A mentira do gasto excessivo em ensino superior no Brasil

LivrosEstamos cansados de ouvir e de ler que o problema do Brasil é o gasto excessivo no ensino superior. Isto não é verdade, em uma palestra sobre a Universidade do Futuro, aqui na UFRGS, encontrei este documento da OECD, portanto acima de suspeitas de partidarismo, Public spending on education DOI:10.1787/f99b45d0-en. Aqui está bem clara a distribuição dos recursos públicos em educação: 3,3% em ensino terciário (superior) e do primário até o não terciário (fundamental e médio) 12,8%. Somo o terceiro país da análise que mais gasta com o ensino pré terciário. Está na hora de realizarmos estudos mais profundos sobre qual é a real razão dos problemas do nosso ensino. Este é um exemplo claro da era da pós-verdade: usam afirmações que apoiem suas ideias sem buscar a verdade nos dados!

Para mim o problema está bem caracterizado:

  • Modelo de ensino centrado em aulas, número de horas de aulas, tanto para o modelo de negócio quanto para avaliar a cobertura do curso.
  • Falta de tempo dos alunos para desenvolverem estudo complementar ou desenvolver trabalhos fora das aulas. É a visão de que se aprende na aula e não que a aula é a apresentação do tema e a motivação para o estudo.

As causas deste problema são:

  • Incapacidade em entender que o projeto de ensino deve ser o desenvolvimento da capacidade de auto estudo e a capacidade de crítica e de reflexão. Daí decorre a deformação de avaliação de cursos por horas e conteúdos e cobrança e pagamento por horas-aula. Hoje está em andamento uma absurda discussão sobre quantos minutos deve ter uma hora-aula…
  • A falta de entendimento que um conteúdo básico universal é essencial, não adianta um amplo espectro de conteúdo quando o essencial de Português e Matemática não são dominados.

Dedicação completa de alunos ao estudo.

  • Bolsas de permanência
  • Avaliação real do desempenho
  • Seleção dos melhores alunos

Mudança nos critérios de avaliação

  • Acabar com as provas “decoreba”
  • Avaliação de atividades individuais dos alunos
  • Projetos sobre problemas complexos
  • Participação proativa dos alunos

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Avaliação da CAPES, Vestibular e QUALIS

Logo da CAPESEstava pensando sobre a avaliação realizada pela CAPES dos programas de pós-graduação. Tenho escrito bastante sobre o assunto, afinal a pesquisa e o ensino em Computação é minha atividade essencial. Um dos textos publicados foi sobre Individualismo ou o QUALIS e a Avaliação onde me preocupava com o problema da utilização do QUALIS para avaliações de pessoas, o que é dito como uso inadequado pela CAPES. Mas agora estava pensando sobre o que acontece, então me surgiu a analogia com o vestibular. Este exame foi criado para selecionar os candidatos para a Universidade. Qual seu real objetivo? No início era evidente: avaliar o real conhecimento dos candidatos. Quando a competição começou a aumentar surgiram os cursinhos, segui um dos primeiros aqui em Porto Alegre. Como funcionavam estes cursinhos? Eram aulas ministradas por professores bem conhecidos no secundário ou mesmo nas universidades que ministravam aulas revisando e explicando os fundamentos e os conteúdos das disciplinas. Começavam com o primeiro ano do secundário, seguiam para o segundo e terceiro. Era de fato um condensado do secundário tirando as dúvidas e  procurando aumentar a compreensão dos candidatos. O exame vestibular era textual, com questões que deveriam ser respondidas com textos e cálculos, um verdadeiro exame. Ai surgiu um problema: com o aumento dos candidatos o modelo não escalava! O vestibular passou a ser composto por questões de cruzinha. Nesta época eu participava tanto da Comissão de Vestibular quanto do CPD da UFRGS, conheci bem o problema nos dois sistemas: fiz o vestibular com questões textuais e participei do processo do vestibular com múltiplas provas de escolha simples ou múltipla. Ai os cursinhos degeneraram, passaram a ser treinamentos sobre a melhor forma de responder as questões. O treinamento são verdadeiras gincanas. As aulas, de um ponto de vista tradicional, são sessões de teatro ou de circo. Certamente a qualidade do processo de seleção piorou, ou se degradou. 

