Comemoração dos 10 Anos do CPD-UFRGS (1978)

 

Discurso proferido pelo Diretor do CPD, Prof. Manoel Luiz Leão
em solenidade alusiva ao 10º Aniversário do CPD-UFRGS. Abril de 1978

 

Logo UFRGSMagnífico Reitor, Homero Só Jobim, Excelentíssimos Senhores Ex-Reitores Prof. Elyseu Paglioli, Prof. José Carlos da Fonseca Milano, Prof. Eduardo Faraco; Excelentíssimos Srs. Pró-Reitores; Excelentíssimos Srs. Diretores de Unidades da Universidade, Órgãos Suplementares e Órgãos Auxiliares; Prezados Colaboradores do CPD; minhas Senhoras, meus Senhores.

Tantos foram os fatos, alguns já distantes no tempo, que determinaram nosso encontro aqui, nesta noite festiva, que talvez não os saiba recordar todos.

Lembro que, já no fim da década de 50, atormentava, com freqüência, o ilustre Professor Paglioli, na insistência em cogitar-se a aquisição de um computador digital, a ponto de passar, ele próprio, a exclamar, quando me via, entre jocoso e encorajador: “E o computador?”.

Minha convivência, na Faculdade de Ciências Econômicas, cujo curso de graduação então concluía, com os professores norte-americanos da missão do Ponto Quatro, atraída pelo Professor Pery Pinto Diniz, ofereceu-me oportunidades freqüentes de travar conhecimento com a inovação que surgia e já se tornava, nos Estados Unidos, importante instrumento da vida acadêmica. Na mesma época, enfrentei o concurso â cátedra, juntamente com o Prof. Renato Perrone, levando a que se estreitassem os laços de uma antiga amizade. Embora professor de Termodinâmica, ele já detinha emprego na Cia. IBM, iniciando a brilhante carreira que o levou a galgar a elevada posição que hoje ocupa na mesma empresa. Muitos estímulos recebi dele, para refletir sobre o papel do computador no mundo moderno e a importância em pôr em marcha esta idéia na nossa Universidade. Nesta ocasião, foi muito importante, também, o encorajamento oferecido pelo Prof. Pery Diniz, Vice-Reitor e Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, para que a idéia não fosse considerada uma fantasia sem propósito.

Em 1961, o Reitor Elyseu Paglioli autorizou a que um grupo de professores se submetesse, no Rio de Janeiro, a um curso de programação de computadores, ministrado pela companhia IBM. Entre outros, fizeram parte desta caravana o saudoso Prof. David Mesquita da Cunha, o Professor Manoel Luiz da Silva Neto e o Professor Rolf Bercht. Travamos, então, pela primeira vez, contacto com um computador digital, o IBM-650, hoje peça de museu.

Na ocasião, já contávamos, na Universidade, com uma unidade convencional de processamento de dados, em cartões perfurados, as “Máquinas Hollerith”, como eram conhecidas, instaladas em uma sala da Faculdade de Ciências Econômicas, briosamente operadas pelo Sr. Pedro Monteiro Nunes e pelo Sr. Nelson Issa, hoje Secretário da Divisão Acadêmica e, no tempo, como eu próprio, aliás, bem mais esbelto que hoje…

O Professor José de Oliveira Fortuna era, então, o Diretor de Pessoal e tem o mérito de haver dado os primeiros passos para a mecanização da folha de pagamento, entregando sua execução a esta unidade, embrião, de certa forma, do atual CPD.

Na metade da década de sessenta, já era patente que a Universidade deveria adquirir um computador, mas o volume de recursos necessários para tanto era quase desalentador, quando comparado com as parcas dotações disponíveis. Foi o Senador Mem de Sá quem inicialmente patrocinou a causa da Universidade, no orçamento da União, fazendo incluir dotação específica para a aquisição e instalação de um computador digital. Decisivos, no entanto, para a efetivação da providência, foram os recursos mobilizados pela própria Universidade, a partir de saldos especificamente destinados pelo Conselho Universitário e, sobretudo, o apoio do Conselho Nacional de Pesquisas, o qual, em reunião mantida em Porto Alegre, concedeu substancial auxilio para a aquisição do computador, por proposição dos conselheiros Antônio Couceiro, Bernardo Geisel e Otto Bier.

