Caos!

Cada ato humano é um engajamento de toda a Humanidade.
Jean Paul Sarte
L’existentialisme est un humanisme

Estava escrevendo um texto sobre o planejamento da carreira acadêmica, mas vai ficar para o próximo mês. Mas não consegui, a revolta contra a bagunça não deixou. Hoje escrevo sobre um maligno conhecido nosso o Caos! Como o Demônio ele se infiltra, corrompe, degrada e desfaz a Sociedade. Quem é o culpado pelo Caos? Este governo, O governo anterior?  O golpe de 1964 (puxa, esta é antiga)? As Universidades?  Todos nós?

Caos nos aeroportos, Caos na saúde pública, Caos na educação, Caos na segurança e acho que até temos Caos de segunda ordem: Caos no Caos (Caos2). Estes dias levei 12 horas de Londrina a Porto Alegre, de avião! Há umas semanas passamos 3 ou mais dias trabalhando com geradores próprios de eletricidade no Instituto de Informática. 1000 pessoas assassinadas no Rio desde o início do ano! A maior corretora de investimentos do RS teve três diretores presos pela Polícia Federal por remessa fraudulenta de divisas, 3000 “usuários”  estão sob investigação. 

 Transcrevendo, e amplio, um parágrafo de crônica anterior pois acho que vale a pena pensar sobre estas situações: 

Uma proposta de tese de doutorado em que a pessoa copia cerca de 10 páginas de outro aluno do mesmo departamento; uma dissertação de mestrado em que o candidato (reprovado) utiliza um software comercial como se fosse a sua contribuição; alunos da graduação que copiam códigos completos da Web em um trabalho de disciplina; dois orientandos enviam com seu orientador como co-autor (sem ele saber) um artigo em inglês para um congresso, o orientador é consultado pois o chair submeteu o artigo a um verificador de plágio e mais de 55% eram textos achados na Web; um aluno de especialização que apresenta a proposta de trabalho de conclusão copiado totalmente de duas fontes na Web; um aluno de graduação apresenta um trabalho de diplomação idêntico a um trabalho individual de PG, com a característica interessante que ele havia copiado o trabalho de um trabalho de diplomação em site em Portugal sendo que o aluno, por sua vez, havia copiado o trabalho de um aluno de meu departamento! Basta!

Será que tudo isto é um problema de plágio? Agora mudei de opinião, estou achando que não, tudo são facetas do Caos! O Caos está nos devorando, parece aquele antigo filme de 1958: “A Bolha Assassina”. Um conto sobre uma nojenta e maligna forma de vida que cai na terra, na cidade americana de Arborville. Sem problemas de consciência ou de intelecto a bolha faz apenas uma coisa – e o faz muito bem. Ela come tudo e todos que se movem: homens, mulheres e crianças, animais. Quanto mais come maior se torna. O Caos pretende, também, devorar a todos nós e a todo o Brasil. 

Quando alunos de Universidades reclamam a aprovação pois pagaram pelo curso, é o Caos crescendo; quando alunos de Universidades reclamam de trabalhos muito grandes pois têm outros compromissos, é o Caos crescendo; quando um profissional concorda em entregar um trabalho em uma data e depois diz que não será possível, é o Caos crescendo; quando alguém justifica que “dá uma roubadinha no trânsito”  pois todos fazem assim, é o Caos crescendo; quando alguém te chama de “babaca” pois está dirigindo no limite de 60Kmh na cidade, é o Caos crescendo; quando 28 pessoas são assassinadas no RS no feriado da Páscoa, é o Caos crescendo …. chega!  

Para tentar derrotar o inimigo é preciso saber o que ele é. Mas o que é o Caos? É possível entender a anarquia completa? Na Wikipédia encontramos estes dois verbetes:

Caos é, segundo Hesíodo, a primeira divindade a surgir no universo, portanto o mais velho dos deuses. A natureza divina de Caos é de difícil entendimento, devido às mudanças que a idéia de “caos” sofreu com o passar da épocas. O poeta romano Ovídio foi o primeiro a atribuir a noção de desordem e confusão à divindade de Caos. Todavia Caos seria para os gregos o contrário de Eros. Tanto Caos como Eros são forças geradoras do universo. Caos parece ser uma forma mais primitiva, enquanto Eros uma força mais aprimorada … Caos significa algo como “corte”, “rachadura”, “cisão” ou ainda “separação”.Caos (mitologia) – Wikipédia A Teoria do Caos para a física e a matemática é a hipótese que explica o funcionamento de sistemas complexos e dinâmicos. Isso significa que para um determinado resultado será necessária a ação e a interaçãode inúmeros elementos com alta sensibilidade às condições iniciais. Para entender o que isso significa, basta pegar um exemplo na natureza, onde esses sistemas são comuns. A formação de uma nuvem no céu, por exemplo, pode ser desencadeada e se desenvolver com base em centenas de fatores que podem ser o calor, o frio, a evaporação da água, os ventos, o clima, condições do Sol, os eventos sobre a superfície e inúmeros outros.Teoria do caos – Wikipédia

Para a visão comum o Caos significa desordem, bagunça, algo inaceitável. Nas definições acima aparecem duas interpretações deste conceito, a original onde o Caos é a origem desordenada e confusa do Universo e a segunda em que a racionalidade moderna tenta impor uma ordem ao Caos por meio de equações matemáticas.  

