As Universidades se esqueceram que são IES – Instituições de Ensino Superior

UniversidadeHoje as Universidades avaliam seus professores quase que exclusivamente por suas atividades de pesquisa e por suas publicações. Tenho escrito sobre a avaliação na pós-graduação, mas agora vou começar a tratar um pouco da avaliação dos professores na graduação e na missão das Universidades. Acredito que a atual forma de avaliação é uma decorrência do modelo de Universidade Humboldtiana, mas isto fica para um próximo texto.

É preciso entender o que é uma Universidade. Há bastante tempo publiquei uma crônica sobre “Deem Tempo para a Universidade Pensar ou os modelos de Universidade” onde já tratava do assunto. Recentemente voltei ao mesmo assunto, mas o tema é recorrente. Vou copiar parte daquele texto.

A university is an institution of higher education and research, which grants academic degrees at all levels (bachelor, master, and doctorate) in a variety of subjects. … The word university is derived from the Latin Universitas Magistrorum et Scholarium, roughly meaning “community of masters and scholars“.Wikipedia

[A Universidade é uma instituição de ensino superior e de pesquisa que concede graus acadêmicos em todos os níveis (graduação, mestrado e doutorado) em uma gama de temas. … A palavra universidade é derivada do latim Universitas Magistrorum et Scholarium, que significa “comunidade de mestres e acadêmicos”.]

O cientista Carl Sagan (falecido), para os obcecados por bibliometria anexo ao final seus dados, escreve em seu livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios” onde trata da ciência e das crendices e pseudo-ciência escreve:

Na Universidade de Chicago, também tive a sorte de participar de um programa de educação geral planejado por Robert M. Hutchins, em que a ciência era apresentada como parte integrante da magnífica tapeçaria do conhecimento humano. Considerava-se impensável que alguém desejasse ser físico sem conhecer Platão, Aristóteles, Bach, Shakespeare, Gibbon, Malinowski e Freud _ entre muitos outros. Numa aula de introdução à ciência, a visão de Ptolomeu de que o Sol gira ao redor da Terra era apresentada de forma tão convincente que alguns estudantes se flagravam reavaliando seu compromisso com a teoria de Copérnico. No currículo de Hutchins, o status dos professores não tinha quase nada a ver com a sua pesquisa; inflexivelmente ao contrario do padrão moderno da universidade norte-americana , os professores eram avaliados pelo seu ensino, pela sua capacidade de informar e inspirar a próxima geração. Nessa atmosfera inebriante, consegui preencher algumas das muitas lacunas na minha educação. Grande parte daquilo que era profunda- mente misterioso, e não apenas na ciência, tornou-se mais claro. E também testemunhei em primeira mão a alegria que sentem aqueles que têm o privilégio de revelar um pouco do funcionamento do Universo. Sempre fui grato aos meus mentores dos anos 50, e tentei me certificar de que cada um deles soubesse do meu apreço. (ISBN 85-7164-606-6, P. 15)

Esta é uma indicação clara entre um pesquisador e um Cientista. As nossas Universidades se esqueceram que são Instituições de Ensino e que a pesquisa é uma forma de qualificar seu Ensino. Certamente em tópicos precisos, fundamentais ou tecnológicos podemos gerar contribuições excelentes, mas somos Professores. Um assunto para meditação.

Em um artigo na Folha de São Paulo Adalberto Fazzio e Sidney Jard Da Silva sobre a “Universidade do Século 21” aparece esta citação de Max Weber:

No início do século passado, o renomado sociólogo alemão Max Weber observou que somente por acaso se poderia encontrar em um mesmo homem as vocações de cientista e professor. Apenas em situações fortuitas teríamos a felicidade de entrarmos em uma sala de aula e depararmos com o acadêmico igualmente “vocacionado” para o ensino e para a pesquisa”.

Eu havia tratado deste assunto em um texto de 2010 “Carreiras nas Universidades“, acho que está na hora de rediscutirmo o tema.

Afinal qual é a missão de uma Universidade? Tentem esta consulta no Google sobre sua Universidade preferida: “missão <nome da universidade>”, verão que muitas não apresentam claramente sua missão. Listo, a seguir três que encontrei:

UFMG

Gerar e difundir conhecimentos científicos, tecnológicos e culturais, destacando-se como instituição de referência nacional, formando  indivíduos críticos e éticos, com uma sólida base científica e humanística, comprometidos com  intervenções transformadoras na sociedade e com o desenvolvimento socioeconômico regional e nacional.