 Com a avaliação dos programas de pós-graduação se passou o mesmo. Também participei de toda a evolução. No início era feita uma avaliação detalhada de cada programa, uma comissão visitava o programa, entrevistava professores e escolhia alunos ao acaso para entrevistas individuais. As bibliotecas, salas de aula, equipamentos eram analisados. Havia um julgamento. Ai houve um aumento gigantesco de cursos de pós-graduação (mais tarde farei uma análise comparativa com outros países) e o sistema, novamente, não escalava! Já vimos isto antes… Conclusão: é preciso achar uma forma de avaliar os programas sem gastar muito. Foi, então, criada a obsessão pela métrica das publicações. E ai surgiu a distorção. Em um texto anterior escrevi:

Há uns meses avaliei um artigo internacional e, como sempre faço, realizei uma busca na Web para encontrar as demais publicações do autor. Hoje existe uma enorme pressão para avaliar os pesquisadores por suas publicações e, muitas vezes, pela quantidade delas. Esta pressão leva muitas pessoas a uma atitude que chamo de “mass publication process” onde o mesmo conteúdo é maquiado para parecer diferente e é publicado várias vezes. Por isto um revisor responsável precisa verificar o grau de originalidade de um artigo antes de emitir um parecer conclusivo. Fiquei impressionado pela quantidade de publicações encontradas daquele autor nos últimos dois ou três anos! Analisando com mais cuidado descobri que em apenas uma conferência ele tinha 7 publicações registradas no DBLP, 6 em outra e 5 em uma terceira. Ao analisar os artigos deu para ver que, agregados os de cada conferência, dariam um  artigo adequado e denso. Como os artigos foram estrategicamente distribuídos para vários workshops associados e para a conferência principal acabaram sendo aceitos. Será que este pesquisador é melhor por ter 18 artigos nestas conferências, além de mais umas 12 variações sobre o mesmo tema, do que seria se tivesse publicado dois ou três artigos densos em vez de 30 pontuais tratando, maquiadamente, do mesmo assunto?

Uma justificativa foi que era preciso achar uma métrica objetiva para realizar a avaliação, isto é, fugir da responsabilidade do julgamento. Mas neste caso nenhuma métrica é objetiva, os dados escolhidos são subjetivos e ideológicos. Hoje há uma visão de que a única cois que vale são publicações. Agora me surgiu uma ideia: não seria melhor colocar uma montanha de dados para um algoritmo de ‘superhuman’ DeepMind AI e verificar os resultados? A menos que a resposta fosse 42… Como vemos há uma tendência a perdermos o foco de qualquer coisa e procurar a solução mais fácil e barata. Aliás, há a famosa frase sobre os caminhos:

“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem”.

É isto que realmente ocorre, achar a qualidade é essencial, achar um método que escala é fácil mas de menor qualidade. Esta qualidade desejada se consegue trabalhando em bons problemas e com grupos consistentes. A escolha destes problemas reais é essencial, a criação de grupos hierárquicos para trabalhar com estes problemas é essencial. Um assunto que precisa ser discutido é a diversidade cultural e de perfis de trabalho na pós-graduação. Atualmente está aceito que a diversidade nos grupos sociais e acadêmicos é um dos melhores fatores para aumentar a eficiência e a criatividade. Culturas, gêneros e opiniões diferentes favorecem o convívio e abrem novas possibilidades para o tratamento dos temas de trabalho. Pergunto: “Por que isto não acontece nas pós-graduações?”. O consenso é que só devem participar dos programas professores-pesquisadores com um número alto de publicações em journals com alto fator de impacto. Mas um grupo criativo é algo bem diferente. Os coordenadores de programas de pós-graduação expurgam ótimos professores (que poderiam ministrar ótimas aulas) para aumentar os índices CAPES. Isto é uma exclusão. Aqueles que são dotados para a implementação também são excluídos, sobram apenas os publicadores. Com este comportamento perdemos muitas pessoas que seriam importantes para a formação de nossos alunos e para o desenvolvimento dos projetos. Isto sem contar com a criatividade oriunda da diversidade de perfis. O ponto central não é a qualidade e criatividade do grupo, mas sua adequação à bibliometria avaliativa. Se quisermos qualidade real será preciso uma profunda mudança em nossos critérios.

