Sou culpado?

Com os problemas que estão aflorando nas Universidades resolvi reescrever este texto sobre a ideia de transferir a responsabilidade do estudo para as instituições e professores de forma a isentar os alunos de suas responsabilidades. Tem ocorrido problemas sérios de alunos de pós-graduação deprimidos, até tentativas de suicídio. Outros reclamando da Universidade pois os conhecimentos exigidos são acima do que estudaram (?) na escola. Estamos em um declínio tão grande no esforço pela qualificação e real competitividade e qualidade no ensino e pesquisa que algo precisa ser feito. Certamente estamos mais exigentes e há pessoas com expectativas acima de suas possibilidades. Humanamente devemos ter sensibilidade para tentar apoiar e salvar estas pessoas. Por outro lado a geração “floco de neve” existe. O “politicamente correto” deixa todos com uma sensibilidade extrema e impede a formação para enfrentar a adversidade. Tenho acompanhado o tema nas universidades nos USA com os cuidados extremos para não ferir susceptibilidades. O problema é a falta de resiliência para “não enfrentar as amarguras da vida”, para mim aí está a falha: precisamos mostrar para os jovens que lutar é bom e falhar não é uma desonra, desonra é não lutar.

No Brasil a famosa frase de Winston Churchill – “Blood, Toil, Tears and Sweat” foi simplificada para “Sangue, Suor e Lágrimas” a palavra Toil desapareceu!

 intr.v. toil
           1. To labor continuously; work strenuously.
           2. To proceed with difficulty: toiling over the mountains.

Seguindo esta famosa frase incluo um comentário sobre o cenário da época na Inglaterra.

Homens de 18 anos pilotavam caças Spitfire para defender Londres, que era bombardeada por pilotos da Luftwaffe, de 19 anos. Com a guerra milhões morreram e os que sobreviveram voltaram para casa e tiveram que trabalhar duro para reconstruir seus países, tiveram filhos e envelheceram. Comiam o que tinha pra comer. Economizavam o que podiam e cuidavam de suas famílias.
Hoje a adolescência vai até os 35 anos.

  • Muitas crises.
  • Mundo cruel.
  • Muitas decisões.
  • Muita pressão.
  • Tudo o que foi construído, até hoje, está equivocado.
Conclusão (de um antigo ditado Romano):
  • Tempos difíceis criam pessoas fortes. 
  • Pessoas fortes criam tempos fáceis. 
  • Tempos fáceis criam pessoas fracas. 
  • Pessoas fracas criam tempos difíceis.

Em uma antiga discussão na lista da SBC apareceu esta frase: O fato é que a Universidade deixou de ser o centro do conhecimento humano para se tornar uma fábrica de profissionais” isto é o fim da nossa possibilidade de termos um futuro brilhante. Em um painel do CSBC, sobre o centenário de Turing, foi perguntado à mesa “Qual seria a possibilidade de termos no Brasil um Turing Award? (este prêmio é a consagração de um pesquisador em Computação)”. A resposta foi contundente: “Zero!”. Concordo plenamente com esta resposta, com a implantação do culto à mediocridade, à responsabilização dos outros pelas nossas falhas e fraquezas nunca seremos uma comunidade de excepcional qualidade. Nós, os professores, devemos ter consciência que estão nos manipulando com este conceito de culpa. Nós não somos culpados, culpados são os fracos e os desinteressados que não querem trabalhar pesadamente para atingir a vitória. Nossa responsabilidade é exigir qualidade e dedicação aos nossos alunos. Aqueles que são professores em Universidades Públicas têm a responsabilidade adicional de não serem contagiados com esta falsa culpabilidade e mostrar aos alunos que eles são os que estão gastando recursos públicos e que têm a responsabilidade de dar “Blood, Toil, Tears and Sweat” como agradecimento aos brasileiros que pagam impostos.

