Vamos estudar no exterior?

Quando voltei ao Brasil, após o doutorado concluído no IMAG, éramos entre 60 e 70 Doutores em Computação em todo o país. Essa era uma pequena comunidade em que todos se conheciam, e sabiam que pesquisas e áreas estavam em desenvolvimento no país. Por outro lado a capacidade de pesquisa e de formação era bastante reduzida em CC. Naquela época, a oferta de cursos de doutorado no Brasil em Ciência da Computação estava limitada a uns dois ou três programas. Ao longo dos últimos anos foi desenvolvido um ambiente muito competente de pesquisa, de formação em pós-graduados e de avaliação dos programas. Eu, realmente, estava acreditando que tudo corria no melhor dos mundos. Criamos uma metodologia de avaliação de cursos, temos uma comunidade inserida internacionalmente, cooperações internacionais, inclusive com intercâmbio bi-lateral de alunos de graduação com países da Europa, parecia tudo bem.

Aí lí o artigo publicado no número de 6 de setembro de 2006 da revista Veja, páginas 122-124. Meu mundo caiu! Será que a visão que eu tinha da nossa inserção no mundo estava errada? O artigo da Veja trata do número de brasileiros seguindo cursos de pós-graduação no exterior. A tabela do lado esquerdo foi retirada deste artigo (dados da OCDE). O quadro é assustador, será que estamos tão mal assim? Após o choque inicial me lembrei do ditado que diz: “a estatística é a forma de torturar os números até que eles confessem o que queremos”. Estariam aqueles números absolutos distorcendo a enorme diferença entre as populações dos países citados? Para verificar o significado real destes números resolvi calcular qual é a parcela destes pós-graduandos em relação à população de seus países. A situação continua crítica, é até pior do que aquela percebida pela simples visão dos dados brutos. Mas é importante termos um grande número de estudantes em formação no exterior? A formação oferecida aqui no Brasil não é suficiente?

Como comentei na crônica anterior, nossos cursos de pós-graduação estão recebendo menos alunos do que poderiam formar. Então porque mandar pessoas para o exterior? Pensando melhor sobre a estrutura educacional brasileira fui procurar dados e normas internacionais. Existe uma padronização da denominação de cursos a Norma Internacional para a Classificação de Educação – ISCED – criada pela UNESCO. O objetivo desta norma foi criar um referencial para permitir a obtenção de dados estatísticos e fazer o acompanhamento da educação em diferentes países. Ai comecei a entender melhor a visão da comunidade acadêmica brasileira sobre a inserção mundial. Por exemplo, os físicos, de forma geral, consideram que o doutorado pode ser feito muito bem aqui no Brasil e, só então, o físico estará pronto para um período de pós-doutorado no exterior. Isto é muito justificável, pois a bagagem conceitual e teórica para a pesquisa avançada em física é enorme. Nós estamos pensando de forma semelhante na computação enquanto ciência. Mas ao procurar mapear a educação em diversos países para a ISCED percebí que a minha visão, e de grande parte dos acadêmicos brasileiros, referia-se somente ao nível “Level 6 – Second stage of tertiary education” ou seja a Qualificação Avançada em Pesquisa. E os demais níveis? Como deve ser encarada a computação como habilidade profissional? Fica a aparente qual nossa estrutura educacional: temos vocação para um único nível: aquele relativo a “Programas Educacionais em Nível Universitário” que são fortemente baseados em teoria e planejados para oferecer qualificação suficiente para a entrada em programas avançados de pesquisa. Nesta área creio que estamos bastante bem para um país no nível de desenvolvimento do Brasil. Esta era a minha percepção até agora.

A crise do ensino superior está mostrando que precisamos desenvolver as outras formas de ensino: os pós-secundários, os vocacionais e os vocacionais avançados. Uma tímida ação consiste nos cursos universitários seqüênciais, mas este cursos misturam alunos com perfil Universitário com alunos com perfil Vocacional, será que vai dar certo? Fica, então aparente a necessidade de criarmos cursos superiores, pós-secundários e secundários nitidamente vocacionais. Está na hora de aceitarmos que nem todas as universidades e centros universitários devem seguir o modelo humboldtiano de Universidade, muitas devem se converter para o modelo vocacional. E o que isto tudo tem a ver com com a internacionalização? Tem tudo, o modelo que montamos é orientado para a “Qualificação Avançada em Pesquisa”. Neste formato atingimos uma boa competência e qualidade, mas o que se passa nos vocacionais? Mesmo no mestrado, considerado para muitos como preparação para a inserção no mercado empresarial ou industrial, a experiência internacional é fundamental. E na formação vocacional? Ao serem criados novos cursos é preciso que sejam estabelecidos vínculos com instituições co-irmãs no exterior para facilitar o intercâmbio. Se lermos a A Declaração de Bolonha, de 19 de Junho de 1999 encontramos estas passagens:

“Criação de um sistema de créditos – tal como no sistema ECTS – como uma forma adequada de incentivar a mobilidade de estudantes da forma mais livre possível. Os créditos poderão também ser obtidos em contextos de ensino não-superior, incluindo aprendizagem feita ao longo da vida, contando que sejam reconhecidos pelas Universidades participantes.”

