Conquista da Lua (como vista em 1953)

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Viagem à Lua
1 de agosto de 1953

Composição da expedição pioneira com 50 cientistas e técnicos — Três possantes foguetes: dois de carga e um de passageiros — Partida: estação flutuante a 1.700 km de altura — Velocidade de 30.000 km horários, com motores desligados e simplesmente caindo em direção à Lua — Na esfera principal: vida de sardinha na lata, porém, confortável — A sensação de sentir-se sem peso — As 120 horas maravilhosas — Esforço para trabalhar normalmente debaixo da pressão de pesado equipamento — Objetivo inicial: a exploração, já em boa escala, de uma área de 800 km e estabelecimento da primeira base terrestre na Lua.

 

Texto dos Dre. FRED L. WHIPPLE e WERHNER ven BRAUN — Ilustrações de CHESLEY BONESTELL, ROLF KLEP e FRED FREEMAN — Fotos do Observatório de Mount Wilson

 

Exclusivo para O CRUZEIRO em todo o Brasil 

 

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Estaremos viajando para a Lua nos próximos 25 anos. Já possuímos os conhecimentos e os meios de fazê-lo, mas primeiramente serão necessários anos de preparação e de planejamento minucioso. O que podemos fazer agora é dar início ao projeto. Está dado o primeiro passo: geniais cientistas aperfeiçoaram foguetes que têm sido lançados através da atmosfera aos mais distantes espaços siderais, onde só existe o vácuo.

Todos agora sabemos que precisamos de foguetes mais possantes, mas, ao mesmo tempo, já temos ciência teoricamente de como construí-los. Nossa viagem à Lua não será um simples vôo sem escala. Para isso, precisaríamos de uma aeronave foguete muito grande e muito caro. Em face de tal óbice, construiremos um aeroporto no espaço. E nessa estação flutuante faremos baldeação, deixando para trás a aeronave do tipo fabricado especialmente para romper a força de gravidade da Terra, e reencetando a viagem em outra construída especificamente para descer na Lua.

Haverá ainda outras vantagens na jornada em duas etapas, entre elas, a velocidade inicial de 26.000 km por hora a partir do aeroporto suspenso.

Eis como será: — Dentro de 10 ou 15 anos, esperamos que esteja sendo construído um aeroporto permanente a 1.700 km de altura, obedecendo a uma órbita que o fará efetuar uma evolução completa em torno da Terra cada duas horas. Naturalmente, a “estação-satélite” será erigida com materiais transportados em enormes foguetes — chamadas “foguetes de 3 estágios” porque possuirão, separadas, três baterias de motores para serem usadas, uma de cada vez, sendo em seguido largadas no espaço. A uma velocidade da 26.000 km horários, a 1.700 km de altura, tais foguetes se transformarão em satélites da Terra, indiferentes à gravidade. Flutuando, cruzarão o espaço por tanto tempo quanto os deixarmos ali. A carga fará o mesmo, já que viaja à mesma velocidade. Assim, apenas descarregaremos no espaço os suprimentos e os deixaremos amontoados até quando tivermos necessidade de lançar mão deles. E juntando as partes pré-fabricadas construiremos então uma estrutura em forma de roda, com 80 metros de diâmetro, dotada de câmaras de pressão, para base da operação para uma equipagem de 80 pessoas.

O poder de esquadrinhar as mais distantes partes da Terra fará deste satélite uma das mais notáveis forças em prol da paz, ou, em mãos erradas, uma terrível arma de guerra.

Pelo que se supõe, só os EUA estão em condições de financiar a construção do “aeroporto flutuante”, orçado por alto em 4 bilhões de dólares (cerca de 16 bilhões de cruzeiros). Em 1948 o falecido Secretário da Defesa dos E. U. A., James Forrestal, revelava que já haviam sido começados os trabalhos do extraordinário plano. É de crer-se que não tenha sido posto de lado. Pois, além de servir como um guardião da paz, vigilante em seu itinerário, o “satélite artificial” fornecerá o trampolim para a mais histórica das façanhas cientificas: a viagem à Lua, com a qual o Homem tem sonhado há séculos. Calcula-se que o “aeroporto” esteja pronto em 1967. No futuro, em tal época, muitos dos planos para vencer a segunda e longa etapa deverão estar devidamente organizados. E assim já se pode prever que pelas alturas de 1977 o primeiro cientista da Terra porá o pé na velha poeira da Lua.