PUC Rio

A Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro é uma instituição comunitária de Educação Superior, de acordo com Portaria 679, de 12/11/2014, da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior, filantrópica e sem fins lucrativos, que visa produzir e propagar o saber a partir das atividades de ensino, pesquisa e extensão, tendo por base o pluralismo e debates democráticos, objetivando, sobretudo, a reflexão, o crescimento e enriquecimento da sociedade.

Missão da UFSCar

Missão da UFSCar: Produzir e tornar acessível o conhecimento. Como afirmado no PDI (2005) – PDI apresentado segundo o formato SPIEnS/MEC para o período de 5 anos – não é incomum confundir-se a missão da universidade pública com as suas atividades-fim: o ensino, a pesquisa e a extensão. São estas três atividades que, de forma indissociada, dão concretude à missão da universidade de produzir e tornar acessível o conhecimento. Nesta conceituação sintética o tornar acessível envolve tanto a formação dos alunos como a interação com os diferentes segmentos da sociedade para o compartilhamento e (re)construção do conhecimento.

Afinal parece que a real missão é a formação de alunos sendo que a interação humboldtiana da pesquisa com o ensino tem por objetivo a Formação de Recursos Humanos. Grande parte de nossa crise como nação é esta falta de formação em grande escala de recursos humanos de alta qualidade. Será que esquecemos da nossa missão?


Query Source Papers Citations Cites_Year Cites_Paper h_index g_index
Carl Sagan Google Scholar 987 26420 184.76 26.77 72 152

A mentira do gasto excessivo em ensino superior no Brasil

LivrosEstamos cansados de ouvir e de ler que o problema do Brasil é o gasto excessivo no ensino superior. Isto não é verdade, em uma palestra sobre a Universidade do Futuro, aqui na UFRGS, encontrei este documento da OECD, portanto acima de suspeitas de partidarismo, Public spending on education DOI:10.1787/f99b45d0-en. Aqui está bem clara a distribuição dos recursos públicos em educação: 3,3% em ensino terciário (superior) e do primário até o não terciário (fundamental e médio) 12,8%. Somo o terceiro país da análise que mais gasta com o ensino pré terciário. Está na hora de realizarmos estudos mais profundos sobre qual é a real razão dos problemas do nosso ensino. Este é um exemplo claro da era da pós-verdade: usam afirmações que apoiem suas ideias sem buscar a verdade nos dados!

Para mim o problema está bem caracterizado:

  • Modelo de ensino centrado em aulas, número de horas de aulas, tanto para o modelo de negócio quanto para avaliar a cobertura do curso.
  • Falta de tempo dos alunos para desenvolverem estudo complementar ou desenvolver trabalhos fora das aulas. É a visão de que se aprende na aula e não que a aula é a apresentação do tema e a motivação para o estudo.

As causas deste problema são:

  • Incapacidade em entender que o projeto de ensino deve ser o desenvolvimento da capacidade de auto estudo e a capacidade de crítica e de reflexão. Daí decorre a deformação de avaliação de cursos por horas e conteúdos e cobrança e pagamento por horas-aula. Hoje está em andamento uma absurda discussão sobre quantos minutos deve ter uma hora-aula…
  • A falta de entendimento que um conteúdo básico universal é essencial, não adianta um amplo espectro de conteúdo quando o essencial de Português e Matemática não são dominados.

Dedicação completa de alunos ao estudo.

  • Bolsas de permanência
  • Avaliação real do desempenho
  • Seleção dos melhores alunos

Mudança nos critérios de avaliação

  • Acabar com as provas “decoreba”
  • Avaliação de atividades individuais dos alunos
  • Projetos sobre problemas complexos
  • Participação proativa dos alunos

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UFRGS: melhor federal no Índice Geral de Cursos

UFRGS logotipoA avaliação anual do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC) foi divulgada nesta quarta-feira, dia 8 de março. A partir de dados de 2015, o Índice Geral de Cursos atribui conceito 4,28 à UFRGS, o que posiciona a Universidade gaúcha como a melhor entre as federais e a segunda melhor do País, atrás da Universidade Estadual de Campinas, que tem 4,37. As posições são as mesmas da última avaliação. Nas demais posições entre as primeiras colocadas, estão as federais de Minas Gerais (UFMG – 4,2), de São Paulo (UNIFESP 4,14) e do Rio de Janeiro (UFRJ 4,11). O índice vai até 5.

O reitor Rui Vicente Oppermann lembra que esta foi a quarta vez consecutiva que a UFRGS despontou como a melhor universidade federal brasileira no Índice Geral de Cursos do MEC. “Esse resultado, obtido num cenário de crise recessiva, se deve ao trabalho, à participação e ao envolvimento de toda a comunidade universitária”, enfatiza.

