Une histoire buissonière de la France {Graham Robb} 2011


O original deste livro é The Discovery of France mas a tradução francesa é de muito boa qualidade e o título muito melhor do que o original. O autor, Graham Macdonald Robb é um escritor inglês. Em 28 de abril de 2008 ele recebeu o prêmio Ondaatje Prize da Royal Society of Literature por este livro. É uma leitura realmente interessante pois mostra a França como um mosaico de culturas e regiões se integrando, aos poucos, para formar o país que hoje conhecemos.  O autor, professor de literatura, conta a história da França profunda além dos subúrbios de Paris. Esta é uma França muito diferente da que estudamos na história escolar, que trata da Monarquia, da Revolução e da República, mostrando a vida real do povo e das localidades com suas culturas específicas e, muitas vezes, ignorando o poder central. A descrição não é livresca, o autor adicionou aos seus estudos formais vinte e dois mil e quinhentos quilômetros de bicicleta pelo interior. A isto somou quatro anos de pesquisas bibliográficas. Uma leitura indispensável para conhecermos mais profundamente a cultura real francesa.

An open letter from women of science


Recebi este texto de colegas dos USA. Considero importante sua divulgação. Para informações mais detalhadas há este link:

WOMEN IN SCIENCE – JOIN US


Mulher Science is foundational in a progressive society, fuels innovation, and touches the lives of every person on this planet. The anti-knowledge and anti-science sentiments expressed repeatedly during the U.S. presidential election threaten the very foundations of our society. Our work as scientists and our values as human beings are under attack. We fear that the scientific progress and momentum in tackling our biggest challenges, including staving off the worst impacts of climate change, will be severely hindered under this next U.S. administration. Our planet cannot afford to lose any time.

In this new era of anti-science and misinformation, we as women scientists re-affirm our commitment to build a more inclusive society and scientific enterprise. We reject the hateful rhetoric that was given a voice during the U.S. presidential election and which targeted minority groups, women, LGBTQIA, immigrants, and people with disabilities, and attempted to discredit the role of science in our society. Many of us feel personally threatened by this divisive and destructive rhetoric and have turned to each other for understanding, strength, and a path forward. We are members of racial, ethnic, and religious minority groups. We are immigrants. We are people with disabilities. We are LGBTQIA. We are scientists. We are women.

Across the globe, women in science face discrimination, unequal pay, and reduced opportunities. Our work to overcome the longer-term degradation of the role science plays in society did not start with this election, but this election has re-ignited our efforts. As women scientists, we are in the position to take action to increase diversity in science and other disciplines. We resolve to continue our pursuits with renewed passion and to find innovative solutions to the problems we face in the U.S. and abroad. Together, we pledge to:

  • Identify and acknowledge structural inequalities and biases that affect the potential of all individuals to fulfill their goals;
  • Push for equality and stand up to inequality, discrimination, and aggression;
  • Push to strengthen the support for traditionally under-represented groups to fully participate in and become leaders in science;
  • Support the education and careers of all scientists;
  • Step outside of our research disciplines to communicate our science and engage with the public;
  • Use every day as an opportunity to demonstrate to young girls and women that they are welcome and needed in science;
  • Set examples through mentorship and through fostering an atmosphere of encouragement and collaboration, not one of divisiveness;
  • Use the language of science to bridge the divides that separate societies and to enhance global diplomacy.

Today, we invite the women in science and our colleagues to declare our support to each other and to all minorities, immigrants, people with disabilities, and LGBTQIA. Our scientific work may be global, yet we will take action in our own communities and we will work towards an inclusive society, where science and knowledge can be embraced and everyone has the opportunity to reach their potential.