A mentira do gasto excessivo em ensino superior no Brasil

LivrosEstamos cansados de ouvir e de ler que o problema do Brasil é o gasto excessivo no ensino superior. Isto não é verdade, em uma palestra sobre a Universidade do Futuro, aqui na UFRGS, foi mostrado este documento da OECD, portanto acima de suspeitas de partidarismo, Public spending on education DOI:10.1787/f99b45d0-en. Aqui está bem clara a distribuição dos recursos públicos em educação:  0,959% do PIB em ensino terciário (superior) e do primário até o não terciário (fundamental e médio) são aplicados 4,061%. Ou seja aplicamos 4,2 vezes mais recursos no ensino fundamental e médio. Somos o quinto país da análise que mais gasta com o ensino pré terciário e apenas o 20º no ensino superior. Está na hora de realizarmos estudos mais profundos sobre qual é a real razão dos problemas do nosso ensino. Este é um exemplo claro da era da pós-verdade: usam afirmações que apoiem suas ideias sem buscar a verdade nos dados! (ver tabela ao final)

Para mim o problema está bem caracterizado:

  • Modelo de ensino centrado em aulas, número de horas de aulas, tanto para o modelo de negócio quanto para avaliar a cobertura do curso.
  • Falta de tempo dos alunos para desenvolverem estudo complementar ou desenvolver trabalhos fora das aulas. É a visão de que se aprende na aula e não que a aula é a apresentação do tema e a motivação para o estudo.

As causas deste problema são:

  • Incapacidade em entender que o projeto de ensino deve ser o desenvolvimento da capacidade de auto estudo e a capacidade de crítica e de reflexão. Daí decorre a deformação de avaliação de cursos por horas e conteúdos e cobrança e pagamento por horas-aula. Hoje está em andamento uma absurda discussão sobre quantos minutos deve ter uma hora-aula…
  • A falta de entendimento que um conteúdo básico universal é essencial, não adianta um amplo espectro de conteúdo quando o essencial de Português e Matemática não são dominados.

Dedicação completa de alunos ao estudo.

  • Bolsas de permanência
  • Avaliação real do desempenho
  • Seleção dos melhores alunos

Mudança nos critérios de avaliação

  • Acabar com as provas “decoreba”
  • Avaliação de atividades individuais dos alunos
  • Projetos sobre problemas complexos
  • Participação proativa dos alunos

Tópicos relacionados

Mediocridade na escrita! ou Globish & Shopenhauer

Já tive alguns problemas com alunos que escreveram textos quase incompreensíveis. Por exemplo: uma frase com 15 linhas e inúmeras vírgulas. Problemas de concordância, de ortografia e, principalmente, de semântica são comuns. Cada vez tenho observado uma piora na formação básica dos alunos. Aparentemente a mediocridade na escrita, e acho que na abstração, está se espalhando como uma praga. É a falta de tempo para pensar, ou o pensamento consome muita energia? Acho que falta exercício e esforço para se concentrar em um assunto e expor com clareza o essencial. Precisamos reformular o ensino fundamental e médio. Em decorrência destas observações escrevo esta pequena e ácida crônica com apoio de um grande filósofo alemão.

Indo para um congresso aproveitei o longo voo para reler um texto de Schopenhauer: “A Arte de Escrever” (L&PM Pocket, 2009, ISBN 978-85-254-1464-9) . Com esta leitura é possível perceber que alguns problemas são recorrentes, algumas citações e comentários sobre as mesmas:

“… deve-se evitar toda a prolixidade e todo o entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela”  (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 15)

É um ataque à escrita redundante, à falta de tempo para meditar e escrever o essencial. Por um acaso o marcador de páginas que estou utilizando neste livro traz a seguinte frase: “A perfeição é filha do tempo”. Um poeta gaúcho, Mário Quintana, dizia que para um poema parecer ter sido escrito com inspiração deveria ter sido rescrito vinte vezes!