Os indicadores de qualidade da educação superior levam em consideração os diversos dados do Censo da Educação Superior em suas avaliações e os dados específicos de graduação, de mestrado e de doutorado. Em relação aos índices da edição passada, a UFRGS teve redução de 4,35 para 4,28 no IGC-Contínuo. A classificação abrange um conjunto de 230 universidades e institutos federais.

Mais informações podem ser consultadas no site do INEP.

A avaliação apresenta e considera, também, os resultados do Enade 2015. Pela UFRGS, as graduações receberam os maiores conceitos. Foram índice 5: Administração, Ciências Contábeis, Ciências Jurídicas e Sociais (Direito), Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Design de Produto, Psicologia e Relações Internacionais. Com conceito 4: Ciências Econômicas e Design Visual.

Pós-Graduação

A UFRGS recebe grande destaque na pós-graduação. Como na última avaliação, a Universidade tem o maior conceito médio para mestrado do Brasil, com 4,88. E, nesta edição, aparece com o maior índice entre as federais para Doutorado, com 4,94.

Metodologia

Os indicadores de qualidade da Educação Superior relativos a 2015 contemplam uma alteração na fórmula de cálculo. Até a edição de 2014, o Conceito Enade (CE) e o Conceito Preliminar de Curso (CPC) eram calculados para cada Unidade de Observação, formada pelo conjunto de cursos que compõem uma área de avaliação específica do Enade, de uma mesma instituição de ensino superior (IES) em um determinado município. A partir da edição 2015, o CE e o CPC passam a ser calculados para cada curso de Graduação avaliado, conforme enquadramento realizado pelas IES em uma das áreas de avaliação, ou seja, por código de curso. Segundo o INEP, a mudança permitirá uma análise mais apurada para as diferenças entre cursos presenciais e à distância de uma mesma IES, entre outras vantagens.

Corte de verbas da FAPESP

FAPESPCertamente estamos passando por uma fase difícil. Estive olhando o perfil de nossos representantes na Câmara e no Senado; não o fiz com os de São Paulo mas não deve ser muito diferente. Este perfil é triste em nível de formação e de ligação com a Academia e a Ciência. Em períodos de vacas magras (não vou discutir o motivo de estarmos nesta situação) precisamos destas ações pontuais como a da SBPC e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. Mas,além disto, precisamos ter mais visibilidade, gastar tempo junto aos políticos e à Sociedade mostrando o retorno da pesquisa e formação para a o País. Precisamos criar uma forte pressão e visibilidade. Há muito tempo, o saudoso Clésio fez um documento mostrando quanto tinha sido investido na Informática da UFRGS e quais os retornos monetários advindos das empresas fundadas por nossos ex-alunos. Para mim este é o caminho, discussões de cunho político-partidário só levarão a choques sem resultados práticos, ou até com resultados contra-producentes. Não nos interessa qual grupo está no Governo, o que precisamos é que TODOS tenham a visão que apoiar a formação e a pesquisa é importante eleitoralmente. Isto só ocorrerá se a Sociedade entender esta necessidade e valorizar o político que tomar a posição de apoio.

Prezados assinantes da lista da SBC

No finalzinho de dezembro, as lideranças e alguns deputados da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo propuseram um corte das verbas da FAPESP, no
orçamento do estado anual de 2017, no valor de R$ 120 milhões. Este corte, aprovado pelo governo estadual na publicação do orçamento, destinaria este valor a reestruturação dos institutos de pesquisa do estado.

Sem querer entrar no mérito da destinação do valor cortado, isto cria um precedente muito grave. Em primeiro lugar, fere o artigo 271 da constituição estadual, que define que a FAPESP deve receber 1% (minimo) – com o corte, passaria a receber 0.89%. Esta ‘e a primeira vez nos mais de 50 anos da FAPESP que este artigo não honrado.

Em segundo lugar, prejudica projetos em andamento e o financiamento a futuros projetos. Em seus 54 anos de existencia, a FAPESP financiou mais de 200.000 projetos de pesquisa em todas as areas do conhecimento, sempre utilizando o sistema de avaliacao por pares e merito cientifico. Os projetos e pesquisadores financiados em toda a historia da FAPESP podem ser pesquisados online – www.bv.fapesp.br

A Academia de Ciências do Estado de São Paulo lançou uma moção online que esta sendo apoiada por pesquisadores de todo o Brasil.

Verifiquem a moção
Obrigada pelo apoio ao desenvolvimento cientifico e tecnologico do Brasil

Claudia Bauzer Medeiros
ex-presidente da SBC (2003-2007)

MOOCs, benção ou maldição?