Resumindo: precisamos de bons problemas, grupos com diversidade e qualidade, hierarquia na pesquisa e avaliação por julgamento. Mas como este dito anônimo retrata:

As Universidades e os cemitérios são refratários às mudanças, os que ali estão não querem se mover.

A parte disto considero que estamos dando a mensagem errada para os jovens, tanto alunos quanto pesquisadores. O importante não é a contagem de artigos, mas a pesquisa de qualidade. Entendo que dependemos do dinheiro da CAPES e que devemos nos preocupar com a avaliação, é o caso de fazer o que quem paga quer (não vou considerar profissões assim…). Mas a avaliação deveria ser consequência de uma boa pesquisa e não obtida por regras.

 

A Grande Saída {Angus Deaton} 2013

Capa do livro "A grande saída"

Vencedor do Prêmio Nobel de Economia analisa como populações escaparam da pobreza e por que as desigualdades ainda são tão presentes no cenário global. Angus Deaton afirma que vivemos melhor hoje do que em qualquer outro período da história. As pessoas são mais saudáveis, mais ricas e a expectativa de vida continua a aumentar. Paradoxalmente, o fato de tantos indivíduos terem conseguido escapar da pobreza também gerou desigualdades; e a disparidade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento se estreitou, mas não desapareceu. Em A grande saída, um dos maiores especialistas em estudos sobre pobreza recua 250 anos para traçar a impressionante história de como diversas regiões do mundo vivenciaram um progresso significativo e, assim, abriram abismos que levaram ao cenário extremamente desigual de hoje. O estudo aprofunda-se nos padrões históricos e atuais por trás das nações ricas e com boas condições de saúde, e aborda o que é preciso fazer para ajudar os países que ficaram para trás. Deaton descreve as vastas inovações e os retrocessos penosos para o bem-estar. De um lado, há a eficácia dos antibióticos, o controle de epidemias, vacinação e água tratada; do outro, é preciso enfrentar a calamidade da fome e a epidemia da aids. O economista analisa o caso dos Estados Unidos, uma nação bastante próspera por décadas, mas que hoje vivencia um aumento progressivo da desigualdade, e examina como o crescimento econômico da Índia e da China aprimorou a qualidade de vida de mais de um bilhão de pessoas. Para ele, a ajuda internacional tem se mostrado ineficaz e até mesmo prejudicial, e seria preciso investir em esforços alternativos que permitam de fato que os países em desenvolvimento encontrem sua grande saída da pobreza. A distribuição de riqueza não é equitativa nem proporcional. Está na mão das nações inverter as disparidades, de modo a abrir caminho para que outros também tenham acesso à riqueza e à saúde. Um poderoso guia que visa ao bem-estar de todas as nações, A grande saída demonstra como as mudanças no sistema de saúde e nos padrões materiais são capazes de transformar a vida de bilhões de pessoas.

Este livro apresenta uma visão complementar àquela descrita no livro O Capital no Século XXI {Thomas Piketty} descrevendo a evolução da riqueza e da saúde ao longo da etapa moderna da evolução econômica. O autor evita a análise exclusivamente econômica e mostra como a falta de gestão e a corrupção (bem nossa conhecida) evitam que países menos desenvolvidos atinjam o nível de qualidade dos países centrais. O livro desmonta a solução trivial que simplesmente distribuindo recursos pode-se resolver o problema da pobreza. Além disto mostra como dentro dos países, inclusive nos Estados Unidos, os 1% mais ricos conseguem se apropriar de uma quantidade enorme da riqueza nacional. Ao final da leitura ficamos com a convicção de que é preciso uma reforma completa e profunda nos mecanismos de cooperação internacional e de uma reversão das estruturas internas aos países na decisão sobr a melhor aplicação dos recursos. Uma leitura obrigatória nos dias de hoje.

