Legitimidade social da ciência

Em 10 de Outubro de 2017 a FAPESP publicou este texto: Ciência enfrenta crise de legitimidade em âmbito mundial

Agência FAPESP – A ciência enfrenta uma crise de legitimidade de âmbito mundial. Cresce o questionamento sobre até que ponto os recursos públicos investidos no financiamento de pesquisas são, de fato, revertidos em benefícios à sociedade. Segundo Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, no Brasil, diante do atual cenário de escassez, essa discussão tende a se tornar ainda mais aguda nos próximos anos.

CiênciaO problema é real e global. Com recursos escassos a decisão política de onde aplicá-los tem que ser considerada com muita atenção pelos pesquisadores. 

“Vai ficar ainda mais difícil para a ciência competir por recursos com o setor de saúde pública, com a educação, com a construção de rodovias e também com outros gastos menos defensáveis. Isso vai exigir dos pesquisadores uma maior conexão com as necessidades e os interesses dos contribuintes. É uma preocupação legítima da sociedade saber o que será feito com o dinheiro dos impostos e é nossa obrigação explicar”, disse Brito Cruz no debate “Crise do financiamento em ciência no Brasil”, realizado em 6 de outubro pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pelo jornal Folha de S.Paulo.

Esta realidade precisa ser entendida e os nossos grupos de pesquisa devem mostrar os resultados de seus trabalhos de forma perceptível para a sociedade. Uma recente publicação da Nature enfatiza este ponto no editorial Researchers should reach beyond the science bubble onde escreve explicitamente que “Scientists in the United States and elsewhere ought to address the needs and employment prospects of taxpayers who have seen little benefit from scientific advances”. O Cnpq tem exigido nas prestações de conta a descrição em termos compreensíveis para o público geral o que é a pesquisa e seus resultados. Recentemente estive lendo este texto da The Netherlands Organisation for Scientific Research (NWO) onde é deixado bem claro que o conhecimento deve ser tornado público e de forma a ser utilizado pela sociedade. 

Knowledge Utilisation in the Physical Sciences
  
It is important to that scientific knowledge and skills are also applied outside of academia and/or in other disciplines of science. In short: knowledge that is gained should also be utilised. For that reason, knowledge utilisation plays a role as a selection criterion in all of NWO’s funding instruments. Physical Sciences is eager to help researchers form the contours of knowledge utilisation in their research proposals.

Como venho escrevendo há tempos precisamos mudar os critérios de avaliação das pesquisas e deixar a bibliometria como somente uma ferramenta de apoio ao processo de julgamento. Na Holanda, como visto acima, está claramente escrito que a utilização do conhecimento é utilizada como critério de avaliação dos projetos. Há até um guia sobre o assunto: Guide to Knowledge Utilisation. Petições, marchas, abraços às Universidades não vão adiantar muito enquanto não convencermos a Sociedade da relevância da Pesquisa. A Utilização dos conhecimentos na solução de problemas reais não implica nem em perda de qualidade da pesquisa nem em enfraquecimento da pesquisa básica. Por um lado precisamos trabalhar em problemas reais e por outro é preciso um sólido embasamento formal para garantir a qualidade da pesquisa. Está na hora de mudarmos nosso comportamento antes que seja muito tarde pois cada vez vemos mais neo-luditas atacando a Ciência.

Conferências: ACM SAC, QUALIS e Utilidade

Atualmente está ocorrendo uma discussão e a emissão de opiniões dos avaliadores nacionais da qualidade das publicações sobre algumas conferências e journals. O problema surge quando foi definido um critério bibliométrico pela CAPES para a avaliação de meios de apresentação de pesquisas. Há anos venho escrevendo que os índices de avaliação de publicações são importantes AUXILIARES na avaliação da qualidade da pesquisa. Quando estava na vice-presidência da Câmara de Pós-gradução da UFRGS implantamos a necessidade de recredenciamento dos orientadores a cada cinco anos com base, naquela época novo, currículo Lattes: qualidade É importante. Este ano a Comissão de Computação da CAPES retirou do documento de área, que é o referencial mais conhecido, os limiares da indexação e os transferiu para outro documento denominado “Considerações sobre Qualis Periódicos – 2016” apesar de tratar de Periódicos e de Conferências.

