Pesquisador Homenageado do ano de 2017 – SBBD

Divulgação do prêmio
Divulgação do prêmio no SBBD 2016

Como professor e pesquisador, desde minha formatura na Escola de Engenharia da UFRGS, tive a rara sorte de acompanhar o desenvolvimento da Computação e do ensino de Banco de Dados nas universidades brasileiras. Minha ontogênese acadêmica acompanhou o percurso da história do SBBD. Esta distinção foi uma grande alegria e surpresa, em uma época em que a avaliação de um pesquisador é constituída quase exclusivamente por índices bibliométricos, em receber um reconhecimento pelo conjunto da obra (vídeo da divulgação). Algo muito relevante para mim foi que os jovens colegas se lembraram de uma carreira de 48 anos com forte dedicação à área de Sistemas de Informação e Banco de Dados. Ao longo da carreira desenvolvi atividades em múltiplas dimensões, 81 alunos de pós-graduação já orientados, muitas disciplinas ministradas, forte interação internacional e um consistente número de boas publicações. Tinha que decidir o formato desta apresentação, uma alternativa seria descrever tecnicamente minhas pesquisas, representadas pelas publicações, isto seria enfadonho e traria pouca contribuição para os jovens membros a comunidade. Pensei melhor e então resolvi apresentar as áreas de pesquisa em que tenho trabalhado e sua evolução ao longo destes anos, sem entrar em profundos detalhes técnicos. Este andamento seguiu muito de perto a evolução do SBBD. Após apresento uma perspectiva do futuro dos Bancos de Dados e os perigos que corremos. Uma das atividades realizadas na Comissão Especial de BD e que considero importante foi a implementação do 1° Concurso de Teses e Dissertações em Banco de Dados. Desejo que a apresentação seja útil para os jovens pesquisadores conhecerem melhor o caminho percorrido até aqui pela nossa comunidade e para que entrevejam o possível futuro e seus desafios.  A vida acadêmica não pode ser uma Torre de Marfim, a preocupação e engajamento com a comunidade é essencial. Nesta apresentação vocês terão a oportunidade de conhecer, de forma agradável, o desenvolvimento de nossa área no Brasil em paralelo com uma análise do que considero essencial para uma carreira equilibrada no ensino e na pesquisa. A história dos Bancos de Dados inicia com a estruturação de arquivos tradicionais e chega aos complexos sistemas atuais. As noções de transação, recuperação e outras são essenciais para a maioria das aplicações transacionais. Hoje há uma revolta contra tudo isto propondo alternativas como o NoSQL, mas diferentes aplicações exigem diversos modelos de SGBDs. Talvez estejamos exagerando nas customizações. O que nos reserva o futuro? Como vamos estruturar nossas carreiras em um período turbulento?

  • Apresentação: quarta-feira, dia 4 de Outubro de 2017, às 10:30

Posts complementando a apresentação

Workshop Regional de Música Eletrônica e Computação Musical – Inf UFRGS

Workshop Regional de Música Eletrônica e Computação Musical visa a reunir estudantes e pesquisadores de diferentes regiões do Rio Grande do Sul, incluindo também um público leigo, constituído por entusiastas da área de Áudio e de diversos tipos de Música, da sociedade em geral. Trata-se de um evento aberto, que nasce da identificação e do compartilhamento de um importante valor regional, qual seja a admiração e o cultivo da Música Eletrônica e da Computação Musical.
Características do Evento
Workshop Regional Música Eletrônica e Computação Musical será organizado sob a forma de um evento de caráter democrático, com duração de dois dias. A programação de cada dia prevê convite para um palestrante externo, cuja formação e experiência profissionais representem uma contribuição inovadora e incentivadora, para a comunidade acadêmica, principalmente em nível de pós-graduação. Além das contribuições trazidas por esses palestrantes externos, haverá apresentações no formato de Oficinas Demonstrativas, organizadas por pesquisadores de instituições do Estado (UFRGS, UFPel, UFSM e IFRS). O fechamento dos trabalhos será feito no formato de Mesa Redonda, onde serão traçadas perspectivas futuras para a pesquisa na área, incluindo trocas de experiências e espaço para discussão sobre planos de atuação e estudo dos respectivos participantes do evento. Neste workshop, haverá dois aspectos de interesse, os quais desempenham papéis fundamentais para a área de Música e Tecnologia. O primeiro envolve sintetização sonora (analógica e digital), incluindo o respectivo desenvolvimento de hardware (sintetizadores, filtros e processadores de feitos); o segundo aspecto foca nas técnicas modernas de processamento digital de Áudio e Música, incluindo técnicas para transcrição automática de Música e recuperação de Informação Musical.