AS WOMEN IN SCIENCE, AS ROLE MODELS TO YOUNG GIRLS AND WOMEN, AS LEADERS IN OUR COMMUNITIES, WE ACCEPT THIS CHALLENGE. JOIN US

Sapiens – Uma breve história da humanidade {Yuval Noah Harari} 2012

 


Este livro trata da nossa história. É uma leitura muito interessante para formar uma visão antropológica da evolução. Desde o início do desenvolvimento dos Humanos até os dias de hoje é feita uma descrição das lutas, da competição e da criatividade que permitiram o Homo Sapiens se tornou a espécie dominante. O importante é que a evolução está apresentada como uma sequência de revoluções: a cognitiva, a agricultural e a científica. Aliás é um modelo de revoluções parecido com o desenvolvido por Darcy Ribeiro com as Revoluções Agrícola, Urbana, do Regadio, Metalúrgica, Pastoril, Mercantil e Industrial. Este conceito é elaborado por Darcy Ribeiro no livro O Processo Civilizatório:

“Empregamos o conceito de revolução tecnológica para indicar que a certas transformações prodigiosas no equipamento de ação humana sobre a natureza, ou de ação bélica, correspondem alterações qualitativas em todo o modo de ser das sociedades {…} A sucessão destas revoluções tecnológicas não nos permite, todavia, explicar a totalidade do processo evolutivo sem apelo ao conceito complementar do processo civilizatório, porque não é a invenção original ou reiterada de uma inovação que gera conseqüências, mas sua propagação sobre diversos contextos socioculturais e sua aplicação a diferentes setores produtivos.”

O ponto fraco é o capítulo final que procura profetizar o futuro com a evolução da tecnologia, aqui considero que o razoável rigor acadêmico dos capítulos anteriores é prejudicado por uma visão limitada e pessimista das possibilidades tecnológicas

“Harari é brilhante […] Sapiens é realmente impressionante, de se ler num fôlego só. De fato, questiona nossas ideias preconcebidas a respeito do universo.” (The Guardian)

Um relato eletrizante sobre a aventura de nossa extraordinária espécie – de primatas insignificantes a senhores do mundo. O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras? Yuval Noah Harari aborda de forma brilhante estas e muitas outras questões da nossa evolução. Ele repassa a história da humanidade, relacionando com questões do presente. E consegue isso de maneira surpreendente. Doutor em história pela Universidade de Oxford e professor do departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, seu livro não entrou por acaso nas listas dos mais vendidos de 40 países para os quais foi traduzido.


 

Computadores, criatividade, estética e qualidade

  

 Na Aula Magna, que marca a abertura do semestre letivo, o crítico, filósofo e professor italiano Nuccio Ordine, um dos maiores conhecedores sobre a Renascença na atualidade e grande especialista na obra de Giordano Bruno ministrou a conferência “A Utilidade dos Saberes Inúteis”. Esta palestra me lembrou de um texto que havia submetido para o seminário “Perspectivas e Grandes Desafios da Computação no Brasil 2006-2016”. Certamente as ideias que apresentei naquele momento se alinham perfeitamente a esta visão não-utilitarista. Eu tinha tratado de tema muito próximo quando discuti a integração da Arte e da Computação: Perspectivas e Grandes Desafios da Computação no Brasil 2006-2016. Agora fica, cada vez mais claro que precisamos evitar a exclusão da interdisciplinariedade de nossos programas de pós-graduação. 

 Na Aula Mágna o professor defende a valorização dos conhecimentos não ligados diretamente ao alcance de resultados práticos, os chamados saberes “inúteis”, mas que são fundamentais para sedimentar as bases para um pensamento crítico da sociedade. Também desaprova o que chama de “empresariamento” do conhecimento científico, orientado pela lógica da produtividade extrema dentro do universo acadêmico. Para ele, essa prática ameaça a possibilidade de conceber a universidade como um lugar no qual se reflete, se ensina, se faz pesquisa. De acordo com o filósofo, a ótica utilitarista e do culto à posse acaba diminuindo a essência das pessoas, pondo em risco não só a cultura, a criatividade e as instituições de ensino, mas valores fundamentais como a dignidade humana, o amor e a verdade.

