CNPq cria modalidade de Doutorado Acadêmico Industrial

CNPq

A proposta é que o doutorando precisa, além de produção científica e defesa da tese, gerar no final um produto que possa ser aplicado no setor produtivo. Nas atividades de pré-doutorado um projeto deverá ser elaborado em colaboração com o setor industrial

Uma iniciativa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Universidade Federal do ABC (UFABC) vai favorecer estudantes que queiram desenvolver projetos de interesse do setor industrial: trata-se do Doutorado Acadêmico Industrial.

O Doutorado Acadêmico industrial é uma modalidade de ingresso nos cursos de doutorado existentes na UFABC. Nestes, os alunos desenvolverão suas pesquisas concomitantemente em laboratórios e centros de pesquisa de empresas e indústrias privadas ou públicas.

A proposta é que o doutorando precisa, além de produção científica e defesa da tese, gerar no final um produto que possa ser aplicado no setor produtivo. Nas atividades de pré-doutorado um projeto deverá ser elaborado em colaboração com o setor industrial.

O aluno será matriculado em um dos programas de pós-graduação da UFABC, onde desenvolverá sua tese como aluno regular desse programa, tendo sua orientação compartilhada entre um orientador acadêmico e um supervisor industrial.

Ao concluir o doutorado, o diploma gerado é idêntico ao dos alunos ingressantes pelos processos seletivos regulares dos programas de pós-graduação da universidade.

CNPq

O QUALIS não deve ser usado para a avaliação de pesquisadores – a solução

 

 CAPESA CAPES vem afirmando continuamente através de seus representantes que o QUALIS deve ser usado exclusivamente para a avaliação de programas de pós-graduação, não para a avaliação individual de pesquisadores. Mas os programas de pós-graduação, avaliados pela CAPES, continuam fazendo isto. O pior é que faculdades que sequer têm pesquisa usam este critério para a seleção de seus professores. Há, ainda, quem faz a alocação de espaço físico baseado em QUALIS de pesquisadores… Finalmente achei a solução!

É preciso a CAPES tenha a coragem de assumir a sua responsabilidade pois o QUALIS é sua produção e, portanto, ela tem o Direito Autoral sobre este produto. Vejam o seguinte texto do ECAD:

Direito autoral é um conjunto de prerrogativas conferidas por lei à pessoa física ou jurídica criadora da obra intelectual, para que ela possa gozar dos benefícios morais e patrimoniais resultantes da exploração de suas criações. O direito autoral está regulamentado pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98) e protege as relações entre o criador e quem utiliza suas criações artísticas, literárias ou científicas, tais como textos, livros, pinturas, esculturas, músicas, fotografias etc. Os direitos autorais são divididos, para efeitos legais, em direitos morais e patrimoniais.

Os direitos morais asseguram a autoria da criação ao autor da obra intelectual, no caso de obras protegidas por direito de autor. Já os direitos patrimoniais são aqueles que se referem principalmente à utilização econômica da obra intelectual. É direito exclusivo do autor utilizar sua obra criativa da maneira que quiser, bem como permitir que terceiros a utilizem, total ou parcialmente.

Ao contrário dos direitos morais, que são intransferíveis e irrenunciáveis, os direitos patrimoniais podem ser transferidos ou cedidos a outras pessoas, às quais o autor concede direito de representação ou mesmo de utilização de suas criações. Caso a obra intelectual seja utilizada sem prévia autorização, o responsável pelo uso desautorizado estará violando normas de direito autoral, e sua conduta poderá gerar um processo judicial.

A obra intelectual não necessita estar registrada para ter seus direitos protegidos. O registro, no entanto, serve como início de prova da autoria e, em alguns casos, para demonstrar quem a declarou primeiro publicamente.

Texto completo no ECAD

Encontramos no site da CAPES, na area da Computação, o seguinte texto:

É importante observar que os critérios adotados pela Coordenação de Área para avaliação de publicações em periódicos e em anais de conferências destinam-se à análise de programas de pós-graduação e são inadequados para avaliação individual de pesquisadores.

