E o Oscar vai para: “Uma Verdade Inconveniente”

Para começar vou apresentar quatro eventos que aparentemente são fatos completamente isolados e sem maior relação.

1) Em janeiro tivemos uma demonstração aqui no Instituto dos famosos OLPC. Foi uma experiência muito interessante, as fotos mostram bem a qualidade e algumas das funcionalidades deste equipamento. Aparentemente seu custo está em cerca de US$ 137,00 o que é incrível. A tela tem uma resolução impressionante e funciona com iluminação interna ou por reflexão. O mais inacreditável é o consumo de energia de varia de 0,37 watts no modo standby quando apenas o roteador funciona e um máximo de 5 watts com a média de 1,5 watts. O roteador serve para a criação de uma rede mesh permitindo o acesso aos serviços da escola pelos alunos residentes nas proximidades.

2) Na semana seguinte eu estava falando com meus alunos e contando algumas histórias antigas (não digam que é coisa de velho, pois a consulta mais freqüente feita ao Google sobre este site é “história da computação” e esta área corresponde a menos de 4% do conteúdo do site). Uma destas histórias era sobre o nosso primeiro mainframe que tinha 1 MB – notem Mega – de memória, expandido depois para 2 MB. O sistema operacional, o MCP, era multitarefa, possuía possibilidade de RAID (naquela época não se chamava assim) no sistema de arquivos e tinha o código fonte aberto pela Burroughs. Nós fazíamos patches, corrigíamos eventuais erros, e configurávamos o sistema operacional de acordo com as necessidades da UFRGS mesmo sendo um sistema operacional proprietário. 

3) No início de fevereiro foi publicado o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática – IPCC – sobre o aquecimento global. O presidente da França, Jacques Chirac, disse, na abertura da conferência sobre governança ambiental em Paris: “Virá em breve o dia em que a mudança climática escapará ao controle. Estamos no limite do irreversível. O momento não é de medidas mornas. É hora de revolução: de consciência, da economia e de ação política”. 

4) Neste mesmo período foi lançada uma nova versão de um conhecido sistema operacional que necessita de “apenas” um Giga de memória, mas se tiver uma memória com dois é bem melhor,  e um processador com velocidade mínima de algo como 2,6 GHz.    

O que estes quatro acontecimentos têm em comum? Acho que vocês já deduziram: estão todos relacionados com a responsabilidade social e ecológica da computação. O primeiro oferece um computador multimídia para cada criança com um consumo reduzido de energia, o segundo mostra que é possível ter um SO preemptivo e com a maior parte das funções necessárias e modernas utilizando-se recursos muito reduzidos, o terceiro mostra a preocupação com o consumo descabido de energia, finalmente, o quarto mostra a falta de preocupação com a utilização de recursos computacionais. 

E notem que não falei sobre a poluição causada pelos equipamentos obsoletos (ou obsoletados) e as incríveis condições de reciclagem destes equipamentos em paises subdesenvolvidos. Assisti a um documentário onde toda uma vila em algum lugar da Ásia era especializada em partes do computador, a especialização mais horrível era o bairro dedicado a CRTs. Neste setor crianças explodiam os tubos de imagem sem qualquer proteção, eu não manipulo um monitor aberto sem utilizar óculos de proteção! Recentemente a Globo apresentou um vídeo com estas cenas e com propostas para enfrentar o problema do Lixo Eletrônico.

Mas voltemos à energia e ao desperdício. Vocês já calcularam o consumo de um computador deixado ligado toda a noite, sem uso? o meu desktop consome 305 Watts e dissipa 560,5 BTU.h. Isto é muito! Comparem com o OLPC citado acima. 200 PCs como o meu ligados noite e dia, como é o caso em muitas universidades, consomem cerca de 1.464.000 watts/hora por dia, ou seja 534.360 kW.h por ano. Ito dá uma conta de cerca de R$ 203.056,80, só na eletricidade dos computadores, no verão é preciso colocar o dobro do consumo com a retirada destas  112.100 BTU.h das salas. Os servidores de rede são ainda piores, pois valores de 400 ou 500 watts são comuns. Um único servidor pode consumir mais de 360 quilowatts hora por mês. Desligar os computadores às 8 da noite e ligá-los novamente às 8 da manhã seguinte significaria uma economia muito grande. Olhe que um aparelho grande de ar condicionado têm 30.000 BTU.hora. 