Surgiu, assim, o IBM-1130, provisoriamente instalado na atual sala dos Conselhos e logo após removido para a atual sede da Divisão Acadêmica do CPD, no piso térreo do Edifício da Escola de Engenharia, numa área originalmente destinada ao Laboratório de Ensaios de Materiais, cedida, porém, pelo grande Professor que foi Eládio Petrucci e pelo Diretor da Escola de Engenharia, Prof. Ivo Wolff. O Reitor, que pugnou pela obtenção dos recursos, que designou uma Comissão para estruturar o Centro de Processamento de Dados, que promoveu a licitação e a compra do equipamento, o ilustre Professor José Carlos da Fonseca Milano, inaugurou as instalações, com a presença do próprio Ministro da Educação, hoje Senador Tarso Dutra. Uma placa de bronze, no local, registra o acontecimento, na data de 6 de abril de 1968.

Simultaneamente, os membros da Comissão Organizadora, que tive o privilégio de presidir, integrada, ainda, pelos professores Manoel Luiz da Silva Neto, Ernesto Oderich Sobrinho e Genaro Celiberto, cuidaram de selecionar os primeiros alunos estagiários da nova instalação, num processo atento e cuidadoso, que marcou muito os rumos futuros do CPD. Assim, Paulo Alberto de Azeredo veio a se tomar o primeiro servidor do CPD, contratado para ali ter exercício, somando esforços com outros jovens estudantes, como Simão Sirineu Toscani (hoje novamente conosco, após passar alguns anos afastado) e com servidores da Universidade, como os já mencionados Pedro Monteiro Nunes e Nelson Issa, bem como o Sr. Arnecy Martins Vieira, para dar início às atividades do novo Centro. Foi vertiginoso o crescimento das aplicações do computador e de seu emprego. Saliento, nesta quadra, o início da longa experiência adquirida pelo CPD em processamento de exames, especialmente o vestibular, graças ao pioneirismo e ao empenho do Prof. José Martins Job, responsável pela Fundação PROGESA, cujo interesse, inteligência e cujo zelo no fazer bem feito deixaram um legado importantíssimo na formação profissional de toda uma geração de futuros professores e analistas do CPD. Quase todas as grandes Universidades têm enfrentado, aqui e ali, problemas decorrentes de erros no processamento eletrônico de dados dos vestibulares, numa repercussão altamente embaraçosa e danosa à confiança que deve cercar tal apuração. Fomos felizes em termos sido poupados, até hoje, de tão penosos contratempos, mas não se trata apenas de boa sorte. Como pano de fundo, surge a figura do Professor Job, na formação da mentalidade de nossos jovens profissionais. A Universidade muito lhe deve, pelas incontáveis horas que passou, doutrinando os programadores do CPD sobre a necessidade de pensar e repensar os procedimentos, de conferir e tornar a conferir, exaustivamente, tudo o que se faz, como única forma de surpreender o erro oculto, insuspeitado, que vai fatalmente ter ominosas conseqüências, se não apanhado em tempo. Outro fator importante do sucesso foi a política então adotada, de enviar ao Rio de Janeiro, para formação pós-graduada, especialmente na Pontifícia Universidade Católica, os estagiários que concluíam seus cursos de graduação e eram admitidos como professores ou analistas. No início da década de setenta, já contávamos com os primeiros Mestres em Ciências da Computação. Nunca poderia ser esquecida esta importante lição, pois grande parte do que se seguiu decorreu do relacionamento com os Centros de decisão, nesta área especializada, que surgiu do sucesso e da boa reputação forjados pelos professores e analistas da Universidade, com o seu desempenho no Rio de Janeiro.

