Sobre os programas de pós-graduação em Computação – Carta de Búzios 2007


Pesquisa e desenvolvimentoHá exatos dez anos, entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro de 2007, reuniu-se em Búzios um grupo de 19 pesquisadores, membros dos comitês da CAPES e do CNPq, da SBC – Sociedade Brasileira de Computação e da ABC – Academia Brasileira de Ciências. O objetivo da reunião foi analisar a evolução da área de Computação no Brasil, com vistas a um planejamento a curto, médio e longo prazo. Os participantes foram:

Alberto Laender
Ana Teresa de Castro Martins
Carlos José Pereira de Lucena
Clarisse Sieckenius de Souza
Claudia Bauzer Medeiros
Edmundo de Souza e Silva
Henrique Pacca Loureiro Luna
Jayme Luiz Szwarcfiter
José Carlos Maldonado
José Palazzo M. de Oliveira
José Roberto Boisson de Marca
Luis Fernando G. Soares
Marco Antonio Casanova
Nelson Fonseca
Nivio Ziviani
Paulo Cesar Masiero
Paulo Cunha
Philippe Navaux
Ricardo Anido
Teresa Bernarda Ludermir

Na época foram feitas algumas recomendações. É claro que passados dez anos algumas coisas evoluíram, mas ainda há muito a ser feito. Acredito que precisamos retomar a discussão e passar a considerar critérios múltiplos de avaliação com mais intensidade. Apesar da CAPES insistir constantemente que o uso do QUALIS é inadequado para a avaliação monodimensional dos pesquisadores, e ainda pior por uma janela de quatro anos de suas publicações, esta avaliação continua sendo corrente nos programas. O objetivo do QUALIS não é a avaliação dos programas mas a análise dos mesmos para qualificar a contribuição para o país. Em recente palestra (2017) do Presidente do CNPq na ABC ele deixou claro que na dimensão de publicações estamos muito bem, infelizmente nas dimensões de inovação e de tecnologia desenvolvida ainda falta muito a ser conquistado, então estas dimensões devem ser valorizadas. Outra dimensão importante  para a qualificação de um programa é a formação de recursos humanos, esta dimensão deve ser considerada na vida de um pesquisador. Deixo a vocês a leitura do documento e a verificação do que a comunidade realizou nestes 10 anos…


RECOMENDAÇÕES SOBRE AVALIAÇÃO E POSICIONAMENTO DA ÁREA DE COMPUTAÇÃO

A Computação é hoje onipresente e essencial para o desenvolvimento econômico e social do País. Cabe a uma instituição de ensino e pesquisa adiantar-se às necessidades futuras da sociedade e preparar adequadamente as próximas gerações para suplantar os desafios daí advindos. Uma visão clara da evolução da tecnologia, uma percepção adequada das necessidades da sociedade, a contínua adaptação da estrutura curricular e a motivação de jovens talentos são condições necessárias para levar a cabo esta missão. Estas afirmações adquirem uma maior relevância em áreas com alto impacto social e evolução acelerada, como é o caso de Computação.

Com este pano de fundo e dentro das atividades constantes de planejamento estratégico da área, entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro de 2007, reuniu-se em Búzios um grupo de 19 pesquisadores, membros dos comitês da CAPES, do CNPq, SBC e IEEE, com o objetivo de analisar a evolução da área de Computação no Brasil, com vistas a um planejamento a curto, médio e longo prazo. Esta reunião havia sido programada desde o início do ano de 2007.

Os principais tópicos abordados foram: os trabalhos dos comitês do CNPq e CAPES no último triênio; os estudos sobre a produção em ciência da computação, em andamento, para dar subsídios ao processo de avaliação (especialmente aquelas conduzidas na UFMG, na UNICAMP e no IEEE); o aperfeiçoamento do QUALIS em vigor, com especial atenção para a importância das conferências para a área; e a inserção da Computação na classificação das áreas da CAPES e do CNPq.

Um tema que permeou todas essas discussões foi a necessidade de avaliar a inserção internacional da área de Computação, através de comparações com programas de excelência na América do Norte e Europa. Pesquisadores da  UFMG e da UNICAMP apresentaram um exercício de análise de desempenho da área com este objetivo, utilizando algoritmos e programas de mineração de dados em grandes bibliotecas digitais mundiais e dados sobre formação de doutores, inclusive os da CAPES. O exercício foi estendido, em parte, a áreas tais como Física, Biologia, Engenharia IV e Matemática. A análise confirmou que a comparação entre áreas baseada em bibliometria é um problema de grande complexidade e pode levar a conclusões bastante distorcidas.