Deveria ser determinado por lei que todos os estudantes universitários, no primeiro ano, fizessem exclusivamente os cursos da faculdade de filosofia, e antes do segundo ano não tivessem permissão para assistir aos das três faculdades superiores”. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p.37)

Esta frase é crítica! Antes de realizar estudos superiores é preciso apreender a pensar. Isto está em conflito com a atual visão de que tudo tem que ser rápido e sem que “percamos” tempo com o estudo dos fundamentos, não diretamente aplicáveis na vida prática.

No fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios, lidos, são como as sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa”. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 41)

“O sinal característico dos espíritos de primeiro nível é a espontaneidade de seus juízos. Tudo o que vem deles é resultado de seu pensamento mais próprio e se mostra como tal já na sua maneira de se expressar. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p.50)

Estas citações são indicadas para os doutorandos. Depois de apreender a pensar e a escrever é preciso apresentar textos autênticos e com seu próprio pensamento. Esta é a essência da vida acadêmica: pensar autonomamente e discutir, divulgar este pensamento. Apenas citar os outros é decadência.

“O douto emprega a sua força em dizer sim ou não, em criticar o que já foi pensado por outros; quanto a ele, todavia, não pensa mais…”  Nietzsche, Ecce Homo

Voltando para nosso pesquisadores: não seria melhor uma produção de melhor qualidade mas com menor quantidade? Para mim a obtenção de qualidade na pesquisa é algo parecido com o desenvolvimento dos vinhos de alta qualidade: há regras que limitam o peso das uvas colhidas por acre para a produção dos melhores vinhos, é melhor menos com maior qualidade do que mais com mediocridade. Não esta na hora de começarmos a descontar pontos por produção quantitativamente grande mas de pequena relevância? Ou avaliarmos os pesquisadores por, digamos, suas dez melhores produções?

Vamos agora para analisar a qualidade da escrita:

“O pretenso melhoramento “atual” da língua, empreendido por garotos que saíram cedo demais da escola e cresceram na ignorância, também tornou a  pontuação sua presa, manipulando-a hoje em dia, em geral, com uma negligência proposital e presunçosa”.  (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p.108)

“Quem escreve de maneira displicente confessa com isso, antes de tudo, que ele mesmo não atribui grande valor a seus pensamentos”. Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 114)

É essencial que para apresentarmos boas ideias que escrevamos corretamente. O desprezo pela boa escrita, a falta de estudo e a tendência a rapidez não pensada levam à mediocridade. Recentemente surgiu uma nova língua: o Globish. Globish é um subconjunto do idioma Inglês formalizada por Jean-Paul Nerriere. Este dialeto usa um subconjunto da gramática Inglês padrão, e uma lista de 1.500 palavras em Inglês. O Globish não é uma linguagem em si, mas é a base comum para ser adotada pelos não falantes nativos de inglês no âmbito dos negócios internacionais. McCrum escreveu o livro Globish: Como o Inglês linguagem tornou-se uma língua mundial (ISBN 9780393062557) descrevendo Globish como um fenômeno econômico, ao contrário de “global Inglês”, cuja utilização é muito mais diversificada do que apenas um negócio. O termo Globish é uma junção de “Global” e “English”. (Wikipedia) Há uma alternativa popular nos Estados Unidos chamada de Espanghish, um dialeto falado pelos hispânicos morando nos EEUU. Horrível! Sabem o que significa “llamando a detrás“? Callback

Esta ideia, o Globish, só leva em conta o empobrecimento do texto e uma sintaxe simplificada. Mas isto não resolve o problema de compreensão e de troca de informação. Olhem só o problema: em português a palavra tanque pode significar um veículo de guerra, um depósito de líquido ou um objeto para lavar roupa. Em alemão este conceito pode ser expresso por: kampfpanzerwagen => veículo blindado de guerra, não há nenhuma dúvida sobre o seu significado. Não é com a imbecilização do inglês que se vai conseguir uma melhor troca de informação e de compreensão entre os parceiros sociais. O mesmo ocorre com o XML, é apenas uma sintaxe e não trata do real problema da semântica associada, conforme John Sowa:

“The latest attempt to integrate all the world’s knowledge is the semantic web. So far, its major contribution has been to propose XML as the common syntax for everything. That is useful, but the problems of syntax are almost trivial in comparison to the problems of developing a common or at least a compatible semantics for everything.”

