Sobre os programas de pós-graduação em Computação – Carta de Búzios 2007


Pesquisa e desenvolvimentoHá exatos dez anos, entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro de 2007, reuniu-se em Búzios um grupo de 19 pesquisadores, membros dos comitês da CAPES e do CNPq, da SBC – Sociedade Brasileira de Computação e da ABC – Academia Brasileira de Ciências. O objetivo da reunião foi analisar a evolução da área de Computação no Brasil, com vistas a um planejamento a curto, médio e longo prazo. Os participantes foram:

Alberto Laender
Ana Teresa de Castro Martins
Carlos José Pereira de Lucena
Clarisse Sieckenius de Souza
Claudia Bauzer Medeiros
Edmundo de Souza e Silva
Henrique Pacca Loureiro Luna
Jayme Luiz Szwarcfiter
José Carlos Maldonado
José Palazzo M. de Oliveira
José Roberto Boisson de Marca
Luis Fernando G. Soares
Marco Antonio Casanova
Nelson Fonseca
Nivio Ziviani
Paulo Cesar Masiero
Paulo Cunha
Philippe Navaux
Ricardo Anido
Teresa Bernarda Ludermir

Na época foram feitas algumas recomendações. É claro que passados dez anos algumas coisas evoluíram, mas ainda há muito a ser feito. Acredito que precisamos retomar a discussão e passar a considerar critérios múltiplos de avaliação com mais intensidade. Apesar da CAPES insistir constantemente que o uso do QUALIS é inadequado para a avaliação monodimensional dos pesquisadores, e ainda pior por uma janela de quatro anos de suas publicações, esta avaliação continua sendo corrente nos programas. O objetivo do QUALIS não é a avaliação dos programas mas a análise dos mesmos para qualificar a contribuição para o país. Em recente palestra (2017) do Presidente do CNPq na ABC ele deixou claro que na dimensão de publicações estamos muito bem, infelizmente nas dimensões de inovação e de tecnologia desenvolvida ainda falta muito a ser conquistado, então estas dimensões devem ser valorizadas. Outra dimensão importante  para a qualificação de um programa é a formação de recursos humanos, esta dimensão deve ser considerada na vida de um pesquisador. Deixo a vocês a leitura do documento e a verificação do que a comunidade realizou nestes 10 anos…


RECOMENDAÇÕES SOBRE AVALIAÇÃO E POSICIONAMENTO DA ÁREA DE COMPUTAÇÃO

A Computação é hoje onipresente e essencial para o desenvolvimento econômico e social do País. Cabe a uma instituição de ensino e pesquisa adiantar-se às necessidades futuras da sociedade e preparar adequadamente as próximas gerações para suplantar os desafios daí advindos. Uma visão clara da evolução da tecnologia, uma percepção adequada das necessidades da sociedade, a contínua adaptação da estrutura curricular e a motivação de jovens talentos são condições necessárias para levar a cabo esta missão. Estas afirmações adquirem uma maior relevância em áreas com alto impacto social e evolução acelerada, como é o caso de Computação.

Com este pano de fundo e dentro das atividades constantes de planejamento estratégico da área, entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro de 2007, reuniu-se em Búzios um grupo de 19 pesquisadores, membros dos comitês da CAPES, do CNPq, SBC e IEEE, com o objetivo de analisar a evolução da área de Computação no Brasil, com vistas a um planejamento a curto, médio e longo prazo. Esta reunião havia sido programada desde o início do ano de 2007.

Os principais tópicos abordados foram: os trabalhos dos comitês do CNPq e CAPES no último triênio; os estudos sobre a produção em ciência da computação, em andamento, para dar subsídios ao processo de avaliação (especialmente aquelas conduzidas na UFMG, na UNICAMP e no IEEE); o aperfeiçoamento do QUALIS em vigor, com especial atenção para a importância das conferências para a área; e a inserção da Computação na classificação das áreas da CAPES e do CNPq.

Um tema que permeou todas essas discussões foi a necessidade de avaliar a inserção internacional da área de Computação, através de comparações com programas de excelência na América do Norte e Europa. Pesquisadores da  UFMG e da UNICAMP apresentaram um exercício de análise de desempenho da área com este objetivo, utilizando algoritmos e programas de mineração de dados em grandes bibliotecas digitais mundiais e dados sobre formação de doutores, inclusive os da CAPES. O exercício foi estendido, em parte, a áreas tais como Física, Biologia, Engenharia IV e Matemática. A análise confirmou que a comparação entre áreas baseada em bibliometria é um problema de grande complexidade e pode levar a conclusões bastante distorcidas.