A solução é simples: basta a CAPES proibir o uso de seu produto para outros usos que não a avaliação de programas de pós-graduação. Ela tem este direito pela lei. 

Frase a ser publicada:

“O QUALIS, propriedade intelectual da CAPES, destina-se exclusivamente à avaliação de programas de pós-graduação. Qualquer outra utilização como critério exclusivo de avaliação não é autorizada.”


 

Presidente da Capes defende debate amplo sobre o sistema de pós-graduação brasileira

CAPES Os desafios orçamentários atuais afetam o futuro da expansão da pesquisa acadêmica no país. Além disso, para Abílio Baeta Neves, as universidades precisam voltar a ser protagonistas na discussão sobre qual o sistema mais adequado para o avanço acadêmico

É inegável o papel estratégico da Capes para o sistema acadêmico brasileiro. A instituição é responsável pela concessão de aproximadamente 100 mil bolsas ao ano, além de avaliar a qualidade da oferta dos cursos de pós-graduação ofertados pelas universidades. Papel tão central no fomento à especialização coloca a Capes em uma posição privilegiada para mapear os desafios da especialização acadêmica. No primeiro painel da 69ª Reunião Anual da SBPC, “Os Desafios da Pós-Graduação”, esse olhar crítico sobre o presente e futuro da pós foi apresentado pelo presidente da Capes, Abílio Baeta Neves.

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Mariana Mazza – especial para o Jornal da Ciência

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Apresentação no CSBC 2017: Avaliação da qualidade de programas de pós-graduação

 

A comunidade tem perguntado sobre o caminho que estamos trilhando para construir uma pós-graduação de excelência. Encontramos opiniões divergentes, alguns acreditam que se obtém qualidade pelos altos níveis de exigência, outros por estimular o trabalho individual dos alunos. Uns pensam que a pós-graduação é uma forma de crescimento social e encaram os critérios altos como elitistas. Atualmente alguns programas de PG estão reduzindo o número de créditos com o racional que o importante é o trabalho de dissertação ou de tese. Há, ainda, a discussão sobre se vale a pena o investimento no mestrado e se o doutorado deve ser o fim último da PG, sendo o mestrado algo considerado como um prêmio de consolação para quem não consegue obter o doutorado. Certamente estamos em um período turbulento, onde poucas certezas existem. As perguntas que não querem calar são: Teremos realmente universidades de primeira linha? O que é uma universidade primeira linha? É uma universidade com prêmios Nobel? É uma universidade para onde os pesquisadores top querem trabalhar em seus sabáticos? É uma Universidade para onde os melhores alunos do mundo aplicam como forma de ter seu futuro assegurado? Este é o tema central da Avaliação da Qualidade tratada neste texto: Como avaliar a qualidade de um programa de pós-graduação, que critérios devem ser utilizados? 

2017 CSBC Avaliação

 

 

As Universidades se esqueceram que são IES – Instituições de Ensino Superior

UniversidadeHoje as Universidades avaliam seus professores quase que exclusivamente por suas atividades de pesquisa e por suas publicações. Tenho escrito sobre a avaliação na pós-graduação, mas agora vou começar a tratar um pouco da avaliação dos professores na graduação e na missão das Universidades. Acredito que a atual forma de avaliação é uma decorrência do modelo de Universidade Humboldtiana, mas isto fica para um próximo texto.

É preciso entender o que é uma Universidade. Há bastante tempo publiquei uma crônica sobre “Deem Tempo para a Universidade Pensar ou os modelos de Universidade” onde já tratava do assunto. Recentemente voltei ao mesmo assunto, mas o tema é recorrente. Vou copiar parte daquele texto.

A university is an institution of higher education and research, which grants academic degrees at all levels (bachelor, master, and doctorate) in a variety of subjects. … The word university is derived from the Latin Universitas Magistrorum et Scholarium, roughly meaning “community of masters and scholars“.Wikipedia

[A Universidade é uma instituição de ensino superior e de pesquisa que concede graus acadêmicos em todos os níveis (graduação, mestrado e doutorado) em uma gama de temas. … A palavra universidade é derivada do latim Universitas Magistrorum et Scholarium, que significa “comunidade de mestres e acadêmicos”.]