Recentemente alguns detentores de Prêmios Nobel afirmam o que venho defendendo: o importante é a qualidade da pesquisa não os índices. Mas a discussão atual foca um outro aspecto: apesar de de ser definido um critério, dito objetivo de avaliação e rankeamento de conferências e journals há pessoas (muitas as mesmas que defendem ardentemente o QUALIS atual) que se sentem desconfortáveis com este critério. Qual o critério? A estratificação da qualidade em níveis calculados pelo h-index ou JCR. Anteriormente as Comissões Especiais da SBC fizeram um rankeamento das conferências e os avaliadores da CAPES afirmaram que esta classificação estava enviesada (biased) pelas pessoas que haviam feito a classificação. Na Comissão Especial de Banco de Dados fizemos um trabalho exaustivo e muito sério para receber esta crítica, o mesmo deve ter se passado nas demais Comissões. Então foi criado o método “impessoal” da estratificação por percentagens de indicadores bibliométricos. É claro que há uma ideologia atrás da escolha deste critério único, eu acredito que as avaliações das Comissões Especiais da SBC eram muito mais interessante: por exemplo, um WS organizado por pesquisadores top de uma área pode ser A1 por sua excelente qualidade, no h-index não pode aparecer.

O que me deixa chocado é que agora pessoas ficam descontentes com a classificação e, mais um exemplo, dizem que o Simpósio ACM SAC é uma (perdão, mas estou apenas repetindo a palavra) “porcaria” apesar do alto h-index. Então que voltemos para as classificações da Comunidade, das Comissões Especiais da SBC e não pela opinião de poucos. E o pior, opinião emocional pois não tem suporte em dados. Um dos critérios exigidos para a classificação bibliométrica de conferências é a taxa de aceitação. Olhem a taxa de aceitação deste simpósio além da classificação A1 pela CAPES.

Não estou analisando a dita “qualidade” intrínseca do evento (aliás o que é isto mesmo?) mas sua utilidade. Quem o organiza não é um grupo predador, é a ACM, e está na trigésima terceira realização! Qual a sua utilidade? É a reunião anual de pesquisadores de diferentes áreas para uma produtiva troca de ideias permitindo o desenvolvimento de pesquisas multi-orientadas. A seguir mostro outras duas conferências, em que participei, com o mesmo objetivo: fazer uma reunião anual de pesquisadores de várias áreas, uma da ACM e outra da IFIP, duas sociedades sérias. A ACM Student Research Competition do SAC é suportada pela Microsoft, isto é algo de baixa qualidade? Predador? Caça niqueis? É claro que não! A participação em eventos de grande escopo evita o famoso problema da “bolha social” onde não há diversidade de opiniões e, como sabemos bem, em muitas conferências apenas os participantes do grupo conseguem publicar. Minha posição é: sejamos revolucionários e tenhamos coragem de entender que há múltiplas dimensões para avaliar a utilidade de uma conferência. Não podemos ficar presos e prejudicados por uma avaliação unidimensional. 

ACM 85 IFIP 84
ACM SAC 2018

 

Repensando a universidade e a pós-graduação


Diversidade

Com a atual crise nas Universidades estou considerando a necessidade de repensarmos a pós-graduação. O corte de verbas é uma consequência do estado falido por despesas irresponsáveis e por roubos inimagináveis, isto todos sabemos. Mas qual o motivo de não serem poupados, ou pelo menos sofrerem menos algumas áreas? Certamente a Saúde e a Segurança estão na boca do povo como demandas sérias e principais. Por que não a Educação? Recentemente li um livro, estava em minha lista de leituras há muito tempo, sobre o Design Thinking. A ideia essencial apresentada neste livro é utilizar a forma de pensar de designers industriais para a modelagem de soluções criativas. O livro prega a análise multidimensional dos problemas com a inclusão de pessoas com múltiplas formações. Esta fase inicial precisa ser muito menos estruturada e contar com a participação livre de ideias, de criação de cenários (storytelling) e contato real com os usuários. Ou seja, descobrir no mundo real as necessidades a serem enfrentadas para soluções revolucionárias. Na Academia tudo isto me fez lembrar um dito bem impactante:

“As Universidades e os cemitérios são refratários às mudanças, os que ali estão não querem se mover”.

Será que não precisamos repensar o nosso comportamento? Devemos sair da Torre de Marfim e desenvolver atividades ligadas aos problemas reais? Isto não implica em perda de qualidade, apenas em tratar problemas de interesse da sociedade e não de problemas de interesse de pesquisadores e intelectuais. Afinal é a Sociedade que nos financia (ou deveria). Talvez o descolamento da Universidade e da Pesquisa com as reais necessidades das comunidades seja o motivo principal da crise global de financiamento. Se a Sociedade não tiver esta compreensão não haverá demanda social por recursos para a Pesquisa e para a Educação, e este é o motivador dos políticos. Por que irão se empenhar em alocar recursos escassos para uma área que os únicos defensores são os diretamente implicados? Ai é gerada a impressão de que defendemos interesses corporativos, a Sociedade não vê este setor como o setor essencial para o desenvolvimento e a superação da crise. Precisamos agir.

Um assunto que precisa ser discutido é a diversidade cultural e de perfis de trabalho na pós-graduação. Atualmente está aceito que a diversidade nos grupos sociais e acadêmicos é um dos melhores fatores para aumentar a eficiência e a criatividade. Culturas, gêneros e opiniões diferentes favorecem o convívio e abrem novas possibilidades para o tratamento dos temas de trabalho. Pergunto: “Por que isto não acontece nas pós-graduações?”. O consenso é que só devem participar dos programas professores-pesquisadores com um número alto de publicações em journals com alto fator de impacto. Mas um grupo criativo é algo bem diferente. Vejamos a sinopse do Livro Criatividade e Grupos Criativos de Domenico De Masi: 

A maior parte das criações humanas é obra não de gênios individuais, mas de grupos e de coletividades nos quais cooperam personalidades concretas e personalidades fantasiosas, motivadas por um líder carismático, por uma meta compartilhada. Hoje, mais do que nunca, todas as descobertas científicas e as obras-primas artísticas não decorrem do lampejo de gênio de um único autor, mas do aporte coletivo e tenaz de trabalhadores, troupes, teams, squadre, equipes. Não são mais do que etapas de um processo sem pontos de partida nem pontos de chegada, em que forças contraditórias como linhas retas e linhas curvas, razão e intuição incessantemente se alternam e entrelaçam. Talvez na sociedade pós-industrial esses dois opostos possam finalmente chegar a uma síntese feliz. Para isso, De Masi apela às neurociências, à psicanálise, à psicologia, à epistemologia e sobretudo à sociologia – compreendendo as dinâmicas secretas do processo criativo, quem sabe não se possa aumentá-lo e colocá-lo em sintonia com a eterna aspiração humana pela felicidade.

Está na hora de repensarmos nossos critérios excludentes. Os coordenadores de programas de pós-graduação expurgam ótimos professores (que poderiam ministrar ótimas aulas) para aumentar os índices CAPES. Isto é uma exclusão. Aqueles que são dotados para a implementação também são excluídos, sobram apenas os publicadores. Com este comportamento perdemos muitas pessoas que seriam importantes para a formação de nossos alunos e para o desenvolvimento dos projetos. Isto sem contar com a criatividade oriunda da diversidade de perfis. O ponto central não é a qualidade e criatividade do grupo, mas sua adequação à bibliometria avaliativa. Se quisermos qualidade real será preciso uma profunda mudança em nossos critérios.