Legitimidade social da ciência

Em 10 de Outubro de 2017 a FAPESP publicou este texto: Ciência enfrenta crise de legitimidade em âmbito mundial

Agência FAPESP – A ciência enfrenta uma crise de legitimidade de âmbito mundial. Cresce o questionamento sobre até que ponto os recursos públicos investidos no financiamento de pesquisas são, de fato, revertidos em benefícios à sociedade. Segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, no Brasil, diante do atual cenário de escassez, essa discussão tende a se tornar ainda mais aguda nos próximos anos.

CiênciaO problema é real e global. Com recursos escassos a decisão política de onde aplicá-los tem que ser considerada com muita atenção pelos pesquisadores. 

“Vai ficar ainda mais difícil para a ciência competir por recursos com o setor de saúde pública, com a educação, com a construção de rodovias e também com outros gastos menos defensáveis. Isso vai exigir dos pesquisadores uma maior conexão com as necessidades e os interesses dos contribuintes. É uma preocupação legítima da sociedade saber o que será feito com o dinheiro dos impostos e é nossa obrigação explicar”, disse Brito Cruz no debate “Crise do financiamento em ciência no Brasil”, realizado em 6 de outubro pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pelo jornal Folha de S.Paulo.

Esta realidade precisa ser entendida e os nossos grupos de pesquisa devem mostrar os resultados de seus trabalhos de forma perceptível para a sociedade. Uma recente publicação da Nature enfatiza este ponto no editorial Researchers should reach beyond the science bubble onde escreve explicitamente que “Scientists in the United States and elsewhere ought to address the needs and employment prospects of taxpayers who have seen little benefit from scientific advances”. O Cnpq tem exigido nas prestações de conta a descrição em termos compreensíveis para o público geral o que é a pesquisa e seus resultados. Recentemente estive lendo este texto da The Netherlands Organisation for Scientific Research (NWO) onde é deixado bem claro que o conhecimento deve ser tornado público e de forma a ser utilizado pela sociedade. 

Knowledge Utilisation in the Physical Sciences
  
It is important to that scientific knowledge and skills are also applied outside of academia and/or in other disciplines of science. In short: knowledge that is gained should also be utilised. For that reason, knowledge utilisation plays a role as a selection criterion in all of NWO’s funding instruments. Physical Sciences is eager to help researchers form the contours of knowledge utilisation in their research proposals.

Como venho escrevendo há tempos precisamos mudar os critérios de avaliação das pesquisas e deixar a bibliometria como somente uma ferramenta de apoio ao processo de julgamento. Na Holanda, como visto acima, está claramente escrito que a utilização do conhecimento é utilizada como critério de avaliação dos projetos. Há até um guia sobre o assunto: Guide to Knowledge Utilisation. Petições, marchas, abraços às Universidades não vão adiantar muito enquanto não convencermos a Sociedade da relevância da Pesquisa. A Utilização dos conhecimentos na solução de problemas reais não implica nem em perda de qualidade da pesquisa nem em enfraquecimento da pesquisa básica. Por um lado precisamos trabalhar em problemas reais e por outro é preciso um sólido embasamento formal para garantir a qualidade da pesquisa. Está na hora de mudarmos nosso comportamento antes que seja muito tarde pois cada vez vemos mais neo-luditas atacando a Ciência.