O cientista Carl Sagan (falecido), para os obcecados por bibliometria anexo ao final seus dados, escreve em seu livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios” onde trata da ciência e das crendices e pseudo-ciência escreve:

Na Universidade de Chicago, também tive a sorte de participar de um programa de educação geral planejado por Robert M. Hutchins, em que a ciência era apresentada como parte integrante da magnífica tapeçaria do conhecimento humano. Considerava-se impensável que alguém desejasse ser físico sem conhecer Platão, Aristóteles, Bach, Shakespeare, Gibbon, Malinowski e Freud _ entre muitos outros. Numa aula de introdução à ciência, a visão de Ptolomeu de que o Sol gira ao redor da Terra era apresentada de forma tão convincente que alguns estudantes se flagravam reavaliando seu compromisso com a teoria de Copérnico. No currículo de Hutchins, o status dos professores não tinha quase nada a ver com a sua pesquisa; inflexivelmente ao contrario do padrão moderno da universidade norte-americana , os professores eram avaliados pelo seu ensino, pela sua capacidade de informar e inspirar a próxima geração. Nessa atmosfera inebriante, consegui preencher algumas das muitas lacunas na minha educação. Grande parte daquilo que era profunda- mente misterioso, e não apenas na ciência, tornou-se mais claro. E também testemunhei em primeira mão a alegria que sentem aqueles que têm o privilégio de revelar um pouco do funcionamento do Universo. Sempre fui grato aos meus mentores dos anos 50, e tentei me certificar de que cada um deles soubesse do meu apreço. (ISBN 85-7164-606-6, P. 15)

Esta é uma indicação clara entre um pesquisador e um Cientista. As nossas Universidades se esqueceram que são Instituições de Ensino e que a pesquisa é uma forma de qualificar seu Ensino. Certamente em tópicos precisos, fundamentais ou tecnológicos podemos gerar contribuições excelentes, mas somos Professores. Um assunto para meditação.

Em um artigo na Folha de São Paulo Adalberto Fazzio e Sidney Jard Da Silva sobre a “Universidade do Século 21” aparece esta citação de Max Weber:

No início do século passado, o renomado sociólogo alemão Max Weber observou que somente por acaso se poderia encontrar em um mesmo homem as vocações de cientista e professor. Apenas em situações fortuitas teríamos a felicidade de entrarmos em uma sala de aula e depararmos com o acadêmico igualmente “vocacionado” para o ensino e para a pesquisa”.

Eu havia tratado deste assunto em um texto de 2010 “Carreiras nas Universidades“, acho que está na hora de rediscutirmo o tema.

Afinal qual é a missão de uma Universidade? Tentem esta consulta no Google sobre sua Universidade preferida: “missão <nome da universidade>”, verão que muitas não apresentam claramente sua missão. Listo, a seguir três que encontrei:

UFMG

Gerar e difundir conhecimentos científicos, tecnológicos e culturais, destacando-se como instituição de referência nacional, formando  indivíduos críticos e éticos, com uma sólida base científica e humanística, comprometidos com  intervenções transformadoras na sociedade e com o desenvolvimento socioeconômico regional e nacional.

PUC Rio

A Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro é uma instituição comunitária de Educação Superior, de acordo com Portaria 679, de 12/11/2014, da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior, filantrópica e sem fins lucrativos, que visa produzir e propagar o saber a partir das atividades de ensino, pesquisa e extensão, tendo por base o pluralismo e debates democráticos, objetivando, sobretudo, a reflexão, o crescimento e enriquecimento da sociedade.

