Design Thinking {Tim Brown} 2010

Capa Design Thinking

Design Thinking é o conjunto de métodos e processos para abordar problemas, relacionados a futuras aquisições de informações, análise de conhecimento e propostas de soluções. Como uma abordagem, é considerada a capacidade para combinar empatia em um contexto de um problema, de forma a colocar as pessoas no centro do desenvolvimento de um projeto; criatividade para geração de soluções e razão para analisar e adaptar as soluções para o contexto. Adotado por indivíduos e organizações, principalmente no mundo dos negócios, bem como em engenharia e design contemporâneo, o design thinking tem visto sua influência crescer entre diversas disciplinas na atualidade, como uma forma de abordar e solucionar problemas. Sua principal premissa é que, ao entender os métodos e processos que designers usam ao criar soluções, indivíduos e organizações seriam mais capazes de se conectar e revigorar seus processos de criação a fim de elevar o nível de inovação.

Assim, ao utilizar métodos e processos utilizados por designers, o design thinking busca diversos ângulos e perspectivas para solução de problemas, priorizando o trabalho colaborativo em equipes multidisciplinares em busca de soluções inovadoras. Dessa forma, busca-se “mapear a cultura, os contextos, as experiências pessoais e os processos na vida dos indivíduos para ganhar uma visão mais completa e assim, melhor identificar as barreiras e gerar alternativas para transpô-las” . Para que tal ocorra, O Design Thinking propõe que um novo olhar seja adotado ao se endereçar problemas complexos, um ponto de vista mais empático que permita colocar as pessoas no centro do desenvolvimento de um projeto e gerar resultados que são mais desejáveis para elas, mas que ao mesmo tempo financeiramente interessantes e tecnicamente possíveis de serem transformados em realidade. Wikipedia

Há muito tempo tenho ouvido falar nesta metodologia ou forma de pensar soluções. Recentemente passeando por uma livraria ví este título e comprei. O texto é muito interessante, apenas é dated. A tradução brsileira é do livro original co copyright de 2010, nestes anos tuudo mudou. Olhem alguns trechos: “Os aplicativos do Android precisarão ser tão intuitivos e involventes quanto os da Apple ou da Nokia“, ” … servirá de base para s decisões referente às futuras ofertas de produtos da Nokia nos próximos 15 anos“, “nenhum model econômico poderia ter previsto o sucesso do MySpace e do Facebook”,  “A Roku, empresa sediada na Califórnia, fabrica um conversor que permite que as pessoas façam o download de um filme e o assistam em uma televisão comum“. É uma pena que o texto tenha tantas referências a tecnologias atuais da sua época. Por outro lado a essência é realmente muito impactante, tanto que deu origem a toda uma linha de publicações cursos e treinamentos.

A ideia essencial é utilizar a forma de pensar de designers industriais para a modelagem de soluções criativas. O livro prega a análise multidemensional dos problemas com a inclusão de pessoas com múltiplas formações. Esta fase inicial precisa ser muito menos estruturada e contar com a participação livre de ideias, de criação de cenários (storytelling) e contato real com os usuários. Ou seja, descobrir no mundo real as necessidades a serem enfrentadas para soluções revolucionárias. Na minha area, a Academia, tudo isto me fez lembrar um dito bem impactante:

“As Universidades e os cemitérios são refratários às mudanças, os que ali estão não querem se mover”.

Será que não precisamos repensar o nosso comprtamento? Demos sair da Torre de Marfim e desenvolver atividades ligadas aos probelams reais? Isto nõ implica em perda de qualidade, apenas em tratar problemas de interesse da sociedade e não de problemas de interesse de pesquisadores e intelectuais. Afinal é a Sociedade que nos financia (ou deveria). Talvez o descolamento da Universidade e da Pesquisa com as reais necessidades das comunidades seja o motivo principal da crise global de financiamento. Este livro deveria ser lido e meditado por todos os pesquisadores. 

As aposentadorias e a crise


Este artigo surgiu com base em duas situações: a primeira ocorreu em uma reunião com amigos em Paris, estávamos discutindo sobre a aposentadoria; um deles comentou que era um reducionismo falar em uma aposentadoria. O argumento era que não se pode comparar a aposentadoria de um professor da Sorbonne com a de um cheminot trabalhando pesadamente em um linha da estrada de ferro. A segunda foi a minha aposentadoria compulsória, aos jovens 70 anos, na UFRGS (continuo como Docente Convidado atuando ativamente na pesquisa e pós-graduação). O resultado foi esta análise sobre aposentadorias, dai o título do artigo, com ênfase em todos nós que trabalhamos em uma sociedade pós-industrial. 


A aposentadoria é um dos tópicos quentes do momento, em todos os países desenvolvidos está faltando dinheiro para pagar as aposentadorias, qual o motivo? Vejamos um histórico da origem das aposentadorias. Em 1850 uma pessoa tinha a esperança de vida, ao nascer, de cerca de 45 anos. Considerando isto, pouco depois de ficar velha e deixar de trabalhar a pessoa morria. Como os procedimentos médicos eram limitados e simples, na maior parte dos casos a velhice levava brevemente à morte e sem grandes custos financeiros para a família. Mas tudo mudou, a expectativa de vida aumentou no início do século XX. 

Atualmente o Brasil está bem situado na expectativa de vida ao nascimento que praticamente é a mesma que a dos países equivalentes e dos desenvolvidos, conforme o gráfico a seguir. 