Tecnologia, Publicações e Humanismo


Estive lendo e participando da conversação na sbc-l sobre os MOOCs. Sempre, mesmo atuando em EAD e com boa produção na área, tive restrições sobre esta nova onda que supervaloriza a tecnologia. As minhas restrições são dirigidas a ideia, amplamente difundida, que a utilização de tecnologia é a solução para todos os problemas do ensino. Estas posições são fontes de contravalores criados pela radical racionalidade do que é tido como “ciência e tecnologia”. Ciência e tecnologia podem ser importantes como ferramentas para apoiar modelos pedagógicos, mas nunca a salvação do ensino.  Do lado negativo do culto à tecnologia há uma visão de que ela seja a solução para os problemas de difusão do conhecimento e mesmo de geração do conhecimento. Precisamos ter consciência de que a tecnologia é apenas uma ferramenta e se não construirmos valores humanos e éticos estas novas tecnologias não trarão uma ruptura positiva na Educação, mas uma baixa na qualidade da comunicação, do estudo e do comportamento social. Não é possível substituir a Universidade, como fonte de estudo, pensamento filosófico, crítica de valores sociais e humanismo, por ferramentas computacionais.Um assunto preocupante hoje é a falta de perspectiva ética e análise da responsabilidade social no desenvolvimento de tecnologias. O debate sobre os MOOCs é um exemplo, há um deslumbramento sobre esta tecnologia sem o devido estudo das repercussões sobre o ensino e a formação. Apresentei recentemeente, no Instituto Humanitas da UNISINOS, uma palestra sobre o tema  “Sociedade tecnocientífica e os desafios éticos”. A apresentação está disponível em: Tecnologia, Cultura e Humanismo.


 

Livros, Revistas e Artigos Eletrônicos: Cultura, Qualidade e Tecnologia

A essência da tecnologia não é algo tecnológico.

H. Heidegger


Em 1455 Johann Gutenberg (1398-1468) revolucionou o mundo com a invenção dos tipos móveis e conseqüentemente da imprensa moderna. Esta invenção foi um dos elementos que desencadeou o fim da Idade Média estimulando o Renascimento. O Renascimento apresentou, entre outras, a característica de ter tornado acessíveis para um grande público obras como a Bíblia e outros textos da antiguidade clássica através da publicação de livros impressos. Parte dos historiadores considera este fator como um dos mais importantes para a efervescência e criatividade que marcaram este período da história. Antes os livros, ricamente ilustrados e manuscritos, eram restritos aos nobres e aos conventos. A disseminação do conhecimento clássico permitiu que muitos passassem a interpretá-lo a partir dos originais dos livros, a criar novas versões e ampliar a possibilidade de divulgar seus pensamentos sem a necessidade de contar com monges-copistas para reproduzirem os livros, mas ainda com a necessidade de obter uma permissão para publicá-los.

Uma das mais significativas características dos livros é a perenidade. Um livro, impresso em papel de qualidade, pode durar centenas de anos ou mesmo milênios se bem armazenado. Desta forma os livros são referências importantes para a consolidação do conhecimento. Posteriormente surgiram as revistas impressas que formavam acervos importantes nas bibliotecas e eram, também, fontes de referência estáveis. Em muitas áreas de conhecimento, como nas Ciências Humanas, os livros são considerados a fonte básica de conhecimento e fortemente considerados na avaliação da produção acadêmica. Aqui é bom notar que a avaliação da qualidade, neste caso, não é baseada em uma métrica simples de citações, mas na avaliação da influência real do autor na sociedade ou em sua área de conhecimento. É necessário reconhecer que a importância dos livros é, em grande parte, associada a sua perenidade; um livro lido, referenciado, estudado continuará disponível por um tempo indeterminado. Suas diversas cópias, existentes em múltiplas bibliotecas, garantem a sua perenidade.

Após os livros surgiram as revistas como forma de divulgação do conhecimento. Em particular as revistas acadêmicas, em que os artigos passando por um processo de avaliação externo, são considerados fontes confiáveis e valorizadas. Além disto, bibliotecas com muitos recursos financeiros têm grandes acervos de revistas impressas. Novamente estamos frente à percepção de que a qualidade e a importância são asseguradas pela ampla disponibilidade. As revistas passam a ser consideradas como referências estáveis e, nas áreas de desenvolvimento mais rápido como, por exemplo, a física, a engenharia e a biologia, como mais importantes mesmo que os livros.