No início da década de setenta, o Reitor Eduardo Faraco, pesando estes fatos, concluiu que a Universidade não poderia estagnar ou recuar, na senda que se traçara. Dificilmente conservaria os docentes qualificados, que tão penosamente formara, se não lhes oferecesse, também, oportunidade de lidar com sistemas de grande porte, no desenvolvimento de novas e mais avantajadas aplicações. O computador 1130 já atingia o limite de seu horizonte e cumpria dar um novo passo, decisivo, na expansão do CPD. A aquisição do computador B-6700 foi a conclusão natural de tais reflexões, enriquecidas por uma personalidade, como a do Reitor, dotada de singular força e decisão. Foi este, efetivamente, o grande passo em frente, que tornou irreversível, de certa forma, o papel da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no cenário brasileiro da Ciência da Computação, perpetuado, aliás, em outra placa de bronze, na nova sede do CPD, junto ao Hospital de Clínicas. Teve o Reitor, também, intensa participação na escolha do equipamento, já que se dividiu a Comissão de Concorrência, indicando uns a máquina Burroughs, outros (a minoria, é verdade, mas qualitativamente significativa, pois se tratava do Vice-Reitor e do então Diretor do CPD), preferindo a máquina concorrente. A decisão exigiu muito do Reitor Faraco e é curioso, hoje, lembrar como ela pode ter afetado o próprio desenvolvimento do mercado de sistemas de grande porte no País, pois, logo após, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul e a Universidade de Brasília optaram pelo mesmo equipamento, seguidos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da Universidade de São Paulo e da Universidade de Minas Gerais, sem falar em outras instalações privadas, numa cadeia de decisões onde o precedente pesava e o primeiro elo se achava no impasse havido na Comissão da UFRGS e na decisão isolada e singular de seu Reitor, com base em lúcido parecer, da autoria do Prof. Luiz Carlos Meneghini.

Em outra de suas decisões pessoais, o Reitor Eduardo Faraco marcou profundamente o CPD, no empenho que pôs, inclusive perante o Conselho Federal de Educação, em o definir, no Estatuto e no Regimento da Universidade, como órgão integrado, incumbido simultaneamente do ensino e da prestação de serviços.

Foi o Diretor do CPD, na gestão do Reitor Eduardo Faraco, o Prof. Luiz Fernando Jacinto Maia, a quem muito deve a Universidade, no desenvolvimento das atividades de computação, pelo vigor com que se voltou para a difusão do ensino básico de computação. Com pleno respaldo do Prof. Ivo Wolff, Vice-Reitor, adquiriu um conjunto de máquinas de perfurar cartões, para uso dos alunos, instituiu as primeiras disciplinas regulares de iniciação e modernizou o computador 1130, para enfrentar a carga acrescida, de compilar centenas de programas de alunos, introduzindo, ao mesmo tempo, a leitura óptica, fator de inovação na correção de provas. Em breve, chegava o momento em que se fazia necessário ampliar o próprio computador B-6700, que, de início, parecia gigantesco. Ao mesmo tempo, ressentia-se o CPD da falta de um quadro de funções técnicas que lhe permitisse recrutar e fixar analistas e programadores. O Reitor Ivo Wolff, que acompanhava muito de perto a evolução do CPD, já como Vice-Reitor, tomou a si este encargo, obtendo, não sem grandes dificuldades, a homologação de uma tabela de funções que até hoje é a única forma pela qual o CPD pode empregar pessoal técnico. Ao mesmo tempo, promoveu o primeiro aumento de capacidade do computador, dobrando sua memória central. Na atual gestão, o CPD tem recebido do Reitor e de seus Pró-Reitores particular atenção, já tendo efetivado um importante convênio com a FINEP (cujo Presidente, aliás, Dr. José Pelúcio Ferreira, tem acompanhado, de perto, todos os passos do CPD), para suplementação de salários, afora os decisivos esforços, bem sucedidos, para novamente ampliar a memória do computador e, sobretudo, expandir sua capacidade de armazenamento em discos. O Prof. Homero Só Jobim fez, recentemente, carinhosa e lisonjeiras referências ao CPD e ao seu pessoal técnico e docente, em nome do qual agradeço, reiterando a disposição e o empenho do mesmo em prosseguir oferecendo à administração Universitária motivos de satisfação.

