Tecnólogos, bacharéis, mestres etc.

BecaOcorreu uma discussão na lista da SBC sobre curso de tecnólogos. Resolvi organizar algum material que tenho sobre cursos e objetivos. A discussão é preocupante pois está muito centrada em eventuais direitos de candidatos em concursos públicos. O tema central e substantivo deveria ser: qual o objetivo de cada modalidade de curso? Certamente estamos com um problema no ensino da computação, já em agosto de 2006, escrevia uma crônica sobre o assunto: A crise no ensino da computaçãoUma pergunta que surge na mente dos alunos é: E agora o que vou fazer? Essa é uma pergunta que todo aluno de graduação, mestrado e doutorado se faz, pelo menos uma vez por semana. Escrevi uma crônica tratando deste problema: A pós-graduação em computação e a indústria. Há anos atrás, 90% das pessoas que faziam mestrado e/ou doutorado queria seguir carreira acadêmica. 

Mas hoje tudo mudou:

  • Formamos mais mestres e doutores do que o mercado de ensino pode e quer absorver
  • Nem todo mestrando/doutorado quer ser professor
  • Grandes empresas entenderam que a formação de pós-graduação traz consigo um diferencial importante
  • Grandes empresas americanas e européias aprenderam que formamos profissionais de alta competência e tem vindo recrutar diretamente aqui
  • O mercado sabe que uma empresa de tecnologia só terá lucro se aportar um diferencial realmente significativo
  • Só aporta diferencial quem sabe. Poucos nascem iluminados. A maioria aprende a fazer.
  • Se você quer ter uma carreira acadêmica sugiro a leitura da crônica: Escolha um bom orientador e tenha futuro! (Fev 07)

Por outro lado os cursos de graduação são vistos no Brasil como sendo equivalentes, isto não é verdade. Os objetivos são distintos e o pior é que estes objetivos são normalizados há muito tempo e nós, solenemente, não tomamos conhecimento. A Norma Internacional para a Classificação de Educação foi projetada pela UNESCO no início da década de 70 para servir como um instrumento adequado para recolher, compilar e apresentar estatísticas educacionais para os países e para a comunidade internacional. Esta norma foi aprovada pela International Conference on Education (Genebra, 1975) e foi, subsequentemente, confirmada pela General Conference da UNESCO em Paris, 1978, quando foi adotada a Revised Recommendation sobre a International Standardization of Educational Statistics. 

Os níveis considerados são:

  • Level 0 – Pre-primary education
  • Level 1 – Primary education or first stage of basic education
  • Level 2 – Lower secondary or second stage of basic education
  • Level 3 – (Upper) secondary education
  • Level 4 – Post-secondary non-tertiary education
  • Level 5 – First stage of tertiary education
  • Level 6 – Second stage of tertiary education
  • International Standard Classification of EducationI S C E D 1997

Educação Superior (Educação terciária, ISCED 5-6)

Programas Educacionais em Nível Universitário (Terciário tipo A, ISCED 5A) são fortemente baseados em teoria e planejados para oferecer qualificação suficiente para a entrada em programas avançados de pesquisa e em profissões com altos requisitos de competências como medicina, odontologia ou arquitetura. Programas terciários do tipo A têm uma duração mínima de três anos em tempo integral apesar de durarem, tipicamente, quatro ou mais anos. Estes programas não são oferecidos exclusivamente por universidades. Inversamente nem todos os programas reconhecidos nacionalmente como programas universitários preenchem os critérios para serem classificados como terciários do tipo A.

Programas Educacionais Vocacionais Avançados (Terciários tipo B, ISCDE 5B) Estes programas são tipicamente mais curtos que os terciários do tipo AQ e focados em competências práticas, técnicas ou ocupacionais para a entrada direta no mercado de trabalho apesar de que algumas fundamentações teóricas possam ser cobertas pelos respectivos programas. Estes programas têm uma duração mínima de dois anos com dedicação exclusiva.

Qualificação Avançada de Pesquisa (ISCDE 6) Este nível corresponde aos programas que levam diretamente para um título de qualificação em pesquisa avançada como Ph.D. A duração destes cursos é de três anos em dedicação exclusiva na maioria dos países atingindo um total de sete anos de dedicação exclusiva no nível terciário apesar de o tempo de matrícula ser tipicamente mais longo. Estes programas são dedicados para estudo avançado e pesquisa original..

Programas Educacionais Pós-secundários não Terciários (ISCDE 4) Estes programas se sobrepõem à fronteira entre o secundário superior e a educação pós-secundária na definição internacional. Os mesmos podem ser classificados como secundário superior ou pós-secundário em diferentes países. Apesar do seu conteúdo não ser significativamente mais avançado do que os programas secundários superiores eles servem para ampliar o conhecimento adquirido pelos participantes no secundário superior. Os estudantes matriculados tendem a ser mais velhos do que os matriculados no nível secundário superior.

 
Fica bem claro que os propósitos das diferentes modalidades são diferentes, uns tendem para a carreira acadêmica ou de pesquisa e outros para a inserção direta no mercado de trabalho. Os tecnólogos são Programas Educacionais Vocacionais Avançados e têm por objetivo a inserção direta no mercado – ISCDE 5B. Não é correto esperar que os egressos destes cursos tenham as mesmas qualificação que os de cursos  Programas Educacionais em Nível Universitário – SCED 5A. Isto não quer dizer que as formações sejam superiores ou inferiores e sim que são diferentes!