Procurando mais encontrei na Web este trecho:

“É pela auto-organização interna que os seres vivos criam estruturas dissipativas da entropia. Os seres vivos trocam energia com o meio, Consomem muita energia e por isso aumentam a entropia (desgaste da energia). Produzem entropia e ao mesmo tempo escapam da entropia. Eles metabolizam a desordem e o caos do meio ambiente em ordem e estruturas complexas que se auto-organizam fugindo à entropia. É através da ordem e desordem que a vida se mantém. A desordem obriga a criar novas formas de ordem”. UniFAE Intelligentia

Agora temos um caminho para entender a situação. O Caos é a desordem, é a perda de regras de comportamento é a incerteza. Quem defende esta bagunça – o jeitinho brasileiro – está, realmente, se negando a cumprir regras a aceitar a ordem, pensando que vai ter vantagens pessoais. Quem não ouviu alguém se vangloriar de ter dinheiro aplicado no exterior (ilegalmente)? Mas o que está realmente fazendo é alimentado o Caos. O texto citado acima nos mostra que para vencermos o Caos precisamos de organização, de cumprir regras, de transparência nas decisões. A auto-organização leva à estruturação da vida, da célula primordial até os seres evoluídos. Mesmo que nosso cérebro seja pleistoceno o que nos salva é a nossa grande plasticidade cerebral que nos permitiu encontrar os meios de domar o fogo, de eximirmos da nossa condição animal e de termos em nossas mãos o destino da Humanidade. Para isto é preciso de educação e de regras. 

Do lado organizacional a luta contra o Caos constituiu-se na estruturação da Sociedade e do Estado. O Estado foi a forma da Sociedade conseguir vencer o Caos. Olhem nos filmes de bang-bang, aquelas pequenas cidades do Far West  contratavam um bandido (o xerife) para impor a ordem, criar regras e cumpri-las. Posteriormente estas regras foram codificadas. Em lugares mais civilizados as regras de convivência foram feitas muito antes. O Estado organizado só pode existir se cada um entende que suas ações devem ser regradas para que a convivência pacífica seja possível.  Aqueles que tiveram a possibilidade de viver em Estados organizados, mas democráticos, que respeitam as individualidades e os pontos de vista divergentes como – em maior ou menor grau – os países da CE, sabe como é muito mais produtivo e tranqüilo ter estabilidade. Por outro lado a existência dos Estados Fortes e ditatoriais criou o mito do Estado Mínimo, onde a liberdade individual seria o maior triunfo com um estado limitado a quase nada, deu no que deu: o Caos crescente. Isto foi o resultado da falta de uma organização forte mas democrática. Nesta situação os bandidos (de colarinho branco ou de mãos ensangüentadas – são todos iguais) tomam conta da Nação, é o Caos crescendo.  

Não espero que cada um procure ser um herói, concordo com Bertolt Brecht que escreveu: “Pobre do povo que necessita de heróis”. Tudo o que precisamos para vencer o Caos é de Ordem. Precisamos nos tornarmos um país sério onde Regras são para serem obedecidas, se discordamos destas regras que as modifiquemos, democraticamente, mas enquanto existirem devem ser cumpridas por todos.

A resposta à pergunta inicial “Quem é o culpado pelo Caos? ” é: Todos nós! Talvez um dia consigamos vencer o Caos se aceitarmos a nossa responsabilidade em cada ato, se deixarmos de correr atrás de ideologias bruxas que prometem o bem infinito e se tivermos responsabilidade em cada pequena coisa que fizermos.


Regras de ação para vencer o Caos
uma lista parcial

  • Revogar imediatamente a “Lei de Gerson“.
  • Exigir o cumprimento de cada pequena regra, por pequena que seja.
  • Discutir a necessidade sermos responsáveis em cada ação (ver a citação de Sartre).
  • Exigir a nota fiscal em cada compra.
  • Refazer a estrutura hierárquica das Universidades onde o nível acadêmico do professor deve indicar as suas responsabilidades e direitos (hoje todos são iguais, do Professor Auxiliar ao Titular)
  • Não guardar uma mesa na praça de alimentação do shopping antes de comprar o alimento, isto reduz para a metade a capacidade de atendimento.
  • Desenvolver a responsabilidade social.
  • Não chegar regularmente atrasado às reuniões e aulas.
  • Quando disser; “Deixa comigo” assumir realmente a responsabilidade e não se esquecer do assunto em 10 minutos.
  • Mudar a famosa frase brasileira: “Sabem com quem está falando?” para “Quem você pensa que é?”
  • Lutar pelos seus direitos e reclamar quando prejudicado, pela Web, pelas ouvidorias, pelos sites  de defesa ao consumidor. Nunca ser preguiçoso e achar que não vale a pena.
  • Não calar jamais e lutar contra a indiferença.

Indiferença

Bertolt Brecht

Primeiro vieram levar os judeus e eu não me incomodei, porque não era judeu.
Depois levaram os comunistas e eu também não me importei. Não era comunista.
Levaram os liberais e também dei de ombros. Nunca fui liberal.
Em seguida os católicos, e eu era protestante.
Quando vieram me buscar não havia mais ninguém para protestar…