Os participantes propõem três recomendações gerais, dirigidas à SBC e aos atuais e futuros comitês de avaliação e assessoramento da CAPES e do CNPq. A primeira recomendação é de curto prazo e urgente e as outras duas são de médio e longo prazo.

Recomendação 1: Revisão dos indicadores da produção dos programas de pós-graduação e da metodologia de avaliação

Os participantes sugerem que o próximo comitê de área da CAPES revise, com urgência, a definição dos indicadores da produção dos programas de pós-graduação e, por conseguinte, o próprio documento de área.

A revisão do documento de área deve partir de uma análise comparativa vertical para avaliar a inserção internacional dos programas de pós-graduação da área, em parte já realizado, conforme mencionado. Em particular, os índices medindo a produção bibliográfica e o WebQUALIS da área devem: (1) incorporar periódicos de áreas afins, à semelhança de outras áreas, como Engenharia IV; (2) incorporar conferências, reforçando a importância fundamental dos anais de conferências como meio de divulgação dos avanços da área, sem a limitação de conter apenas aquelas observadas no triênio.

Após consolidar o novo documento de área, os participantes sugerem que o próximo comitê avalie se a atual implementação do sistema utilizado pela CAPES permite especificar os indicadores definidos no documento e, se for o caso, solicitem modificações no sistema.

Recomendação 2: Criação de um esforço permanente de desenvolvimento e aprimoramento de ferramentas e metodologias para avaliação do desempenho e do impacto da área

Os participantes sugerem a criação, no contexto da SBC, de um esforço permanente de desenvolvimento e aprimoramento de ferramentas e metodologias para a avaliação do desempenho dos programas de pós-graduação e da contribuição da área para o crescimento econômico e bem estar social do País. Ressalte-se que o esforço não se destina a classificar os programas de pós-graduação, que é atribuição da CAPES.

Quanto à avaliação do desempenho dos programas, os participantes sugerem que a SBC coloque à disposição dos coordenadores de pós-graduação recomendações que promovam uma melhoria na qualidade dos dados levantados pelos programas, especialmente dados padronizados sobre os veículos de publicação da área (inclusive conferências).

Quanto à avaliação do impacto da área, os participantes sugerem que a SBC promova a consolidação e complemente as pesquisas e estudos já realizados, principalmente pelo MCT, para determinar a necessidade atual e projetada de profissionais da área.

Recomendação 3: Análise do posicionamento da área de Computação no contexto das grandes áreas

Os participantes sugerem que o próximo comitê de área da CAPES e o Comitê Assessor de Ciência da Computação do CNPq analisem em profundidade sobre qual deve ser o posicionamento da Computação no contexto das grandes áreas adotadas pela CAPES e pelo CNPq, criando uma caracterização mais precisa que fortaleça a área.

A análise deverá avaliar inicialmente se Computação deve ser tratada como uma grande área ou não; caso a decisão seja não tratá-la, a análise deverá indicar se Computação deve pertencer à grande área de Ciências Exatas e da Terra ou à grande área das Engenharias. Por fim, independentemente do resultado, a análise deverá avaliar a adequação de subdividir a área de Computação em duas de tal forma que uma subárea acomode os programas atualmente classificados como de Computação e a outra subárea inclua programas com um forte viés de Computação, mas que atualmente são classificados como multidisciplinares.

The collaboration network of the Brazilian Symposium on Databases

Acabou de ser publicado o artigo sobre os 30 anos do SBBD, está em acesso livre em: http://rdcu.be/uguM

ArtigoAbstract
The Brazilian Symposium on Databases (SBBD) celebrated its 30th edition in October 2015. As the database community has evolved over the years, so has the data analysis area. To celebrate such accomplishments, this article goes over the SBBD history from distinct social perspectives. Overall, we investigate the complete SBBD co-authorship network built from bibliographic data of SBBD’s 30 editions, from 1986 to 2015, and analyze several network metrics, considering the network evolution over the three decades. In particular, we analyze the progress of the most engaged SBBD authors, the number of distinct authors, institutions, and published papers, and the evolution of some of the most frequent terms presented in the titles of the papers, as well as the influence and impact of the most prominent SBBD authors.
Keywords: Collaboration networks, Social networks, Databases, SBBD