Missão da UFSCar

Missão da UFSCar: Produzir e tornar acessível o conhecimento. Como afirmado no PDI (2005) – PDI apresentado segundo o formato SPIEnS/MEC para o período de 5 anos – não é incomum confundir-se a missão da universidade pública com as suas atividades-fim: o ensino, a pesquisa e a extensão. São estas três atividades que, de forma indissociada, dão concretude à missão da universidade de produzir e tornar acessível o conhecimento. Nesta conceituação sintética o tornar acessível envolve tanto a formação dos alunos como a interação com os diferentes segmentos da sociedade para o compartilhamento e (re)construção do conhecimento.

Afinal parece que a real missão é a formação de alunos sendo que a interação humboldtiana da pesquisa com o ensino tem por objetivo a Formação de Recursos Humanos. Grande parte de nossa crise como nação é esta falta de formação em grande escala de recursos humanos de alta qualidade. Será que esquecemos da nossa missão?


Query Source Papers Citations Cites_Year Cites_Paper h_index g_index
Carl Sagan Google Scholar 987 26420 184.76 26.77 72 152

A Mente Organizada {Daniel J. Levitin} 2014

 


Capa de A Mente Organizada

Poderia a boa e velha organização ser o segredo fundamental para se navegar no mar de informações do mundo moderno? Enquanto notícias, textos, contas e aplicativos invadem nosso cotidiano, espera-se que tomemos rapidamente decisões cada vez maiores. Em capítulos instigantes sobre temas que vão desde a gaveta bagunçada da cozinha até cuidados com a saúde, David Levitin apresenta avanços recentes nos estudos sobre o cérebro e mostra métodos que podemos aplicar no dia a dia para adquirir uma sensação de controle sobre a maneira como organizamos nossos lares, nossos ambientes de trabalho e nossas vidas. Google

Este livro é uma leitura obrigatória para todos os que trabalham e vivem no  mundo moderno hiper-ligado. Aconselho principalmente para os estudantes de mestrado e doutorado, o autor é um neurocientista com h-index de 43. O livro trata da necessidade de organização mental para tratar o fluxo gigantesco de informação atualmente disponível. A parte inicial discute a classificação e identificação de conceitos, é uma contribuição muito importante para entender os conceitos de Modelagem Conceitual e Ontologias. A seguir analisa formas de comportamento e sua correspondência com funções cerebrais. Uma parte importante é a apresentação clara da necessidade de termos um espírito crítico e como transmitir isto para nosso filhos. O livro orienta a forma de nos organizarmos, não como banal auto-ajuda mas de uma forma cientificamente embasada. O livro é auto-contido , mas um conhecimento básico de fisiologia torna a sua leitura muito mais produtiva. Mesmo sem este conhecimento a aplicação na vida real dos conhecimentos adquiridos com esta leitura fará uma grande diferença em sua produtividade.


 

Individualismo ou o QUALIS e a Avaliação

Egoismo

Não é a cultura do egoísmo, do individualismo, que frequentemente regula a nossa sociedade, aquela que constrói e conduz a um mundo mais habitável, mas sim a cultura da solidariedade; ver no outro não um concorrente ou um número, mas um irmão. Papa João Paulo II

Geramos um monstro que nos devorará. Este monstro chama-se soberba, insolência, egoísmo feroz. José Saramago

Está na hora de mudar o sistema de avaliação científico no Brasil. Basta de bibliometria naïf, precisamos discutir o que é realmente qualidade. Ao observar as críticas e os problemas encontrados nas avaliações brasileiras minha primeira impressão foi de que o QUALIS estava causando uma onda de individualismo. Depois aprofundei a análise e cheguei a uma conclusão completamente diferente. Tenho notado uma mudança radical no comportamento dos grupos de pesquisa em computação no Brasil. Como participei de quase todo o processo de desenvolvimento desta área acadêmica, só para exemplificar quando voltei do doutorado tínhamos cerca de 60 doutores em informática fazendo pesquisa, tenho uma visão histórica do tema. No início havia uma grande solidariedade dentro dos grupos, o objetivo era de construir uma comunidade competente e de qualidade na área. O tempo passou e percebo, cada vez mais, uma visão individualista dos novos pesquisadores.