Os participantes propõem três recomendações gerais, dirigidas à SBC e aos atuais e futuros comitês de avaliação e assessoramento da CAPES e do CNPq. A primeira recomendação é de curto prazo e urgente e as outras duas são de médio e longo prazo.

Recomendação 1: Revisão dos indicadores da produção dos programas de pós-graduação e da metodologia de avaliação

Os participantes sugerem que o próximo comitê de área da CAPES revise, com urgência, a definição dos indicadores da produção dos programas de pós-graduação e, por conseguinte, o próprio documento de área.

A revisão do documento de área deve partir de uma análise comparativa vertical para avaliar a inserção internacional dos programas de pós-graduação da área, em parte já realizado, conforme mencionado. Em particular, os índices medindo a produção bibliográfica e o WebQUALIS da área devem: (1) incorporar periódicos de áreas afins, à semelhança de outras áreas, como Engenharia IV; (2) incorporar conferências, reforçando a importância fundamental dos anais de conferências como meio de divulgação dos avanços da área, sem a limitação de conter apenas aquelas observadas no triênio.

Após consolidar o novo documento de área, os participantes sugerem que o próximo comitê avalie se a atual implementação do sistema utilizado pela CAPES permite especificar os indicadores definidos no documento e, se for o caso, solicitem modificações no sistema.

Recomendação 2: Criação de um esforço permanente de desenvolvimento e aprimoramento de ferramentas e metodologias para avaliação do desempenho e do impacto da área

Os participantes sugerem a criação, no contexto da SBC, de um esforço permanente de desenvolvimento e aprimoramento de ferramentas e metodologias para a avaliação do desempenho dos programas de pós-graduação e da contribuição da área para o crescimento econômico e bem estar social do País. Ressalte-se que o esforço não se destina a classificar os programas de pós-graduação, que é atribuição da CAPES.

Quanto à avaliação do desempenho dos programas, os participantes sugerem que a SBC coloque à disposição dos coordenadores de pós-graduação recomendações que promovam uma melhoria na qualidade dos dados levantados pelos programas, especialmente dados padronizados sobre os veículos de publicação da área (inclusive conferências).

Quanto à avaliação do impacto da área, os participantes sugerem que a SBC promova a consolidação e complemente as pesquisas e estudos já realizados, principalmente pelo MCT, para determinar a necessidade atual e projetada de profissionais da área.

Recomendação 3: Análise do posicionamento da área de Computação no contexto das grandes áreas

Os participantes sugerem que o próximo comitê de área da CAPES e o Comitê Assessor de Ciência da Computação do CNPq analisem em profundidade sobre qual deve ser o posicionamento da Computação no contexto das grandes áreas adotadas pela CAPES e pelo CNPq, criando uma caracterização mais precisa que fortaleça a área.

A análise deverá avaliar inicialmente se Computação deve ser tratada como uma grande área ou não; caso a decisão seja não tratá-la, a análise deverá indicar se Computação deve pertencer à grande área de Ciências Exatas e da Terra ou à grande área das Engenharias. Por fim, independentemente do resultado, a análise deverá avaliar a adequação de subdividir a área de Computação em duas de tal forma que uma subárea acomode os programas atualmente classificados como de Computação e a outra subárea inclua programas com um forte viés de Computação, mas que atualmente são classificados como multidisciplinares.

Apresentação no SBBD 2017 – Pesquisador Homenageado

Como professor e pesquisador, desde minha formatura na Escola de Engenharia da UFRGS, tive a rara sorte de acompanhar o desenvolvimento da Computação e do ensino de Banco de Dados nas universidades brasileiras. Minha ontogênese acadêmica acompanhou o percurso da história do SBBD. Esta distinção foi uma grande alegria e surpresa quando recebi o reconhecimento pelo conjunto da obra como Pesquisador Brasileiro Homenageado do ano de 2017 no SBBD (vídeo da divulgação). A apresentação no SBBD 2017 da palestra está disponível a seguir. 

2017 SBBD Prêmio - PDF

Pesquisador Homenageado do ano de 2017 – Simpósio Brasileiro de Bancos de Dados SBC