Goethe, Saint-Hilaire e o Brasil

GoetheSaint-HilaireEm 3 de setembro de 1786 Johann Wolfgang Goethe saiu de Karslbad com destino ao sul, para a Itália. Li com muito interesse seu relato da viagem, apesar das dificuldades foi uma ida para a cultura. Já naquela época a cidade de Roma tinha dois mil anos de história. Acabo de ler o livro de Saint-Hilaire “Viagem ao Rio Grande do Sul” realizada em 1820, apenas 34 anos após a viagem de Goethe. Que horror! A descrição do que foi a viagem aqui pelos pagos é algo impressionante. Viagem em carretas, sem hospedarias, requisitando bois para tracionar a carreta, pirogas para atravessar rios, é realmente assustadora a visão! Aí dá para entender nossa situação atual, era mais do que primitiva a vida por aqui, a descrição da cultura dos gaúchos nos deixa tristes, guerreiros rudes sem visão do mundo. Nos outros livros, sobre as demais regiões do Brasil, a situação é semelhante. No sul, com a guerra da fronteira, a situação era muito pior. O Rei de Portugal e do Brasil criou a cultura dos “donos” das regiões e do patrimonialismo. Evoluímos materialmente bastante nestes quase 200 anos. O problema é que a cultura e o comportamento ético avançou menos, muito menos, do que a vida material. Certamente vivemos ao “bout du monde” no sentido ético e moral.

Hoje voltando da região de Gramado, Canela e Nova Petrópolis deu para traçar uma comparação com a descrição de Saint-Hilaire e as diferentes facetas do Brasil de hoje. Nesta Região das Hortências encontra-se o Parque das Esculturas Pedras do Silêncio que narra a história da imigração germânica por intermédio de esculturas em pedras. Ali tem-se a impressão de viver na Europa, qualidade de vida dos habitantes, segurança (os carros param antes das faixas de segurança e as pessoas te tratam educadamente) qual a diferença entre esta micro-região e o caos das grandes cidades e com a falta de civilitude geral?  A resposta é simples: a cultura do trabalho e da ética trazida pelos imigrantes europeus. Qual a solução para o Brasil? Educação de qualidade desde o fundamental; a primeira coisa com que se peocuparam os imigrantes foi conseguir um bom mestre-de-escola para ensinar seus filhos. Hoje foi necessária uma lei para coibir as agressões a professores no Brazil (com Z mesmo)! Precisamos urgentemente rever as bases de nossa cultura periférica com a valorização do culto à responsabilidade, fazendo a punição exemplar aos faltosos e criando a valorização do mérito. Já escrevi antes sobre o assunto em Mea Culpa! Será que sou culpado? lá lê-se:

Com a implantação do culto à mediocridade, à responsabilização dos outros pelas nossas falhas e fraquezas nunca seremos uma comunidade de excepcional qualidade. Nós, os professores, devemos ter consciência que estão nos manipulando com este conceito de culpa. Nós não somos culpados, culpados são os fracos e os desinteressados que não querem trabalhar pesadamente para atingir a vitória. Nossa responsabilidade é exigir qualidade e dedicação aos nossos alunos. Aqueles que são professores em Universidades públicas têm a responsabilidade adicional de não serem contagiados com esta falsa culpabilidade e mostrar aos alunos que eles são os que estão gastando recursos públicos e que têm a responsabilidade de dar “Blood, Toil, Tears and Sweat” como obrigação junto aos brasileiros que pagam impostos. No Brasil a famosa frase de Winston Churchill foi simplificada para “Sangue, Suor e Lágrimas” a palavra Toil desapareceu!

A mentira do gasto excessivo em ensino superior no Brasil

LivrosEstamos cansados de ouvir e de ler que o problema do Brasil é o gasto excessivo no ensino superior. Isto não é verdade, em uma palestra sobre a Universidade do Futuro, aqui na UFRGS, encontrei este documento da OECD, portanto acima de suspeitas de partidarismo, Public spending on education DOI:10.1787/f99b45d0-en. Aqui está bem clara a distribuição dos recursos públicos em educação: 3,3% em ensino terciário (superior) e do primário até o não terciário (fundamental e médio) 12,8%. Somo o terceiro país da análise que mais gasta com o ensino pré terciário. Está na hora de realizarmos estudos mais profundos sobre qual é a real razão dos problemas do nosso ensino. Este é um exemplo claro da era da pós-verdade: usam afirmações que apoiem suas ideias sem buscar a verdade nos dados!