A seguir, surgiram as bibliotecas digitais, suportadas por casas editoras com versões eletrônicas de suas publicações em papel. A venda de artigos pela Internet é uma ação similar à venda de músicas ou filmes por sites em vez de venda em gravações de CDs ou DVDs. Os editores de música precisaram oferecer uma alternativa, a preços aceitáveis, para os usuários. Hoje a Apple com o iTunes [1] vende mais músicas do que os tradicionais CDs. A partir deste momento o acesso às revistas tornou-se amplo e, principalmente, imediato. Mesmo com o acesso instantâneo a estas publicações o processo editorial continua exatamente o mesmo que o do tempo da imprensa tradicional e, principalmente com altos custos de acesso. Aqui surge a necessidade de uma discussão maior sobre os aspectos econômicos deste sistema editorial. A maior parte das pesquisas é realizada com recursos governamentais, após os resultados são enviados para conferências, revistas ou capítulos de livros e, quando aceitos, é necessária a transferência dos direitos autorais para as editoras que ficam com todo o lucro. Apenas no caso de livros os autores recebem uma parcela dos lucros como direitos autorais.

  A alternativa de publicação comercial via Web, as bibliotecas digitais comerciais – tratadas acima – tornou-se uma necessidade para as editoras competirem com a publicação dos resultados das pesquisas e de trabalhos acadêmicos não somente por páginas de grupos de pesquisa, mas também pela publicação de artigos de forma totalmente livre na Internet, como é o caso do arXive [2] dos físicos como, por exemplo, este artigo: “Statistics for Ranking Program Committees and Editorial Boards” [3]. Alternativamente há a possibilidade da publicação de revistas de forma eletrônica com acesso livre, mas mantendo todo o processo de análise de qualidade (reviewing) e de editoração como o disponibilizado pelo sistema SEER do IBICT baseado no OJS [4]. Neste caso temos uma publicação com a mesma análise de qualidade das publicações tradicionais em papel, mas com a possibilidade de acesso livre pela Web. Um exemplo desta alternativa é a “Revista de Informática Teórica e Aplicada” [5] editada pelo Instituto de Informática da UFRGS.

A era digital de publicação livre se desenvolveu com a publicação de páginas Web, continuou com as listas de discussão e logo a seguir apareceram os blogs. Estas formas de publicação digital possuem características próprias e bem diferentes daquelas dos livros e revistas em papel, a falta de revisão externa e a transitoriedade ou falta de perenidade. Uma página Web um artigo em um Blog não é um elemento estável, nunca sabemos se amanhã ainda estarão disponíveis. Além disto, há um problema de certificação da sua qualidade é preciso o desenvolvimento de formas de certificação de sua proveniência e qualidade.

Mais recentemente apareceram novas formas de publicações eletrônicas com avaliação social da qualidade dos artigos como a Wikipédia. A partir deste modelo estão sendo aperfeiçoadas formas de atribuir níveis crescentes de autoridade e de credibilidade aos autores. A perspectiva é de que consigamos, em um prazo médio, de um novo modelo de publicações desenvolvido especificamente para a nova realidade tecnológica da Web. Este modelo deve ser devidamente aceito e utilizado para o reconhecimento da produção intelectual dos autores cooperativos. Esta será uma real revolução e a abertura da possibilidade de trabalho cooperativo e não egoístico, totalmente distribuído. A última e revolucionária inovação tecnológica foi o aparecimento de leitores dedicados para livros eletrônicos. Estes equipamentos apresentam uma grande facilidade de leitura, pois suas telas são muito similares às folhas de papel, não são iluminadas, apenas refletem a luz com um branco muito claro e um negro saturado. Com esta tecnologia é estimulada a autopublicação, em que o autor é seu próprio editor e publicador através de serviços disponíveis na Internet.