O parque eólico de Osório, com seus 75 geradores, permitiria alimentar cerca de 159.068 PCs deste tipo com sua geração total em um ano é prevista em 425.000.000 kw.hora.  EM dezembro de 2004, segundo a Forrester Research (BBC Brasil) existiam 575 milhões de PCs. Com um consumo médio de 200 w teríamos a necessidade de 2.370 parques eólicos como este! E a previsão é que este número de computadores dobre para 2010. Se esta energia fosse gerada por usinas a carvão teríamos,  utilizando a média dos US de 0.612 kg por kW.h,  a geração de 3.082.644.000 toneladas de CO2 só para mantê-los ligados permanentemente.

Uma colaboração muito interessante que recebi de um colega da UNICAMP, este cálculo rápido e simples dá uma idéia do desperdício em pequenas coisas: 

Vamos estimar quanto gasta o LED do “Num Lock” que é iniciado ligado por padrão em todos os computadores. Utilizo valores aproximados e arredondados para facilitar a conta: 1 led -> 1mA x 1V = 1mW. Em 1h, 1mWh. 500M de computadores no mundo, 500KWh só com o consumo do led de Num Lock! Claro que não é um consumo absurdo, mas desligar todos os LEDs por padrão em todos os computadores do mundo daria uma economia equivalente ao consumo de aproximadamente 500 casas populares (segundo a ANEEL o consumo social é de 0 a 80 kWh por mês, ou seja de 0 a 2,6 kWh por dia).

Viram só a Verdade Inconveniente? e qual é a responsabilidade social dos usuários de computadores e dos cientista da computação no aquecimento global? Todos nós somos responsáveis por estes problemas ambientais que estão acontecendo.

A Nokia anunciou que seus celulares vão passar a alertar os usuários para que eles despluguem os carregadores das tomadas, evitando gasto desnecessário de energia, quando os aparelhos já estiverem com as baterias carregadas. Além de soar um bip, os aparelhos irão exibir um texto (”Battery is full, please unplug the charger”). Um estudo garante que a intenção poderá poupar energia para abastecer 85 mil casas por ano, justifica a fabricante. Segundo a assessoria de questões ambientais da companhia, o equivalente a cerca de dois terços da energia usada por um aparelho são perdidos quando o carregador segue plugado na tomada sem estar alimentando o celular.

 

Mas não é só o hardware, vejamos o que se passa com o software. Quando comecei a ensinar computação, uma das primeiras disciplinas que lecionei era “Otimização de programação”, isto era absolutamente necessário com computadores como o IBM 1130; o processador desse equipamento tinha 16 K palavras de 16 bits cada, depois expandida para 32 K palavras. O tempo passou e o desperdício se espalhou. Hoje quase ninguém se preocupa com otimização de código, não adianta dizer que os compiladores otimizam o código, contra a imbecilidade na programação não há compilador que consiga vencer! O resultado é que a cada nova versão de software precisamos de computadores maiores, com mais memória e com processadores mais rápidos e, é claro, consumindo mais energia. 

Em uma recente palestra de colegas que tratam de computação embarcada foram discutidas arquiteturas para otimizar o consumo de energia como o desligamento de seções do processador não utilizadas em um determinado momento. Está na hora de trocarmos processadores que mais parecem estufas por outros mais eficientes. Isto implica em uma troca completa de mentalidade. Precisamos repensar toda a nossa forma de ver a computação e de desenvolver sistemas. Eu acredito que os conhecimentos de computação embarcada, com as suas limitações radicais de recursos, deveriam ser aplicadas em todas as áreas de desenvolvimento de sistemas.