PROGRAMAÇÃO

1º dia – 11 / setembro / 2017
09:00 Abertura 

Prof. Rodrigo Schramm (Música/UFRGS)
09:30 Aprendizagem de Máquina e Processamento Musical 

Prof. Emmanouil Benetos (C4DM/QMUL)
11:30 Transcrição Automática de Música Polifônica Vocal 

Prof. Rodrigo Schramm (QMUL/UFRGS)
12:00 Pausa para almoço
14:00 Composição Algorítmica

Prof. James Correa (Música/UFPel)
14:45 Tecnologias para o Ensino de Música a Distância

Prof. Helena de Souza Nunes (Música/UFRGS)
15:30 Coffee break
16:00 Computação Musical Ubíqua 

Prof. Marcelo Pimenta (Computação/UFRGS)
16:45 Algoritmos e Música: a teoria dos conjuntos como um jogo de análise e composição 

Prof. Marcelo Birck (Música e Tecnologia/UFSM)
17:30 Encerramento do 1º dia
2º dia – 12 / setembro / 2017
09:00 Abertura 

Prof. Marcelo Johann (INF/UFRGS)
09:30 Palestra com Demonstração Métodos de construção de sintetizadores analógicos 

Eng. Arthur Joly
12:00 Pausa para almoço
14:00 Síntese sonora em Pure Data

Prof. Luciano Zanatta (Música/UFRGS)
14:45 Sintetizadores com Arduino Due

Marcelo Johann (INF/UFRGS)
15:30 Coffee break
16:00 A Produção de Música Eletrônica no RS

Prof. Eloy Fritsch (Música/UFRGS)
16:45 Mesa Redonda Futuro da Pesquisa em Musica Eletrônica e Computação Musical

Mediador: Prof. Marcelo Johann (Microeletrônica/UFRGS)
17:30 Encerramento 

Prof. Rodrigo Schramm (Música/UFRGS)

 

  

 

UFRGS Missão França: alunos preparados para o intercâmbio

Alunos do INF e da Escola de Engenharia partirão em agosto

O projeto CAPES/Brafitec EcoSud, coordenado pelo professor Lucas Mello Schnorr, dá prosseguimento a interação entre o INF e o INP de Grenoble (ENSIMAGGIPHELMA), na França. Para essa edição de 2017/2018 uma nova turma está se preparando para iniciar a missão de estudos no país europeu, todos no âmbito de um acordo de duplo diploma estabelecido entre a UFRGS e o INP. Serão três alunos do INF e quatro estudantes da Escola de Engenharia, que partirão em agosto deste ano.

De acordo com o professor Claudio Geyer, “esta é uma chance única de crescimento pessoal e profissional. Poder conhecer a cultura e o mercado de trabalho de um país como a França, que é uma referência nas áreas de interesses desses alunos, é enriquecedor”.

“Acredito que iremos complementar nossos estudos e conhecimentos com esta oportunidade. Com as experiências adquiridas nessa viajem estaremos mais preparados para enfrentarmos o mercado. Além disso, conhecer uma cultura nova e pessoas com visões de mundo diferentes da nossa irá fortalecer, ainda mais, o nosso caráter”, destaca Leonardo Almeida da Silveira, estudante de engenharia da computação.