Basta olhar para perceber que os indivíduos tornam-se, mais e mais individualistas, muito mais orientados para a busca e o atendimento de seus interesses imediatos, exclusivos, indiferentes ao grupo. Fizemos um grande esforço para a qualificação de nossos programas de pós-graduação mas o resultado foi que objetivo entendido pelos jovens é que ter mais artigos publicados com QUALIS A1 é o essencial. Isto se tornou mais real quando até IES sem nenhuma pesquisa passam a exigir QUALIS para a admissão de novos docentes. O pior é a posição de muitos programas de pós-graduação que para dar uma dose de esteroides na avaliação da CAPES dividem os pontos obtidos em publicações pelo número de professores do grupo. Então um professor prefere trabalhar com colegas de outros departamentos para não perder pontuação, ou mesmo descredenciamento na pós. Esqueceu-se de que a prioridade não é de somente publicarmos mas sim de construir grupos competentes e coesos que, estes, gerarão a produção de qualidade. Até parece que o QUALIS é o culpado pelo individualismo! Mas precisamos ter consciência de que a tecnologia, aqui representada pela bibliometria atrás do QUALIS, é apenas uma ferramenta e se não construirmos valores humanos e éticos, se estas tecnologias não forem utilizadas com uma análise e comprometimento social os resultados podem ser muito ruins. O resultado poderá ser, e neste caso foi, uma baixa na qualidade do relacionamento humano intragrupos e do comportamento social.

Há bastante tempo estou me questionando sobre o modo de avaliação dos pesquisadores e de seus resultados acadêmicos. Minha grande dúvida tem sido se uma avaliação exclusivamente baseada na produção individual é fair. Pode alguém produzir resultados adequados e justos socialmente em trabalho isolado? Se esta pessoa for alguém como o filósofo Kant que nunca saiu de sua cidade de Königsberg e revolucionou a filosofia com sua Crítica da Razão Pura, tudo bem. Mas nós, simples mortais, financiados pela Sociedade podemos ser avaliados e trabalhar em ermitagem? Esta dúvida e reflexão se aplicam para os pesquisadores em todas as áreas em que equipes são essenciais. Talvez este raciocínio não possa ser considerado para os pesquisadores realmente teóricos. Mas mesmo assim tenho dúvidas sobre se o ambiente não é um elemento essencial para estimular estes trabalhos. 

O trabalho de pesquisa em tecnologia depende de equipamentos e de equipe. Um fato que causa certa revolta é a concessão de prêmios Nobel para alguns pesquisadores que somente conseguiram o destaque devido ao ambiente e equipe com que trabalharam. Sentimos bem este problema, em dimensão completamente diferente, com os jovens doutores que retornam de grandes centros de pesquisa e laboratórios de ponta. A produção bibliográfica que trazem raramente é mantida nas condições brasileiras de trabalho. Estes pesquisadores foram infectados por alguma rara doença tropical em seu retorno? Acho que não, apenas o contexto é diferente. Há uma burocracia enorme e há o famoso Custo Brasil. O CNPq reconheceu este fato e criou uma cláusula de barreira exigindo um tempo depois do doutorado para a postulação a uma bolsa de produtividade em pesquisa. Estava lendo as páginas amarela de uma antiga Revista Veja quando encontrei esta parte da entrevista de uma cientista do CERN¸ Fabiola Gianotti, sobre o Premio Nobel de Física; fiquei impressionado! Mas é claro que o proposto não aconteceu devido au culto às personalidades.

