), o destemido chefe sioux Touro Sentado; George Washington, Thomas Jefferson e Abraham Lincoln; Henry David Thoreau, Walt Whitman, Martin Luther King, a abolicionista Harriet Tubman, a sufragista Jane Addams, entre muitos outros nomes.

UMA BREVE HISTÓRIA DOS ESTADOS UNIDOS – LP&M 

Confissões: A Universidade ontem, hoje e amanhã

RousseauNão esperem algo inspirado em Rousseau, esta crônica é mais uma análise da história de nossas Universidades Públicas nestas últimas décadas; em particular de minha Universidade. O título procura mostrar que o conteúdo é muito mais decorrente da minha vivência pessoal do que de uma análise acadêmica baseada em dados quantitativos e análise formal. Mas considero que as experiências vividas devem ser analisadas com muito cuidado pela sua real contribuição. As análises, mesmo as ditas metodológicas e rigorosas, sempre tem o direcionamento ideológico dado pela seleção dos dados a serem analisados. Uma seleção de dados implica, sempre, em uma posição do analista. Apenas recentemente o conceito de big data tem permitindo que algoritmos “a la Google” processem gigantescos volumes de dados sem a seleção prévia dos mesmos. Mas ainda neste caso a interpretação das regras descobertas necessita da compreensão e da interpretação humana, que não é isenta da visão de mundo do pesquisador. Desta forma minha contribuição para a compreensão da evolução da Universidade no Brasil, e em particular da área da Computação, concentra-se na narração de um a experiência pessoal e de sua interpretação.

Mas qual o motivo desta crônica? Estou me propondo fazer uma análise crítica das conquistas obtidas e dos desafios a que estamos sendo submetidos. Para podermos projetar o futuro é importante que compreendamos o caminho que nos levou à situação atual. Da mesma forma que o processo de análise psicológica permite a uma pessoa conhecer melhor sua mente, seus problemas e enfrentar as causas de suas dificuldades as instituições precisam desta análise profunda e crítica. Uma instituição não sendo um ente racional não possuía esta capacidade, apenas seus membros podem fazer uma análise de suas experiências. 

Os primórdios da computação na Universidade

Vamos começar a análise pelo relacionamento da Universidade com seus professores. Quando eu era aluno da Escola de Engenharia da UFRGS a grande maioria das pessoas considerava que um bom professor de engenharia era um profissional de engenharia bem sucedido que vinha “ensinar” para os alunos como se procedia na vida prática. Isto porque este profissional “sabia como se fazem as coisas”. Os poucos, ou pouquíssimos que só estavam ligados ao ensino eram chamados de “leitores de livros”. Tive um professor que repetia fastidiosamente um livro sobre máquinas elétricas, há anos, o melhor aluno (para este professor) era um colega que acompanhava pelo livro e funcionava como “ponto” ditando as variáveis que o mestre se esquecia… A inovação era nula. Isto começou a mudar quando alguns, poucos, professores da Engenharia Elétrica voltaram de um mestrado no ITA e passaram a dar ótimas aulas, com fundamentos consistentes. Estes professores foram a minha motivação para gostar da pesquisa. Junto com o Instituto de Física, naquela época um dos poucos locais da Universidade onde havia pesquisa, estes professores ofereceram cursos extras de matemática e fundamentos de física para eletrônica (era o início dos semicondutores). Isto porque os professores ditos “práticos” nem conseguiam entender o que era uma transformada de Laplace.

Alguém acha que poderíamos querer ter indústria competitiva, ou qualquer tipo de importância no cenário internacional? Naquela época entrava-se para a Universidade por convite do “catedrático”. Eu já estava entusiasmado pela pesquisa e passei a ensinar, só ensinar, no Departamento de Física e Matemática da Escola de Engenharia. No primeiro ano uma especialização em Análise Matemática, o que me valeu até hoje. Muito depois vieram os concursos em que fui aprovado para Professor Assistente e para Professor Titular. Ai vocês já vem o problema da época, eram engenheiros ministrando aulas de Física e de Matemática, só podia ser transmissão de conhecimento. Logo surgiu o regime de Tempo Integral e Dedicação Exclusiva – RETIDE – e fui dos primeiros a estar todo o tempo na Universidade. Naquela época quando alguém perguntava: “Onde trabalhas?” e a resposta era: “Na Universidade!” vinha logo: Sim, dás aula, onde trabalhas mesmo?”. A Universidade era um “bico”, um complemento extra de outras atividades.