Confira a lista dos estudantes:

* Amanda Binotto Braga (ECP, para ENSIMAG);
* Bernardo dos S. Piccoli (MEC, para ENSE3);
* Felipe Heineck (EPR, para GI);
* Giovanna Hubner (EPR, para GI);
* Leonardo Almeida da Silveira (ECP, para ENSIMAG);
* Lucca Sergi Berquó Xavier (CIC, para ENSIMAG);
* Pedro O. Portugal (ELE, para PHELMA).

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UFRGS atualiza serviço de webconferência

UFRGS O sistema de webconferência Mconf, desenvolvido inicialmente no Instituto de Informática da UFRGS, tem nova versão disponível no portal da Universidade desde domingo, 23 de julho de 2017

O serviço é oferecido através do Portal Mconf UFRGS e permite que professores, servidores e alunos façam transmissões online ao vivo, facilitando a comunicação na Universidade e permitindo aos membros da comunidade maior flexibilidade para aulas, defesas de teses e dissertações, transmissões de palestras e eventos. O serviço também está disponível para uso através do Moodle, permitindo fácil interação entre professor e alunos em aulas a distância.

A nova versão disponibilizada para a comunidade da UFRGS oferece diversas novidades, como:

  • Melhorias na transmissão do áudio;
  • Módulo de enquetes, que permite fazer uma votação durante uma apresentação;
  • Novo sistema de compartilhamento de tela com aplicativo nativo, que oferece maior qualidade e permite, por exemplo, transmissão de vídeos com áudio;
  • Novo formato de gravação que permite baixar o conteúdo da gravação para disponibilizar no YouTube, por exemplo;
  • Diversas outras melhorias.

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Nova versão do serviço de conferência web da UFRGS

UFRGS e Mconf

O Mconf iniciou sua história no final do ano de 2010 em uma parceria entre o Laboratório do PRAV do INF-UFRGS e a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). Atualmente, a Mconf Tecnologia, empresa que surgiu do projeto de pesquisa, é uma das empresas incubadas no Centro de Empreendimentos em Informática – CEIDesde 2013, o Centro de Processamento de Dados – CPD da UFRGS em parceria com a Mconf Tecnologia disponibiliza o serviço de webconferência para a comunidade acadêmica da UFRGS. Até hoje, já foram mais de 1.800 sessões em mais de 5.000 horas de webconferências.

Sobre o Mconf

Atualmente o Mconf está sendo utilizado mundialmente. Só na UFRGS, cerca de 700 pessoas utilizaram o sistema para fazer conferências no mês de junho deste ano. A RNP, que oferece o serviço de conferência web para suas instituições vinculadas, teve aproximadamente 16.000 pessoas em conferências no mesmo período.  O portal https://mconf.org (aberto a todos os cidadãos do mundo) possui mais de 33.000 pessoas cadastradas. O Mconf é utilizado também na América Latina através de um serviço oferecido pela rede CLARA – Cooperación Latino Americana de Redes Avanzadas. O projeto possui implantações na África do Sul, nos Estados Unidos, no México, e em vários outros locais do globo.

Capacitação no Mconf

Este ano, o professor Dr. Valter Roesler, coordenador geral do PRAV, irá disponibilizar um curso sobre a ferramenta através do portal Lumina da UFRGS, que oferece diversos cursos gratuitos. O lançamento do curso de capacitação Mconf está previsto para o início de setembro de 2017.

UFRGS: melhor federal no Índice Geral de Cursos

UFRGS logotipoA avaliação anual do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC) foi divulgada nesta quarta-feira, dia 8 de março. A partir de dados de 2015, o Índice Geral de Cursos atribui conceito 4,28 à UFRGS, o que posiciona a Universidade gaúcha como a melhor entre as federais e a segunda melhor do País, atrás da Universidade Estadual de Campinas, que tem 4,37. As posições são as mesmas da última avaliação. Nas demais posições entre as primeiras colocadas, estão as federais de Minas Gerais (UFMG – 4,2), de São Paulo (UNIFESP 4,14) e do Rio de Janeiro (UFRJ 4,11). O índice vai até 5.