Nenhuma destas formas de publicação teria algum efeito de importância social se não fosse aceito e difundido em grandes estratos da sociedade. Esta é a justificativa para a afirmação de que a tecnologia por si não traz grandes mudanças, apenas a sua utilização por um grande número de usuários pode gerar mudanças radicais de comportamento. A Web abriu todas estas novas possibilidades de publicação; estamos em uma fase revolucionária da divulgação do conhecimento, tão importante quanto aquela criada pela imprensa de Gutenberg.


[4] Open Journal Systems (OJS) is a journal management and publishing system that has been developed by the Public Knowledge Project through its federally funded efforts (USA) to expand and improve access to research.

O mito da Geração Google

GoogleHá muito tempo eu esperava a chegada na Universidade de alunos que tivessem crescido em um ambiente onde a computação fosse um elemento diário e não uma nova tecnologia. Isto finalmente aconteceu! Os alunos atuais nasceram quando o computador já era um eletrodoméstico e passaram toda a sua vida de estudo utilizando computadores. Estava na hora de verificar as novas competências que, certamente, tinham sido adquiridas neste ambiente intelectualmente estimulante. Mas o que chegou foi a decepção: a maior parte dos alunos estava utilizando toda esta tecnologia de busca de informação da forma mais naïf possível: copy and paste! É claro que qualquer generalização é perigosa, mas esta é a impressão geral que sinto. Conversando com colegas chega-se a mesma conclusão: falta capacidade para filtrar toda a informação disponível e, principalmente, falta o hábito e a competência para criar interpretações pessoais a partir do material encontrado.

Em férias passadas estava lendo um caderno de classificados de computação quando, de forma completamente imprevista devido aos objetivos daquele caderno, encontrei este pequeno editorial:

Editorial do Caderno de Classificados de Informática do Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 10 de Fevereiro de 2008, página 1.

Pesquisadores britânicos afirmam que a suposta habilidade dos jovens para lidar facilmente com novas tecnologias não se confirma

Os jovens conseguem utilizar novas tecnologias com facilidade e adquirir conhecimento apenas com o uso da internet, certo? Pois um estudo encomendado pela Biblioteca Britânica diz o contrário. A pesquisa, realizada pela University College of London, afirma que a Geração Google – como são chamados os adolescentes nascidos a partir de 1993, depois da popularização do computador – tem sua capacidade supervalorizada.

Conforme o levantamento, feito com o objetivo de esclarecer como o avanço tecnológico afetará as bibliotecas, os garotos de hoje não são necessariamente eficientes em fazer pesquisas pela internet.

Também não permanecem mais tempo online do que as pessoas mais velhas e não destoam do resto da sociedade em priorizar informação rápida e digerida. “Na verdade, já somos a Geração Google: a demografia da internet e do consumo de mídia está erodindo supostas diferenças de gerações”, diz o relatório da pesquisa.

O trabalho ressalta ainda que a “alfabetização digital” e a “alfabetização informativa” não caminham conjuntamente, o que se reflete na incapacidade demonstrada por muitos jovens para filtrar o imenso arsenal de dados disponíveis na web. Outro mito que não se confirma, dizem os pesquisadores, é o de que os garotos são mais propensos do que seus pais a buscar informações rápidas e “mastigadas”. A preferência por textos resumidos e buscas por palavras-chave é uma norma geral. “A sociedade (como um todo) está se emburrecendo“, diagnostica o estudo.

Uma característica que muitos já suspeitavam também foi confirmada: a dita Geração Google é uma forte adepta da prática de “copiar e colar” informações para seus trabalhos escolares, e prefere plataformas interativas de informação ao consumo passivo dos dados. Para tirar suas conclusões, os cientistas utilizaram estudos feitos com jovens nas décadas de 80 e 90 e os compararam com a forma como os adolescentes de hoje pesquisam na Biblioteca Britânica e nos sites educacionais do governo inglês.

O que o estudo não conseguiu responder é se os jovens são mesmo mais capazes do que seus pais de realizar diversas tarefas ao mesmo tempo. “A questão mais ampla é saber se as habilidades seqüenciais, necessárias à leitura, também estão sendo desenvolvidas”, observam os pesquisadores.