Expectativa de vida ao nascer

Com a revolução industrial os sindicatos passaram a ter mais força e a exigir compensações sociais pelo trabalho nas fábricas, criou-se a contribuição social e a aposentadoria. A aposentadoria tornou-se uma necessidade, pois após o término do tempo de trabalho sobraram ainda muitos anos de vida para uma pessoa esgotada pelo trabalho pesado. As famílias ficaram menores e era necessário manter os velhos que já não podiam trabalhar nas indústrias. Ai criou-se a ideia de que gozar a aposentadoria era um direito conquistado.

Na primeira década do século XXI a realidade é novamente diferente. A automação tornou o trabalho mais leve permitindo, assim, que as pessoas pudessem trabalhar muito mais longamente: os músculos foram substituídos pelas máquinas. Os robôs estão eliminando a maior parte do trabalho manual. O setor terciário hoje constitui-se na maior parte das atividades em países desenvolvidos, é mais importante o eu sei do que o eu faço, isto implica em que a idade produtiva foi muito aumentada. Enquanto isto ocorre, no Brasil continuamos vivendo um sonho ilusório de aposentadoria aos 52 anos. Olhem o gráfico a seguir, o Brasil está colocado na última posição em termos de idade de aposentadoria, para ver que precisamos mudar radicalmente esta ilusão de direito conquistado.

 Apesar destas mudanças, aumento da vida e menor esforço físico, a ideia da aposentadoria criada na Era Industrial continua ativa. Aos 50 ou 55 anos um operário estava acabado e precisava se aposentar. Hoje uma pessoa de 65 anos ou mais está perfeitamente produtiva. A aposentadoria, concebida como meio de proteger a velhice, precisa ser revista.

O que é velhice? Gosto da interpretação de Domenico De Masi que caracteriza a velhice como aquele período em que o indivíduo não tem mais condições de saúde para desenvolver atividades produtivas ou criativas. Segundo ele gastamos nos últimos três anos de vida tanto em saúde quanto em todos os anos anteriores! Então o problema social é garantir às pessoas tranquilidade neste período. Velhice, nesta definição, é o período final da vida no qual a pessoa não tem mais condições físicas ou mentais de exercer sua atividade costumeira.

Considerando esta situação a aposentadoria somente deveria ser concedida quando uma pessoa não tivesse mais condições intelectuais ou físicas de trabalhar ou em período muito próximo disto. A falha da interpretação fisiológica do que é que ser idoso cria distorções impossíveis de sanar. É ridículo ver pessoas de 60+ anos estacionando em vagas reservadas para idosos e indo malhar na academia. Evidentemente cada faixa tem suas limitações e suas vantagens, a sabedoria está em maximizar as vantagens pessoais e sociais de cada período da vida. O erro de percepção sobre direitos de aposentadoria, que eram reais na Era Industrial, traz terríveis problemas financeiros, pois recursos escassos estão sendo desviados para a manutenção de pessoas plenamente aptas para o trabalho. 

Agora vamos discutir o que é o trabalho e como ele influi na aposentadoria. No passado trabalho era sinônimo de sacrifício. No mundo ocidental esta percepção foi reforçada pela condenação bíblica de Adão “Comerás o pão com o suor de teu rosto“. Então o trabalho era visto como sofrimento e punição, no Paraíso havia o ócio, depois do “pecado original” o trabalho surgiu como castigo. Hoje o trabalho deve ser integrado com o estudo e com a diversão, como trata magnificamente Domenico de Masi em seu livro “O Futuro do Trabalho“. O trabalho não é mais um sacrifício, mas uma atividade prazerosa.

Vejamos a situação dos professores, em Universidades de Pesquisa. Os professores estão claramente na Era Pós-industrial. Os trabalhadores de grande parte das nações do Clube dos 20 tem , também, condições de trabalho muito próximas desta Era Pós-industrial da economia. O trabalho não é mais uma punição para a humanidade pecadora, mas uma atividade agradável e criativa para as pessoas pós-modernas. Aposentar-se, para estas pessoas, é tirar a possibilidade de crescimento e de contribuição social e transformá-las em um peso para o resto da sociedade. E, além disto, estes aposentados passam a ter que encontrar forma de preencher os 25 ou trinta anos que sobram antes da visita da Velha Senhora. Se não o fizerem vão aumentar as filas de espera dos consultórios dos psiquiatras. Não faz o menor sentido continuarmos com as ideias da Era Industrial. Hoje trabalhar é agradável e criativo.

É impossível continuarmos a pagar pessoas produtivas como se fossem operários aposentados desgastados pelo trabalho rude na linha de produção. Apesar desta mudança o comportamento recentemente continuou a seguir o caminho oposto: em 1960, 72% dos alemães na faixa dos 60 a 64 anos trabalhavam em tempo integral, vinte anos depois eram apenas 44%. Na Holanda a queda foi de 81% para 58% (Postwar, Tony Judt).