O Capital no Século XXI {Thomas Piketty} 2013

O Capital no Século XXI

O Capital no século XXI (Le Capital au XXIe siècle) é um livro de economia escrito por Thomas Piketty e publicado pela primeira vez em França em 2013 pela editora Éditions du Seuil. Neste livro, o Autor estuda a dinâmica da repartição dos rendimentos e da riqueza nos países desenvolvidos desde o século XVIII. Para o Autor, a repartição das riquezas constitui um problema político fundamental para a estabilidade das sociedades democráticas modernas, e esta questão é muitas vezes discutida sem números precisos. Este estudo é baseado numa compilação de variados dados históricos disponíveis, por exemplo dos arquivos fiscais franceses. Wikipedia

A Humanidade nunca esteve em um período em que as condições de vida foram tão boas quanto as atuais. As pessoas são mais sudáveis, têm maior esperança de vida e acesso a recursos inimagináveis no passado próximo. Nos últimos 250 anos ocorreu um desenvolvimento incrível, mas por outro lado criou-se um abismo entre as nações ricas e as mais desfavorecidas. Mesmo nas nações ricas a concentração de renda cresceu, nos últimos anos de forma absurda. A automação está destruindo enormes possibilidades de trabalho manual, a Inteligência Artificial consegue substituir milhões de trabalhos de nível intelectual. O resultado é que os lucros dos detentores destas tecnologias aumenta e não são redistribuídos. O trabalho de Piketty mostra, com dados reais, que a desigualdade de renda atinge valores extremos. Nos Estados Unidos, em 2010, os 10% mais ricos detinham 70% do capital com um coeficiente de Gini de 0,73. Os defensores deste modelo concentrador usam o argumento da melhoria global da qualidade de vida para fugir da discussão da concentração de capital. Este é um assunto crítico que, se não enfrentado, vai nos conduzir a problemas extremos.

Para complementar a leitura sugiro fortemente que vejam o livro A grande saída {Angus Deaton} onde o autor evita a análise exclusivamente econômica e mostra como a falta de gestão e a corrupção (bem nossa conhecida) evitam que países menos desenvolvidos atinjam o nível de qualidade dos países centrais.

Repensando a universidade e a pós-graduação


Diversidade

Com a atual crise nas Universidades estou considerando a necessidade de repensarmos a pós-graduação. O corte de verbas é uma consequência do estado falido por despesas irresponsáveis e por roubos inimagináveis, isto todos sabemos. Mas qual o motivo de não serem poupados, ou pelo menos sofrerem menos algumas áreas? Certamente a Saúde e a Segurança estão na boca do povo como demandas sérias e principais. Por que não a Educação? Recentemente li um livro, estava em minha lista de leituras há muito tempo, sobre o Design Thinking. A ideia essencial apresentada neste livro é utilizar a forma de pensar de designers industriais para a modelagem de soluções criativas. O livro prega a análise multidimensional dos problemas com a inclusão de pessoas com múltiplas formações. Esta fase inicial precisa ser muito menos estruturada e contar com a participação livre de ideias, de criação de cenários (storytelling) e contato real com os usuários. Ou seja, descobrir no mundo real as necessidades a serem enfrentadas para soluções revolucionárias. Na Academia tudo isto me fez lembrar um dito bem impactante:

“As Universidades e os cemitérios são refratários às mudanças, os que ali estão não querem se mover”.

Será que não precisamos repensar o nosso comportamento? Devemos sair da Torre de Marfim e desenvolver atividades ligadas aos problemas reais? Isto não implica em perda de qualidade, apenas em tratar problemas de interesse da sociedade e não de problemas de interesse de pesquisadores e intelectuais. Afinal é a Sociedade que nos financia (ou deveria). Talvez o descolamento da Universidade e da Pesquisa com as reais necessidades das comunidades seja o motivo principal da crise global de financiamento. Se a Sociedade não tiver esta compreensão não haverá demanda social por recursos para a Pesquisa e para a Educação, e este é o motivador dos políticos. Por que irão se empenhar em alocar recursos escassos para uma área que os únicos defensores são os diretamente implicados? Ai é gerada a impressão de que defendemos interesses corporativos, a Sociedade não vê este setor como o setor essencial para o desenvolvimento e a superação da crise. Precisamos agir.