O resultado alcançado em dez anos é fruto, pois, de uma longa lista de contribuições. É impossível citar nominalmente todos os credores desta gratidão, mas é preciso referir e louvar a juventude que cresceu no CPD e o fez crescer. Ela retribuiu, com largos juros, a confiança dos mais velhos. Já mencionei Paulo Alberto de Azeredo, o líder intelectual, respeitado por sua acuidade mental e pela serenidade nas horas de crise; Daltro José Nunes, que praticamente sozinho concebeu e pôs em marcha, com magnífica tenacidade, o Curso de Pós-Graduação, cuja reputação já transcedeu o âmbito regional. Os que chefiaram a Divisão de Computação, enfrentando o desafio de comandar o desenvolvimento de sistemas novos num computador de porte avantajado – Luiz Fernando Centeno, Newton Braga Rosa, Luiz de França Gonçalves Ferreira, Carllos Arthur Lang Lisboa, José Palazzo Moreira de Oliveira e, agora, Carlos Gastaud Gonçalves Filho…

Os chefes da Divisão Acadêmica, Azeredo, José Mauro Volkmer de Castilhos e, agora, uma mulher de extraordinária força, escondida sob uma aparência de fragilidade, Liane Margarida Rockenbach Tarouco, autora da primeira obra, na área de computação, egressa da Universidade e publicada por editora comercial…

Aos professores do CPD, pelo magnífico trabalho de difundir o ensino de Computação em nível de graduação, onde se destacam duas outras mulheres, além de Liane Tarouco: Magda Bercht, a coordenadora do Curso de Formação de Tecnólogo em Processamento de Dados, e Maria Lúcia Blanck Lisboa, Diretora do Instituto de Informática da PUC/RS…

Aos funcionários, admitidos no CPD ou transferidos de outras unidades da Universidade, especialmente aos que, mais próximos ao Diretor, têm que arcar com o seu gênio, nem sempre afável, e o toleram com grande paciência, como é o caso de Arnecy Martins Vieira, Ruy Walter Berger e da primeira Secretária do CPD, Da. Karin, e a atual, Da. Jane, que há sete anos nos acompanha…

Aos que ajudaram a construir e a estruturar os serviços do CPD, hoje levados a outros rincões e outras funções, como Wolfgang Pandikow, Kátia Amaral, Gladis Teixeira e a extraordinária assessora que foi Heloísa Gertum…

Aos membros do Conselho de Planejamento e Desenvolvimento da Universidade, cujo apoio foi inestimável — Professor Paulo Barbosa Lessa, Prof. Luiz Carlos Meneghini (cuja ausência, hoje, do corpo docente da Universidade, deploro imensamente), Prof. Flávio Maciel de Freitas, Profa. Graciema Pacheco, Prof. Carlos Candal dos Santos, Prof. Érico Maciel Filho, Prof. Darcy Closs, Prof. Eugênio Grumann…

Ao Presidente e demais membros do Conselho de Curadores, na pessoa do ilustre Prof. Eurico Trindade Neves…

À antiga Secretaria Geral de Planejamento, nas pessoas de seu titular, Prof. Luiz Duarte Vianna, e de seus assessores, Nelson Pereira da Cunha, Oscar Langlois e Roberto Alves Pinto…

Ao Hospital de Clinicas de Porto Alegre, cuja propriedade ocupamos…

Aos Comandantes de linha na Administração, a começar pelos Pró-Reitores, mas também destacando os Diretores e Chefes de Departamentos, como Sérgio Omar Fernandes, Rubens Felix Teixeira, Jacob Halperin, Antônio Dias de Castro, Acylio Olinto Ferreira…

A tantos outros, para com os quais cometo a injustiça de não os citar, mas cujo trabalho, às vezes anônimo, também construiu a obra que festejamos…
E até mesmo aos que, no embate das opiniões e na exaltação da palavra apaixonada, tenham deixado de ser meus amigos, o agradecimento do CPD, neste marco de sua vida a serviço da Universidade e da comunidade.

Muito obrigado!