Pós-graduação 2.0

Construindo um grupo de pesquisa é uma tarefa difícil e longa. Construir um programa de pós-graduação é ainda mais árduo pois nos obriga a desenvolver vários grupos de pesquisa articulados. Além disto é preciso que as instituições proponentes consigam cobrir todas as áreas básicas da CC além dos seus temas específicos de interesse. O nosso interesse é termos um sistema de pós-graduação de primeiro nível, escrevi “um sistema” e não alguns cursos de primeiro nível. Este é o nosso desafio. Nesta crônica vou tratar deste assunto: qualidade, trabalho cooperativo e um novo modelo de cooperação na pós-graduação.

No CSBC, mais precisamente no Curso de Qualidade, ficou bem claro que precisamos dar uma ênfase na qualidade do trabalho de nossos alunos. Em minha opinião está faltando trabalhar a abstração e o formalismo, mas isto só se consegue com disciplina e com trabalho pesado. Churchill disse: “I have nothing to offer but blood, toil, tears, and sweat”, aqui no Brasil tiraram a palavra “toil”, porque? Há coisas que só se conquistam com esforço e trabalho duro. Ninguém se torna um atleta de competição sem esforço continuado e intenso. Ninguém se torna um concertista sem 6 a 8 horas de treino diário. Ninguém consegue solucionar equações de Schrödinger (mecânica quântica) sem passar centenas de horas trabalhando com reduções e solução de inúmeras equações. Para atingir a excelência precisamos conseguir que volte a dedicação e ao trabalho pesado.

O que isto tem a ver com a pós-graduação? Muito, pois é impossível para todos os grupos de pesquisa terem a equipe disponível para desenvolverem este trabalho duro e intenso em todas as áreas importantes para um curso de Ciência da Computação – CC. Então surge o grande dilema: o que é melhor, (i) ter um grupo cobrindo superficialmente todas as áreas necessárias para um programa de pós-graduação em computação ou (ii) ter um grupo ou poucos grupos trabalhando duro em uma área ou em poucas áreas específicas?

Em um discurso da reunião da Associação Americana para o Progresso da Ciência, seu ex-presidente, David Baltimore, formulou algumas idéias que vale a pena considerar. Baltimore ganhou o Premio Nobel de Fisiologia o Medicina em 1975 (junto com Renato Dulbecco y Howard Temin)

“Desenvolver ciência de primeiro nível é difícil. Só se chega à excelência depois de um processo longo e trabalhoso. Se alguém se limita a comprar uma máquina produz ciência padrão. Em pesquisa são as pessoas que fazem a diferença realizando novas coisas e formulando novas perguntas. A qualidade das pessoas é o que determina a qualidade do que se produz. Podemos ter máquinas maravilhosas mas, a menos que tenhamos gente extraordinária não se poderá produzir ciência extraordinária.”

É claro que as pessoas são o ponto central de qualquer modelo de qualidade. Então o que precisamos são de pessoas competentes; não adianta termos pessoas tentando cobrir toda a CC superficialmente, é melhor termos qualidade no subconjunto da CC escolhido pelo grupo. Mas o que se passa se um grupo acadêmico tomar esta decisão? Não terá um doutorado, pois não poderá cumprir os requisitos de abrangência. Ai entramos em um ciclo vicioso, ou tentamos atender a abrangência e perdemos qualidade ou nos concentramos em um tema, ganhamos qualidade, mas não conseguimos a autorização para a criação do doutorado. Acredito que o processo acelerado de expansão dos programas de pós-graduação em computação está atingido o seu limite, tanto por uma falta importante de candidatos qualificados (ver: A crise no ensino da computação) quanto pela necessidade de recursos elevados para conseguir manter muitos grupos de excelência nas diversas áreas necessárias. Além disto a disponibilidade de doutores com a qualificação necessária para criar um doutorado é limitada. Muitos novos programas foram criados, a demanda de alunos está em redução e muitos grupos pequenos precisam participar ou ter programas de doutorado para poderem desenvolver pesquisa de alto nível. Há duas alternativas oferecidas pela CAPES para apoiar doutorados interinstitucionais, o DINTER e o PROCAD. Vejamos suas características:

DINTERExternal link

Objetivos: O Ministério da Educação – MEC, por meio da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES, receberá das Instituições de Ensino Superior detentoras de programas de pós-graduação stricto sensu credenciados pela CAPES, propostas de Programas de Doutorado Interinstitucional – DINTER, com a finalidade de capacitar recursos humanos de sua própria IES e de instituições parceiras. O Programa de Doutorado Interinstitucional – DINTER, tem como objetivo oferecer a um grupo ou turma de alunos a formação em nível de doutorado, sob condições especiais

Destinatários: Instituições de Ensino Superior detentoras de programas de pós-graduação stricto sensu credenciados pela CAPES, federais ou estaduais, pertencentes às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Benefícios: A Capes financiará as despesas de custeio essenciais às finalidades do DINTER, entendendo-se como tais aquelas relacionadas e descritas a seguir:

* Bolsas de estudo no país, com prazos de implementação e de duração vinculados à vigência do projeto, nas modalidades constantes do edital;
* Passagens aéreas, adquiridas na classe econômica e tarifa promocional, para missões de estudo e de pesquisa e docência;
* Diárias para missões de pesquisa e docência, aos docentes e discentes envolvidos diretamente no projeto;
* Recursos de custeio para desenvolvimento das atividades do projeto;
* Auxílio transporte para atender ao deslocamento intermunicipal ou interestadual, rodoviário ou fluvial de ida e volta, quando houver necessidade.

PROCADExternal link

Objetivo: Promover a formação de recursos humanos de alto nível, nas diversas áreas do conhecimento, através de projetos conjuntos de pesquisa de média duração. Intensificar, também, o intercâmbio científico no país, por intermédio do envolvimento de equipes acadêmicas de diversas instituições de ensino superior e de pesquisa brasileiras, criando condições para a elevação geral da qualidade do ensino superior e da pós-graduação.

Como funciona? Os projetos serão apoiados por meio do financiamento de missões de estudo, missões de docência e pesquisa e estágio pós-doutoral. As missões devem ser planejadas de modo a assegurar a implementação das ações necessárias, destinadas a facilitar e possibilitar a interação entre as equipes, consolidando, desse modo, as redes de cooperação.

a) Uma equipe deve, obrigatoriamente, pertencer a programa com nível de doutorado com nota igual ou superior a 5, que deverá ser obrigatoriamente a equipe coordenadora geral do projeto;
b) As demais equipes, denominadas de equipes associadas, devem pertencer a programas de pós-graduação stricto sensu recomendados pela Capes;
c) As equipes devem pertencer a diferentes IES, preferencialmente, de estado e/ou região diversa;

Ambos programas permitem a qualificação da pós-graduação pela formação de recursos humanos em projetos específicos (DINTER) ou para a qualificação e formação de recursos humanos (PROCAD). Entretanto há uma importante limitação, no DINTER há a formação de uma turma de doutores e no PROCAD é estimulada a cooperação entre programas de pós-graduação já existentes.  

Ai surge a Pós-graduação 2.0 – uma idéia debatida no Fórum de Coordenadores de PG durante o CSBC 2009 – criar uma nova forma de financiamento e de operação de cursos distribuídos. Há várias alternativas a serem trabalhadas, isto é apenas uma proposta inicial de discussão. A primeira alternativa seria cadastrar grupos emergentes ou menores com uma competência e comprometimento garantidos em uma ou em poucas áreas específicas. Ai entra a palavrinha mágica de Churchill: “toil“. Com trabalho pesado e esforço é possível tornar um grupo pequeno em grupo de destaque em um tópico. Feito isto será possível criar associações entre estes grupos e programas consolidados de doutorado. Depois alunos de doutorado poderiam cursar a formação básica nos programas consolidados, complementá-las nos grupos menores e ter cursos e realizar pesquisas nas áreas de excelência destes grupos. Teremos co-orientações e pesquisa de qualidade distribuída.

Esta é uma primeira proposta destinada a estimular um novo tipo de cooperação que permita a capilarização da pesquisa e do ensino de doutorado garantido o elemento essencial destes cursos: a qualidade. Outra vantagem do modelo é permitir, de uma forma cooperativa, o desenvolvimento de grupos de pesquisa de qualidade em regiões mais afastadas ou em departamentos menores.

O debate está lançado.