Mediocridade na escrita! ou Globish & Shopenhauer

Já tive alguns problemas com alunos que escreveram textos quase incompreensíveis. Por exemplo: uma frase com 15 linhas e inúmeras vírgulas. Problemas de concordância, de ortografia e, principalmente, de semântica são comuns. Cada vez tenho observado uma piora na formação básica dos alunos. Aparentemente a mediocridade na escrita, e acho que na abstração, está se espalhando como uma praga. É a falta de tempo para pensar, ou o pensamento consome muita energia? Acho que falta exercício e esforço para se concentrar em um assunto e expor com clareza o essencial. Precisamos reformular o ensino fundamental e médio. Em decorrência destas observações escrevo esta pequena e ácida crônica com apoio de um grande filósofo alemão.

Indo para um congresso aproveitei o longo voo para reler um texto de Schopenhauer: “A Arte de Escrever” (L&PM Pocket, 2009, ISBN 978-85-254-1464-9) . Com esta leitura é possível perceber que alguns problemas são recorrentes, algumas citações e comentários sobre as mesmas:

“… deve-se evitar toda a prolixidade e todo o entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela”  (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 15)

É um ataque à escrita redundante, à falta de tempo para meditar e escrever o essencial. Por um acaso o marcador de páginas que estou utilizando neste livro traz a seguinte frase: “A perfeição é filha do tempo”. Um poeta gaúcho, Mário Quintana, dizia que para um poema parecer ter sido escrito com inspiração deveria ter sido rescrito vinte vezes!

Deveria ser determinado por lei que todos os estudantes universitários, no primeiro ano, fizessem exclusivamente os cursos da faculdade de filosofia, e antes do segundo ano não tivessem permissão para assistir aos das três faculdades superiores”. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p.37)

Esta frase é crítica! Antes de realizar estudos superiores é preciso apreender a pensar. Isto está em conflito com a atual visão de que tudo tem que ser rápido e sem que “percamos” tempo com o estudo dos fundamentos, não diretamente aplicáveis na vida prática.

No fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios, lidos, são como as sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa”. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 41)

“O sinal característico dos espíritos de primeiro nível é a espontaneidade de seus juízos. Tudo o que vem deles é resultado de seu pensamento mais próprio e se mostra como tal já na sua maneira de se expressar. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p.50)

Estas citações são indicadas para os doutorandos. Depois de apreender a pensar e a escrever é preciso apresentar textos autênticos e com seu próprio pensamento. Esta é a essência da vida acadêmica: pensar autonomamente e discutir, divulgar este pensamento. Apenas citar os outros é decadência.

“O douto emprega a sua força em dizer sim ou não, em criticar o que já foi pensado por outros; quanto a ele, todavia, não pensa mais…”  Nietzsche, Ecce Homo

Voltando para nosso pesquisadores: não seria melhor uma produção de melhor qualidade mas com menor quantidade? Para mim a obtenção de qualidade na pesquisa é algo parecido com o desenvolvimento dos vinhos de alta qualidade: há regras que limitam o peso das uvas colhidas por acre para a produção dos melhores vinhos, é melhor menos com maior qualidade do que mais com mediocridade. Não esta na hora de começarmos a descontar pontos por produção quantitativamente grande mas de pequena relevância? Ou avaliarmos os pesquisadores por, digamos, suas dez melhores produções?

Vamos agora para analisar a qualidade da escrita:

“O pretenso melhoramento “atual” da língua, empreendido por garotos que saíram cedo demais da escola e cresceram na ignorância, também tornou a  pontuação sua presa, manipulando-a hoje em dia, em geral, com uma negligência proposital e presunçosa”.  (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p.108)

“Quem escreve de maneira displicente confessa com isso, antes de tudo, que ele mesmo não atribui grande valor a seus pensamentos”. Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 114)

É essencial que para apresentarmos boas ideias que escrevamos corretamente. O desprezo pela boa escrita, a falta de estudo e a tendência a rapidez não pensada levam à mediocridade. Recentemente surgiu uma nova língua: o Globish. Globish é um subconjunto do idioma Inglês formalizada por Jean-Paul Nerriere. Este dialeto usa um subconjunto da gramática Inglês padrão, e uma lista de 1.500 palavras em Inglês. O Globish não é uma linguagem em si, mas é a base comum para ser adotada pelos não falantes nativos de inglês no âmbito dos negócios internacionais. McCrum escreveu o livro Globish: Como o Inglês linguagem tornou-se uma língua mundial (ISBN 9780393062557) descrevendo Globish como um fenômeno econômico, ao contrário de “global Inglês”, cuja utilização é muito mais diversificada do que apenas um negócio. O termo Globish é uma junção de “Global” e “English”. (Wikipedia) Há uma alternativa popular nos Estados Unidos chamada de Espanghish, um dialeto falado pelos hispânicos morando nos EEUU. Horrível! Sabem o que significa “llamando a detrás“? Callback

Esta ideia, o Globish, só leva em conta o empobrecimento do texto e uma sintaxe simplificada. Mas isto não resolve o problema de compreensão e de troca de informação. Olhem só o problema: em português a palavra tanque pode significar um veículo de guerra, um depósito de líquido ou um objeto para lavar roupa. Em alemão este conceito pode ser expresso por: kampfpanzerwagen => veículo blindado de guerra, não há nenhuma dúvida sobre o seu significado. Não é com a imbecilização do inglês que se vai conseguir uma melhor troca de informação e de compreensão entre os parceiros sociais. O mesmo ocorre com o XML, é apenas uma sintaxe e não trata do real problema da semântica associada, conforme John Sowa:

“The latest attempt to integrate all the world’s knowledge is the semantic web. So far, its major contribution has been to propose XML as the common syntax for everything. That is useful, but the problems of syntax are almost trivial in comparison to the problems of developing a common or at least a compatible semantics for everything.”

No Spanglish encontramos a mediocridade, em vez de melhorar o estudo do Inglês procura-se uma simplificação supondo que isto melhorará a troca de conhecimento e a interação. Engano e fraude, como a língua fica simplificada perde-se o sentido profundo e as pessoas pensam que usam os mesmos símbolos para se referir a um conceito quando estão pensando coisas diferentes (Semiótica). Sobre isto Schopenhauer escreve:

“Primeiro é preciso compreender corretamente todos os conceitos que a língua a ser aprendida designa com suas palavras e, a cada palavra dessa língua, pensar imediatamente no conceito exato correspondente, sem traduzir primeiro a palavra por uma da língua materna, para depois pensar no conceito designado pela tradução. Pois nem sempre o segundo conceito corresponde com exatidão ao primeiro, e o mesmo pode ser dito em referência a frases inteiras. Só assim se compreende o espírito da língua a ser aprendida, dando-se com isso um grande passo para o conhecimento da nação que fala essa língua, porque a língua é, para o espírito de uma nação, o que o estilo é para o espírito de um indivíduo” …Pessoas pouco capazes também não assimilarão com facilidade uma língua estrangeira: elas chegam a aprenderas palavras da língua, no entanto sempre as empregam no sentido do equivalente aproximado que existe em sua língua materna e só decoram as locuções”. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 152)

Creio que podemos finalizar, é precisa uma reação importante para que consigamos um ensino e pesquisa de qualidade. Não é possível mais aceitar provas com questões de marcar opções, o vestibular de cruzinhas” é um dos maiores inimigos da cultura. A partir de agora vou formular sempre questões dissertativas que obriguem o raciocínio e a estruturação do conhecimento.