Eis como será a viagem à Lua: a expedição pioneira, composta de 50 cientistas e técnicos, partirá da estação flutuante em três foguetes de estranho formato, porém altamente eficientes. Como toda a segundo etapa do vôo se processará através de espaço que não possui ar para impedir deslocação, os três aparelhos não têm necessidade de obedecer ao modelo aerodinâmico. Dois deles, do tipo de carga, viajarão carregados de reserva de combustível bastante para um vôo ida-e-volta de 5 dias, com um percurso aproximado de 768.000 km. O terceiro aparelho, que não retornará, deverá transportar combustível suficiente apenas para a viagem de ida, completando-se o restante da capacidade de transporte com equipamentos e suprimentos, com o fim de proporcionar aos cientistas todo o conforto durante uma estada de 6 semanas na Lua.

Trinta e três minutos após a partida da estação flutuante, os 3 foguetes deverão alcançar uma velocidade de 30.000 km horários. E então os motores serão desligados, quando os aparelhos simplesmente cairão na direção da velha e poética Lua.

Não se pense que tamanha viagem poderá ser feita sem cuidadoso planejamento. Para começo, é preciso escolher a rota conveniente. E construir os aparelhos. E saber onde pousar. Mas a ciência garante que o mirabolante projeto estará em execução dentro de 25 anos. Pois não há problemas em tal viagem aos quais os cientistas não possam oferecer resposta desde já.

Onde pousar na Lua? Após minucioso exame das condições topográficas, a escolha do local de pouso será feita. Para isso, haverá um ou mais vôos de reconhecimento. Um pequeno foguete, circulando entre a, estação flutuante e a Lua, sobrevoará o nosso satélite, e, de uma altura de 80 km, colherá fotos da superfície esburacada de crateras de meteoros. Nesse vôo preliminar deverá ser efetuado pela primeira vez o reconhecimento da parte de trás da Lua, jamais visível da Terra.

O estudo detalhado das fotos indicará o local de pouso. Nossa escolha ficará limitada a diversas exigências técnicas. Possuindo a Lua cerca de 23 milhões de quilômetros quadrados — ou aproximadamente 1/13 da superfície da Terra — pelo que sabemos, não será possível explorar senão pequenas áreas em separado, e, quando muito, uma só região com 800 km de diâmetro.

Não podemos pousar no equador da Lua — porque a temperatura ao meio-dia supera o ponto de fervura da água, ou seja, 100 graus centígrados. Também não podemos pousar em região montanhosa pelo fato de necessitarmos estabelecer uma base e manter contato pelo rádio com a Terra. Nem também podemos pousar no descampado, porque a Lua é constantemente bombardeada por nuvens de meteoros minúsculos, disparados em velocidade espantosa.

Assim, teremos de optar por um local mais abrigado.

Existe um trecho da superfície da Lua que satisfaz todas as exigências e — a não ser que um vôo de reconhecimento a baixa altura indique outro ponto — será onde pousaremos. E’ uma área denominada Sinus Roris ou Baía do Orvalho, um prolongamento ao norte da planura, chamada Oceanus Procellarum (ou Oceano da Tormenta, já que os primitivos astrônomos pensavam que as grandes planuras da Lua eram grandes mares). O Dr. Fred L. Whipple, catedrático de Astronomia da Universidade de Harvard, diz que Sinus Roris é ideal para local de pouso, porque fica a 800 quilômetros do Pólo Norte da Lua, com uma temperatura, durante o dia, de cerca de 40 graus; terreno razoavelmente plano para local de pouso, conquanto suficientemente irregular para oferecer proteção contra os meteoros.

Com um campo de pouso satisfatório já localizado, cuidaremos de outros aspectos do plano.

Para economizar combustível e tempo, escolheremos a rota mais prática e portanto mais curta.

