Quando a Ciência Recusa os Números Fáceis

Fico satisfeito em ver que lutei a boa luta. Após anos de defesa da análise da qualidade, e não de uma bibliometria naïf, vejo que o mundo acordou. Esta constatação nasce de uma lenta e necessária maturação coletiva da comunidade científica, que passa a reconhecer os limites profundos de uma avaliação baseada quase exclusivamente na contagem de citações, nos fatores de impacto e nos rankings de periódicos.

Durante décadas, insistiu-se em confundir visibilidade com relevância, popularidade com contribuição científica. A bibliometria, instrumento originalmente concebido como apoio auxiliar, foi alçada à condição de critério soberano de avaliação, obscurecendo trajetórias acadêmicas consistentes, inovadoras e, muitas vezes, silenciosas. A qualidade completa da carreira de um pesquisador, sua coerência intelectual, sua capacidade formadora, sua influência duradoura em uma área de conhecimento, sua produção de longo prazo foram progressivamente substituídas por indicadores quantitativos que pouco revelam o real avanço da ciência.

Nesse contexto, a decisão do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) de abandonar o uso da Web of Science e do Journal Citation Reports a partir de 1º de janeiro de 2026 representa um marco histórico. Ao afastar-se explicitamente de uma avaliação quantitativa baseada em fatores de impacto e métricas similares, o CNRS reafirma um princípio fundamental: a ciência não pode continuar refém de indicadores que nada têm a ver com o contributo científico efetivo das publicações. Trata-se de uma escolha coerente com a política de ciência aberta adotada desde 2019 e com a busca por soberania científica, reduzindo a dependência de plataformas comerciais.

A Universidade Sorbonne anuncia sua saída do ranking universitário da Times Higher Education a partir de 2026. Essa decisão faz parte de uma iniciativa mais ampla para promover a ciência aberta e reformar a avaliação da pesquisa, em consonância com os compromissos assumidos pela universidade no âmbito do Acordo COARA e da Declaração de Barcelona. A Universidade Sorbonne priorizará, portanto, bases de dados abertas e transparentes para avaliar seu desempenho acadêmico.

A migração para alternativas abertas, como o OpenAlex, reforça ainda mais essa posição. Ao ampliar a cobertura para revistas não anglófonas e para áreas tradicionalmente sub-representadas, como ciências humanas e sociais, o CNRS sinaliza que avaliar a ciência exige compreender contextos, tradições disciplinares e impactos que não se reduzem a números. Ao mesmo tempo, reconhece-se que a comparação automática entre instituições perde sentido quando os próprios princípios de avaliação precisam ser repensados.

Essa inflexão institucional confirma, de forma inequívoca, que a defesa de uma avaliação qualitativa da carreira acadêmica não era um anacronismo, mas sim uma antecipação. Avaliar ciência é exercer um julgamento acadêmico informado, não aplicar algoritmos de popularidade. É considerar a totalidade da trajetória, a densidade das contribuições e o compromisso com o conhecimento, e não apenas a desempenho em mercados editoriais altamente competitivos.

No Brasil, essa discussão encontra ressonância em iniciativas concretas. A Sociedade Brasileira de Computação (SBC) mantém, consistentemente, o apoio à publicação científica livre por meio da plataforma SOL, reafirmando que o acesso aberto e a avaliação responsável são pilares de um ecossistema científico saudável. Apoiar essa iniciativa, associando-se à SBC e publicando em seus veículos, também é um gesto político e acadêmico: um compromisso com uma ciência mais justa, transparente e orientada pela qualidade substantiva, e não pela ilusão confortável dos números fáceis.

Talvez, enfim, estejamos virando a página. Não da bibliometria como ferramenta auxiliar, mas da bibliometria como dogma. A boa luta valeu a pena porque a ciência, lentamente, começa a reencontrar seus próprios critérios.

Leia nosso artigo mais recente sobre bibliometria.


José Palazzo Moreira de Oliveira é Professor Titular do Instituto de Informática da UFRGS e Pesquisador Sênior do CNPq. Atua como Professor Convidado e é credenciado como orientador de mestrado e doutorado no PPGC da UFRGS. Possui Graduação em Engenharia Elétrica e Mestrado em Ciências da Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Doutorado em Informática pelo Instituto Nacional Politécnico de Grenoble (INPG). Atua em Ciência da Computação, com ênfase em Sistemas de Informação, especialmente nos seguintes temas: Sistemas de Informação, Modelagem Conceitual, Ontologia, Filosofia da Ciência e Ensino de Computação. Veja o Mini CV.




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