O ambiente era basicamente estudar os livros, não havia a biblioteca na Web da CAPES, aliás ainda não haviam inventado a Web, e as revistas disponíveis que eram limitadíssimas. Quando vinha um raro professor de uma Universidade no exterior só tínhamos a possibilidade de escutar o que faziam lá e nos atualizarmos. Ainda hoje há muitos colegas, que apesar das mudanças (que veremos a seguir) continuam com a visão colonial de que somente as publicações no exterior são boas. Um dos poucos mestrados disponíveis próximos da área era o de Física Experimental, me inscrevi no mesmo. Alguns colegas saíram para fazer mestrados no Rio de Janeiro. Não havia sequer um Doutorado em Computação no Brasil e acredito que os dois mestrados disponíveis eram os da UFRJ e da PUC do Rio. Quando voltaram foi iniciado o Mestrado em Ciência da Computação, uma associação entre o Centro de Processamento de Dados e o Instituto de Física. Notem a peculiaridade desta associação: de um lado um órgão técnico da Universidade, que era responsável pelas aulas de Computação e pelo outro um Instituto de Ensino e Pesquisa. Ainda era a visão de que “quem faz sabe, quem não faz ensina” no lado da Computação/Engenharia. Mudei para o novo mestrado. Notem que naquela época alguém um professor com mestrado era credenciado como professor de Pós-graduação em nível de Mestrado! 

A evolução

Mas as coisas começaram a mudar, iniciamos a desenvolver projetos, alguma pesquisa começou. Nesta época o grupo de Banco de Dados, em um projeto conjunto com a Alemanha, desenvolveu do zero um SGBD, o MINIBAN. Começamos a ter competências mais formais e a ter capacidade de desenvolver tecnologia com base conceitual sólida. Neste ponto começaram as publicações destes resultados. No início no Brasil, depois na Argentina e Chile que eram consideradas publicações “internacionais”. A próxima etapa foi a formação dos professores em nível de doutorado, fizemos uma escala de saída e praticamente todos foram, os primeiros para o Rio de Janeiro, os demais para o exterior. Ai as coisas se aceleraram, a pesquisa ganhou fôlego, a inserção internacional aconteceu e a exigência de qualidade atingiu níveis compatíveis com o cenário mundial. O processo de avaliação da CAPES, para Instituições, e do CNPq para pesquisadores atingiram um ponto em que são referências mundiais. Hoje para entrar como professor em nosso grupo (e nos grupos de excelência no Brasil) o mínimo exigível é o doutorado e boa demonstração de produção. Nossos alunos de doutorado praticamente sempre tem um período de um ano de trabalho em laboratório no exterior e tem boas publicações. Parece que a guerra foi ganha. Inserção internacional, trabalhos de qualidade, reconhecimento pelos melhores centros de pesquisa no mundo como parceiros de qualidade.

A crise

Agora surgem os fantasmas, a Alemanha desenvolveu um processo de competição e selecionou um número reduzido de Universidades para serem os centros de excelência. Uma Universidade Huboldtiana (ver) é cara, mas essencial para a formação de um núcleo de pesquisadores de alta qualidade. Criou-se no Brasil um mito de que uma Universidade para ser boa deveria seguir o modelo criado por Humboldt de associação estreita entre pesquisa e ensino. Muitas Universidades que não têm condições para implantar este modelo de alto custo se sentem inferiorizadas se forem consideradas como Universidades de Ensino. É preciso ter clara a visão que tanto uma Universidade de Pesquisa como uma Universidade de Ensino são essenciais se forem de ótima qualidade e não vendedoras de títulos acadêmicos.

Por outro lado foi criada a visão errônea de que a ascensão social é feita pelo título universitário. Esta percepção foi desenvolvida por uma interpretação inadequada de qual é a variável independente. Nos tempos em que comecei a descrever o processo de qualificação da Universidade as famílias de maior nível econômico tinham seus membros com títulos universitários. Criou-se a visão de que era a titulação a variável independente, mas na realidade é o contrário que acontece: eles tinham os títulos acadêmicos por terem recursos financeiros para enviá-los e mantê-los na Universidade. A conclusão foi: “Devemos abrir as portas a todos para que entrem na Universidade, assim poderão ter a desejada ascensão social”. Mas um título acadêmico de uma Universidade fraca ou um título acadêmico em uma boa Universidade de um estudante fraco hoje não serve para nada.

