As Universidades brasileiras são competitivas?

Pensando na crise que assisto em muitas Universidades brasileiras resolvi me perguntar se elas são mesmo competitivas. Nossas Universidades podem ser comparadas com as realmente boas no mundo? E os programas de pós-graduação como são avaliados? Há uma falta de candidatos ao ingresso em muitos cursos e isto provoca problemas financeiros sérios, tratei este ponto em: A crise no ensino da computação:

“No outro extremo da carreira está ocorrendo uma “caça aos doutores”, ao inverso, pois muitas Universidades e Centros Universitários estão despedindo o pessoal com maior titulação para contratar “mão de obra” mais barata. Isto é uma decisão míope; é triste! Por outro lado há os cursos de “baixo custo” e “baixa tarifa”, como aquelas linhas aéreas que servem pacotinhos de amendoim em vôos de quatro horas. O pior é que há pessoas que pensam que aquelas belas propagandas em outdoors de cursos de “baixa tarifa” são uma alternativa de trabalho profissional e e sonham com a ascensão social oferecida por estes diplomas. Bem, terão um lindo diploma, talvez colorido e dourado, para colocar na parede”.

Felizmente há algumas exceções há algum tempo foi publicada uma propaganda da FGV procurando mostrar que os egressos de um MBA têm maiores oportunidades de carreira. Após, apresenta uma tabela com as opiniões dos egressos. Nesta tabela ainda preocupa o fato de que o primeiro item é a qualidade das instalações, mas as 6 opiniões seguintes são absolutamente pertinentes com a qualidade do curso. Toda a propaganda é direcionada para a avaliação da qualidade dos cursos e das perspectivas de carreira. Espero que esta linha se multiplique e que vejamos, em breve, uma bela competição dirigida pela propaganda da qualidade dos cursos de graduação, e de pós-graduação das Universidades. Mas não se engane pela propaganda, li um outro anúncio de uma Universidade que se dizia a melhor em tudo, mas quando se presta atenção nas letras pequenas (critérios para a classificação) é possível notar que houve um cuidado extremo em selecionar competidores, para dizer o mínimo, muito tendenciosos para a obtenção destes resultados. Outra falácia é a propaganda de cursos de pós-graduação ditos recomendados pela CAPES, ora esta recomendação é para que o programa entre na fase de avaliação, isto é o sentido 1. da definição a seguir. Não é uma recomendação no entendimento comum: indicar algo pela sua qualidade já avaliada.

re.co.men.dar
 v. 1. Tr. dir. Pedir o cuidado e a atenção para alguma pessoa ou coisa.2. Tr. dir. Confiar o encargo de. 3. Tr. dir. Pedir instantemente.4. Tr. dir. Aconselhar, animar, exortar a fazer. 5. Tr. dir. Indicar com boas informações. 6. Tr. dir. Pedir proteção para. 7. Tr. dir. Tornar digno de acatamento ou de elogio. 8. Pron. Mostrar-se digno de recomendação. 9. Tr. dir. Apresentar, enviar ou transmitir cumprimentos. (Dicionário Michaelis)

Naquela crônica pensei que a justificativa “Isto não é uma decisão míope” aplicada á decisão de reduzir os custos de qualquer forma era adequada pois tratava-se de um mecanismo de sobrevivência. Recebi vários e-mails com opiniões contrárias e resolvi pensar melhor. Comecei com a palavra Competitividade, que é derivada de competição; vejamos o que diz o Dicionário Michaelis sobre esta palavra: 

com.pe.ti.ção

s. f. 1. Ato ou efeito de competir. 2. Disputa por algum prêmio ou vantagem. 3. Luta, desafio, disputa, rivalidade. (Dicionário Michaelis)

O tema foi evoluindo e passei a pensar na diferença entre a Universidade e o meio empresarial. Ai surgiu claro o conceito e competitividade no campo educacional. Só seremos competitivos se formos bons na nossa área central de atuação. Qual é a vantagem competitiva que uma Universidade pode ter? Qual é a luta? A minha resposta é clara: temos que oferecer algo que valha a pena ser pago, no caso de Universidades este produto é a qualidade e a empregabilidade dos seus formandos. De forma alguma são cursos baixo custo – baixa tarifa o diferencial de competitividade. As Universidades precisam fazer propaganda da sua qualidade, de seus ótimos professores, das posições ocupadas pelos seus ex-alunos. Alguém de vocês conhece uma página de ex-alunos com suas posições e brilhantes postos e realizações? Além disto os alunos precisam entender que hoje só a qualificação abre possibilidades de mercado. Um colega me contou, na semana passada, que um seu aluno tinha recebido nota 10 nas duas provas da disciplina, ao saber disto disse que não entregaria o trabalho final. Meu colega, muito impressionado, lembrou que o aluno ficaria com conceito “C”, resposta: Tá OK, eu passo de qualquer jeito!. Isto é competitividade?  

No passado estive na Universidade do Arizona  (UA), cheguei no domingo e aproveitei a bela tarde com o sol do deserto para passear no Campus (só isto já é algo: imaginem passear em um domingo de tarde em algum campus brasileiro…). Vi um grande prédio da biblioteca central e, como estava aberto, entrei para dar uma olhada: cheio de estudantes trabalhando, atenção – domingo de tarde! Isto é competitividade. Na UCLA as bibliotecas ficam abertas 24/24 e – como me comentou num amigo que se doutorou naquela Universidade – nas noites se encontram por lá os doutorandos e os professores assistentes em busca de uma tenure; na expressão local “burning the mid-night oil“. 