A Lua evolui em torno da Terra dentro de uma órbita elíptica de 27 dias e 1/3. A estação flutuante, ponto de partida da expedição n.° l, circula a. Terra cada duas horas. Assim, em cada bis-semana, a evolução dos dois satélites (.natural e artificial) será de tal ordem que um foguete partindo da estação flutuante interceptará a Lua em 5 dias. E as melhores condições para a viagem de volta ocorrerão duas semanas mais tarde, e, assim, sucessivamente. Com a estadia ditada pelos múltiplos de 2 semanas, os cientistas limitarão a primeira exploração da Lua em 6 semanas — tempo suficiente para efetuar pesquisas satisfatórias e não muito longo para exigir excessivo suprimento em oxigênio, água e comida.

Seis meses antes “do Vôo l A” (isto é, a segunda etapa), suprimentos, equipamentos e material de construção irão sendo armazenados na estação flutuante, mediante uma operação maciça e impressionante, que mobilizará poderosos foguetes-cargueiros, centenas de trabalhadores e vastíssima quantidade de material. Duas vezes ao dia, rápidos foguetes-transporte levantarão vôo da Terra rumo à estação flutuante, onde enxames de operários os descarregarão. Com a chegada do material, será atacada a toda pressa a montagem dos três aparelhos que atravessarão o espaço até a Lua.

Os suprimentos e partes pré-fabricados não serão armazenados na estação flutuante. E’ claro que flutuarão no espaço. Nem precisarão ser colocados em lugar seguro. E por quê? Ora, o satélite artificial evolui em torno da Terra numa velocidade de 25.000 km horários, deixando de ser afetado pela força de gravidade. Portanto, não cairá nem diminuirá o impulso, pois não encontrará resistência aérea. O mesmo se aplica a qualquer objeto localizado dentro da órbita à mesma velocidade: para estacionar o foguete nada mais fará do que ajustar sua velocidade a 25.000 km horários, e, como conseqüência, se tornará um satélite. E os grandes volumes de equipamentos e material, viajando na mesma velocidade em relação à Terra, se transformarão também em satélites sem peso.

Com o passar das semanas, o desembarque da carga continuará e a área de construção ficará tomada em vasta extensão. Toneladas de equipamento jazem no espaço — vigas de alumínio, tanques vazios, feitos de nylon, motores de foguetes, bombas, coleções de peças, volumes de nylon contendo acessórios. E’ um cenário de pôr alguém maluco. Mas não para os construtores da máquina para ir à Lua. Todas as peças pré-fabricadas obedecerão a um código, talvez o mais simples que se possa imaginar. O trabalho se processará com rapidez.

Na verdade, os técnicos realizarão maravilhas, tendo-se em conta os obstáculos com que irão deparar no trabalho com peças difíceis de manejar no espaço. Os homens mover-se-ão desajeitadamente, embaraçados pela pressão do pesado vestuário especial, equipados com tais necessidades para a vida no espaço, como ar condicionado, tanques de oxigênio, aparelhos radiofônicos e motores de propulsão portáteis. Será uma tarefa laboriosa, posto que, conquanto os objetos sejam sem peso, possuem no entanto inércia. Um trabalhador que empurrar uma viga de uma tonelada fá-la-á deslocar-se, mas, ao mesmo tempo, deslocar-se-á também. E sendo sua inércia menor que a da viga, será lançado para trás a maior distancia do que a peça de metal que havia sido empurrada para a frente. Motores portáteis auxiliarão os trabalhadores a deslocar as peças. E para outras tarefas serão empregados táxis do espaço nas viagens em torno da estação flutuante.

Assim que os foguetes forem tomando o formato final, montar-se-ão as esferas de nylon-plástico. São as cabinas da equipagem. Cheias de ar, tornar-se-ão esféricas, com astrodomos plásticos (para observação das estrelas) colocados no topo e dos lados. Combustíveis e propulsores serão bombeados para dentro de outros invólucros esféricos e cilíndricos.

Sem dúvida, será um veículo de aparência esquisitíssima o foguete lunar, caso comparado com o modelo aerodinâmico dos aviões a jacto ou asas voadoras dos dias atuais ou do futuro. Mas terá eficiência. E alcançará a Lua em 120 horas maravilhosas.