O reitor Rui Vicente Oppermann lembra que esta foi a quarta vez consecutiva que a UFRGS despontou como a melhor universidade federal brasileira no Índice Geral de Cursos do MEC. “Esse resultado, obtido num cenário de crise recessiva, se deve ao trabalho, à participação e ao envolvimento de toda a comunidade universitária”, enfatiza.

Os indicadores de qualidade da educação superior levam em consideração os diversos dados do Censo da Educação Superior em suas avaliações e os dados específicos de graduação, de mestrado e de doutorado. Em relação aos índices da edição passada, a UFRGS teve redução de 4,35 para 4,28 no IGC-Contínuo. A classificação abrange um conjunto de 230 universidades e institutos federais.

Mais informações podem ser consultadas no site do INEP.

A avaliação apresenta e considera, também, os resultados do Enade 2015. Pela UFRGS, as graduações receberam os maiores conceitos. Foram índice 5: Administração, Ciências Contábeis, Ciências Jurídicas e Sociais (Direito), Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Design de Produto, Psicologia e Relações Internacionais. Com conceito 4: Ciências Econômicas e Design Visual.

Pós-Graduação

A UFRGS recebe grande destaque na pós-graduação. Como na última avaliação, a Universidade tem o maior conceito médio para mestrado do Brasil, com 4,88. E, nesta edição, aparece com o maior índice entre as federais para Doutorado, com 4,94.

Metodologia

Os indicadores de qualidade da Educação Superior relativos a 2015 contemplam uma alteração na fórmula de cálculo. Até a edição de 2014, o Conceito Enade (CE) e o Conceito Preliminar de Curso (CPC) eram calculados para cada Unidade de Observação, formada pelo conjunto de cursos que compõem uma área de avaliação específica do Enade, de uma mesma instituição de ensino superior (IES) em um determinado município. A partir da edição 2015, o CE e o CPC passam a ser calculados para cada curso de Graduação avaliado, conforme enquadramento realizado pelas IES em uma das áreas de avaliação, ou seja, por código de curso. Segundo o INEP, a mudança permitirá uma análise mais apurada para as diferenças entre cursos presenciais e à distância de uma mesma IES, entre outras vantagens.

Fraude e Ética na Universidade

Este post é decorrência de uma discussão na lista da Sociedade Brasileira de Computação. Após a postagem inicial, no fim deste post, recebi várias mensagens de resposta sobre o tema da ética e da fraude na Universidade. Então resolvi complementar este texto com dois anexos: as três tela iniciais que uso em minhas aulas e o Código Disciplinar Discente adotado pela UFRGS desde 2004 . Acredito que estas complementações possam ser úteis para os colegas. 

Aula 01

 

Com esta notícia “NTU, A*STAR: Scientific papers retracted, PhD revoked, professor fired” me lembrei de uma antiga crônica que escrevi em 2005; ainda está atual. Esta é mais uma consequência do ambiente Universitário moderno. O erro não se justifica, mas precisamos pensar nas causas, ou melhor nas condições ambientais que estimulam pessoas mais fracas eticamente a cometerem esta classe de erro.É importante a consciência sobre a origem do problema, ao lado de medidas drásticas (como a citada acima) é preciso que adotemos um programa de avaliação real sobre a qualidade da pesquisa. Além disto esquecer o humanismo e o ensino da Ética, por não serem temas considerados essenciais nas ciências experimentais e exatas, leva muitas pessoas para o caminho do erro.

Link para este post: http://tinyurl.com/plz-005

Confissões: A Universidade ontem, hoje e amanhã

RousseauNão esperem algo inspirado em Rousseau, esta crônica é mais uma análise da história de nossas Universidades Públicas nestas últimas décadas; em particular de minha Universidade. O título procura mostrar que o conteúdo é muito mais decorrente da minha vivência pessoal do que de uma análise acadêmica baseada em dados quantitativos e análise formal. Mas considero que as experiências vividas devem ser analisadas com muito cuidado pela sua real contribuição. As análises, mesmo as ditas metodológicas e rigorosas, sempre tem o direcionamento ideológico dado pela seleção dos dados a serem analisados. Uma seleção de dados implica, sempre, em uma posição do analista. Apenas recentemente o conceito de big data tem permitindo que algoritmos “a la Google” processem gigantescos volumes de dados sem a seleção prévia dos mesmos. Mas ainda neste caso a interpretação das regras descobertas necessita da compreensão e da interpretação humana, que não é isenta da visão de mundo do pesquisador. Desta forma minha contribuição para a compreensão da evolução da Universidade no Brasil, e em particular da área da Computação, concentra-se na narração de um a experiência pessoal e de sua interpretação.