“Promoção das necessárias dimensões a nível Europeu no campo do ensino superior, nomeadamente no que diz respeito ao desenvolvimento curricular; cooperação inter-institucional, projetos de circulação de pessoas e programas integrados de estudo, de estágio e de investigação.“

Este é o ponto central, estamos conseguindo abrir a economia para o mercado internacional, agora precisamos abrir amplamente a possibilidade de formação de nossos alunos em múltiplos países e com diferentes formas de aprendizagem. Isto não pode ser feito simplisticamente, é preciso discutir e definir uma regulamentação e uma legislação que permita o intercâmbio com qualidade assegurada. Alguns exemplos são os acordos de bi-diplomação em que um aluno, cumprindo regras bem claras de permanência e aprovação, recebe um diploma pela Universidade brasileira e estrangeira. E os estágios profissionais? Como podem ser considerados na aquisição de créditos? Há previsão de estágio curricular com contagem de créditos nos nossos cursos? Ou isto só deve ser feito nos cursos vocacionais? Há inúmeras perguntas que devem ser respondidas antes que tenhamos um sistema plenamente operacional. A legislação e as regras operacionais da Universidades devem cobrir este novo mundo de alternativas. Há um grande risco de perda de qualidade pela aceitação de qualquer atividade profissional como crédito acadêmico.

Há exemplos deploráveis disto nos chamados “estágios curriculares” que muitas vezes nada mais são do que contratação de mão de obra barata. Como discuti anteriormente estamos com um sério problema de inserção dos doutores nas indústrias. A resposta à fraca inclusão dos nossos pós-graduados nas indústrias está no desenvolvimento industrial. Para que as indústrias possam se atualizar e criar tecnologia competitiva é necessário absorver esta experiência e vivência internacional. A solução deste problema deve passar pela mudança da cultura empresarial e acadêmica, com a valorização dos estágios profissionais, das especializações e dos mestrados no exterior. Isto tudo desenvolvido em ampla integração com os objetivos e grupos de P&D das empresas. Uma vez retornados, estes profissionais estimularão a inserção internacional o que levará, a mais longo prazo, a mudança de cultura empresarial a absorção dos doutores. esta mudança é essencial à competição internacional, sem isto resta a falência em um mercado muito competitivo.

Além de mudar a cultura, ou mesmo para conseguir esta mudança, é preciso encontrar os fundos necessários ao financiamento do intercâmbio, o sistema CAPES/CNPq e FAPs está orientado para a formação de pesquisa avançada, e é essencial manter este foco para que continuemos com uma pós-graduação competitiva internacionalmente. Os recursos governamentais são limitados e devem ser orientados para a sociedade em geral, neste caso para a formação de recursos humanos de alto nível. Mas as empresas, as grandes beneficiadas do processo de formação, onde entram? Elas serão as maiores usuárias desta formação vocacional internacional. É preciso um sistema tri-partite de financiamento com a aprticipação do governo, das empresas e das Universidades. A cobertura de custos – mesmo que parcial – pelas empresas, o apoio das Universidades na alocação de recursos e algum tipo de renúncia fiscal associada aos valores aplicados na formação dos recursos humanos. Os cursos de especialização brasileiros podem ter um módulo de experiência internacional, conheço dois casos aqui no RS, mas – novamente – encontramos o problema dos custos. Qual a participação das empresas na formação de seus funcionários? Elas cobrem, mesmo que parcialmente, estas despesas? Para a maior parte dos brasileiros financiar do próprio bolso estes estágios é quase impossível. Para você que é aluno, de qualquer nível, imagino que agora deve estar motivado para se aperfeiçoar no exterior. Se for professor penso que seria interessante discutir o assunto com seus alunos. Então entre na seção Ensino no Mundo e descubra as possibilidades e dicas para abrir os horizontes e aumentar a competitividade. Há muitas possibilidades de bolsas e de apoio a estas atividades. A competição é alta, é preciso se esforçar.