No Spanglish encontramos a mediocridade, em vez de melhorar o estudo do Inglês procura-se uma simplificação supondo que isto melhorará a troca de conhecimento e a interação. Engano e fraude, como a língua fica simplificada perde-se o sentido profundo e as pessoas pensam que usam os mesmos símbolos para se referir a um conceito quando estão pensando coisas diferentes (Semiótica). Sobre isto Schopenhauer escreve:

“Primeiro é preciso compreender corretamente todos os conceitos que a língua a ser aprendida designa com suas palavras e, a cada palavra dessa língua, pensar imediatamente no conceito exato correspondente, sem traduzir primeiro a palavra por uma da língua materna, para depois pensar no conceito designado pela tradução. Pois nem sempre o segundo conceito corresponde com exatidão ao primeiro, e o mesmo pode ser dito em referência a frases inteiras. Só assim se compreende o espírito da língua a ser aprendida, dando-se com isso um grande passo para o conhecimento da nação que fala essa língua, porque a língua é, para o espírito de uma nação, o que o estilo é para o espírito de um indivíduo” …Pessoas pouco capazes também não assimilarão com facilidade uma língua estrangeira: elas chegam a aprenderas palavras da língua, no entanto sempre as empregam no sentido do equivalente aproximado que existe em sua língua materna e só decoram as locuções”. (Schopenhauer: “A Arte de Escrever”, p. 152)

Creio que podemos finalizar, é precisa uma reação importante para que consigamos um ensino e pesquisa de qualidade. Não é possível mais aceitar provas com questões de marcar opções, o vestibular de cruzinhas” é um dos maiores inimigos da cultura. A partir de agora vou formular sempre questões dissertativas que obriguem o raciocínio e a estruturação do conhecimento.


Sobre os programas de pós-graduação em Computação – Carta de Búzios 2007


Pesquisa e desenvolvimentoHá exatos dez anos, entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro de 2007, reuniu-se em Búzios um grupo de 19 pesquisadores, membros dos comitês da CAPES e do CNPq, da SBC – Sociedade Brasileira de Computação e da ABC – Academia Brasileira de Ciências. O objetivo da reunião foi analisar a evolução da área de Computação no Brasil, com vistas a um planejamento a curto, médio e longo prazo. Os participantes foram:

Alberto Laender
Ana Teresa de Castro Martins
Carlos José Pereira de Lucena
Clarisse Sieckenius de Souza
Claudia Bauzer Medeiros
Edmundo de Souza e Silva
Henrique Pacca Loureiro Luna
Jayme Luiz Szwarcfiter
José Carlos Maldonado
José Palazzo M. de Oliveira
José Roberto Boisson de Marca
Luis Fernando G. Soares
Marco Antonio Casanova
Nelson Fonseca
Nivio Ziviani
Paulo Cesar Masiero
Paulo Cunha
Philippe Navaux
Ricardo Anido
Teresa Bernarda Ludermir

Na época foram feitas algumas recomendações. É claro que passados dez anos algumas coisas evoluíram, mas ainda há muito a ser feito. Acredito que precisamos retomar a discussão e passar a considerar critérios múltiplos de avaliação com mais intensidade. Apesar da CAPES insistir constantemente que o uso do QUALIS é inadequado para a avaliação monodimensional dos pesquisadores, e ainda pior por uma janela de quatro anos de suas publicações, esta avaliação continua sendo corrente nos programas. O objetivo do QUALIS não é a avaliação dos programas mas a análise dos mesmos para qualificar a contribuição para o país. Em recente palestra (2017) do Presidente do CNPq na ABC ele deixou claro que na dimensão de publicações estamos muito bem, infelizmente nas dimensões de inovação e de tecnologia desenvolvida ainda falta muito a ser conquistado, então estas dimensões devem ser valorizadas. Outra dimensão importante  para a qualificação de um programa é a formação de recursos humanos, esta dimensão deve ser considerada na vida de um pesquisador. Deixo a vocês a leitura do documento e a verificação do que a comunidade realizou nestes 10 anos…