Mas qual o motivo desta crônica? Estou me propondo fazer uma análise crítica das conquistas obtidas e dos desafios a que estamos sendo submetidos. Para podermos projetar o futuro é importante que compreendamos o caminho que nos levou à situação atual. Da mesma forma que o processo de análise psicológica permite a uma pessoa conhecer melhor sua mente, seus problemas e enfrentar as causas de suas dificuldades as instituições precisam desta análise profunda e crítica. Uma instituição não sendo um ente racional não possuía esta capacidade, apenas seus membros podem fazer uma análise de suas experiências. 

Os primórdios da computação na Universidade

Vamos começar a análise pelo relacionamento da Universidade com seus professores. Quando eu era aluno da Escola de Engenharia da UFRGS a grande maioria das pessoas considerava que um bom professor de engenharia era um profissional de engenharia bem sucedido que vinha “ensinar” para os alunos como se procedia na vida prática. Isto porque este profissional “sabia como se fazem as coisas”. Os poucos, ou pouquíssimos que só estavam ligados ao ensino eram chamados de “leitores de livros”. Tive um professor que repetia fastidiosamente um livro sobre máquinas elétricas, há anos, o melhor aluno (para este professor) era um colega que acompanhava pelo livro e funcionava como “ponto” ditando as variáveis que o mestre se esquecia… A inovação era nula. Isto começou a mudar quando alguns, poucos, professores da Engenharia Elétrica voltaram de um mestrado no ITA e passaram a dar ótimas aulas, com fundamentos consistentes. Estes professores foram a minha motivação para gostar da pesquisa. Junto com o Instituto de Física, naquela época um dos poucos locais da Universidade onde havia pesquisa, estes professores ofereceram cursos extras de matemática e fundamentos de física para eletrônica (era o início dos semicondutores). Isto porque os professores ditos “práticos” nem conseguiam entender o que era uma transformada de Laplace.

Sim, dás aula, onde trabalhas mesmo?”. A Universidade era um “bico”, um complemento extra de outras atividades. Alguém acha que poderíamos querer ter indústria competitiva, ou qualquer tipo de importância no cenário internacional? Naquela época entrava-se para a Universidade por convite do “catedrático”. Eu já estava entusiasmando pela pesquisa e passei a ensinar, só ensinar, no Departamento de Física e Matemática da Escola de Engenharia. No primeiro ano uma especialização em Análise Matemática, o que me valeu até hoje. Muito depois vieram os concursos em que fui aprovado para Professor Assistente e para Professor Titular. Ai vocês já vem o problema da época, eram engenheiros ministrando aulas de Física e de Matemática, só podia ser transmissão de conhecimento. Logo surgiu o regime de Tempo Integral e Dedicação Exclusiva – RETIDE – e fui dos primeiros a estar todo o tempo na Universidade. Naquela época quando alguém perguntava: “Onde trabalhas?” e a resposta era: “Na Universidade!” vinha logo: 