Lendo a Communications of the ACM de outubro de 2016 encontrei um artigo magnífico: Addind Art to STEM. Neste artigo um dos bloggers da CACM trata da forte interação e resultados obtidos com a combinação da Música com a Computação. Tenho tratado eventualmente deste tema em posts e em um artigo para o Encontro sobre os Grandes Desafios 2006-2016 da SBC. Cada vez mais estou convencido que precisamos refundar o nosso modelo corporativista de considerar que as areas de conhecimento são herméticas e só os que aderem a esta visão podem ser os eleitos. Leiam este trecho do artigo citado:

“Specialization is necessary to garner expertise, but striving and working to become a skilled multidisciplinary generalist creates a whole person that can create, cope, build, refine, test, and use in practice. Plus, they can explain difficult concepts to novices, and carry the magic of combining art and technology to others. In other words, they are good teachers, too. That has been my goal in life, and I think I am succeeding (so far)”.

Author: ACM Fellow Perry R. Cook is Professor (Emeritus) of Computer Science, with a joint appointment in Music, at Princeton University. He also serves as Research Coordinator and IP Strategist for SMule, and is co-founder and executive vice president of Kadenze, an online arts/technology education startup.

Tudo o exposto acima justifica a necessidade de aplicarmos o Desing Thinking, onde a diversidade de percepções é essencial, para encontrarmos problemas reais sobre os quais possamos desenvolver ensino e pesquisa de real qualidade de pesquisa e com ampla visibilidade. A qualidade da pesquisa implica em trabalho tecnológico competente apoiado por uma sólida base conceitual e formal. Trabalhar com definições claras de problemas permite, por um lado, termos boas publicações indexadas e, por outro lado, mostrar para a Sociedade que somos de valor para o desenvolvimento. É preciso mudar a mentalidade que um diploma de  curso superior (graduação, especialização etc.) serve para  apenas promoção em alguma carreira pública e não para apoiar uma carreira promissora pessoalmente e de real interesse para a Sociedade.

O QUALIS não deve ser usado para a avaliação de pesquisadores – a solução

 

 CAPESA CAPES vem afirmando continuamente através de seus representantes que o QUALIS deve ser usado exclusivamente para a avaliação de programas de pós-graduação, não para a avaliação individual de pesquisadores. Mas os programas de pós-graduação, avaliados pela CAPES, continuam fazendo isto. O pior é que faculdades que sequer têm pesquisa usam este critério para a seleção de seus professores. Há, ainda, quem faz a alocação de espaço físico baseado em QUALIS de pesquisadores… Finalmente achei a solução!

É preciso a CAPES tenha a coragem de assumir a sua responsabilidade pois o QUALIS é sua produção e, portanto, ela tem o Direito Autoral sobre este produto. Vejam o seguinte texto do ECAD:

Direito autoral é um conjunto de prerrogativas conferidas por lei à pessoa física ou jurídica criadora da obra intelectual, para que ela possa gozar dos benefícios morais e patrimoniais resultantes da exploração de suas criações. O direito autoral está regulamentado pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98) e protege as relações entre o criador e quem utiliza suas criações artísticas, literárias ou científicas, tais como textos, livros, pinturas, esculturas, músicas, fotografias etc. Os direitos autorais são divididos, para efeitos legais, em direitos morais e patrimoniais.

Os direitos morais asseguram a autoria da criação ao autor da obra intelectual, no caso de obras protegidas por direito de autor. Já os direitos patrimoniais são aqueles que se referem principalmente à utilização econômica da obra intelectual. É direito exclusivo do autor utilizar sua obra criativa da maneira que quiser, bem como permitir que terceiros a utilizem, total ou parcialmente.