 


Perguntas inconvenientes

  1. Porque os computadores não apresentam o selo de energia que existem nos refrigeradores?

  2. Quantas vezes você falou,em aula, sobre a energia associada a um algoritmo?

  3. Que propagandas comerciais salientam a economia de energia de um computador?

  4. Que software apresenta como vantagem a possibilidade de utilizar um hardware reduzido?

  5. Alguém estudou otimização de código em seu curso de graduação em engenharia de software?

  6. Quais conceitos de computação embarcada estão sendo aplicados na computação pessoal e comercial?

  7. Como está a configuração de economia de energia em seu desktop?

  8. Você deixa ligado o desktop nos fins de semana e durante as noites?

  9. Você já trocou um computador só para ter mais velocidade?

  10. O assunto de responsabilidade ambiental é ou foi tratado em seu curso de graduação ou de pós?

Confiteor … quia peccavi
nimis cogitatione, verbo et opere:
mea culpa,
mea culpa,
mea maxima culpa.

Agora só falta verificar a nossa culpa no gasto dos recursos mundiais fazendo o exame de consciência abaixo:

Faça um teste de sua responsabilidade 

Alguma vez pensou na quantidade de Natureza necessária para manter o seu estilo de vida? Já imaginou avaliar o impacto no Planeta das suas opções no dia-a-dia, daquilo que consome e dos resíduos que gera? Com este questionário ficará a conhecer esse impacto.

Este teste calcula a sua Pegada Ecológica fazendo uma estimativa da quantidade de recursos necessária para produzir os bens e serviços que consome e absorver os resíduos que produz.

E agir para pagar os pecados e mudar a situação. Eu acho que as 3.082.644.000 toneladas de CO2 por ano geradas só mantendo os desktops funcionando 24 horas por dia dá para assustar.

Link interessante: É evidente a vida seria muito mais difícil sem computadores, talvez impossível. Como você lidaria com o desaparecimento das máquinas por apenas um dia ? Shutdown day


 

Como você pode ajudar
publicado no jornal Zero Hora de Porto Alegre, dia 6 de abril de 2007, página 5 

  • Se você dirige 20 mil quilômetros por ano, reduza sua rodagem em 10%, andando de ônibus, bicicleta ou simplesmente caminhando. Assim é possível reduzir num ano em 500 quilos ou mais a emissão de gás carbônico.

  • Faça a manutenção do seu veículo. Um motor mal cuidado pode consumir 50% a mais de combustível e produzir 50% mais C02.

  • Prefira veículos movidos a álcool ou bi-combustíveis. O álcool, diferentemente da gasoli­na, do diesel ou do gás, é uma fonte de energia renovável. Essa medida ajuda a reduzir em 500 quilos ou mais a emissão de gases de efeito estufa num ano.

  • Use ventiladores como sua primeira linha de defesa contra o calor em vez do ar-condicionado. Assim é possível reduzir anualmente em até 100 quilos a emissão de gás carbônico.

  • Se tiver mais de uma geladeira ou freezer ligados, desligue-os a menos que este seja indispensável. Essa dica torna-se ainda mais importante se estes forem modelos antigos e menos eficientes.

  • Utilize lâmpadas mais efi­cientes. Prefira as fluorescentes no lugar das incandescentes. Trocando as cinco lâmpadas mais utilizadas em sua casa, você reduzirá sensivelmente sua conta de luz e conseqüentemente suas emissões de gases de efeito estufa.

  • Desligue luzes e equipamentos quando não estiverem sendo utilizados. Evite deixar computadores ligados 24 horas por dia e configure-os para que desliguem seu monitores quando estão em espera.

  • Utilize o mínimo necessário de papel. Utilize e-mail com mais freqüência, é mais rápido, eficiente, barato e mais saudável para o ambiente. Use papel reciclado sempre que possível e separe papéis e papelão ao dispensá-los, facilitando, assim, a reciclagem.

  • Evite deixar água corrente ao se barbear, escovar os dentes ou lavar louças. Nunca utilize água corrente para lavar calça­das, quintais ou carros.

  • Separe o material reciclável. Todo o material reciclado representa uma diminuição das emissões de gases de efeito estufa, porque refazer o mesmo material libera mais gás carbônico na atmosfera do que processá-lo para novo uso.

  • Plante árvores. Além de ajudar a absorver o gás carbônico da atmosfera, as árvores proporcionam sombreamento, amenizando a temperatura dentro das residências e reduzindo desta forma o uso de condicionadores de ar ou de ventiladores.