A qualidade da pesquisa depende da lingua do artigo?

(Atualizado em: 20 de dezembro de 2016)
 Cajal  Para aqueles que como eu acreditam que é possível publicar artigos de alta qualidade em Português, apresento este texto retirado do livro Muito Além do Nosso Eu do neurocientista Miguel Nicolelis. Este pequeno trecho (p. 81-82) mostra que um dos fundadores da Neurociência, o Prof. Santiago Ramón y Cajal – prêmio Nobel de Medicina de 1906, obrigou aos famosos da época aprenderem o Espanhol. Qualidade não depende da língua em que se escreve mas é intrínseca ao trabalho.

Nascido em Petilla de Aragón, Santiago Ramón y Cajal era um homem obsessivo e autocrático, um gênio teimoso que, sozi­nho, deu origem à verdadeira revolução que lançou a neurociência na agenda científica mundial. Tal feito baseou-se principalmente na demonstração de que o cérebro, como outros órgãos, é formado por uma enorme coleção de células.

Uma pe­quena anedota dá a dimensão dos obstáculos que Cajal teve de superar para ser ouvido por seus pares. No início de sua carreira, ele não sabia escrever bem em alemão, a língua preferida pelos principais anatomistas do final do século XIX. Sem pensar duas vezes, Cajal decidiu fundar um periódico científico, a Revista Tri­mestral de Histologia Normal y Patológica, na qual podia divulgar seus achados fenomenais em sua língua pátria.

Em 1896, ele re­petiu a experiência e criou o primeiro periódico científico espe­cializado em neurociência, a Revista Trimestral Micrográfica. Como não poderia deixar de ser, o primeiro fascículo da publica­ção continha seis manuscritos de autoria de dom Santiago. Anos mais tarde, vários anatomistas alemães não tiveram outra opção senão dedicar-se ao estudo da língua espanhola como única forma de permanecerem atualizados com a fronteira da neurociência representada agora pelos artigos de Ramón y Cajal.

Até hoje, Cajal é um dos mais citados autores na literatura neurocientífica. Sua engenhosidade e resiliência como experimentalista foram reconhecidas inicialmente quando ele adaptou uma nova coloração histológica, La reazione nera (Metodo de Golgi), para seus estudos destinados a elucidar a organização anatômica do tecido nervoso”.