Para mim o problema está bem caracterizado:

  • Modelo de ensino centrado em aulas, número de horas de aulas, tanto para o modelo de negócio quanto para avaliar a cobertura do curso.
  • Falta de tempo dos alunos para desenvolverem estudo complementar ou desenvolver trabalhos fora das aulas. É a visão de que se aprende na aula e não que a aula é a apresentação do tema e a motivação para o estudo.

As causas deste problema são:

  • Incapacidade em entender que o projeto de ensino deve ser o desenvolvimento da capacidade de auto estudo e a capacidade de crítica e de reflexão. Daí decorre a deformação de avaliação de cursos por horas e conteúdos e cobrança e pagamento por horas-aula. Hoje está em andamento uma absurda discussão sobre quantos minutos deve ter uma hora-aula…
  • A falta de entendimento que um conteúdo básico universal é essencial, não adianta um amplo espectro de conteúdo quando o essencial de Português e Matemática não são dominados.

Dedicação completa de alunos ao estudo.

  • Bolsas de permanência
  • Avaliação real do desempenho
  • Seleção dos melhores alunos

Mudança nos critérios de avaliação

  • Acabar com as provas “decoreba”
  • Avaliação de atividades individuais dos alunos
  • Projetos sobre problemas complexos
  • Participação proativa dos alunos

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CNPq – Recursos para ciência, tecnologia e inovação são recompostos


CNPq

Portaria publicada no Diário Oficial, nesta segunda-feira, 16, do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, o Governo Federal remanejou para uma nova fonte, garantida pelo Tesouro Nacional, os recursos para ciência, tecnologia e inovação que haviam sido transferidos de fonte, pelo Congresso Nacional. A iniciativa reverte a decisão do Congresso, feita no final de 2016, quando aprovou a Lei Orçamentária Anual de 2017 com a transferência para a Fonte 900 (cujos recursos são condicionados à arrecadação) de cerca de R$ 1,7 bilhão destinados ao fomento à pesquisa no País, incluindo R$ 1,1 bilhão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Com a Portaria publicada, esses valores passam a constar na Fonte 188, que tem recursos assegurados para empenho.

“Essa é uma resposta positiva do Governo Federal ao movimento articulado entre comunidade científica e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações para garantir a manutenção dos investimentos no setor”, comemorou o Presidente do CNPq, Mario Neto Borges.

Coordenação de Comunicação Social do CNPq

As aposentadorias e a crise


Este artigo surgiu com base em duas situações: a primeira ocorreu em uma reunião com amigos em Paris, estávamos discutindo sobre a aposentadoria; um deles comentou que era um reducionismo falar em uma aposentadoria. O argumento era que não se pode comparar a aposentadoria de um professor da Sorbonne com a de um cheminot trabalhando pesadamente em um linha da estrada de ferro. A segunda foi a minha aposentadoria compulsória, aos jovens 70 anos, na UFRGS (continuo como Docente Convidado atuando ativamente na pesquisa e pós-graduação). O resultado foi esta análise sobre aposentadorias, dai o título do artigo, com ênfase em todos nós que trabalhamos em uma sociedade pós-industrial. 


A aposentadoria é um dos tópicos quentes do momento, em todos os países desenvolvidos está faltando dinheiro para pagar as aposentadorias, qual o motivo? Vejamos um histórico da origem das aposentadorias. Em 1850 uma pessoa tinha a esperança de vida, ao nascer, de cerca de 45 anos. Considerando isto, pouco depois de ficar velha e deixar de trabalhar a pessoa morria. Como os procedimentos médicos eram limitados e simples, na maior parte dos casos a velhice levava brevemente à morte e sem grandes custos financeiros para a família. Mas tudo mudou, a expectativa de vida aumentou no início do século XX. 

Atualmente o Brasil está bem situado na expectativa de vida ao nascimento que praticamente é a mesma que a dos países equivalentes e dos desenvolvidos, conforme o gráfico a seguir. 