A crise econômica internacional está ai para ficar. Uma repercussão no Brasil é a reforma das aposentadorias nos setores público e privado. Esta crise nos força a repensar uma série de modelos que se tornaram ultrapassados. O grande problema é a falta de percepção social de que as sociedades estão gastando muito mais do que podem, tanto em recursos materiais e intelectuais como em recursos financeiros. Por outro lado não é justo culpar os aposentados e esmagá-los sem cobrar o mesmo das empresas (bolsa empresário), das grandes fortunas, de salários exorbitantes e dos bancos. Uma pessoa que planejou toda uma vida com uma previsão de aposentadoria não pode ser traída como se fosse um criminoso causador de uma crise econômica. Regras de transição entre os modelos são absolutamente necessárias. O modelo de sociedade de consumo e o modelo econômico, onde se insere a aposentadoria como conhecemos, estão mortos. A atual reforma do regime de aposentadoria com a definição de idade mínima é necessária para a estabilidade das aposentadorias no futuro. Muitos dos atuais professores, entendendo os riscos de quebra do sistema público, já tem um plano individual de capitalização.

Por outro lado, nas Universidades, é inadequado perder a experiência de pesquisadores seniores com 60 anos ou mais por considerá-los velhos inadequados. É necessário associar suas experiências com a energia e inexperiência dos mais jovens. Caso contrário teremos a perda da experiência somada ao aumento da carga econômica dos novos que deverão contribuir para a manutenção de pessoas totalmente capazes de trabalhar. Felizmente a aposentadoria compulsória nas federais foi aumentada para 75 anos, mas nada foi feito quanto a idade mínima. O modelo de aposentadoria tem que ser completamente repensado. O mundo mudou, o velho modelo está morto, mas ainda não tivemos a coragem de criar um novo modelo adaptado aos tempos atuais.

A aposentadoria deve ser vista como terminal, uma pessoa só poderia se aposentar das atividades realmente exercidas e nos horários em que trabalhava. Após a aposentadoria um novo trabalho implicaria em cassação da mesma. As aposentadorias públicas são baseadas em fluxo de caixa dos ativos para os aposentados. Se os governos tivessem capitalizado as contribuições durante o período em que havia muito mais ativos do que aposentados a situação seria outra. Parece que em nenhum país é possível manter a seriedade dos governos, o dinheiro das contribuições para a previdência entra sempre para a caixa única, portanto a solução é a aposentadoria ser baseada em fluxo de caixa: os aposentados são mantido pelas contribuições dos ativos.O sistema vai desmoronar se corajosas atitudes não forem tomadas, ainda mais com o aumento das despesas de saúde dos idosos.


Perda da memória ou a preservação digital


Lendo a CACM de Outubro de 2016 encontrei este artigo do Vinton G. Cerf sobre a perda da memória digital: “We’re going backward“. Então lembrei de um post que publiquei em 2005 tratando exatamente do mesmo assunto. Com pequenas modificações estou republicando-o a seguir.


Há bastante tempo fui contatado para apresentar um artigo convidado em São Paulo, no Memorial da América do Sul, em uma conferência de uma  Sociedade de História e Computação. Tive algumas dúvidas sobre do que se trataria, afinal eu não sou um especialista em História, nem em história da computação e nunca tinha ouvido falar daquela sociedade. Uns colegas disseram que era para testemunhar… Nada disto, o assunto que esperavam que eu discutisse era modelos de dados temporais. A apresentação e a discussão a seguir foram muito estimulantes pois os participantes estavam interessados na manutenção de estados de conhecimento em diversos pontos no tempo e em consultas do tipo: “o que se sabia sobre o Estado Novo em março de 1945?”. Eu havia trabalhado neste assunto em meu doutorado e orientei uma tese sobre banco de dados temporais. O mais interessante, para mim, foi a descoberta do fenômeno de perda de memória ligado ao armazenamento digital. Naquela época havia pouca evolução nas mídias de armazenamento mas fiquei sabendo que mais de 60% dos dados, na época, do governo americano não eram mais legíveis pois estavam armazenados em fitas de 7 trilhas! Os discos flexíveis de 8” são objetos de museu, hoje vocês já tentaram recuperara aquele arquivo importante em um disquete (o que é isto mesmo?) de 3 ½”? Impossível! Isto é uma terrível perda de memória digital. Estamos vivendo uma incrível situação: cada vez temos mais conteúdos digitais disponíveis e, ao mesmo tempo, estes conteúdos estão se tornando ilegíveis cada vez mais rapidamente. Vejam a situação dos CDs com fotos digitais, os melhores prometem uma duração de cerca de 100 anos, ótimo! mas quem terá, daqui a 100 anos, algum equipamento capaz de lê-los? Uma das atividades daquela Sociedade de História e Computação estava ligada à instalação e manutenção de laboratórios em que antigas máquinas eram mantidas operacionais para permitir a leitura de mídias obsoletas. A ideia não é de fazer um museu mas sim um laboratório equipado com equipamentos antigos e utilizáveis, é possível imaginar o custo desta aventura! Comparem esta situação com, por exemplo, os pergaminhos do Mar Morto ou com os papiros egípcios, de 3.000 a 5.000 anos e ainda legíveis. O assunto foi anotado como interessante, mas ficou armazenado na memória. 

Por outro lado o histórico das páginas Web tem sido mantido, de um lado pelas máquinas de busca que possuem um acervo gigantesco de páginas, mas com acesso restrito às suas máquinas de busca. Ao lado destas fontes há uma série de atividades que procuram preservar a história da Web em um país, região ou sobre um assunto. O acesso a estes dados pode estar limitado por razões de privacidade mas a história está preservada. Um exemplo bem conhecido de arquivamento e de acesso livre é o serviço Internet Archive que provê versões antigas de sites e arquivos disponíveis na Web (vale a pena experimentar suas diversas possibilidades).