Um assunto que precisa ser discutido é a diversidade cultural e de perfis de trabalho na pós-graduação. Atualmente está aceito que a diversidade nos grupos sociais e acadêmicos é um dos melhores fatores para aumentar a eficiência e a criatividade. Culturas, gêneros e opiniões diferentes favorecem o convívio e abrem novas possibilidades para o tratamento dos temas de trabalho. Pergunto: “Por que isto não acontece nas pós-graduações?”. O consenso é que só devem participar dos programas professores-pesquisadores com um número alto de publicações em journals com alto fator de impacto. Mas um grupo criativo é algo bem diferente. Vejamos a sinopse do Livro Criatividade e Grupos Criativos de Domenico De Masi: 

A maior parte das criações humanas é obra não de gênios individuais, mas de grupos e de coletividades nos quais cooperam personalidades concretas e personalidades fantasiosas, motivadas por um líder carismático, por uma meta compartilhada. Hoje, mais do que nunca, todas as descobertas científicas e as obras-primas artísticas não decorrem do lampejo de gênio de um único autor, mas do aporte coletivo e tenaz de trabalhadores, troupes, teams, squadre, equipes. Não são mais do que etapas de um processo sem pontos de partida nem pontos de chegada, em que forças contraditórias como linhas retas e linhas curvas, razão e intuição incessantemente se alternam e entrelaçam. Talvez na sociedade pós-industrial esses dois opostos possam finalmente chegar a uma síntese feliz. Para isso, De Masi apela às neurociências, à psicanálise, à psicologia, à epistemologia e sobretudo à sociologia – compreendendo as dinâmicas secretas do processo criativo, quem sabe não se possa aumentá-lo e colocá-lo em sintonia com a eterna aspiração humana pela felicidade.

Está na hora de repensarmos nossos critérios excludentes. Os coordenadores de programas de pós-graduação expurgam ótimos professores (que poderiam ministrar ótimas aulas) para aumentar os índices CAPES. Isto é uma exclusão. Aqueles que são dotados para a implementação também são excluídos, sobram apenas os publicadores. Com este comportamento perdemos muitas pessoas que seriam importantes para a formação de nossos alunos e para o desenvolvimento dos projetos. Isto sem contar com a criatividade oriunda da diversidade de perfis. O ponto central não é a qualidade e criatividade do grupo, mas sua adequação à bibliometria avaliativa. Se quisermos qualidade real será preciso uma profunda mudança em nossos critérios.

Lendo a Communications of the ACM de outubro de 2016 encontrei um artigo magnífico: Addind Art to STEM. Neste artigo um dos bloggers da CACM trata da forte interação e resultados obtidos com a combinação da Música com a Computação. Tenho tratado eventualmente deste tema em posts e em um artigo para o Encontro sobre os Grandes Desafios 2006-2016 da SBC. Cada vez mais estou convencido que precisamos refundar o nosso modelo corporativista de considerar que as areas de conhecimento são herméticas e só os que aderem a esta visão podem ser os eleitos. Leiam este trecho do artigo citado:

“Specialization is necessary to garner expertise, but striving and working to become a skilled multidisciplinary generalist creates a whole person that can create, cope, build, refine, test, and use in practice. Plus, they can explain difficult concepts to novices, and carry the magic of combining art and technology to others. In other words, they are good teachers, too. That has been my goal in life, and I think I am succeeding (so far)”.

Author: ACM Fellow Perry R. Cook is Professor (Emeritus) of Computer Science, with a joint appointment in Music, at Princeton University. He also serves as Research Coordinator and IP Strategist for SMule, and is co-founder and executive vice president of Kadenze, an online arts/technology education startup.

Tudo o exposto acima justifica a necessidade de aplicarmos o Desing Thinking, onde a diversidade de percepções é essencial, para encontrarmos problemas reais sobre os quais possamos desenvolver ensino e pesquisa de real qualidade de pesquisa e com ampla visibilidade. A qualidade da pesquisa implica em trabalho tecnológico competente apoiado por uma sólida base conceitual e formal. Trabalhar com definições claras de problemas permite, por um lado, termos boas publicações indexadas e, por outro lado, mostrar para a Sociedade que somos de valor para o desenvolvimento. É preciso mudar a mentalidade que um diploma de  curso superior (graduação, especialização etc.) serve para  apenas promoção em alguma carreira pública e não para apoiar uma carreira promissora pessoalmente e de real interesse para a Sociedade.