Cada foguete lunar terá aproximadamente 50 metros de altura por 35 de largura, pesando 4.370 toneladas. Disporá cada um de uma bateria de 30 motores-foguete. E cada aparelho terá no topo uma esfera que abrigará, em quatro andares, os membros da equipagem e cientistas. Sob a esfera existem dois braços .mecânicos que permitirão uma rotação de 360 graus. Essas duas balizas, que recuam durante a decolagem e aterragem, para evitar qualquer acidente, sustentam duas peças importantes: uma antena de rádio para comunicação em ondas curtas e um espelho solar para produzir eletricidade. 800.000 galões de hidrazina de amônia (combustível) e ácido nítrico rico de oxigênio (agente de combustão) serão distribuídos em 18 tanques, inclusive 4 enormes esferas. Todas as partes vitais do aparelho terão uma cobertura pára-choque contra meteoros. E como proteção contra o excessivo calor todas as partes serão pintadas de branco porque essa cor pouco absorve da radiação solar. Dentro da esfera de passageiros o ambiente é de sardinha na lata, porém, com muito conforto. Cada veículo terá lotação para 20 pessoas (membros daí equipagem e cientistas) na viagem de ida, e 25 na viagem de volta, já que] 10 homens do transporte de carga (que ficará na Lua) terão de retornar nos dois outros foguetes. Cada foguete de passageiro terá de carregar reserva suficiente de oxigênio (1.300 gramas para cada pessoa diariamente), água (1.750 gramas para cada pessoa diariamente) e provisões que durem todo o tempo da expedição. No último andar da esfera fica o deck de controle. O piloto-chefe ou engenheiro-comandante controla o combustível, temperatura, pressão, oxigênio! etc. O radiotelegrafista mantém contato com os dois navios do espaço e com a estação flutuante. No painel de instrumentos vêem-se o piloto automático e os carretéis de fita que funcionarão durante a operação de pouso na Lua* Abaixo, no andar seguinte, fica um compartimento de navegação, onde é observado com a máxima atenção, através de um registrador automático, o desenvolvimento do vôo ao longo da rota. De um lado, ficará um banheiro suigeneris, para banho com esponja, pois não será possível utilizar o chuveiro, já que a água não cairia apropriadamente. No andar central, o alojamento. Em camas de emergência, tipo abre e fecha, descansarão os membros da expedição, devidamente amarrados para não flutuar. Compartimento amplo, a maior parte de seu espaço será tomado pela cozinha. E será realmente uma covinha do tipo especial, com aquecedor de onda curta e lavador de pratos automático. A cozinha funcionará assim: o cozinheiro retirará da geladeira a ração já pré-cozida e a esquentará no aquecedor, depositando-a em seguida em prato com tampa de mola (a fim de impedir à comida de flutuar no espaço). Por sua vez, o prato é ligado a uma correia, que o traz à mesa e o leva de volta ao lavador automático. No penúltimo andar ou reserva estão localizados o painel de eletricidade, o depósito de vasilhame e o lavatório. Na base da esfera situa-se a casa de máquinas, com tanques para água, oxigênio, bombas, etc., além de baterias elétricas, motores do sistema de ar condicionado e aparelhamento de limpeza e reaproveitamento d’água. Essa esfera não só funcionará como alojamento para os cientistas e técnicos durante os 5 dias da viagem, como também por algum tempo mais, até que seja construída a primeira base para exploração científica da Lua.

 

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A PARTIDA DA ESTAÇÃO FLUTUANTE DA PRIMEIRA EXPEDIÇÃO TERRESTRE RUMO À LUA. A viagem ao nosso satélite terá de ser dividida em duas etapas.  Dentro de 25 anos estará construída uma estação flutuante a 1.700 km de altura. Esse aeroporto suspenso de forma circular, com 80 metros de diâmetro, pode ser visto à esquerda. Junto dele, evoluem foguetes aerodinâmicos desembarcando carga e trabalhadores. Em torno da estação flutuante demoram no espaço os três  foguetes que deverão constituir a primeira expedição à Lua. Observam-se os últimos aprestos para a viagem de 384.000 km a ser realizada em menos de cinco dias com uma velocidade assombrosa de 26.000 a 30.000 quilômetros por hora.