Ao contrário dos direitos morais, que são intransferíveis e irrenunciáveis, os direitos patrimoniais podem ser transferidos ou cedidos a outras pessoas, às quais o autor concede direito de representação ou mesmo de utilização de suas criações. Caso a obra intelectual seja utilizada sem prévia autorização, o responsável pelo uso desautorizado estará violando normas de direito autoral, e sua conduta poderá gerar um processo judicial.

A obra intelectual não necessita estar registrada para ter seus direitos protegidos. O registro, no entanto, serve como início de prova da autoria e, em alguns casos, para demonstrar quem a declarou primeiro publicamente.

Texto completo no ECAD

Encontramos no site da CAPES, na area da Computação, o seguinte texto:

É importante observar que os critérios adotados pela Coordenação de Área para avaliação de publicações em periódicos e em anais de conferências destinam-se à análise de programas de pós-graduação e são inadequados para avaliação individual de pesquisadores.

A solução é simples: basta a CAPES proibir o uso de seu produto para outros usos que não a avaliação de programas de pós-graduação. Ela tem este direito pela lei. 

Frase a ser publicada:

“O QUALIS, propriedade intelectual da CAPES, destina-se exclusivamente à avaliação de programas de pós-graduação. Qualquer outra utilização como critério exclusivo de avaliação não é autorizada.”


 

Apresentação no CSBC 2017: Avaliação da qualidade de programas de pós-graduação

 

A comunidade tem perguntado sobre o caminho que estamos trilhando para construir uma pós-graduação de excelência. Encontramos opiniões divergentes, alguns acreditam que se obtém qualidade pelos altos níveis de exigência, outros por estimular o trabalho individual dos alunos. Uns pensam que a pós-graduação é uma forma de crescimento social e encaram os critérios altos como elitistas. Atualmente alguns programas de PG estão reduzindo o número de créditos com o racional que o importante é o trabalho de dissertação ou de tese. Há, ainda, a discussão sobre se vale a pena o investimento no mestrado e se o doutorado deve ser o fim último da PG, sendo o mestrado algo considerado como um prêmio de consolação para quem não consegue obter o doutorado. Certamente estamos em um período turbulento, onde poucas certezas existem. As perguntas que não querem calar são: Teremos realmente universidades de primeira linha? O que é uma universidade primeira linha? É uma universidade com prêmios Nobel? É uma universidade para onde os pesquisadores top querem trabalhar em seus sabáticos? É uma Universidade para onde os melhores alunos do mundo aplicam como forma de ter seu futuro assegurado? Este é o tema central da Avaliação da Qualidade tratada neste texto: Como avaliar a qualidade de um programa de pós-graduação, que critérios devem ser utilizados? 

2017 CSBC Avaliação

 

 

Reconhecimento da qualidade de publicações livres


 Para os avaliadores “brazileiros” pensarem. Os artigos gerados por estas pesquisas não vão ficar no “índice restrito” da CAPES. O Bill Gates não vai estar nem aí.

One of the world’s most influential global health charities says that the research it funds cannot currently be published in several leading journals, because the journals do not comply with its open-access policy.

Scientists who do research funded by the Bill & Melinda Gates Foundation are not — for the moment — allowed to publish papers about that work in journals that include Nature, Science, the New England Journal of Medicine (NEJM) and the Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

The bar is a result of the Gates Foundation’s policy in support of open access and open data, which was first announced in 2014 but came into force at the beginning of 2017. “Personally, I applaud the Gates Foundation for taking this stance,” says Simon Hay, a Gates-funded researcher who is director of geospatial science at the Institute for Health Metrics and Evaluation in Seattle, Washington. “The overwhelming majority of my colleagues in global health and fellow Gates grantees with whom I have chatted are highly supportive of these developments” he says. Nature

Livros e canetaO desenvolvimento da Ciência tem sido baseado, em grande parte, no processo de publicação aberta e de revisão dos resultados pelos pares. Este processo é conduzido tradicionalmente em um processo de referring anônimo onde os revisores não são conhecidos publicamente. O objetivo deste processo de avaliação é oferecer um sistema justo (fair) de avaliação. Este sistema está sendo posto em dúvida tanto pela possibilidade de avaliações tendenciosas baseadas no anonimato dos avaliadores, quanto pelo enorme tempo despendido em avaliações e com a consequente falta de qualidade na elaboração das mesmas. Este problema foi abordado, há bastante tempo, já no SIGMOD 2004 no Painel “Rethinking the Conference Reviewing Process.