O ambiente era basicamente estudar os livros, não havia a biblioteca na Web da CAPES, aliás ainda não haviam inventado a Web, e as revistas disponíveis que eram limitadíssimas. Quando vinha um raro professor de uma Universidade no exterior só tínhamos a possibilidade de escutar o que faziam lá e nos atualizarmos. Ainda hoje há muitos colegas, que apesar das mudanças (que veremos a seguir) continuam com a visão colonial de que somente as publicações no exterior são boas. Um dos poucos mestrados disponíveis próximos da área era o de Física Experimental, me inscrevi no mesmo. Alguns colegas saíram para fazer mestrados no Rio de Janeiro. Não havia sequer um Doutorado em Computação no Brasil e acredito que os dois mestrados disponíveis eram os da UFRJ e da PUC do Rio. Quando voltaram foi iniciado o Mestrado em Ciência da Computação, uma associação entre o Centro de Processamento de Dados e o Instituto de Física. Notem a peculiaridade desta associação: de um lado um órgão técnico da Universidade, que era responsável pelas aulas de Computação e pelo outro um Instituto de Ensino e Pesquisa. Ainda era a visão de que “quem faz sabe, quem não faz ensina” no lado da Computação/Engenharia. Mudei para o novo mestrado. Notem que naquela época alguém um professor com mestrado era credenciado como professor de Pós-graduação em nível de Mestrado! 

A evolução

Mas as coisas começaram a mudar, iniciamos a desenvolver projetos, alguma pesquisa começou. Nesta época o grupo de Banco de Dados, em um projeto conjunto com a Alemanha, desenvolveu do zero um SGBD, o MINIBAN. Começamos a ter competências mais formais e a ter capacidade de desenvolver tecnologia com base conceitual sólida. Neste ponto começaram as publicações destes resultados. No início no Brasil, depois na Argentina e Chile que eram consideradas publicações “internacionais”. A próxima etapa foi a formação dos professores em nível de doutorado, fizemos uma escala de saída e praticamente todos foram, os primeiros para o Rio de Janeiro, os demais para o exterior. Ai as coisas se aceleraram, a pesquisa ganhou fôlego, a inserção internacional aconteceu e a exigência de qualidade atingiu níveis compatíveis com o cenário mundial. O processo de avaliação da CAPES, para Instituições, e do CNPq para pesquisadores atingiram um ponto em que são referências mundiais. Hoje para entrar como professor em nosso grupo (e nos grupos de excelência no Brasil) o mínimo exigível é o doutorado e boa demonstração de produção. Nossos alunos de doutorado praticamente sempre tem um período de um ano de trabalho em laboratório no exterior e tem boas publicações. Parece que a guerra foi ganha. Inserção internacional, trabalhos de qualidade, reconhecimento pelos melhores centros de pesquisa no mundo como parceiros de qualidade.

A crise

Agora surgem os fantasmas, a Alemanha desenvolveu um processo de competição e selecionou um número reduzido de Universidades para serem os centros de excelência. Uma Universidade Huboldtiana (ver) é cara, mas essencial para a formação de um núcleo de pesquisadores de alta qualidade. Criou-se no Brasil um mito de que uma Universidade para ser boa deveria seguir o modelo criado por Humboldt de associação estreita entre pesquisa e ensino. Muitas Universidades que não têm condições para implantar este modelo de alto custo se sentem inferiorizadas se forem consideradas como Universidades de Ensino. É preciso ter clara a visão que tanto uma Universidade de Pesquisa como uma Universidade de Ensino são essenciais se forem de ótima qualidade e não vendedoras de títulos acadêmicos.

Por outro lado foi criada a visão errônea de que a ascensão social é feita pelo título universitário. Esta percepção foi desenvolvida por uma interpretação inadequada de qual é a variável independente. Nos tempos em que comecei a descrever o processo de qualificação da Universidade as famílias de maior nível econômico tinham seus membros com títulos universitários. Criou-se a visão de que era a titulação a variável independente, mas na realidade é o contrário que acontece: eles tinham os títulos acadêmicos por terem recursos financeiros para enviá-los e mantê-los na Universidade. A conclusão foi: “Devemos abrir as portas a todos para que entrem na Universidade, assim poderão ter a desejada ascensão social”. Mas um título acadêmico de uma Universidade fraca ou um título acadêmico em uma boa Universidade de um estudante fraco hoje não serve para nada.