Esta diferenciação surge, em paises com mais tradição de qualidade de ensino, em etapas anteriores da formação, isto ocorre, por exemplo, na Alemanha e na Holanda.

Holanda

Educação Elementar
As crianças holandesas vão à escola desde os 4 até os 12 anos. Durante estes oito anos recebem uma educação orientada para o desenvolvimento emocional, intelectual e criativo de forma a obterem, ao final, um conjunto adequado de habilidades para o convívio social.

Educação secundária
Após os 12 anos há várias opções:

  • Educação vocacional preparatória (VBO)

  • Educação geral básica secundária (MAVO): estes dois tipos de educação levam quatro anos e dão acesso à educação vocacional (profissional)

  • Educação geral avançada secundária (HAVO): um curso de cinco anos que permite aos alunos que o concluírem com sucesso partirem para a educação profissional superior;

  • Educação pré-universitária (VWO): curso de seis anos que habilita aos bem-sucedidos entrar na universidade.

Educação superior
A educação superior compreende a educação profissional superior (HBO) e a educação acadêmica (WO) oferecida por colleges e universidades. Estes cursos têm a duração de quatro anos.

Acho que estes dados devem ajudar na discussão, o problema, em meu ponto de vista, é a confusão no entendimento dos objetivos dos diferentes modelos de cursos. Como havia escrito em crônica sobre a crise do ensino da computação:

Para começar uma pequena história. Quando me formei, em Engenharia Elétrica, alguns colegas passaram em um concorridíssimo concurso de seleção para um curso de programação oferecido pela IBM. Dois deles, contratados após os meses de curso foram os exemplos para a turma. Se me lembro bem o curso consistia, essencialmente, de programação assembly, uma linguagem de programação e conhecimentos de sistemas de arquivos. Eles eram considerados os “sortudos” da turma pois ganhavam muito mais que um engenheiro em início de carreira, e o status! Sempre estavam com impecáveis fatiotas e engravatados. Pois é, o tempo passou, a sociedade mudou. Neste período os computadores passaram de máquinas quase inacessíveis, só os iniciados podiam entrar nas salas de sistema, e caríssimas para commodities compradas em qualquer supermercado. Eu acreditava que quando uma nova geração, criada com acesso aos computadores desde a infância, chegasse à universidade teríamos ótimos e motivadíssimos alunos. O que ocorreu? O inesperado: a familiaridade com computadores tirou o glamour da profissão e a crise do mercado não estimula uma perspectiva de carreira vitorio$a. Algumas perguntas que tenho ouvido: O que vou fazer que já não esteja disponível? Que empresas brasileiras são competidoras mundiais? E aí, vou trabalhar fazendo programas para o boteco da esquina? No outro extremo da carreira está ocorrendo uma “caça aos doutores”, ao inverso, pois muitas Universidades e Centros Universitários estão despedindo o pessoal com maior titulação para contratar “mão de obra” mais barata. Isto não é uma decisão míope mas sim uma decisão forçada por um público que não consegue pagar cursos de melhor qualidade, é reduzir custos ou fechar. É triste! Por outro lado há os cursos de “baixo custo” e “baixa tarifa”, como aquelas linhas aéreas que servem pacotinhos de amendoim em vôos de quatro horas. O pior é que há pessoas que pensam que aquelas belas propagandas em outdoors de cursos de “baixa tarifa” são uma alternativa de trabalho profissional e e sonham com a ascensão social oferecida por estes diplomas. Bem, terão um lindo diploma, talvez colorido e dourado, para colocar na parede. A competição, hoje, está baseada em critérios mundiais, não adianta ter um título universitário é preciso ter alta competência para ter alguma chance de sucesso. Olhem os resultados do ENADE deste ano (2006), só 19 cursos de Ciência da Computação que conseguiram a nota máxima (5) entre os 685 registrados no site do MEC.

Resumindo: Há diferentes tipos de formação, em cada tipo de formação há cursos bons, médios e ruins. Não faz sentido tentar comparar bons cursos de tecnologia com maus cursos de bacharelado, ou vice-versa, os objetivos são diferentes. Quanto aos concursos o que deve-se esperar é que especifiquem realmente as competências necessárias para o cargo. A solução para o desenvolvimento não é a discussão sobre os direitos legais de cada um mas a luta pela avaliação correta dos cursos  e seu enquadramento explícito nas normas internacionais. A saída de mercado é o oferecimento de cursos em diferentes níveis e com diferentes objetivos. As Universidades, em seus cursos acadêmicos, precisam oferecer qualidade científica, pesquisa, desenvolvimento de pesquisa aplicada e professores de alto nível, este deve ser o ponto central dos esforços de qualificação e da propaganda institucional. Para mais informação sobre este assunto leia: As Universidades brasileiras são competitivas? (Dez 2006) Outros cursos podem ter foco na formação direta para o mercado, no treinamento. Além disto, organizações paralelas podem oferecer incentivos e treinamento para que os alunos com inovações, resultantes de sua ótima formação, e vontade de empreender no mercado comercial sejam mais qualificados para o fazer. Mas é essencial ressaltar que existem diferentes formações e que os egressos desta formações diferenciadas têm competências diferentes. Certamente pode haver migração entre formações, mas isto requer um esforço pessoal alto e muita dedicação.