Expectativa de vida ao nascer

Com a revolução industrial os sindicatos passaram a ter mais força e a exigir compensações sociais pelo trabalho nas fábricas, criou-se a contribuição social e a aposentadoria. A aposentadoria tornou-se uma necessidade, pois após o término do tempo de trabalho sobraram ainda muitos anos de vida para uma pessoa esgotada pelo trabalho pesado. As famílias ficaram menores e era necessário manter os velhos que já não podiam trabalhar nas indústrias. Ai criou-se a ideia de que gozar a aposentadoria era um direito conquistado.

Na primeira década do século XXI a realidade é novamente diferente. A automação tornou o trabalho mais leve permitindo, assim, que as pessoas pudessem trabalhar muito mais longamente: os músculos foram substituídos pelas máquinas. Os robôs estão eliminando a maior parte do trabalho manual. O setor terciário hoje constitui-se na maior parte das atividades em países desenvolvidos, é mais importante o eu sei do que o eu faço, isto implica em que a idade produtiva foi muito aumentada. Enquanto isto ocorre, no Brasil continuamos vivendo um sonho ilusório de aposentadoria aos 52 anos. Olhem o gráfico a seguir, o Brasil está colocado na última posição em termos de idade de aposentadoria, para ver que precisamos mudar radicalmente esta ilusão de direito conquistado.

 Apesar destas mudanças, aumento da vida e menor esforço físico, a ideia da aposentadoria criada na Era Industrial continua ativa. Aos 50 ou 55 anos um operário estava acabado e precisava se aposentar. Hoje uma pessoa de 65 anos ou mais está perfeitamente produtiva. A aposentadoria, concebida como meio de proteger a velhice, precisa ser revista.

O que é velhice? Gosto da interpretação de Domenico De Masi que caracteriza a velhice como aquele período em que o indivíduo não tem mais condições de saúde para desenvolver atividades produtivas ou criativas. Segundo ele gastamos nos últimos três anos de vida tanto em saúde quanto em todos os anos anteriores! Então o problema social é garantir às pessoas tranquilidade neste período. Velhice, nesta definição, é o período final da vida no qual a pessoa não tem mais condições físicas ou mentais de exercer sua atividade costumeira.

Considerando esta situação a aposentadoria somente deveria ser concedida quando uma pessoa não tivesse mais condições intelectuais ou físicas de trabalhar ou em período muito próximo disto. A falha da interpretação fisiológica do que é que ser idoso cria distorções impossíveis de sanar. É ridículo ver pessoas de 60+ anos estacionando em vagas reservadas para idosos e indo malhar na academia. Evidentemente cada faixa tem suas limitações e suas vantagens, a sabedoria está em maximizar as vantagens pessoais e sociais de cada período da vida. O erro de percepção sobre direitos de aposentadoria, que eram reais na Era Industrial, traz terríveis problemas financeiros, pois recursos escassos estão sendo desviados para a manutenção de pessoas plenamente aptas para o trabalho. 

Agora vamos discutir o que é o trabalho e como ele influi na aposentadoria. No passado trabalho era sinônimo de sacrifício. No mundo ocidental esta percepção foi reforçada pela condenação bíblica de Adão “Comerás o pão com o suor de teu rosto“. Então o trabalho era visto como sofrimento e punição, no Paraíso havia o ócio, depois do “pecado original” o trabalho surgiu como castigo. Hoje o trabalho deve ser integrado com o estudo e com a diversão, como trata magnificamente Domenico de Masi em seu livro “O Futuro do Trabalho“. O trabalho não é mais um sacrifício, mas uma atividade prazerosa.

Vejamos a situação dos professores, em Universidades de Pesquisa. Os professores estão claramente na Era Pós-industrial. Os trabalhadores de grande parte das nações do Clube dos 20 tem , também, condições de trabalho muito próximas desta Era Pós-industrial da economia. O trabalho não é mais uma punição para a humanidade pecadora, mas uma atividade agradável e criativa para as pessoas pós-modernas. Aposentar-se, para estas pessoas, é tirar a possibilidade de crescimento e de contribuição social e transformá-las em um peso para o resto da sociedade. E, além disto, estes aposentados passam a ter que encontrar forma de preencher os 25 ou trinta anos que sobram antes da visita da Velha Senhora. Se não o fizerem vão aumentar as filas de espera dos consultórios dos psiquiatras. Não faz o menor sentido continuarmos com as ideias da Era Industrial. Hoje trabalhar é agradável e criativo.