Divulgação do prêmio
Divulgação do prêmio no SBBD 2016

Como professor e pesquisador, desde minha formatura na Escola de Engenharia da UFRGS, tive a rara sorte de acompanhar o desenvolvimento da Computação e do ensino de Banco de Dados nas universidades brasileiras. Minha ontogênese acadêmica acompanhou o percurso da história do SBBD. Esta distinção foi uma grande alegria e surpresa, em uma época em que a avaliação de um pesquisador é constituída quase exclusivamente por índices bibliométricos, em receber um reconhecimento pelo conjunto da obra (vídeo da divulgação). Algo muito relevante para mim foi que os jovens colegas se lembraram de uma carreira de 48 anos com forte dedicação à área de Sistemas de Informação e Banco de Dados. Ao longo da carreira desenvolvi atividades em múltiplas dimensões, 81 alunos de pós-graduação já orientados, muitas disciplinas ministradas, forte interação internacional e um consistente número de boas publicações. Tinha que decidir o formato desta apresentação, uma alternativa seria descrever tecnicamente minhas pesquisas, representadas pelas publicações, isto seria enfadonho e traria pouca contribuição para os jovens membros a comunidade. Pensei melhor e então resolvi apresentar as áreas de pesquisa em que tenho trabalhado e sua evolução ao longo destes anos, sem entrar em profundos detalhes técnicos. Este andamento seguiu muito de perto a evolução do SBBD. Após apresento uma perspectiva do futuro dos Bancos de Dados e os perigos que corremos. Uma das atividades realizadas na Comissão Especial de BD e que considero importante foi a implementação do 1° Concurso de Teses e Dissertações em Banco de Dados. Desejo que a apresentação seja útil para os jovens pesquisadores conhecerem melhor o caminho percorrido até aqui pela nossa comunidade e para que entrevejam o possível futuro e seus desafios.  A vida acadêmica não pode ser uma Torre de Marfim, a preocupação e engajamento com a comunidade é essencial. Nesta apresentação vocês terão a oportunidade de conhecer, de forma agradável, o desenvolvimento de nossa área no Brasil em paralelo com uma análise do que considero essencial para uma carreira equilibrada no ensino e na pesquisa. A história dos Bancos de Dados inicia com a estruturação de arquivos tradicionais e chega aos complexos sistemas atuais. As noções de transação, recuperação e outras são essenciais para a maioria das aplicações transacionais. Hoje há uma revolta contra tudo isto propondo alternativas como o NoSQL, mas diferentes aplicações exigem diversos modelos de SGBDs. Talvez estejamos exagerando nas customizações. O que nos reserva o futuro? Como vamos estruturar nossas carreiras em um período turbulento?

Placa comemorativa

Posts complementando a apresentação

The collaboration network of the Brazilian Symposium on Databases

Acabou de ser publicado o artigo sobre os 30 anos do SBBD, está em acesso livre em: http://rdcu.be/uguM

ArtigoAbstract
The Brazilian Symposium on Databases (SBBD) celebrated its 30th edition in October 2015. As the database community has evolved over the years, so has the data analysis area. To celebrate such accomplishments, this article goes over the SBBD history from distinct social perspectives. Overall, we investigate the complete SBBD co-authorship network built from bibliographic data of SBBD’s 30 editions, from 1986 to 2015, and analyze several network metrics, considering the network evolution over the three decades. In particular, we analyze the progress of the most engaged SBBD authors, the number of distinct authors, institutions, and published papers, and the evolution of some of the most frequent terms presented in the titles of the papers, as well as the influence and impact of the most prominent SBBD authors.
Keywords: Collaboration networks, Social networks, Databases, SBBD

Apresentação no CSBC 2017: Avaliação da qualidade de programas de pós-graduação

 

A comunidade tem perguntado sobre o caminho que estamos trilhando para construir uma pós-graduação de excelência. Encontramos opiniões divergentes, alguns acreditam que se obtém qualidade pelos altos níveis de exigência, outros por estimular o trabalho individual dos alunos. Uns pensam que a pós-graduação é uma forma de crescimento social e encaram os critérios altos como elitistas. Atualmente alguns programas de PG estão reduzindo o número de créditos com o racional que o importante é o trabalho de dissertação ou de tese. Há, ainda, a discussão sobre se vale a pena o investimento no mestrado e se o doutorado deve ser o fim último da PG, sendo o mestrado algo considerado como um prêmio de consolação para quem não consegue obter o doutorado. Certamente estamos em um período turbulento, onde poucas certezas existem. As perguntas que não querem calar são: Teremos realmente universidades de primeira linha? O que é uma universidade primeira linha? É uma universidade com prêmios Nobel? É uma universidade para onde os pesquisadores top querem trabalhar em seus sabáticos? É uma Universidade para onde os melhores alunos do mundo aplicam como forma de ter seu futuro assegurado? Este é o tema central da Avaliação da Qualidade tratada neste texto: Como avaliar a qualidade de um programa de pós-graduação, que critérios devem ser utilizados? 