Veja: Por ter liderado equipes que somaram mais de 3000 físicos e engenheiros empenhados na descoberta do Higgs, dá-se como certo que a senhora vai ganhar o Prêmio Nobel de Física. Analisando friamente, isso é inevitável, não?
Fabiola Gianotti: Sinto-me honrada por ter me tornado a face desta que é uma das descobertas mais importantes dos últimos 100 anos. Mas acho errado que uma só pessoa, ou duas, ou três levem o Nobel por isso. Não acharia certo que o prêmio viesse apenas para a minha mão. Se o comitê do Nobel achar apropriado consagrar nossa pesquisa, peço publicamente que os agraciados sejam os times de milhares de cientistas que formularam a teoria, como Peter Higgs, e que a testaram na prática, como as equipes que guiei. O prêmio deveria ir para o Cern e para a comunidade em torno dele. Para isso ocorrer, teriam de ser mudadas as atuais regras do Nobel. Mas está na hora das transformações. Hoje, as experiências científicas mais relevantes não são feitas apenas por um ou por alguns indivíduos. Os responsáveis são grupos imensos de intelectuais ultraqualificados, cada um com uma função específica e vital na condução do experimento. Muitos atuaram remotamente, via internet, de diversas partes do mundo. A maneira de fazer ciência mudou muito, e a organização do Nobel deveria refletir isso.

Ai encontramos uma pessoa que entendeu a mudança da realidade. Mais do que isto, não tem um ego tão inflado que mataria todos em seu redor se explodisse. Este é o ponto em que estamos falhando: o exagerado culto à personalidade e o individualismo exacerbado. Penso que este é um caminho que está levando ao problema atual de individualismo exacerbado na pesquisa. A avaliação é baseada quase exclusivamente em um único critério: publicar, publicar e publicar em meios QUALIficados. A participação em eventos brasileiros pouco vale. A organização de cursos, minicursos e trabalhos de relevância social também pouco é considerada. Ai vem a justificativa, dita científica, o que vale é o que publicamos. Qual o estímulo para um jovem pesquisador participar, por exemplo, das atividades da SBC? Um programa de pós-graduação deve ter muitos alunos para poder publicar muito, não para formar pesquisadores competentes. Está na hora de dar um basta neste estado de coisas. Caso contrário só estaremos estimulando o individualismo: quanto mais eu publicar e de preferência sozinho melhor, meus colegas não terão mais publicações. Não citar brasileiros, ótimo, ai eles não competirão comigo no h-index.

Claro que a avaliação bibliométrica é um prazer para os burocratas, um número não implica na necessidade de um julgamento humano. A justificativa é que, por exemplo na avaliação da CAPES, há outros critérios. Mas de fato estes critérios saturam e pior muitos pesquisadores seniores acham que estes critérios não são relevantes: o que vale é publicar! Algum de vocês já viu um coordenador de pós-graduação enfatizando a necessidade de termos mais alunos para formarmos pesquisadores competentes ou de termos mais interação entre os pesquisadores para termos melhor avaliação? Em todos os locais que conheço a ladainha é a mesma: publicar, publicar e publicar. Para uma boa avaliação são necessários menos dados mas de boa qualidade, isto se denomina redução dimensional: quais as melhores publicações, onde estão os melhores alunos formados, quais os melhores projetos conseguidos, qual a interação entre os pesquisadores e com os alunos.

Então a minha conclusão é: o QUALIS não é o culpado, nós somos os culpados pela sua má utilização. A CAPES tem insistido que esta é uma ferramenta para a avaliação dos programas de pós-graduação e não dos pesquisadores. Mas isto é um mito, se a avaliação dos programas é funcionalmente dependente das produções bibliográficas dos pesquisadores quem não vai transferir esta avaliação para estes pesquisadores? Não sou contrário a boas publicações, ao contrário acho isto essencial, mas não O critério exclusivo. Está na hora de estimularmos a cooperação e não o individualismo e a competição exacerbada. Esta competição radical, este egoísmo feroz, como diz Saramago, estão criando a violência em nossas cidades e piorando a cooperação em nossos grupos de pesquisa. Vamos ter a humildade de reconhecer que o mérito é da equipe. Não sou contra critérios quantitativos, inclusive trabalho e publico artigos com boa densidade, o que não concordo é com a predominância quase exclusiva das publicações e com o individualismo exacerbado que está crescendo nos grupos de pesquisa. Acho que enfatizamos tanto a qualidade das publicações que o tema se tornou uma obsessão para os jovens pesquisadores.