Em um artigo publicado na folha de São Paulo em novembro de 2006, de José Alexander Scheinkman, 58, professor de economia na Universidade Princeton (EUA) há este parágrafo:

“Uma das características da produção de pesquisa é que, quanto melhor forem os colegas, mais produtivo é um pesquisador. Harvard, Princeton ou o MIT conseguem contratar professores de universidades menos prestigiosas, às vezes até pagando salários inferiores, pois o pesquisador sabe que lá vai encontrar melhores colegas e alunos”. 

Demissão de professores-doutores com boa produção é exatamente o contrário desta situação. Voltando para a Universidade do Arizona encontrei este trecho no “Visitors Guide” de 2006:

“For Robert N. Shelton, accepting the position of president at the UA not only represents the peak of a distinguished career, but also an opportunity to return to the state he left in 1963. Shelton assumed the role of UA president on July l following the retirement of Peter Likins. He most recently was executive vice chancellor and provost and professor of physics at the University of North Carolina, Chapei Hill – a position he had held since 2001. Prior to that, Shelton spent a little over four years as the vice provost for research for the University of California system. The UA’s status as a premier research university, its location, the quality of its students and faculty and the University’s commitment to public service influenced Shelton’s decision to return to his home state. “I love it that the UA is both an AAU and land-grant university,” Shelton said. “Also, our proximity to an international border provides us with a wonderful opportunity to lead this country in addressing societal issues.”

Pergunto: quantos professores são convidados para trabalhar em uma outra Universidade brasileira com a oferta de melhores condições de trabalho ou mesmo melhores salários para criar um grupo de alta qualidade? Costumamos empregar professores e pesquisadores de alto nível pelos desafios e pela qualidade das Universidades? Há alguns casos de professores aposentados de Universidades Públicas transferindo seus grupos de pesquisa e laboratórios para Universidades Privadas, mas ainda assim, são poucos casos e estimulados pelo acúmulo de uma aposentadoria com o novo salário, não é uma competição de mercado – aliás estamos acostumados com a competição de livre-mercado no caso dos jogadores de futebol mas não para professores, esta é a indicação clara do que é importante para o país. Queremos professores de alto nível e projetos competitivos internacionalmente ou alunos treinados em produtos comerciais? 

Puxa! Chega de enrolação: Universidade é qualidade, o resto é discurso diversionista que tira o foco do assunto principal. Em um programa de TV vi um documentário sobre o Indian Institute of Technology – Bombay, o tema principal era a enorme competitividade na entrada, acho que entre 200 a 300 candidatos por vaga, e do esforço e privações que as famílias faziam para conseguir mandar um aluno para lá. Qual o motivo? O futuro assegurado por um prestigioso título e pela competência atingida. Olhem este trecho da Wikipedia:

Since 1953, nearly twenty-five thousand IITians have settled in the USA”

Já passou da hora de mudarmos nossa ótica, o que vende é qualidade, competência e competitividade. Não cabe à Universidade fundar indústrias sua missão é formar profissionais competentes que, estes sim, terão a possibilidade de se destacarem e de participar no desenvolvimento de empresas inovadoras. Ai entra o empreendorismo como matéria de formação dos alunos. 

Volto a repetir, nunca é demais, que precisamos desenvolver os demais níveis de formação, não só a formação acadêmica de Universidades Hulboldtianas. Na crônica sobre a PG e a Indústria havia escrito:

“Temos um belíssimo exemplo brasileiro no caso da Embraer onde um excelente centro de ensino e pesquisa foi utilizado para embasar uma indústria, isto dentro de uma visão estratégica de País. Do ponto de vista do ensino é preciso um modelo completo com cursos técnicos secundários, cursos tecnológicos superiores, universidades tecnológicas e universidades humboldtianas. Neste modelo de ensino o processo de avaliação deveria ser diferente para cada tipo de curso e com a informação clara do tipo de curso em que o aluno está se matriculando. Alguns cursos são orientados para a continuação da formação em pós-graduação, outros para a entrada no mercado com uma posterior alternativa de pós-graduação tecnológica e, finalmente, outros são cursos terminais sem a base formal necessária para uma pós -graduação. Os candidatos precisam escolher conscientemente qual caminho podem e querem seguir”.

A saída de mercado para muitas Universidades é o oferecimento de cursos em diferentes níveis e com diferentes objetivos. As Universidades, em seus cursos acadêmicos, precisam oferecer qualidade científica, pesquisa, desenvolvimento de pesquisa aplicada e professores de alto nível, este deve ser o ponto central dos esforços de qualificação e da propaganda institucional. O importante é entendermos que é impossível para todas as Universidades pretenderem seguir o melo de Humboldt. Outros cursos podem ter foco na formação direta para o mercado, no treinamento. Além disto, organizações paralelas, como o CEI aqui no II-UFRGS, podem oferecer incentivos e treinamento para que os alunos com inovações, resultantes de sua ótima formação, e vontade de empreender no mercado comercial sejam mais qualificados para o fazer.