Um editorial do Editor em Chefe da revista Communications of the ACM, Moshe Vardi: “Will MOOCs Destroy Academia?” trata o assunto com certo detalhe. Este editorial (CACM, v. 55, n. 11, p. 5) está focado exatamente nos MOOCs como uma ferramenta que pode revolucionar o ensino… É importante a leitura completa do texto original. Concordo completamente com as opiniões ali expressas: trata-se de uma “MOOC mania” ou de um “MOOC panic”. Uma frase é essencial para compreender a visão nos Estados Unidos sobre o assunto:

It is clear, therefore, that the enormous buzz about MOOCs is not due to the technology’s intrinsic educational value, but due to the seductive possibilities of lower costs”.

[É claro, portanto, que o enorme alvoroço sobre MOOCs não é devido ao valor intrínseco da tecnologia educacional, mas, devido às possibilidades sedutoras de custos mais baixos].

Naquele editorial ele termina dizendo que pensa que invocamos um espírito ou mago e que se tivesse uma “varinha de condão” faria desaparecer os MOOCs. Eu estou pensando que o que fizemos realmente foi abrir a Caixa de Pandora, lembrem-se que quando ela foi fechada a última maldade que fico presa foi a Esperança pois era considerada irmã da Mentira. Esta esperança de substituir as Universidades por MOOCs é a mistificação atual, mas já passando.

 

As melhores Universidades Públicas do Brasil

O Guia do Estudante da Abril tem uma classificação das universidades baseada na avaliação de seus cursos. A seguir a classificação da melhores universidades públicas do Brasil. Notem que como qualquer classificação esta é baseada em uma dimensão: a qualidade de seus cursos. Entretanto a qualidade de cada curso tem, por sua vez, múltiplas dimensões ponderadas para chegar ao número de estrelas. 

Links associados: 

 

Horizonte 2026 das pós-graduações em computação

 

Continuando em uma análise do que deve ser a qualidade em um programa de Pós-graduação em Ciência da Computação estou apresentando algumas percepções e ideias para o futuro. Inicialmente vou escrever um pouco sobre a evolução, no sentido de variação ao logo do tempos, da minha experiência pessoal no PPGC da UFRGS, por isto coloquei vários links para páginas postadas anteriormente (sugiro estas leituras). Entretanto estas considerações são razoavelmente válidas para os cursos consolidados de pós-graduação do país que iniciaram mais ou menos no mesmo perído. 

O início do nosso programa foi uma ação conjunta entre o Centro de Processamento de Dados da UFRGS, onde estava localisada a Divisão Acadêmica que foi a antecessora do Instituto de Informática (história) e departamentos e o Instituto de Física. Naquela época não havia curso de graduação em Computação no Brasil, então foi um trabalho de formação básico. Naquele tempo os  professores podiam ter apenas o mestrado (e eram mestrados recentes), os únicos professores com doutorado eram os provenientes do Instituto de Física que tinha já uma tradição em pesquisa. Um pouco sobre o início do PPGC da UFRGS pode ser lido aqui. O folheto da primeira turma do CPGCC (1973) mostra o elenco de disciplinas, hoje seria uma pequena parte da formação de um graduado. Este foi o começo heróico. Por outro lado o curso de mestrado levava quase sempre três anos, ou pouco mais, de dedicação intensa a estudo e trabalhos de pesquisa com forte interação entre os alunos e os professores de todas as áreas (voltarei a este ponto). Um aluno devia obter um mínimo de 32 créditos, mas muitos obtinham mais. Naquele momento (quatro décadas já se passaram) ao terminar o mestrado o aluno tinha uma visão ampla dos conhecimentos da área. Para obter estes créditos precisava cursar 8 disciplinas.

Neste tempo o grande diferencial do PPGC, e de outros dos programas iniciais como o da UFRJ, era a integração forte entre software e hardware, resultado da interação entre o CPD e a Física. O SEMISH foi iniciado em nosso programa em 1974 da integração é que surgiu seu nome: Seminário Integrado de Software e Hardware. Aqui volto a salientar a palavra-chave: integração. O nosso egresso saia com uma formação geral. O tempo passo e ocorreu uma grande evolução na qualificação do corpo docente tendo todos os professores iniciais obtido doutorados em instituições de qualidade no Brasil e no mundo. Com o retorno dos doutores, os cursos e os projetos de pesquisa experimentaram um salto de qualidade, sendo fortemente incrementado o intercâmbio com importantes instituições estrangeiras, especialmente aquelas situadas na Europa, mais especificamente na França e na Alemanha.