2017 CSBC Avaliação

 

 

Despedida da Comissão de Educação

Prezados,

Após oito anos colaborando como membro da Comissão de Educação da SBC nas gestões de Edson Cárceres e Mirella Moro gostaria de agradecer a ambos pela confiança depositada. Neste longo período houve uma mudança essencial no foco das atividades. Principalmente o Curso de Qualidade se transformou de uma atividade muito mais ligada aos problemas administrativos e de avaliação pelo MEC dos programas em uma ação vinculada aos objetivos da qualidade do ensino. Neste ano a superorganização foi feita pelo Duduchi, Simone e Tayana, com ênfase em aspectos substantivos de qualidade, constituiu-se em notável êxito. Os grupos de trabalho estão aprofundando tópicos centrais nos currículos. Para mim foi uma satisfação ter colaborado neste processo de qualificação. Obrigado a todos.

 

 

 

Grandes desafios para as Universidades (Computação)

Grandes desafios para as Universidades

Um seminário de Grandes Desafios não é um evento científico tradicional. Seu objetivo não é apresentar resultados de trabalhos em andamento, mas sim definir questões que serão importantes para a universidade, para a ciência e para o país no longo prazo. É um evento em que o ambiente deve ser propício ao pensamento criativo, sem o excesso de críticas e necessidade de validações e provas que caracterizam as conferências tradicionais para a apresentação de resultados de pesquisa. Não é tampouco uma conferência de “defesa de idéias ou projetos pessoais”, mas sim um trabalho coletivo de identificação e caracterização de grandes problemas que se põem no futuro das universidades. É um esforço para o refinamento do pensamento mais orientado a problemas do que às disciplinas e às questões da própria área. Grandes Desafios envolvem questões associadas a “problemas centrais” que não podem ser resolvidas por trabalhos que objetivam resultados de curto-prazo. São necessários múltiplos enfoques para atacar grandes desafios, e estes deverão ser pesquisados dentro de um horizonte de longo prazo. A identificação de grandes desafios pra as universidades contribui para a formulação de projetos denominados High-Risk-High-Payoff, que têm o potencial de produzir avanços significativos no ensino e na pesquisa com aplicações sociais e tecnológicas de grande valor. Alguns aspectos característicos dos Grandes Desafios pesquisa estão resumidos a seguir.

  • Os Grandes Desafios devem ser dirigidos a avanços significativos, ao invés de conquistas incrementais baseados em resultados existentes.
  • A visão de um Grande Desafio deve estar bem além daquilo que pode ser obtido por uma modificação de currículo.
  • Os Grandes Desafios devem ser passiveis de avaliação clara e objetiva que permita definir o seu sucesso.
  • Os Grandes Desafios devem ser decomponíveis e passíveis de diagnóstico incremental, de modo a permitir mudanças de curso durante sua realização.
  • Os Grandes Desafios devem ser ambiciosos e visionários, mas não irrealistas, viáveis dentro de um prazo predefinido – 10 anos ou mais.
  • Os Grandes Desafios devem ser desafiadores e motivadores para a comunidade acadêmica e motivadores para a sociedade
  • Muitos dos problemas que os constituem são multidisciplinares em sua natureza e nas possibilidades de solução.
  • Os tópicos dos Grandes Desafios emergem de um consenso da comunidade acadêmica, para servir como um cenário de longo prazo para os professores, independentemente de políticas de financiamento ou questões conjunturais

Referências

  • Publications: culture and qualityMy position, exposed in this paper, is that the emphasis on conference publishing, in open publishing and the decline of journal publishing is not a specific Culture in Computing Research but it is the materialization of the new world supported by the Information Technologies. As the Computing Research Community has the domain of the technology it was possible to integrate this knowledge into our cultural environment. The problem now is to change the minds to accept that quality is not tied with the physical appearance of the media but it is intrinsically associated with the quality of the content. We are living in a changing world and a really great challenge is to support the new reality against the established culture.
  • Somos diferentes? Nesta crônica é analisada a característica da área de computação de publicar artigos de qualidade em conferências.
  • Alfonso Fuggetta, Challenges for the future of universities, Journal of Systems and Software, Available online 15 June 2012, ISSN 0164-1212, 10.1016/j.jss.2012.05.062. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0164121212001525
  • The Nature of Grand Challenges – Education. Soliciting ideas for Grand Challenges in the educational sphere is novel. It involves identifying major goals whose attainment will lead to significant improvements in the educational processes associated with Computing. This is to be interpreted in a broad sense.

  • Informatics Europe is the association of computer science departments and research laboratories in Europe and neighbouring areas. The mission of the association is to foster the development of quality research and teaching in information and computer sciences, also known as Informatics. Our main activities and services include organising the annual European Computer Science Summit and the Informatics Europe Curriculum Award; offering a service of research quality assessment in the Department Evaluation initiative; organizing and publishing an extensive archive of European Research & Education institutions.