Quantas universidades haverá no futuro – A Resposta.

Quantas Universidades haverá no futuro? Meu primeiro impulso foi escrever: “A resposta é 42”! Mas esta discussão, lançada pelo Sílvio Meira, na lista sbc-l me fez pensar e tratar deste assunto com mais profundidade. Será que o problema está corretamente enunciado? Vejamos o texto provocativo citado pelo Sílvio e produzido por relatório do Banco Mundial de 2009 sobre world-class universities:

In an attempt to propose a more manageable definition of world-class universities, this report makes the case that the superior results of these institutions (highly sought graduates, leading-edge research, and technology transfer) can essentially be attributed to three complementary sets of factors at play in top universities…”

Este texto é parecido com aquelas consultas de opinião que dão respostas pré-definidas para os pesquisados. Como as respostas foram escolhidas previamente o entrevistado não tem realmente escolha, só pode seguir as opções oferecidas. Neste caso a situação é pior: assumem que uma Universidade está orientada para a “transferência de tecnologia”. Os dois itens anteriores servem para reforçar este último. Os “diplomados altamente procurados” servem para empresas, a “pesquisa de ponta” é sinônimo, neste contexto, de pesquisa tecnológica. Será que é isto o objetivo de uma Universidade? Será que esta visão não é o motivo do descrédito das Universidades? A Universidade deve competir com as Empresas?

O Sílvio coloca:

eu acho que boa parte do problema que tem que ser tratado é que, na economia do conhecimento, NÓS, a universidade, ja nao detemos seu monopolio. nunca foi o caso. mas parecia. humboldt fez parecer e o passo meramente industrial da economia, por uns duzentos anos ajudou”

Encontramos esta visão em outras fontes:

“Entende-se por inovação tecnológica um novo produto (final ou intermédio) comercializável, isto é, não basta ser “uma novidade” se não se puder transformar em mercadoria”. Para uma discussão do conceito de inovação; cf. Luísa Oliveira (2000), Para uma Abordagem Sociológica do Conceito de Inovação. Relatório para a Fundação de Ciência e Tecnologia, Lisboa.

Então a visão do que seja uma Universidade de qualidade mundial avalia a Universidade como uma coadjuvante do desenvolvimento tecnológico e econômico. Esta não foi a percepção histórica e universal de Universidade. A nossa comunidade acadêmica de computação tem inculcada, de tal forma, esta visão que inúmeros professores e pesquisadores qualificados como de alto nível pela CAPES e CNPq dizem abertamente que as pesquisas de Educação, Sociologia, e até de Administração são… para sermos educados: brincadeiras.

Há algum tempo publiquei uma crônica sobre “Dêem Tempo para a Universidade Pensar ou os modelos de Universidadeonde já tratava do assunto. Vou copiar parte daquele texto a seguir.

A university is an institution of higher education and research, which grants academic degrees at all levels (bachelor, master, and doctorate) in a variety of subjects. A university provides both tertiary and quaternary education. The word university is derived from the Latin Universitas Magistrorum et Scholarium, roughly meaning “community of masters and scholars”. Wikipedia

Então uma Universidade deve ser o ponto de encontro de Mestres e Pensadores. A Universidade foi, desde sua criação, um local de pensamento, de tempo para a análise crítica, para o desenvolvimento de novos conceitos. Não é por acaso que as ditaduras sempre atacam as universidades seja pelo seu fechamento, seja pela instituição de comissários políticos, ou encarregados da “segurança interna” do SNI. Apenas recentemente a disciplina de Filosofia, proibida durante a ditadura militar, foi reintroduzida no secundário. Em um ambiente de liberdade há espaço para novas ideias e para a abertura de novos horizontes, este é o modelo de Universidade Humboldtiana, a Alemanha criou este modelo nos 18’s e obteve, no início do século XX, uma das maiores concentrações de Prêmios Nobel. Este trecho (em português de Portugal) é essencial para a compreensão do que seja uma Universidade:

A fundação da universidade de Berlim por Humboldt foi uma “success stor”y. O seu modelo foi rapidamente adoptado em toda a Alemanha, e, mais tarde, viria a exercer uma influência decisiva na concepção das grandes universidades norte-americanas, como Harvard ou Yale – que são, na sua essência, coisa que muita gente ignora, universidades humboldtianas. O princípio central da idéia humboldtiana de universidade é a famosa “unidade indissolúvel do ensino e da investigação”. Isto significa que a matéria a ensinar é, idealmente, um saber adquirido em primeira mão pelo docente na qualidade de investigador. Uma tal ideia tem óbvias implicações práticas ao nível dos calendários escolares e horários, ou seja da gestão do tempo consagrado ao ensino e à investigação. Só o docente que tiver tempo para investigar, e para se informar do “state of the art” na sua área, poderá desenvolver um ensino de carácter verdadeiramente universitário. Dois outros princípios importantes deste modelo de universidade são o da liberdade do ensino e da aprendizagem e o da necessária maturidade e autonomia do estudante universitário. O primeiro diz respeito não apenas à liberdade do docente e investigador na escolha das matérias em que se especializa, mas igualmente à liberdade de escolha, pelo estudante, do seu próprio percurso de aprendizagem, o que implica, na prática, a existência de disciplinas de opção livre e um sistema de major e minor.” urbi et orbi, José Manuel Boavida Santos