Recentemente, com minhas atividades de pesquisa em bibliotecas digitais e em editoração e revisão aberta de artigos na Web, a idéia voltou: como vamos tratar da obsolescência das mídias digitais? Fisicamente a preservação do acervo em papel é missão da Biblioteca Nacional, no Brasil, e da Biblioteca do Congresso, nos USA. Para o acervo digital comecei a estudar o assunto a partir das palavras chave que me recordava daquela antiga conferência, e encontrei material muito interessante. No ano passado a Biblioteca do Congresso Americana e a National Science Fundation lançaram um edital ligado à Digital Information Infrastructure and Preservation Program (NDIIPP) para tratar exatamente deste problema. A missão desta iniciativa é:

Develop a national strategy to collect, archive and preserve the burgeoning amounts of digital content, especially materials that are created only in digital formats, for current and future generations.

Por outro lado as bibliotecas em todo o mundo estão trabalhando sobre o problema de normas para suportar a preservação digital, um tema realmente interessante e de grande atualidade. Do ponto de vista da pesquisa há enormes possibilidades tais como o desenvolvimento de mecanismos de consulta temporal, manipulação de metadados para a indexação deste conteúdo, formas de armazenamento diferencial e muitas outras possibilidades. 

Qual é a situação da preservação digital aqui no Brasil? Nas empresas, nas Universidades? No Governo? Esta consulta nós dá uma idéia sobre a situação. Vamos investir nesta linha de pesquisa?


Logo não vamos programar computadores . Vamos treiná-los como cães.

  

Chocados com o título? Vocês se lembram do computador HAL 900 (HAL 9000 (Heuristically programmed ALgorithmic Computer) do filme “2001 Uma Odisséia no Espaço”? No filme , os astronautas David Bowman e Frank Poole consideram desligar circuitos cognitivos de Hal quando ele parece estranho ao relatar a presença de uma falha na antena de comunicações da nave espacial . Eles tentam esconder o que estão dizendo, mas não sabem que HAL pode ler seus lábios. Diante da perspectiva de desconexão HAL decide matar os astronautas a fim de se proteger e prosseguir executando as suas instruções programadas. Bowman desativa as funções cognitivas do HAL 9000 pela remoção de módulos lógicos; com isso a consciência de HAL se degrada. Quando os circutos de nível cognitivo de HAL são completamente desligados, ele começa a cantar a canção “Daisy Bell” ( na realidade, a primeira música cantada por um computador). A ficção está se tornando realidade.  Leiam este artigo da Wired: Soon We Won’t Program Computers. We’ll Train Them Like Dogs

But whether you like this state of affairs or hate it—whether you’re a member of the coding elite or someone who barely feels competent to futz with the settings on your phone—don’t get used to it. Our machines are starting to speak a different language now, one that even the best coders can’t fully understand.

Confissões: A Universidade ontem, hoje e amanhã

RousseauNão esperem algo inspirado em Rousseau, esta crônica é mais uma análise da história de nossas Universidades Públicas nestas últimas décadas; em particular de minha Universidade. O título procura mostrar que o conteúdo é muito mais decorrente da minha vivência pessoal do que de uma análise acadêmica baseada em dados quantitativos e análise formal. Mas considero que as experiências vividas devem ser analisadas com muito cuidado pela sua real contribuição. As análises, mesmo as ditas metodológicas e rigorosas, sempre tem o direcionamento ideológico dado pela seleção dos dados a serem analisados. Uma seleção de dados implica, sempre, em uma posição do analista. Apenas recentemente o conceito de big data tem permitindo que algoritmos “a la Google” processem gigantescos volumes de dados sem a seleção prévia dos mesmos. Mas ainda neste caso a interpretação das regras descobertas necessita da compreensão e da interpretação humana, que não é isenta da visão de mundo do pesquisador. Desta forma minha contribuição para a compreensão da evolução da Universidade no Brasil, e em particular da área da Computação, concentra-se na narração de um a experiência pessoal e de sua interpretação.

Mas qual o motivo desta crônica? Estou me propondo fazer uma análise crítica das conquistas obtidas e dos desafios a que estamos sendo submetidos. Para podermos projetar o futuro é importante que compreendamos o caminho que nos levou à situação atual. Da mesma forma que o processo de análise psicológica permite a uma pessoa conhecer melhor sua mente, seus problemas e enfrentar as causas de suas dificuldades as instituições precisam desta análise profunda e crítica. Uma instituição não sendo um ente racional não possuía esta capacidade, apenas seus membros podem fazer uma análise de suas experiências. 

