Computação e Humanidades: computadores, criatividade, estética e qualidade

Os computadores foram utilizados inicialmente como máquinas de calcular seguindo a sequência de desenvolvimento a partir de ábacos, passando para réguas de cálculo, máquinas diferenciais, calculadores mecânicos, máquinas tabuladoras e finalmente computadores digitais, com o ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Computer) há exatos sessenta anos [1]. Este início, baseado no cálculo numérico, deu à área da CC uma forte tendência matemática e quantitativa. Por outro lado há uma forte tendência de desenvolvimento de percepções mais humanas em relação aos computadores e aos softwares associados. No site referenciado acima há uma seção denominada “We love computers” onde os itens são: “Be more productive”, “Build new communities”, “Have more fun, more often, at less cost and risk” e “Find a friend”. Destas quatro seções, três tem foco em aspectos sociais! Algo mudou nestas seis décadas. Fica clara a distância entre o início do desenvolvimento da computação e as expectativas sociais atuais. A revista Veja [2] publicou um artigo com o título “O Windows descobre a beleza”. O subtítulo é “O novo sistema da Microsoft é mais funcional, seguro e elegante”. Neste artigo, para o público leigo, o novo sistema operacional é tratado como um elemento integrador de funcionalidades, de aplicações domésticas, finalmente são discutidas as suas características técnicas. De um outro ponto de vista Domenico De Massi [3], trata da criação de novas alternativas, livres das limitações da materialidade. No capítulo nove de seu livro Criatividade escreve De Massi: “… A descoberta é limitada por alguns vínculos : … . Já a invenção, pelo contrário, pode prosseguir por infinitas direções, pode abrir infinitos campos e pode seguir infinitos caminhos: tanto os objetivos quanto os itinerários são ilimitados”.

     Ao analisarmos o que é um computador devemos pensá-lo como algo mais do que uma máquina de calcular associada com uma lógica binária. Em português falta uma palavra melhor para designar esta máquina – mas em francês é ainda pior, pois um computador é um ordinateur, isto é um classificador! Um computador deveria ser pensado como uma máquina de inferência lógica, imaginem onde estaríamos se os primeiros computadores tivessem sido estruturados assim. Em vez de um computador teríamos um raciocinador! E a beleza? Encontrei um artigo muito interessante no Scholar Google, entre centenas de outros, denominado “Computers and Beauty” (keywords: Esthetics in computer art, mathematical beauty) [4]. O mercado de produtos de hardware está cada vez mais orientado ao design. O seguinte texto, achado na Web, caracteriza bem este fato “Acrylic windows, neon and strobe lights, Day-Glo colors, and vaguely alien shapes may be appealing for desktop PC cases“. Para exemplos visuais desta tendência sugiro o acesso ao site da CaseArts [5]. Algo está mudando, há pouco tempo a atração principal era a capacidade do disco, a velocidade do ciclo de memória etc. Com o aumento da capacidade de processamento e com a banalização da qualidade (ninguém mais aceita algo que não siga normas e que funcione corretamente) o interesse está mudando para a estética, para a satisfação pessoal e para a integração de serviços e funções. Hoje um produto perfeitamente funcional, software ou hardware, mas esteticamente desagradável ou inadaptado aos hábitos e a cultura local desaparece logo do mercado. Por exemplo: não é adequado considerar a localização de software reduzida a uma simples tradução fora do contexto. Estes dias levei um bom tempo para descobrir que um botão denominado residência queria dizer home! Onde se encontram estes tópico em nossos cursos de bacharelado em computação?

     Finalmente é preciso considerar que não há mais uma dicotomia (ou tricotomia) entre estudo, diversão e criatividade, como Domenico de Massi trata muito bem em seus trabalhos, mas esta nova realidade ainda não foi integrada à Computação. Este é o desafio que a nossa comunidade deve enfrentar: como mudar o enfoque da Ciência da Computação, de exclusivamente uma ferramenta técnica, para considerá-la como elemento complementar das Humanidades? Como usar o computador como elemento de melhoria da qualidade tanto dos pontos de vista social e estético quanto da qualidade de vida em geral permitindo a integração fácil de serviços, diversão e ensino? Transformar a mentalidade para a compreensão que a competência técnica é necessária, mas não suficiente para o sucesso competitivo no mercado. Precisamos, tanto no desenvolvimento de equipamentos quanto no de sistemas, levar em conta aspectos sociais, estéticos, de satisfação e de beleza. Para tanto será necessário um maior fortalecimento de grupos multidisciplinares no ensino, na pesquisa e no desenvolvimento. Na Universidade precisamos discutir os currículos fechados que mantém alunos de diferentes áreas isolados. Precisamos integrar os estudantes de computação com os de design, de administração, de sociologia e de arte, entre outros. O atual modelo de disciplinas estanques não parece adequado a este objetivo. Um novo modelo de ensino por matérias parece ser estimulante. As Agências de Fomento devem criar editais de pesquisa ou desenvolvimento que contemplem os aspectos multidisciplinares sem descuidar da qualidade em cada área. Finalmente é preciso que cada membro de uma equipe multidisciplinar seja competente em sua área, a competência da equipe multidisciplinar deve ser avaliada depois de assegurada a competência individual em cada área específica. A competência multidisciplinar se desenvolve sobre a competência disciplinar.

Referências:

[1] The ENIAC Museum Online, University of Pennsylvania

[2] O Windows descobre a beleza, Revista Veja, n. 1947, ano 39, 15 de março de 2006, p. 90-91.

[3] Criatividade, Capítulo nove, O Homem descobre a criatividade e descobre o futuro, Domenico de Massi, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2002, 795 páginas.

[4] Computers and Beauty (Esthetics in computer art, mathematical beauty, ART-3 system, 1977) by Mutsuko Sasaki, Tateaki Sasaki,

[5] Site da CaseArts.