As áreas de pesquisa foram consolidadas, surgiram projetos de pesquisa fiananciados pela CAPES, CNPq e outras fundações. Posteriormente a Câmara de Pós-graduação exigia de cada programa um elenco obrigatório de disciplinas básicas, o kernel do curso. Nós tínhamos este elenco central e as disciplinas adicionais, alternativamente os alunos poderiam fazer exames nos temas destas disciplinas para obter a liberação.

A seguir começou a pressão dos orgãos do governo federal para a redução do tempo dos cursos (economia de bolsas) o que causou uma mudança visando a racionalização dos programas de pós-graduação. O objetivo não era mais a qualidade mas o número de formandos por ano e o número de artigos publicados: (leiam “A doença da pressa“) a qualidade dificilmente é associada com a pressa. Isto é o produtivismo em sua pior faceta. Pós-graduações não são linhas de produção, nós não somos trabalhadores da educação mas pesquisadores e alunos de pós. Não somos pagos para publicar artigos mas para pensar.

Os novos professores retornaram de seus doutorados, para nosso programa e para os demais programas no país, com temas de pesquisa bem específicos, não passaram pelas fases de consolidação da área que obrigava a uma atuação bem mais abrangente. Suas pesquisas atuais são bem focads em tópicos específicos, isto é uma necessidade para a obtenção do reconhecimento na sua área. Entretanto, em seus doutorados, devem ter tido a experiência de uma formação mais ampla do que a específica de suas teses. Ai surge a dicotomia: a pesquisa individual ou do grupo e a necessidade de formação dos alunos. Isto são duas realidades e necessidades diferentes. Como resultado do produtivismo de tempos imposto pelos órgão de fomento e pela visão de ser importante formar os alunos para os grupos de pesquisa pois isto gera as produções necessárias para as bolsas dos professores e para aconcessão dos projetos estamos formando doutores e mestres que só tiveram cursos com seu orientador e seus pesquisadores associados.

Para criarmos um modelo de um programa de qualidade é importante que estudemos os líderes na área. Um bom início é a lista Academic Ranking of World Universities in Computer Science – 2015. Com base nesta lista estou fazendo uma análise, baseada na documentação disponibilizada pelas Instituições, sobre os modelos lá implementados. Começei com Stanford e tenho várias análises sobre o programa de doutorado daquela instituição disponíveis no site. Mas aqui vou me ater ao ao assunto das disciplinas. É evidente que um doutor em computação precisa ter uma visão global da CC. Uma redução dos créditos ou limitação de créditos em um grupo de pesquisa implica em que um aluno de doutorado pode ser titulado tendo seguido apenas as disciplinas de seu grupo. O critério de seguir disciplinas de pelo menos quatro membros diferentes do corpo docente, como é obrigatório em Stanford, obriga uma maior abertura de visão. A necessidade de seguir disciplinas das três grandes áreas dá a visão global necessária para um doutor. Este modelo vem ao encontro do que tenho defendido seguidamente: não é possível permitir que alguém ganhe um título de doutor em computação sem que tenha uma visão global e heterogênea (diversos professores de diferentes grupos) da computação. A obcessão brasileira por um produtivismo (no sentido que um doutorado precisa ser concuído em quatro anos ou menos e que a qualidade é medida por uma métrica naïf unidimensional de publicações QUALIS) vai contra a qualidade da formação. 

Assim chego à conclusão: cada um de nós, antigos conservadores e novos muito focados, precisa abdicar de ter a sua disciplina e precisamos ter definida uma área kernel com os temas obrigatórios, como as três grandes áreas de Stanford. Não é possível, em minha visão, formar doutores em computação que só conheçam a sua área específica de pesquisa. A alta competência específica é absolutamente necessária, mas a visão abrangente da Ciência da Computação é essencial para o título de doutor.

Para aqueles que discordam desta posição peço que coletem dados das Universidades líderes no mundo que tenham modelos similares ao nosso modelo atual em que formamos mestres e doutores com poucas disciplinas oferecidas por seu grupo de pesquisa ministradas por dois ou três professores do grupo e trabalhos individuais. Qualidade é essencial e não quantidade, termino com uma citação bíblica: “Muitos são os chamados poucos os escolhidos”, precisamos de prêmios Nobel e não de um bando de doutores "meia boca".

Editei uma crônica anterior que voltou à atualidade com a crise que passamos nas universidades, acho que vale a pena a leitura, precisamos preparar uma boa discussão no próximo Congresso da SBCConfissões: A Universidade ontem, hoje e amanhã