Os primórdios da computação na Universidade

Vamos começar a análise pelo relacionamento da Universidade com seus professores. Quando eu era aluno da Escola de Engenharia da UFRGS a grande maioria das pessoas considerava que um bom professor de engenharia era um profissional de engenharia bem sucedido que vinha “ensinar” para os alunos como se procedia na vida prática. Isto porque este profissional “sabia como se fazem as coisas”. Os poucos, ou pouquíssimos que só estavam ligados ao ensino eram chamados de “leitores de livros”. Tive um professor que repetia fastidiosamente um livro sobre máquinas elétricas, há anos, o melhor aluno (para este professor) era um colega que acompanhava pelo livro e funcionava como “ponto” ditando as variáveis que o mestre se esquecia… A inovação era nula. Isto começou a mudar quando alguns, poucos, professores da Engenharia Elétrica voltaram de um mestrado no ITA e passaram a dar ótimas aulas, com fundamentos consistentes. Estes professores foram a minha motivação para gostar da pesquisa. Junto com o Instituto de Física, naquela época um dos poucos locais da Universidade onde havia pesquisa, estes professores ofereceram cursos extras de matemática e fundamentos de física para eletrônica (era o início dos semicondutores). Isto porque os professores ditos “práticos” nem conseguiam entender o que era uma transformada de Laplace.

Sim, dás aula, onde trabalhas mesmo?”. A Universidade era um “bico”, um complemento extra de outras atividades. Alguém acha que poderíamos querer ter indústria competitiva, ou qualquer tipo de importância no cenário internacional? Naquela época entrava-se para a Universidade por convite do “catedrático”. Eu já estava entusiasmando pela pesquisa e passei a ensinar, só ensinar, no Departamento de Física e Matemática da Escola de Engenharia. No primeiro ano uma especialização em Análise Matemática, o que me valeu até hoje. Muito depois vieram os concursos em que fui aprovado para Professor Assistente e para Professor Titular. Ai vocês já vem o problema da época, eram engenheiros ministrando aulas de Física e de Matemática, só podia ser transmissão de conhecimento. Logo surgiu o regime de Tempo Integral e Dedicação Exclusiva – RETIDE – e fui dos primeiros a estar todo o tempo na Universidade. Naquela época quando alguém perguntava: “Onde trabalhas?” e a resposta era: “Na Universidade!” vinha logo: 

O ambiente era basicamente estudar os livros, não havia a biblioteca na Web da CAPES, aliás ainda não haviam inventado a Web, e as revistas disponíveis que eram limitadíssimas. Quando vinha um raro professor de uma Universidade no exterior só tínhamos a possibilidade de escutar o que faziam lá e nos atualizarmos. Ainda hoje há muitos colegas, que apesar das mudanças (que veremos a seguir) continuam com a visão colonial de que somente as publicações no exterior são boas. Um dos poucos mestrados disponíveis próximos da área era o de Física Experimental, me inscrevi no mesmo. Alguns colegas saíram para fazer mestrados no Rio de Janeiro. Não havia sequer um Doutorado em Computação no Brasil e acredito que os dois mestrados disponíveis eram os da UFRJ e da PUC do Rio. Quando voltaram foi iniciado o Mestrado em Ciência da Computação, uma associação entre o Centro de Processamento de Dados e o Instituto de Física. Notem a peculiaridade desta associação: de um lado um órgão técnico da Universidade, que era responsável pelas aulas de Computação e pelo outro um Instituto de Ensino e Pesquisa. Ainda era a visão de que “quem faz sabe, quem não faz ensina” no lado da Computação/Engenharia. Mudei para o novo mestrado. Notem que naquela época alguém um professor com mestrado era credenciado como professor de Pós-graduação em nível de Mestrado! 

A evolução

Mas as coisas começaram a mudar, iniciamos a desenvolver projetos, alguma pesquisa começou. Nesta época o grupo de Banco de Dados, em um projeto conjunto com a Alemanha, desenvolveu do zero um SGBD, o MINIBAN. Começamos a ter competências mais formais e a ter capacidade de desenvolver tecnologia com base conceitual sólida. Neste ponto começaram as publicações destes resultados. No início no Brasil, depois na Argentina e Chile que eram consideradas publicações “internacionais”. A próxima etapa foi a formação dos professores em nível de doutorado, fizemos uma escala de saída e praticamente todos foram, os primeiros para o Rio de Janeiro, os demais para o exterior. Ai as coisas se aceleraram, a pesquisa ganhou fôlego, a inserção internacional aconteceu e a exigência de qualidade atingiu níveis compatíveis com o cenário mundial. O processo de avaliação da CAPES, para Instituições, e do CNPq para pesquisadores atingiram um ponto em que são referências mundiais. Hoje para entrar como professor em nosso grupo (e nos grupos de excelência no Brasil) o mínimo exigível é o doutorado e boa demonstração de produção. Nossos alunos de doutorado praticamente sempre tem um período de um ano de trabalho em laboratório no exterior e tem boas publicações. Parece que a guerra foi ganha. Inserção internacional, trabalhos de qualidade, reconhecimento pelos melhores centros de pesquisa no mundo como parceiros de qualidade.

A crise

Agora surgem os fantasmas, a Alemanha desenvolveu um processo de competição e selecionou um número reduzido de Universidades para serem os centros de excelência. Uma Universidade Huboldtiana (ver) é cara, mas essencial para a formação de um núcleo de pesquisadores de alta qualidade. Criou-se no Brasil um mito de que uma Universidade para ser boa deveria seguir o modelo criado por Humboldt de associação estreita entre pesquisa e ensino. Muitas Universidades que não têm condições para implantar este modelo de alto custo se sentem inferiorizadas se forem consideradas como Universidades de Ensino. É preciso ter clara a visão que tanto uma Universidade de Pesquisa como uma Universidade de Ensino são essenciais se forem de ótima qualidade e não vendedoras de títulos acadêmicos.