Por outro lado o “academic reward system” ou sistema de reconhecimento da qualidade do trabalho de pesquisa utilizado pela comunidade acadêmica baseia-se, além do bom processo de revisão pelos pares, na qualidade dos meios em que um pesquisador consegue publicar seus artigos. Complementarmente é considerado o número de citações a estes trabalhos realizadas por outros pesquisadores. Estes três elementos estão correlacionados e definem o fator de impacto de uma publicação. O grave problema é a obtenção destes fatores. Como se trata de um trabalho imenso, o processo tem sido realizado por organizações privadas com fins lucrativos. Por outro lado as publicações de editoras mais conhecidas e com maiores recursos econômicos são muito mais divulgadas, vendidas e portanto mais citadas. Neste ambiente a Publicação Livre têm enorme dificuldade para se afirmar. A utilização de um dos mais conhecidos dos serviços de indexação, o Science Citation Index, um serviço comercial que registra o número de referências a artigos publicados em revistas (ou de serviços semelhantes), pelos órgãos administrativos e de fomento, para a valorização do trabalho dos pesquisadores, é um empecilho importante para a consolidação de publicações de acesso livre.

Precisamos, portanto, desenvolver mecanismos que garantam uma forma pública e de qualidade garantida para a avaliação aberta de artigos. Um sistema de geração, indexação e busca personalizada de conteúdos digitais tem por objetivo auxiliar no processo social de criar conhecimento, aperfeiçoar este conhecimento através da revisão pelos pares e indicar ou receber indicação de conhecimento relevante. Sistemas de avaliação e recomendação de produtos são largamente usados em comércio e marketing, para sugerir produtos ou fornecer informações para ajudar o cliente a decidir a compra. Estes sistemas se baseiam na avaliação dos usuários para avaliar os produtos ou serviços oferecidos; esta mesma metodologia pode ser aplicada para a avaliação de artigos científicos. Neste caso o problema é bastante mais complexo do que na recomendação de produtos materiais, pois é preciso associar à avaliação um indicador de qualidade do referee.  Existe uma métrica bidimensional: a qualidade do texto publicado e a qualidade do autor e dos leitores-comentadores.

Em um modelo de editoração aberta é tratado o problema de reconhecimento de artigos baseado no perfil do autor. A modelagem do perfil do usuário serve para aprimorar o processo de qualificação do autor e permitir um processo de revisão de conteúdos. Para que um sistema possa avaliar a qualidade dos itens considerando o autor, a qualificação dos referees, e o nível de conhecimento necessário para a leitura do item é necessário o acesso a fontes de informação adequadas. O perfil inicial do autor pode ser estabelecido no momento do cadastramento do usuário no sistema. Em um primeiro momento, o sistema procura identificar dados sobre o autor que possam ajudar na sua qualificação. Uma forma de adquirir esses dados é realizar uma consulta no currículo Lattes (CNPq) do autor. Dados sobre a titulação do autor, experiência em projetos de pesquisa e publicações em conferências e periódicos são dados existentes em um currículo Lattes e que podem ajudar na qualificação do autor. Certamente outros indicadores como índices de impacto e número de citações devem ser incluídos nessa métrica. Além disso, uma forma de avaliar a qualidade de um autor é verificar as suas publicações, bem como o número de citações de cada publicação, pois um artigo que é citado por vários outros artigos, possui qualidade superior a um artigo que não possui nenhuma citação. Assim, o sistema pode realizar uma busca por publicações desse usuário e o número de citações a essas publicações. Isso pode ser feito a partir de mecanismos como o Google Acadêmico, que recolhe na Web publicações e suas citações, e as organiza de forma pública e transparente. A evolução é modelada pelo comportamento do leitor/avaliador analisando as avaliações deste usuário e considerando a correlação destas revisões com as análises de outros avaliadores. O objetivo deste processo dinâmico é permitir que o ambiente automatizado avalie a qualidade do artigo baseado na qualificação do autor, nos pareceres de usuários de uma forma similar ao modelo de page ranking, utilizado pelo Google, onde referências de maior qualidade são ponderadas positivamente.