A ênfase na conclusão apresentada acima é minha e o problema é muito sério mesmo. Há bastante tempo escrevi sobre o plágio acadêmico pois estava começando a ficar preocupado com esta tendência de copiar e não de criar. Este péssimo hábito está esterilizando a criatividade. Precisamos absolutamente da revisão dos conhecimentos passados para poder construir mais alto! Uma frase, atribuída a Isaac Newton, condensa esta posição: “In the sciences, we are now uniquely privileged to sit side by side with the giants on whose shoulders we stand.” Aliás uma parte desta frase foi tomada como mote pelo Scholar Googlepara balizar o uso correto deste serviço.

O que aconteceu? A citação acima dá o caminho: a “alfabetização digital” e a “alfabetização informativa” não caminham conjuntamente. As pessoas passaram a utilizar a Web de forma natural pois foram “alfabetizadas digitalmente” mas não sabem utilizar a informação obtida. O conjunto de dados disponíveis na Web representa um acervo gigantesco. O grande desafio é acessar, recuperar e organizar estes dados de forma a transformá-los em informação relevante.

A palavra Dados vem do latim datum isto é algo oferecido, dado. Esta é a significação de dados: algo que está disponível que foi oferecido. Em informática consideramos dados como valores que podem ser números, cadeias de caracteres ou imagens sem interpretação. Isto quer dizer que um valor não possui uma significação em si mesmo, por exemplo: 220 podem ser volts ou quilômetros por hora. Este é o primeiro nível na representação do mundo real. Informação é o próximo nível, a informação consiste no significado associado aos dados, no exemplo anterior 220 volts é uma informação associando um valor (dado) a uma grandeza que tem significado físico. Neste caso 220 é interpretado como uma grandeza elétrica, a voltagem. Finalmente no último nível, o Conhecimento, existe a compreensão do significado da informação com a possibilidade de utilizar este conhecimento para algum uso específico. No nosso exemplo o conhecimento associado a 220 volts poderia ser que esta tensão elétrica é perigosa para o ser humano e que devem ser utilizadas ferramentas isoladas para manipular fios submetidos a esta tensão. Para que consigamos entender o significado das informações é necessária a estruturação do conhecimento e a construção de um modelo, uma espécie de mapa, relacionando os diferentes conceitos recuperados. Esta é a parte que está faltando a “alfabetização informativa ou de conhecimento”.

O que ocorre parece ser uma tendência para a obtenção de material simples e de fácil aplicação. Para que estudar mais se o simples me garante a subsistência?  Para que conhecer os fundamentos se me pagam pelo conhecimento e competência no uso de ferramentas de software? Para que um curso mais longo se três anos bastam para minha colocação no mercado? Estas são as perguntas correntes. Comprovei isto assistindo uma recente entrevista, longa – no padrão francês de uma hora, na TV5 de um líder estudantil de uma grande confederação de estudantes sobre os quarenta anos de Maio de 68. Seu comentário que mais me causou impacto foi: “Os estudantes de 68 queriam mudar o mundo nós só queremos nosso espaço no mercado (de trabalho)”! O problema é que esta posição levada ao limite nos conduz à mediocridade, apenas uma vida mais ou menos estável, nenhum desafio maior, nada a desbravar… 

Uma destas conseqüências do utilitarismo do ensino é a visão de Bolonha sobre os cursos universitários; se por um lado há o fator positivo do intercâmbio e da mobilidade há o lado negativo da redução do tempo dos cursos. A visão dos colegas envolvidos neste processo é que o objetivo é criar um modelo de cursos curtos, para inserção rápida no mercado de trabalho, associado a um modelo de long life learning, ou seja o retorno ao estudo para atualização. Eu estou pensando que seria melhor chamar este modelo de long life training – o treinamento de mecânicos para as novas tecnologias. Quem vai desenvolver estas novas tecnologias? A Universidade Européia, que era conhecida por suas qualidades de abstração e de criação conceitual e filosófica no modelo de Universidade Humboldtiana, pode estar se transformando em uma escola técnica superior.  