Por outro lado foi criada a visão errônea de que a ascensão social é feita pelo título universitário. Esta percepção foi desenvolvida por uma interpretação inadequada de qual é a variável independente. Nos tempos em que comecei a descrever o processo de qualificação da Universidade as famílias de maior nível econômico tinham seus membros com títulos universitários. Criou-se a visão de que era a titulação a variável independente, mas na realidade é o contrário que acontece: eles tinham os títulos acadêmicos por terem recursos financeiros para enviá-los e mantê-los na Universidade. A conclusão foi: “Devemos abrir as portas a todos para que entrem na Universidade, assim poderão ter a desejada ascensão social”. Mas um título acadêmico de uma Universidade fraca ou um título acadêmico em uma boa Universidade de um estudante fraco hoje não serve para nada.

Como escreveu José Goldenberg:

“Daí a necessidade de manter universidades de alto nível, isto é, centros de estudos, pesquisas e inovação, como é feito na Europa há quase mil anos. São as grandes universidades de hoje, algumas delas no Brasil, que produzem as novas ideias e novas tecnologias que vão dar, amanhã, origem a empreendimentos comerciais, e não o contrário. É uma ilusão esperar que elas, por si sós, modernizem o sistema produtivo, mas precisam estar preparadas para responder às demandas da sociedade.  É por essa razão que qualquer medida que leve à redução da qualidade e do potencial das universidades brasileiras, como a criação de cotas raciais, por exemplo, é equivocada”

Universidade não é o local para a recuperação de dívidas históricas e sociais, por mais válidas que sejam estas dívidas. Minha posição é que estamos enfrentado uma das maiores crises da Universidade Brasileira, pois nossos políticos não estão tratando do essencial do problema. A causa principal é que deixamos o ensino público decair, pagamos muito mal aos nossos professores do Fundamental e do Médio. Voltando ao início da crônica, nos anos 60 e 70 não havia grande diferença entre os alunos que ingressavam na Engenharia vindos do ensino público ou do particular. Um ótimo colégio público de Porto Alegre, o Julho de Castilhos ou Julinho, era um dos grandes formadores das lideranças gaúchas. O tempo passou e o ensino básico público foi sucateado. Recentemente entrou um aluno cotista com UM acerto em matemática na Engenharia, depois melhoraram um pouco os critérios. Por mais esforços que sejam feitos não há como recuperar este déficit em Ciências Exatas na Universidade.

Pior se passa em Português, a capacidade de abstração e de representação de conceitos precisa se desenvolver ao longo dos anos. Em um destes programas de “universalização” querem impor uma taxa de conclusão de 95% dos ingressantes, só se for implantada a progressão continuada, sem possiblidade de reprovação na Universidade, pois precisaríamos de cerca de 0,99% de aprovação em cada disciplina para atingir esta meta final. Esqueceu-se o princípio da qualidade e do esforço pessoal. Alguém disse que a famosa frase de Churchil: “Blood, Toil, Tears and Sweat” foi convertida no Brasil para “Carnaval, Cerveja e Suor”. Olhem como modelo a carreira do brilhante ministro do Supremo o Joaquim Barbosa (Wikipédia), é o exemplo de que dedicação e esforço recompensam. Mas a reabilitação do Ensino Público não está na agenda de políticos que tem como horizonte a próxima eleição.

A solução

Minha proposta é que a solução está em dar condições plenas para cada um de acordo com sua capacidade e esforço. A solução para a recuperação de dívidas históricas e sociais da Sociedade deve ser real e não uma tentativa superficial de oferecer acesso à Universidade. Isto (a possibilidade de efetuar estudos até o mais alto nível de sua capacidade) deve ser independente da situação socioeconômica da família do estudante. O Ensino Público Fundamental e Médio precisa ser valorizado. Em nosso estado, RS, dão-se incentivos fiscais para fábricas de cigarro e à plantação de fumo, mas não para o Ensino. Os alunos devem ser motivados e acompanhados desde o início dos estudos e os mais dedicados e com maiores resultados devem receber o apoio do Estado para irem para as melhores Escolas. Se inicialmente não for possível levar todas as Escolas do Ensino Público a um patamar mais elevado devem ser escolhidas as mais promissoras como Centros de Excelência. Todos, devem ter a possibilidade de atingir, com apoio educacional adequado para suprir as deficiências decorrentes de um meio desfavorecido, o nível mais alto a que puderem e para o qual se esforcem e tiverem capacidade. 

Constituição do Brasil

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
... ”.

Para assegurar esta igualdade os meios financeiros devem ser alocados a todos alunos que demonstrem qualidade e desempenho sem distinção de qualquer natureza. Cada um deve ser exclusivamente dependente de sua capacidade e esforço e não de suas condições econômicas ou sociais para progredir. Minha visão é que é obrigação do Estado de dar estas condições.

Adendo para a patrulha ideológica

Não digam que este modelo que defendo é um modelo “burguês e capitalista”, é o modelo que está levando a China (comunista) a ser uma potência mundial: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades” (Karl Marx). A cada um deve ser dada a oportunidade de usar todas as suas capacidades e de acordo com seu mérito, isto a partir do ensino básico.


E se você perder todos os dados?