É impossível continuarmos a pagar pessoas produtivas como se fossem operários aposentados desgastados pelo trabalho rude na linha de produção. Apesar desta mudança o comportamento recentemente continuou a seguir o caminho oposto: em 1960, 72% dos alemães na faixa dos 60 a 64 anos trabalhavam em tempo integral, vinte anos depois eram apenas 44%. Na Holanda a queda foi de 81% para 58% (Postwar, Tony Judt).

A crise econômica internacional está ai para ficar. Uma repercussão no Brasil é a reforma das aposentadorias nos setores público e privado. Esta crise nos força a repensar uma série de modelos que se tornaram ultrapassados. O grande problema é a falta de percepção social de que as sociedades estão gastando muito mais do que podem, tanto em recursos materiais e intelectuais como em recursos financeiros. Por outro lado não é justo culpar os aposentados e esmagá-los sem cobrar o mesmo das empresas (bolsa empresário), das grandes fortunas, de salários exorbitantes e dos bancos. Uma pessoa que planejou toda uma vida com uma previsão de aposentadoria não pode ser traída como se fosse um criminoso causador de uma crise econômica. Regras de transição entre os modelos são absolutamente necessárias. O modelo de sociedade de consumo e o modelo econômico, onde se insere a aposentadoria como conhecemos, estão mortos. A atual reforma do regime de aposentadoria com a definição de idade mínima é necessária para a estabilidade das aposentadorias no futuro. Muitos dos atuais professores, entendendo os riscos de quebra do sistema público, já tem um plano individual de capitalização.

Por outro lado, nas Universidades, é inadequado perder a experiência de pesquisadores seniores com 60 anos ou mais por considerá-los velhos inadequados. É necessário associar suas experiências com a energia e inexperiência dos mais jovens. Caso contrário teremos a perda da experiência somada ao aumento da carga econômica dos novos que deverão contribuir para a manutenção de pessoas totalmente capazes de trabalhar. Felizmente a aposentadoria compulsória nas federais foi aumentada para 75 anos, mas nada foi feito quanto a idade mínima. O modelo de aposentadoria tem que ser completamente repensado. O mundo mudou, o velho modelo está morto, mas ainda não tivemos a coragem de criar um novo modelo adaptado aos tempos atuais.

A aposentadoria deve ser vista como terminal, uma pessoa só poderia se aposentar das atividades realmente exercidas e nos horários em que trabalhava. Após a aposentadoria um novo trabalho implicaria em cassação da mesma. As aposentadorias públicas são baseadas em fluxo de caixa dos ativos para os aposentados. Se os governos tivessem capitalizado as contribuições durante o período em que havia muito mais ativos do que aposentados a situação seria outra. Parece que em nenhum país é possível manter a seriedade dos governos, o dinheiro das contribuições para a previdência entra sempre para a caixa única, portanto a solução é a aposentadoria ser baseada em fluxo de caixa: os aposentados são mantido pelas contribuições dos ativos.O sistema vai desmoronar se corajosas atitudes não forem tomadas, ainda mais com o aumento das despesas de saúde dos idosos.


Keynes x Hayek {Nicholas Wapshott} 2011


Livro Keynes x Hayek

Na atual e conturbada situação econômica muitas pessoas estão entendendo muito mal as proposições de John Maynard Keynes. Uma das maiores batalhas do pensamento econômico foi travada entre Keynes e Hayek no século passado, e continua com seus seguidores. Foi um choque entre a visão sobre se o Governo deveria ou não interferir na Economia. A visão de Keynes é que, em certas circunstâncias, é necessária a intervenção governamental. Esta intervenção mostrou-se essencial para os USA saírem da Grande Depressão de 1929 e, recentemente, da crise de 2008. Friedrich Hayek, por outro lado, sustentava que o melhor era deixar o  laissez-faire como a forma de chegar-se ao equilíbrio, Mme. Margaret Thatcher e Mr. Ronald Reagan foram seus seguidores. Entretanto muitos estão aplicando erroneamente, por motivações político-partidárias e mesmo por demagogia, conceitos sérios de Economia com irresponsabilidade levando a Governos gastarem muito mais do que arrecadam por longos períodos. Aconselho este livro para uma boa compreensão sobre este debate.