O mesmo se passa com nossos estudantes, se tudo está disponível na Web porque desenvolver? É mais fácil copiar. Para que estudar algoritmos se encontramos libraries para tudo com dois toques de teclado?  Este texto, republicado no JC e-mail 3503, de 02 de Maio de 2008, é uma leitura essencial.

Nora Bär (ciencia@lanacion.com.ar) é editora de Ciência e Saúde do jornal argentino “La Nacion”, onde publicou este artigo: En los siglos XVI y XVII, Galileo fue astrónomo, filósofo, matemático y físico. En esas épocas, una sola persona — claro que no cualquiera: ¡Galileo, nada menos! — podía abarcar el conjunto de los conocimientos de su tiempo.

En el mundo globalizado de hoy, la ciencia dejó de ser una empresa individual para convertirse en un aparato gigantesco cuyos engranajes exceden lo puramente académico y cuyos hallazgos impulsan no sólo el avance del conocimiento, sino también la competitividad de los países.

A los científicos actuales ya no les basta, como se cuenta que hizo Galileo, con asomarse a la Torre de Pisa, lanzar dos piedras y observar cómo caen. Para alimentar la moderna maquinaria de experimentación, capaz de bucear en el submundo de la materia y de desmontar las piezas de la vida, se necesitan equipos monumentales y cuantiosas inversiones que no suelen estar al alcance de los países en desarrollo.

¿Entonces qué chance les queda a los jóvenes David frente a los superpoderosos Goliat que dominan el escenario científico global?

En el discurso de apertura de la última reunión de la Asociación Americana para el Avance de la Ciencia, su ex presidente, David Baltimore, formuló algunas ideas que vale la pena tener en cuenta.

Baltimore ganó el Premio Nobel de Fisiología o Medicina en 1975 (junto con Renato Dulbecco y Howard Temin) por el descubrimiento de la enzima que en los virus oncogénicos “traduce” el ARN en ADN. Pero además de ser un científico brillante, fue un administrador exitoso que presidió la Universidad Rockefeller y el Instituto Tecnológico de California, y asesoró a los gobiernos de la India y Ruanda en temas científicos.

Contrariamente a lo que podría suponerse, para él la fuerza de un país en materia científica no depende tanto de los equipos e instalaciones como de la calidad de los investigadores. Entre otras cosas, aconseja mantener un alto nivel de excelencia en la selección de recursos humanos, impulsar el desarrollo de instituciones pequeñas, no separar la enseñanza de la investigación y preservar la libertad académica de los científicos. Por otra parte, insiste en que -aun para los países en desarrollo- la ciencia básica (que no tiene un fin definido) es insoslayable.

“Incluso si uno tiene la intención de que sus graduados trabajen en las cosas más prácticas, el entrenamiento que reciben en la ciencia básica es el mejor que se les puede ofrecer”, afirma durante una entrevista publicada por SciDev.net.

Desarrollar ciencia de primer nivel es difícil — dice Baltimore –. Sólo se llega a la excelencia después de un proceso largo y trabajoso. Si uno [se limita a comprar] una máquina, produce ciencia estándar. En investigación, son las personas las que hacen la diferencia, haciendo cosas nuevas y formulando nuevas preguntas. La calidad de la gente es la que determina lo que se produce. De modo que uno puede tener máquinas maravillosas, pero a menos que tenga gente extraordinaria, no podrá producir ciencia extraordinaria.

En un mundo dominado por el dinero, es reconfortante pensar que Baltimore puede tener razón… (La Nacion, Buenos Aires, 30/4)

Para finalizar uma citação de Albert Einstein:

Quero opor-me à idéia de que a escola tem de ensinar diretamente o tipo especial de conhecimento e as técnicas que uma pessoa tenha que utilizar mais tarde diretamente na vida. As exigências da vida são demasiadamente múltiplas para permitir que uma preparação tão especializada seja possível como uma ferramenta morta. A escola deveria sempre ter como alvo que o jovem saísse dela como uma personalidade harmoniosa, não como um especialista”.

Acho que temos bastante material para meditar.