RECOMENDAÇÕES SOBRE AVALIAÇÃO E POSICIONAMENTO DA ÁREA DE COMPUTAÇÃO

A Computação é hoje onipresente e essencial para o desenvolvimento econômico e social do País. Cabe a uma instituição de ensino e pesquisa adiantar-se às necessidades futuras da sociedade e preparar adequadamente as próximas gerações para suplantar os desafios daí advindos. Uma visão clara da evolução da tecnologia, uma percepção adequada das necessidades da sociedade, a contínua adaptação da estrutura curricular e a motivação de jovens talentos são condições necessárias para levar a cabo esta missão. Estas afirmações adquirem uma maior relevância em áreas com alto impacto social e evolução acelerada, como é o caso de Computação.

Com este pano de fundo e dentro das atividades constantes de planejamento estratégico da área, entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro de 2007, reuniu-se em Búzios um grupo de 19 pesquisadores, membros dos comitês da CAPES, do CNPq, SBC e IEEE, com o objetivo de analisar a evolução da área de Computação no Brasil, com vistas a um planejamento a curto, médio e longo prazo. Esta reunião havia sido programada desde o início do ano de 2007.

Os principais tópicos abordados foram: os trabalhos dos comitês do CNPq e CAPES no último triênio; os estudos sobre a produção em ciência da computação, em andamento, para dar subsídios ao processo de avaliação (especialmente aquelas conduzidas na UFMG, na UNICAMP e no IEEE); o aperfeiçoamento do QUALIS em vigor, com especial atenção para a importância das conferências para a área; e a inserção da Computação na classificação das áreas da CAPES e do CNPq.

Um tema que permeou todas essas discussões foi a necessidade de avaliar a inserção internacional da área de Computação, através de comparações com programas de excelência na América do Norte e Europa. Pesquisadores da  UFMG e da UNICAMP apresentaram um exercício de análise de desempenho da área com este objetivo, utilizando algoritmos e programas de mineração de dados em grandes bibliotecas digitais mundiais e dados sobre formação de doutores, inclusive os da CAPES. O exercício foi estendido, em parte, a áreas tais como Física, Biologia, Engenharia IV e Matemática. A análise confirmou que a comparação entre áreas baseada em bibliometria é um problema de grande complexidade e pode levar a conclusões bastante distorcidas.

Os participantes propõem três recomendações gerais, dirigidas à SBC e aos atuais e futuros comitês de avaliação e assessoramento da CAPES e do CNPq. A primeira recomendação é de curto prazo e urgente e as outras duas são de médio e longo prazo.

Recomendação 1: Revisão dos indicadores da produção dos programas de pós-graduação e da metodologia de avaliação

Os participantes sugerem que o próximo comitê de área da CAPES revise, com urgência, a definição dos indicadores da produção dos programas de pós-graduação e, por conseguinte, o próprio documento de área.

A revisão do documento de área deve partir de uma análise comparativa vertical para avaliar a inserção internacional dos programas de pós-graduação da área, em parte já realizado, conforme mencionado. Em particular, os índices medindo a produção bibliográfica e o WebQUALIS da área devem: (1) incorporar periódicos de áreas afins, à semelhança de outras áreas, como Engenharia IV; (2) incorporar conferências, reforçando a importância fundamental dos anais de conferências como meio de divulgação dos avanços da área, sem a limitação de conter apenas aquelas observadas no triênio.

Após consolidar o novo documento de área, os participantes sugerem que o próximo comitê avalie se a atual implementação do sistema utilizado pela CAPES permite especificar os indicadores definidos no documento e, se for o caso, solicitem modificações no sistema.