Como escreveu José Goldenberg:

“Daí a necessidade de manter universidades de alto nível, isto é, centros de estudos, pesquisas e inovação, como é feito na Europa há quase mil anos. São as grandes universidades de hoje, algumas delas no Brasil, que produzem as novas ideias e novas tecnologias que vão dar, amanhã, origem a empreendimentos comerciais, e não o contrário. É uma ilusão esperar que elas, por si sós, modernizem o sistema produtivo, mas precisam estar preparadas para responder às demandas da sociedade.  É por essa razão que qualquer medida que leve à redução da qualidade e do potencial das universidades brasileiras, como a criação de cotas raciais, por exemplo, é equivocada”

Universidade não é o local para a recuperação de dívidas históricas e sociais, por mais válidas que sejam estas dívidas. Minha posição é que estamos enfrentado uma das maiores crises da Universidade Brasileira, pois nossos políticos não estão tratando do essencial do problema. A causa principal é que deixamos o ensino público decair, pagamos muito mal aos nossos professores do Fundamental e do Médio. Voltando ao início da crônica, nos anos 60 e 70 não havia grande diferença entre os alunos que ingressavam na Engenharia vindos do ensino público ou do particular. Um ótimo colégio público de Porto Alegre, o Julho de Castilhos ou Julinho, era um dos grandes formadores das lideranças gaúchas. O tempo passou e o ensino básico público foi sucateado. Recentemente entrou um aluno cotista com UM acerto em matemática na Engenharia, depois melhoraram um pouco os critérios. Por mais esforços que sejam feitos não há como recuperar este déficit em Ciências Exatas na Universidade.

Pior se passa em Português, a capacidade de abstração e de representação de conceitos precisa se desenvolver ao longo dos anos. Em um destes programas de “universalização” querem impor uma taxa de conclusão de 95% dos ingressantes, só se for implantada a progressão continuada, sem possiblidade de reprovação na Universidade, pois precisaríamos de cerca de 0,99% de aprovação em cada disciplina para atingir esta meta final. Esqueceu-se o princípio da qualidade e do esforço pessoal. Alguém disse que a famosa frase de Churchil: “Blood, Toil, Tears and Sweat” foi convertida no Brasil para “Carnaval, Cerveja e Suor”. Olhem como modelo a carreira do brilhante ministro do Supremo o Joaquim Barbosa (Wikipédia), é o exemplo de que dedicação e esforço recompensam. Mas a reabilitação do Ensino Público não está na agenda de políticos que tem como horizonte a próxima eleição.

A solução

Minha proposta é que a solução está em dar condições plenas para cada um de acordo com sua capacidade e esforço. A solução para a recuperação de dívidas históricas e sociais da Sociedade deve ser real e não uma tentativa superficial de oferecer acesso à Universidade. Isto (a possibilidade de efetuar estudos até o mais alto nível de sua capacidade) deve ser independente da situação socioeconômica da família do estudante. O Ensino Público Fundamental e Médio precisa ser valorizado. Em nosso estado, RS, dão-se incentivos fiscais para fábricas de cigarro e para a plantação de fumo, mas não para o Ensino. Os alunos devem ser motivados e acompanhados desde o início dos estudos e os mais dedicados e com maiores resultados devem receber o apoio do Estado para irem para as melhores Escolas. Se inicialmente não for possível levar todas as Escolas do Ensino Público a um patamar mais elevado devem ser escolhidas as mais promissoras como Centros de Excelência. Todos, devem ter a possibilidade de atingir, com apoio educacional adequado para suprir as deficiências decorrentes de um meio desfavorecido, o nível mais alto a que puderem e para o qual se esforcem e tiverem capacidade. 

Constituição do Brasil

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
... ”.

Para assegurar esta igualdade os meios financeiros devem ser alocados a todos alunos que demonstrem qualidade e desempenho sem distinção de qualquer natureza. Cada um deve ser exclusivamente dependente de sua capacidade e esforço e não de suas condições econômicas ou sociais para progredir. Minha visão é que é obrigação do Estado de dar estas condições.

Adendo para os dias de hoje

Hoje há algo que me preocupa é um retorno para aquela visão inicial de práticos ensinando: há cursos fazendo a propaganda de serem muito orientados para o mercado. Seus professores são pessoas que atuam no mercado e seus alunos teriam uma inserção rápida. Isto é um retorno aos tempos antigos? Acredito que é uma consequência da crise no trabalho e uma falta de competitividade das empresas brasileiras. Certamente esta formação é uma orientação tecnológica para empresas locais e sem competitividade internacional. Certamente os egressos não são os candidatos para trabalhar em um Google, Facebook ou empresas realmente competitivas. Nem serão capazes de criar novas empresas de tecnologia de ponta no mercado mundial. Certamente devem existir IES com orientação tecnológica orientadas para o mercado, mas devem existir centros de excelência para a formação dos futuros líderes do mercado. 


Memória de 1G, tunel do tempo!

 

 

Imaginem: em 2004 uma memória de i Giga para máquina fotográfica custava apenas 499,99 dólares dos Estados Unidos. Hoje este preço seria US$ 630,30 compensada a inflação.

 

Hoje a menor que se encontra no mercado custaria US$ 12.95, pelo câmbio do dia. Que evolução! Pena que o mesmo não tenha acontecido com os automóveis.