Como escreveu José Goldenberg:

“Daí a necessidade de manter universidades de alto nível, isto é, centros de estudos, pesquisas e inovação, como é feito na Europa há quase mil anos. São as grandes universidades de hoje, algumas delas no Brasil, que produzem as novas ideias e novas tecnologias que vão dar, amanhã, origem a empreendimentos comerciais, e não o contrário. É uma ilusão esperar que elas, por si sós, modernizem o sistema produtivo, mas precisam estar preparadas para responder às demandas da sociedade.  É por essa razão que qualquer medida que leve à redução da qualidade e do potencial das universidades brasileiras, como a criação de cotas raciais, por exemplo, é equivocada”

Universidade não é o local para a recuperação de dívidas históricas e sociais, por mais válidas que sejam estas dívidas. Minha posição é que estamos enfrentado uma das maiores crises da Universidade Brasileira, pois nossos políticos não estão tratando do essencial do problema. A causa principal é que deixamos o ensino público decair, pagamos muito mal aos nossos professores do Fundamental e do Médio. Voltando ao início da crônica, nos anos 60 e 70 não havia grande diferença entre os alunos que ingressavam na Engenharia vindos do ensino público ou do particular. Um ótimo colégio público de Porto Alegre, o Julho de Castilhos ou Julinho, era um dos grandes formadores das lideranças gaúchas. O tempo passou e o ensino básico público foi sucateado. Recentemente entrou um aluno cotista com UM acerto em matemática na Engenharia, depois melhoraram um pouco os critérios. Por mais esforços que sejam feitos não há como recuperar este déficit em Ciências Exatas na Universidade.

Pior se passa em Português, a capacidade de abstração e de representação de conceitos precisa se desenvolver ao longo dos anos. Em um destes programas de “universalização” querem impor uma taxa de conclusão de 95% dos ingressantes, só se for implantada a progressão continuada, sem possiblidade de reprovação na Universidade, pois precisaríamos de cerca de 0,99% de aprovação em cada disciplina para atingir esta meta final. Esqueceu-se o princípio da qualidade e do esforço pessoal. Alguém disse que a famosa frase de Churchil: “Blood, Toil, Tears and Sweat” foi convertida no Brasil para “Carnaval, Cerveja e Suor”. Olhem como modelo a carreira do brilhante ministro do Supremo o Joaquim Barbosa (Wikipédia), é o exemplo de que dedicação e esforço recompensam. Mas a reabilitação do Ensino Público não está na agenda de políticos que tem como horizonte a próxima eleição.

A solução

Minha proposta é que a solução está em dar condições plenas para cada um de acordo com sua capacidade e esforço. A solução para a recuperação de dívidas históricas e sociais da Sociedade deve ser real e não uma tentativa superficial de oferecer acesso à Universidade. Isto (a possibilidade de efetuar estudos até o mais alto nível de sua capacidade) deve ser independente da situação socioeconômica da família do estudante. O Ensino Público Fundamental e Médio precisa ser valorizado. Em nosso estado, RS, dão-se incentivos fiscais para fábricas de cigarro e à plantação de fumo, mas não para o Ensino. Os alunos devem ser motivados e acompanhados desde o início dos estudos e os mais dedicados e com maiores resultados devem receber o apoio do Estado para irem para as melhores Escolas. Se inicialmente não for possível levar todas as Escolas do Ensino Público a um patamar mais elevado devem ser escolhidas as mais promissoras como Centros de Excelência. Todos, devem ter a possibilidade de atingir, com apoio educacional adequado para suprir as deficiências decorrentes de um meio desfavorecido, o nível mais alto a que puderem e para o qual se esforcem e tiverem capacidade. 

Constituição do Brasil

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
... ”.

Para assegurar esta igualdade os meios financeiros devem ser alocados a todos alunos que demonstrem qualidade e desempenho sem distinção de qualquer natureza. Cada um deve ser exclusivamente dependente de sua capacidade e esforço e não de suas condições econômicas ou sociais para progredir. Minha visão é que é obrigação do Estado de dar estas condições.

Adendo para a patrulha ideológica

Não digam que este modelo que defendo é um modelo “burguês e capitalista”, é o modelo que está levando a China (comunista) a ser uma potência mundial: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades” (Karl Marx). A cada um deve ser dada a oportunidade de usar todas as suas capacidades e de acordo com seu mérito, isto a partir do ensino básico.