Recomendação 2: Criação de um esforço permanente de desenvolvimento e aprimoramento de ferramentas e metodologias para avaliação do desempenho e do impacto da área

Os participantes sugerem a criação, no contexto da SBC, de um esforço permanente de desenvolvimento e aprimoramento de ferramentas e metodologias para a avaliação do desempenho dos programas de pós-graduação e da contribuição da área para o crescimento econômico e bem estar social do País. Ressalte-se que o esforço não se destina a classificar os programas de pós-graduação, que é atribuição da CAPES.

Quanto à avaliação do desempenho dos programas, os participantes sugerem que a SBC coloque à disposição dos coordenadores de pós-graduação recomendações que promovam uma melhoria na qualidade dos dados levantados pelos programas, especialmente dados padronizados sobre os veículos de publicação da área (inclusive conferências).

Quanto à avaliação do impacto da área, os participantes sugerem que a SBC promova a consolidação e complemente as pesquisas e estudos já realizados, principalmente pelo MCT, para determinar a necessidade atual e projetada de profissionais da área.

Recomendação 3: Análise do posicionamento da área de Computação no contexto das grandes áreas

Os participantes sugerem que o próximo comitê de área da CAPES e o Comitê Assessor de Ciência da Computação do CNPq analisem em profundidade sobre qual deve ser o posicionamento da Computação no contexto das grandes áreas adotadas pela CAPES e pelo CNPq, criando uma caracterização mais precisa que fortaleça a área.

A análise deverá avaliar inicialmente se Computação deve ser tratada como uma grande área ou não; caso a decisão seja não tratá-la, a análise deverá indicar se Computação deve pertencer à grande área de Ciências Exatas e da Terra ou à grande área das Engenharias. Por fim, independentemente do resultado, a análise deverá avaliar a adequação de subdividir a área de Computação em duas de tal forma que uma subárea acomode os programas atualmente classificados como de Computação e a outra subárea inclua programas com um forte viés de Computação, mas que atualmente são classificados como multidisciplinares.

Apresentação no SBBD 2017 – Pesquisador Homenageado

Como professor e pesquisador, desde minha formatura na Escola de Engenharia da UFRGS, tive a rara sorte de acompanhar o desenvolvimento da Computação e do ensino de Banco de Dados nas universidades brasileiras. Minha ontogênese acadêmica acompanhou o percurso da história do SBBD. Esta distinção foi uma grande alegria e surpresa quando recebi o reconhecimento pelo conjunto da obra como Pesquisador Brasileiro Homenageado do ano de 2017 no SBBD (vídeo da divulgação). A apresentação no SBBD 2017 da palestra está disponível a seguir. 

2017 SBBD Prêmio - PDF

Pesquisador Homenageado do ano de 2017 – Simpósio Brasileiro de Bancos de Dados SBC