Design Thinking {Tim Brown} 2010

Capa Design Thinking

Design Thinking é o conjunto de métodos e processos para abordar problemas, relacionados a futuras aquisições de informações, análise de conhecimento e propostas de soluções. Como uma abordagem, é considerada a capacidade para combinar empatia em um contexto de um problema, de forma a colocar as pessoas no centro do desenvolvimento de um projeto; criatividade para geração de soluções e razão para analisar e adaptar as soluções para o contexto. Adotado por indivíduos e organizações, principalmente no mundo dos negócios, bem como em engenharia e design contemporâneo, o design thinking tem visto sua influência crescer entre diversas disciplinas na atualidade, como uma forma de abordar e solucionar problemas. Sua principal premissa é que, ao entender os métodos e processos que designers usam ao criar soluções, indivíduos e organizações seriam mais capazes de se conectar e revigorar seus processos de criação a fim de elevar o nível de inovação.

Assim, ao utilizar métodos e processos utilizados por designers, o design thinking busca diversos ângulos e perspectivas para solução de problemas, priorizando o trabalho colaborativo em equipes multidisciplinares em busca de soluções inovadoras. Dessa forma, busca-se “mapear a cultura, os contextos, as experiências pessoais e os processos na vida dos indivíduos para ganhar uma visão mais completa e assim, melhor identificar as barreiras e gerar alternativas para transpô-las” . Para que tal ocorra, O Design Thinking propõe que um novo olhar seja adotado ao se endereçar problemas complexos, um ponto de vista mais empático que permita colocar as pessoas no centro do desenvolvimento de um projeto e gerar resultados que são mais desejáveis para elas, mas que ao mesmo tempo financeiramente interessantes e tecnicamente possíveis de serem transformados em realidade. Wikipedia

Há muito tempo tenho ouvido falar nesta metodologia ou forma de pensar soluções. Recentemente passeando por uma livraria ví este título e comprei. O texto é muito interessante, apenas é dated. A tradução brsileira é do livro original co copyright de 2010, nestes anos tuudo mudou. Olhem alguns trechos: “Os aplicativos do Android precisarão ser tão intuitivos e involventes quanto os da Apple ou da Nokia“, ” … servirá de base para s decisões referente às futuras ofertas de produtos da Nokia nos próximos 15 anos“, “nenhum model econômico poderia ter previsto o sucesso do MySpace e do Facebook”,  “A Roku, empresa sediada na Califórnia, fabrica um conversor que permite que as pessoas façam o download de um filme e o assistam em uma televisão comum“. É uma pena que o texto tenha tantas referências a tecnologias atuais da sua época. Por outro lado a essência é realmente muito impactante, tanto que deu origem a toda uma linha de publicações cursos e treinamentos.

A ideia essencial é utilizar a forma de pensar de designers industriais para a modelagem de soluções criativas. O livro prega a análise multidemensional dos problemas com a inclusão de pessoas com múltiplas formações. Esta fase inicial precisa ser muito menos estruturada e contar com a participação livre de ideias, de criação de cenários (storytelling) e contato real com os usuários. Ou seja, descobrir no mundo real as necessidades a serem enfrentadas para soluções revolucionárias. Na minha area, a Academia, tudo isto me fez lembrar um dito bem impactante:

“As Universidades e os cemitérios são refratários às mudanças, os que ali estão não querem se mover”.

Será que não precisamos repensar o nosso comprtamento? Demos sair da Torre de Marfim e desenvolver atividades ligadas aos probelams reais? Isto nõ implica em perda de qualidade, apenas em tratar problemas de interesse da sociedade e não de problemas de interesse de pesquisadores e intelectuais. Afinal é a Sociedade que nos financia (ou deveria). Talvez o descolamento da Universidade e da Pesquisa com as reais necessidades das comunidades seja o motivo principal da crise global de financiamento. Este livro deveria ser lido e meditado por todos os pesquisadores.