A qualidade do Ensino depende do número de horas-aula?

AulaEm agosto de 2011 postei um artigo no blog que causou uma discussão intensa. O tema era sobre a quantidade de alunos que trabalham durante o curso. Foram 27 mensagens diretas, 11 comentários no blog e 1635 acessos ao artigo! Depois disto surgiu uma discussão no Instituto, o tema proposto foi: “O que vocês acham de um curso chegar a propor 28 horas de aula por semana em um determinado semestre? Isto será um indicador de qualidade do ensino ou uma forma de considerar os alunos como incapazes de realizar trabalho individual? E como fica o trabalho externo dos alunos em paralelo com o curso?”. Na discussão sobre o trema um aluno demonstrou que, em seu ponto de vista, o que vale para um curso ser considerado bom é a empregabilidade imediata de seus alunos. Sua visão foi que algumas universidades seriam boas por terem um careers advice office ou algo do tipo (como muitas universidades em vários países), esquecendo que estas universidades são excepcionais por Serem research universities. Por terem uma ótima base de pesquisa a formação de seus alunos os encaminha para boas e competitivas empresas.

Na crônica As Universidades brasileiras são competitivas? escrevi: “… estive na  Universidade do Arizona (UA), cheguei lá num domingo e aproveitei a bela tarde com o sol do deserto para passear no Campus (só isto já é algo: imaginem passear em um domingo de tarde em algum campus brasileiro…). Vi um belo prédio da biblioteca central e, como estava aberto, entrei para dar uma olhada: cheio de estudantes trabalhando, atenção: domingo de tarde. Isto é competitividade! Na UCLA as bibliotecas ficam abertas 24/24 e – como me comentou num amigo que se doutorou naquela Universidade – nas noites se encontram por lá os doutorandos estudando e os professores assistentes em busca de uma tenure – “burning the mid-night oil”

Vejamos a definição de uma Universidade de Pesquisa. Universidade Terciário tipo A, ISCED 5A – orientada para a pesquisa – o valor é a geração de conhecimento. Para uma outra pode ser a geração de tecnologia, produtos etc. e não a formação de mão de obra. Esta formação de pessoal para empregabilidade direta na indústria fica para os Cursos Profissionalizantes Pós-secundários não Terciários (ISCDE 4). Todos são importantes, mas o meu ponto são as universidades de pesquisa que geram a competitividade internacional. É claro que sem uma infraestrutura de mercado, sem formação técnica de alta qualidade não teremos competitividade, mas sem universidades de pesquisa seremos sempre compradores de tecnologia.

Em nossas universidades encontramos o modelo antigo transposto para a tecnologia, mas sem mudar a ideia de paternalismo no ensino com aulas de 60 horas ensinando e explicando cada pequeno tópico, ai temos:

  • Abundância de informação e pobreza de reflexão;
  • Necessidade de trabalhos para casa;
  • Muitas universidades tem um modelo de negócio em que o pagamento pelos alunos é feito em base do número de aulas, o mesmo para o salário dos professores;
  • Aulas de laboratório cópia de aulas expositivas com tudo a fazer determinado;

Mas deveríamos considerar que:

  • O importante é a forma de o professor interagir com os alunos e estimular a criatividade e o trabalho individual.

Para mim o problema está bem caracterizado:

  • Modelo de ensino centrado em aulas, número de horas de aulas, tanto para o modelo de negócio quanto para avaliar a cobertura do curso.
  • Falta de tempo dos alunos para desenvolverem pesquisa complementar ou desenvolver trabalhos complementares fora das aulas.
  • É a visão de que se aprende na aula e não que a aula é apenas a apresentação do tema.

As causas deste problema são:

  • Incapacidade em entender que o projeto de ensino deve ser o desenvolvimento da capacidade de auto estudo e a capacidade de crítica e de reflexão.
  • Daí decorre a deformação de avaliação de cursos por horas e conteúdos e cobrança e pagamento por horas-aula.
  • Hoje está em andamento uma absurda discussão sobre quantos minutos deve ter uma hora-aula…
  • Dedicação completa de alunos ao estudo.
    • Bolsas de permanência
    • Avaliação real do desempenho
    • Seleção dos melhores alunos
    • Critérios rígidos de permanência

Mudança nos critérios de avaliação são necessários:

  • Acabar com as provas “decoreba”
  • Avaliação de atividades individuais dos alunos
  • Projetos sobre problemas complexos
  • Participação proativa dos alunos

Há muito o que fazer, mas estas são algumas reflexões necessárias.