Divulgação do prêmio
Divulgação do prêmio no SBBD 2016

Como professor e pesquisador, desde minha formatura na Escola de Engenharia da UFRGS, tive a rara sorte de acompanhar o desenvolvimento da Computação e do ensino de Banco de Dados nas universidades brasileiras. Minha ontogênese acadêmica acompanhou o percurso da história do SBBD. Esta distinção foi uma grande alegria e surpresa, em uma época em que a avaliação de um pesquisador é constituída quase exclusivamente por índices bibliométricos, em receber um reconhecimento pelo conjunto da obra (vídeo da divulgação). Algo muito relevante para mim foi que os jovens colegas se lembraram de uma carreira de 48 anos com forte dedicação à área de Sistemas de Informação e Banco de Dados. Ao longo da carreira desenvolvi atividades em múltiplas dimensões, 81 alunos de pós-graduação já orientados, muitas disciplinas ministradas, forte interação internacional e um consistente número de boas publicações. Tinha que decidir o formato desta apresentação, uma alternativa seria descrever tecnicamente minhas pesquisas, representadas pelas publicações, isto seria enfadonho e traria pouca contribuição para os jovens membros a comunidade. Pensei melhor e então resolvi apresentar as áreas de pesquisa em que tenho trabalhado e sua evolução ao longo destes anos, sem entrar em profundos detalhes técnicos. Este andamento seguiu muito de perto a evolução do SBBD (apresentação). Após esboço uma perspectiva do futuro dos Bancos de Dados e os perigos que corremos. Uma das atividades realizadas na Comissão Especial de BD e que considero importante foi a implementação do 1° Concurso de Teses e Dissertações em Banco de Dados. Desejo que a apresentação seja útil para os jovens pesquisadores conhecerem melhor o caminho percorrido até aqui pela nossa comunidade e para que entrevejam o possível futuro e seus desafios.  A vida acadêmica não pode ser uma Torre de Marfim, a preocupação e engajamento com a comunidade é essencial. Nesta apresentação vocês terão a oportunidade de conhecer, de forma agradável, o desenvolvimento de nossa área no Brasil em paralelo com uma análise do que considero essencial para uma carreira equilibrada no ensino e na pesquisa. A história dos Bancos de Dados inicia com a estruturação de arquivos tradicionais e chega aos complexos sistemas atuais. As noções de transação, recuperação e outras são essenciais para a maioria das aplicações transacionais. Hoje há uma revolta contra tudo isto propondo alternativas como o NoSQL, mas diferentes aplicações exigem diversos modelos de SGBDs. Talvez estejamos exagerando nas customizações. O que nos reserva o futuro? Como vamos estruturar nossas carreiras em um período turbulento?

Placa comemorativa

Posts complementando a apresentação

Repensando a universidade e a pós-graduação


Diversidade

Com a atual crise nas Universidades estou considerando a necessidade de repensarmos a pós-graduação. O corte de verbas é uma consequência do estado falido por despesas irresponsáveis e por roubos inimagináveis, isto todos sabemos. Mas qual o motivo de não serem poupados, ou pelo menos sofrerem menos algumas áreas? Certamente a Saúde e a Segurança estão na boca do povo como demandas sérias e principais. Por que não a Educação? Recentemente li um livro, estava em minha lista de leituras há muito tempo, sobre o Design Thinking. A ideia essencial apresentada neste livro é utilizar a forma de pensar de designers industriais para a modelagem de soluções criativas. O livro prega a análise multidimensional dos problemas com a inclusão de pessoas com múltiplas formações. Esta fase inicial precisa ser muito menos estruturada e contar com a participação livre de ideias, de criação de cenários (storytelling) e contato real com os usuários. Ou seja, descobrir no mundo real as necessidades a serem enfrentadas para soluções revolucionárias. Na Academia tudo isto me fez lembrar um dito bem impactante:

“As Universidades e os cemitérios são refratários às mudanças, os que ali estão não querem se mover”.

Será que não precisamos repensar o nosso comportamento? Devemos sair da Torre de Marfim e desenvolver atividades ligadas aos problemas reais? Isto não implica em perda de qualidade, apenas em tratar problemas de interesse da sociedade e não de problemas de interesse de pesquisadores e intelectuais. Afinal é a Sociedade que nos financia (ou deveria). Talvez o descolamento da Universidade e da Pesquisa com as reais necessidades das comunidades seja o motivo principal da crise global de financiamento. Se a Sociedade não tiver esta compreensão não haverá demanda social por recursos para a Pesquisa e para a Educação, e este é o motivador dos políticos. Por que irão se empenhar em alocar recursos escassos para uma área que os únicos defensores são os diretamente implicados? Ai é gerada a impressão de que defendemos interesses corporativos, a Sociedade não vê este setor como o setor essencial para o desenvolvimento e a superação da crise. Precisamos agir.