Leiam estre outro trecho da Wikipedia sobre a Universidade Humboldt de Berlim:

The first semester at the newly founded Berlin University occurred in 1810 with 256 students and 52 lecturers in faculties of law, medicine, theology and philosophy under rector Theodor Schmalz. The university has been home to many of Germany’s greatest thinkers of the past two centuries, among them the subjective idealist philosopher Johann Gottlieb Fichte, the theologian Friedrich Schleiermacher, the absolute idealist philosopher G.W.F. Hegel, the Romantic legal theorist Friedrich Carl von Savigny, the pessimist philosopher Arthur Schopenhauer, the objective idealist philosopher Friedrich Schelling, cultural critic Walter Benjamin, and famous physicists Albert Einsteinand Max Planck. Founders of Marxist theory Karl Marx and Friedrich Engels attended the university, as did poet Heinrich Heine, novelist Alfred Döblin, founder of structuralism Ferdinand de Saussure, German unifier Otto von Bismarck, Communist Party of Germany founder Karl Liebknecht, African American Pan Africanist W. E. B. Du Bois and European unifier Robert Schuman, as well as the influential surgeon Johann Friedrich Dieffenbach in the early half of the 1800s. The university is home to 29 Nobel Prize

Por este trecho pode-se perceber que isto é UMA Universidade Humboldtiana. Não a fonte de mão de obra para empresas, mas uma fonte de estudo, conhecimento e sabedoria. Não estou propondo o fim da pesquisa aplicada, aliás o que deve existir é pesquisa de altaqualidade aplicada a problemas reais, estou dizendo que as Universidades desaparecerão não pelos cursos tecnológicos de algumas Universidades nos USA, os MOOCs, mas por temos nos esquecido do papel essencial da Universidade que é:              

Study of the social dimensions of scientific knowledge encompasses the effects of scientific research on human life and social relations, the effects of social relations and values on scientific research, and the social aspects of inquiry itself. Several factors have combined to make these questions salient to contemporary philosophy of science. These factors include the emergence of social movements, like environmentalism and feminism, critical of mainstream science; concerns about the social effects of science-based technologies; epistemological questions made salient by big science; new trends in the history of science, especially the move away from internalist historiography; anti-normative approaches in the sociology of science; turns in philosophy to naturalism and pragmatism. This entry reviews the historical background to current research in this area, features of contemporary science which invite philosophical attention, the challenge to normative philosophy from social, cultural, and feminist studies of science, and the principal philosophical models of the social character of scientific knowledge”.

Longino, Helen, “The Social Dimensions of Scientific Knowledge”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2011 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = http://plato.stanford.edu/archives/spr2011/entries/scientific-knowledge-social/.

Por tudo isto minha resposta à pergunta:

  • Quantas universidades haverá NO FUTURO?

é a seguinte:

  • Todas as que forem realmente UNIVERSIDADES, as demais serão instituições de ensino, podemos chamá-las de Universidades, mas não no conceito Huboldtiano. Talvez o problema ser utilizarmos o mesmo termo “Universidade” para tratar duas entidades diferentes.

Provavelmente esta resposta explica um pouco o desinteresse pelas atuais carreiras técnicas, não é como dizem os linha dura pela pouca vontade de estudar, mas sim pelo desencanto com a tecnologia somente como tecnologia e pelo enriquecimento de uns poucos usando técnicas e metodologias tecnológicas sem preocupação com as consequências e implicações sociais e morais da tecnologia. Porque será que há mais jovens escolhendo Direito, Psicologia  e outras carreiras humanas em vez de computação? 

Há esperança, em uma análise do comportamento das sociedades industriais o economista J.K.  Galbraith estuda o comportamento antagônico desta sociedade para com os valores que transcendem o puramente econômico. Estuda, também, a manipulação do mercado (e no caso da Universidade) para que se adapte aos interesses da sociedade industrial. No último capítulo intitulado O Futuro do Sistema Industrial, deste livro o autor faz uma análise crítica do relacionamento entre o sistema industrial e a sociedade (Galbraith 68, p. 433):

Já vimos em que lugar reside a possibilidade de salvação. O sistema industrial, em contraste com seus antecessores econômicos é intelectualmente exi­gente. Traz à existência, para servir-lhe as neces­sidades intelectuais e científicas, a comunidade que, tenhamos esperança, rejeitará o seu monopólio de propósitos sociais.”