Nesta manhã a tranquilidade de João da Silva terminou! Pelas 10 horas da manhã, vinte e quatro horas após o grande clarão solar, ele estava se deslocando em seu smart-carro quando começaram a saltar faíscas da linha de alta tensão ao lado da estrada. O sistema de condução automática parou de funcionar e uma trava de emergência, felizmente mecânica, atuou e parou o veículo. Nesta hora tudo parou. A falta de energia foi geral, severas tempestades solares são semelhantes ao choque eletromagnético causado por uma explosão nuclear. Danos reais aos fios e aparelhos eletrônicos ocorreram e, dada a ampla difusão, foram de difícil recuperação. Satélites de comunicação são muito vulneráveis, sem a proteção da atmosfera foram imediatamente queimados. João ficou a pé a 10 quilômetros de sua casa, após uma longa caminhada conseguiu voltar e foi obrigado a arrombar a porta, pois a chave biométrica tinha queimado. Seu fogão com placas de aquecimento eletromagnéticas evidentemente não funcionava e a comida supergelada estava descongelando. João disse adeus ao seu laptop. Disse adeus ao seu ar condicionado. Na verdade, disse adeus à tecnologia elétrica por um longo, muito longo tempo.

Quantas universidades haverá no futuro – A Resposta.

Quantas Universidades haverá no futuro? Meu primeiro impulso foi escrever: “A resposta é 42”! Mas esta discussão, lançada pelo Sílvio Meira, na lista sbc-l me fez pensar e tratar deste assunto com mais profundidade. Será que o problema está corretamente enunciado? Vejamos o texto provocativo citado pelo Sílvio e produzido por relatório do Banco Mundial de 2009 sobre world-class universities:

In an attempt to propose a more manageable definition of world-class universities, this report makes the case that the superior results of these institutions (highly sought graduates, leading-edge research, and technology transfer) can essentially be attributed to three complementary sets of factors at play in top universities…”

Este texto é parecido com aquelas consultas de opinião que dão respostas pré-definidas para os pesquisados. Como as respostas foram escolhidas previamente o entrevistado não tem realmente escolha, só pode seguir as opções oferecidas. Neste caso a situação é pior: assumem que uma Universidade está orientada para a “transferência de tecnologia”. Os dois itens anteriores servem para reforçar este último. Os “diplomados altamente procurados” servem para empresas, a “pesquisa de ponta” é sinônimo, neste contexto, de pesquisa tecnológica. Será que é isto o objetivo de uma Universidade? Será que esta visão não é o motivo do descrédito das Universidades? A Universidade deve competir com as Empresas?

O Sílvio coloca:

eu acho que boa parte do problema que tem que ser tratado é que, na economia do conhecimento, NÓS, a universidade, ja nao detemos seu monopolio. nunca foi o caso. mas parecia. humboldt fez parecer e o passo meramente industrial da economia, por uns duzentos anos ajudou”

Encontramos esta visão em outras fontes:

“Entende-se por inovação tecnológica um novo produto (final ou intermédio) comercializável, isto é, não basta ser “uma novidade” se não se puder transformar em mercadoria”. Para uma discussão do conceito de inovação; cf. Luísa Oliveira (2000), Para uma Abordagem Sociológica do Conceito de Inovação. Relatório para a Fundação de Ciência e Tecnologia, Lisboa.

Então a visão do que seja uma Universidade de qualidade mundial avalia a Universidade como uma coadjuvante do desenvolvimento tecnológico e econômico. Esta não foi a percepção histórica e universal de Universidade. A nossa comunidade acadêmica de computação tem inculcada, de tal forma, esta visão que inúmeros professores e pesquisadores qualificados como de alto nível pela CAPES e CNPq dizem abertamente que as pesquisas de Educação, Sociologia, e até de Administração são… para sermos educados: brincadeiras.

Há algum tempo publiquei uma crônica sobre “Dêem Tempo para a Universidade Pensar ou os modelos de Universidadeonde já tratava do assunto. Vou copiar parte daquele texto a seguir.

A university is an institution of higher education and research, which grants academic degrees at all levels (bachelor, master, and doctorate) in a variety of subjects. A university provides both tertiary and quaternary education. The word university is derived from the Latin Universitas Magistrorum et Scholarium, roughly meaning “community of masters and scholars”. Wikipedia

Então uma Universidade deve ser o ponto de encontro de Mestres e Pensadores. A Universidade foi, desde sua criação, um local de pensamento, de tempo para a análise crítica, para o desenvolvimento de novos conceitos. Não é por acaso que as ditaduras sempre atacam as universidades seja pelo seu fechamento, seja pela instituição de comissários políticos, ou encarregados da “segurança interna” do SNI. Apenas recentemente a disciplina de Filosofia, proibida durante a ditadura militar, foi reintroduzida no secundário. Em um ambiente de liberdade há espaço para novas ideias e para a abertura de novos horizontes, este é o modelo de Universidade Humboldtiana, a Alemanha criou este modelo nos 18’s e obteve, no início do século XX, uma das maiores concentrações de Prêmios Nobel. Este trecho (em português de Portugal) é essencial para a compreensão do que seja uma Universidade:

A fundação da universidade de Berlim por Humboldt foi uma “success stor”y. O seu modelo foi rapidamente adoptado em toda a Alemanha, e, mais tarde, viria a exercer uma influência decisiva na concepção das grandes universidades norte-americanas, como Harvard ou Yale – que são, na sua essência, coisa que muita gente ignora, universidades humboldtianas. O princípio central da idéia humboldtiana de universidade é a famosa “unidade indissolúvel do ensino e da investigação”. Isto significa que a matéria a ensinar é, idealmente, um saber adquirido em primeira mão pelo docente na qualidade de investigador. Uma tal ideia tem óbvias implicações práticas ao nível dos calendários escolares e horários, ou seja da gestão do tempo consagrado ao ensino e à investigação. Só o docente que tiver tempo para investigar, e para se informar do “state of the art” na sua área, poderá desenvolver um ensino de carácter verdadeiramente universitário. Dois outros princípios importantes deste modelo de universidade são o da liberdade do ensino e da aprendizagem e o da necessária maturidade e autonomia do estudante universitário. O primeiro diz respeito não apenas à liberdade do docente e investigador na escolha das matérias em que se especializa, mas igualmente à liberdade de escolha, pelo estudante, do seu próprio percurso de aprendizagem, o que implica, na prática, a existência de disciplinas de opção livre e um sistema de major e minor.” urbi et orbi, José Manuel Boavida Santos

Leiam estre outro trecho da Wikipedia sobre a Universidade Humboldt de Berlim:

The first semester at the newly founded Berlin University occurred in 1810 with 256 students and 52 lecturers in faculties of law, medicine, theology and philosophy under rector Theodor Schmalz. The university has been home to many of Germany’s greatest thinkers of the past two centuries, among them the subjective idealist philosopher Johann Gottlieb Fichte, the theologian Friedrich Schleiermacher, the absolute idealist philosopher G.W.F. Hegel, the Romantic legal theorist Friedrich Carl von Savigny, the pessimist philosopher Arthur Schopenhauer, the objective idealist philosopher Friedrich Schelling, cultural critic Walter Benjamin, and famous physicists Albert Einsteinand Max Planck. Founders of Marxist theory Karl Marx and Friedrich Engels attended the university, as did poet Heinrich Heine, novelist Alfred Döblin, founder of structuralism Ferdinand de Saussure, German unifier Otto von Bismarck, Communist Party of Germany founder Karl Liebknecht, African American Pan Africanist W. E. B. Du Bois and European unifier Robert Schuman, as well as the influential surgeon Johann Friedrich Dieffenbach in the early half of the 1800s. The university is home to 29 Nobel Prize

Por este trecho pode-se perceber que isto é UMA Universidade Humboldtiana. Não a fonte de mão de obra para empresas, mas uma fonte de estudo, conhecimento e sabedoria. Não estou propondo o fim da pesquisa aplicada, aliás o que deve existir é pesquisa de altaqualidade aplicada a problemas reais, estou dizendo que as Universidades desaparecerão não pelos cursos tecnológicos de algumas Universidades nos USA, os MOOCs, mas por temos nos esquecido do papel essencial da Universidade que é:              

Study of the social dimensions of scientific knowledge encompasses the effects of scientific research on human life and social relations, the effects of social relations and values on scientific research, and the social aspects of inquiry itself. Several factors have combined to make these questions salient to contemporary philosophy of science. These factors include the emergence of social movements, like environmentalism and feminism, critical of mainstream science; concerns about the social effects of science-based technologies; epistemological questions made salient by big science; new trends in the history of science, especially the move away from internalist historiography; anti-normative approaches in the sociology of science; turns in philosophy to naturalism and pragmatism. This entry reviews the historical background to current research in this area, features of contemporary science which invite philosophical attention, the challenge to normative philosophy from social, cultural, and feminist studies of science, and the principal philosophical models of the social character of scientific knowledge”.

Longino, Helen, “The Social Dimensions of Scientific Knowledge”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2011 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = http://plato.stanford.edu/archives/spr2011/entries/scientific-knowledge-social/.

Por tudo isto minha resposta à pergunta:

  • Quantas universidades haverá NO FUTURO?

é a seguinte:

  • Todas as que forem realmente UNIVERSIDADES, as demais serão instituições de ensino, podemos chamá-las de Universidades, mas não no conceito Huboldtiano. Talvez o problema ser utilizarmos o mesmo termo “Universidade” para tratar duas entidades diferentes.

Provavelmente esta resposta explica um pouco o desinteresse pelas atuais carreiras técnicas, não é como dizem os linha dura pela pouca vontade de estudar, mas sim pelo desencanto com a tecnologia somente como tecnologia e pelo enriquecimento de uns poucos usando técnicas e metodologias tecnológicas sem preocupação com as consequências e implicações sociais e morais da tecnologia. Porque será que há mais jovens escolhendo Direito, Psicologia  e outras carreiras humanas em vez de computação? 

Há esperança, em uma análise do comportamento das sociedades industriais o economista J.K.  Galbraith estuda o comportamento antagônico desta sociedade para com os valores que transcendem o puramente econômico. Estuda, também, a manipulação do mercado (e no caso da Universidade) para que se adapte aos interesses da sociedade industrial. No último capítulo intitulado O Futuro do Sistema Industrial, deste livro o autor faz uma análise crítica do relacionamento entre o sistema industrial e a sociedade (Galbraith 68, p. 433):

Já vimos em que lugar reside a possibilidade de salvação. O sistema industrial, em contraste com seus antecessores econômicos é intelectualmente exi­gente. Traz à existência, para servir-lhe as neces­sidades intelectuais e científicas, a comunidade que, tenhamos esperança, rejeitará o seu monopólio de propósitos sociais.”