Um assunto que precisa ser discutido é a diversidade cultural e de perfis de trabalho na pós-graduação. Atualmente está aceito que a diversidade nos grupos sociais e acadêmicos é um dos melhores fatores para aumentar a eficiência e a criatividade. Culturas, gêneros e opiniões diferentes favorecem o convívio e abrem novas possibilidades para o tratamento dos temas de trabalho. Pergunto: “Por que isto não acontece nas pós-graduações?”. O consenso é que só devem participar dos programas professores-pesquisadores com um número alto de publicações em journals com alto fator de impacto. Mas um grupo criativo é algo bem diferente. Vejamos a sinopse do Livro Criatividade e Grupos Criativos de Domenico De Masi: 

A maior parte das criações humanas é obra não de gênios individuais, mas de grupos e de coletividades nos quais cooperam personalidades concretas e personalidades fantasiosas, motivadas por um líder carismático, por uma meta compartilhada. Hoje, mais do que nunca, todas as descobertas científicas e as obras-primas artísticas não decorrem do lampejo de gênio de um único autor, mas do aporte coletivo e tenaz de trabalhadores, troupes, teams, squadre, equipes. Não são mais do que etapas de um processo sem pontos de partida nem pontos de chegada, em que forças contraditórias como linhas retas e linhas curvas, razão e intuição incessantemente se alternam e entrelaçam. Talvez na sociedade pós-industrial esses dois opostos possam finalmente chegar a uma síntese feliz. Para isso, De Masi apela às neurociências, à psicanálise, à psicologia, à epistemologia e sobretudo à sociologia – compreendendo as dinâmicas secretas do processo criativo, quem sabe não se possa aumentá-lo e colocá-lo em sintonia com a eterna aspiração humana pela felicidade.

Está na hora de repensarmos nossos critérios excludentes. Os coordenadores de programas de pós-graduação expurgam ótimos professores (que poderiam ministrar ótimas aulas) para aumentar os índices CAPES. Isto é uma exclusão. Aqueles que são dotados para a implementação também são excluídos, sobram apenas os publicadores. Com este comportamento perdemos muitas pessoas que seriam importantes para a formação de nossos alunos e para o desenvolvimento dos projetos. Isto sem contar com a criatividade oriunda da diversidade de perfis. O ponto central não é a qualidade e criatividade do grupo, mas sua adequação à bibliometria avaliativa. Se quisermos qualidade real será preciso uma profunda mudança em nossos critérios.

Lendo a Communications of the ACM de outubro de 2016 encontrei um artigo magnífico: Addind Art to STEM. Neste artigo um dos bloggers da CACM trata da forte interação e resultados obtidos com a combinação da Música com a Computação. Tenho tratado eventualmente deste tema em posts e em um artigo para o Encontro sobre os Grandes Desafios 2006-2016 da SBC. Cada vez mais estou convencido que precisamos refundar o nosso modelo corporativista de considerar que as areas de conhecimento são herméticas e só os que aderem a esta visão podem ser os eleitos. Leiam este trecho do artigo citado:

“Specialization is necessary to garner expertise, but striving and working to become a skilled multidisciplinary generalist creates a whole person that can create, cope, build, refine, test, and use in practice. Plus, they can explain difficult concepts to novices, and carry the magic of combining art and technology to others. In other words, they are good teachers, too. That has been my goal in life, and I think I am succeeding (so far)”.

Author: ACM Fellow Perry R. Cook is Professor (Emeritus) of Computer Science, with a joint appointment in Music, at Princeton University. He also serves as Research Coordinator and IP Strategist for SMule, and is co-founder and executive vice president of Kadenze, an online arts/technology education startup.

Tudo o exposto acima justifica a necessidade de aplicarmos o Desing Thinking, onde a diversidade de percepções é essencial, para encontrarmos problemas reais sobre os quais possamos desenvolver ensino e pesquisa de real qualidade de pesquisa e com ampla visibilidade. A qualidade da pesquisa implica em trabalho tecnológico competente apoiado por uma sólida base conceitual e formal. Trabalhar com definições claras de problemas permite, por um lado, termos boas publicações indexadas e, por outro lado, mostrar para a Sociedade que somos de valor para o desenvolvimento. É preciso mudar a mentalidade que um diploma de  curso superior (graduação, especialização etc.) serve para  apenas promoção em alguma carreira pública e não para apoiar uma carreira promissora pessoalmente e de real interesse para a Sociedade.