Espero que, algum dia, possamos dispor de Publicações Livres com uma forma pública e  transparente de avaliação de qualidade aceita pela comunidade científica e pelos órgãos administrativos. O desenvolvimento de publicações livres é um fato de extrema importância para a Ciência. A troca livre de informação e a possibilidade de acesso a esta informação, sem que sejam aplicadas tarifas exorbitantes, é a melhor forma de acelerar o processo de desenvolvimento científico e tecnológico. A privatização do conhecimento, por companhias e editoras, tem limitado muito a possibilidade de difusão de novas idéias e de desenvolvimentos recentes. Em uma fase anterior sempre considerou-se que a pesquisa consistia em uma etapa pré-competitiva. Atualmente está ocorrendo uma mudança radical nesse processo, sendo que todo o conhecimento passa a ser considerado propriedade privada. A proposta de publicação livre é uma forma de libertação deste processo. A possibilidade de oferecer a informação a grupos, cada vez maiores, da sociedade pode desencadear um novo renascimento, mas para que isto seja possível é necessário um processo, também aberto, que permita a avaliação da qualidade das publicações.


 

A qualidade da pesquisa depende da lingua do artigo?

 Cajal  Para aqueles que como eu acreditam que é possível publicar artigos de alta qualidade em Português, apresento este texto retirado do livro Muito Além do Nosso Eu do neurocientista Miguel Nicolelis. Este pequeno trecho (p. 81-82) mostra que um dos fundadores da Neurociência, o Prof. Santiago Ramón y Cajal – prêmio Nobel de Medicina de 1906, obrigou aos famosos da época aprenderem o Espanhol. Qualidade não depende da língua em que se escreve mas é intrínseca ao trabalho.

Nascido em Petilla de Aragón, Santiago Ramón y Cajal era um homem obsessivo e autocrático, um gênio teimoso que, sozi­nho, deu origem à verdadeira revolução que lançou a neurociência na agenda científica mundial. Tal feito baseou-se principalmente na demonstração de que o cérebro, como outros órgãos, é formado por uma enorme coleção de células.

Uma pe­quena anedota dá a dimensão dos obstáculos que Cajal teve de superar para ser ouvido por seus pares. No início de sua carreira, ele não sabia escrever bem em alemão, a língua preferida pelos principais anatomistas do final do século XIX. Sem pensar duas vezes, Cajal decidiu fundar um periódico científico, a Revista Tri­mestral de Histologia Normal y Patológica, na qual podia divulgar seus achados fenomenais em sua língua pátria.

Em 1896, ele re­petiu a experiência e criou o primeiro periódico científico espe­cializado em neurociência, a Revista Trimestral Micrográfica. Como não poderia deixar de ser, o primeiro fascículo da publica­ção continha seis manuscritos de autoria de dom Santiago. Anos mais tarde, vários anatomistas alemães não tiveram outra opção senão dedicar-se ao estudo da língua espanhola como única forma de permanecerem atualizados com a fronteira da neurociência representada agora pelos artigos de Ramón y Cajal.

Até hoje, Cajal é um dos mais citados autores na literatura neurocientífica. Sua engenhosidade e resiliência como experimentalista foram reconhecidas inicialmente quando ele adaptou uma nova coloração histológica, La reazione nera (Metodo de Golgi), para seus estudos destinados a elucidar a organização anatômica do tecido nervoso”.