Individualismo ou o QUALIS e a Avaliação

Egoismo

Não é a cultura do egoísmo, do individualismo, que frequentemente regula a nossa sociedade, aquela que constrói e conduz a um mundo mais habitável, mas sim a cultura da solidariedade; ver no outro não um concorrente ou um número, mas um irmão. Papa João Paulo II

Geramos um monstro que nos devorará. Este monstro chama-se soberba, insolência, egoísmo feroz. José Saramago

Está na hora de mudar o sistema de avaliação científico no Brasil. Basta de bibliometria naïf, precisamos discutir o que é realmente qualidade. Ao observar as críticas e os problemas encontrados nas avaliações brasileiras minha primeira impressão foi de que o QUALIS estava causando uma onda de individualismo. Depois aprofundei a análise e cheguei a uma conclusão completamente diferente. Tenho notado uma mudança radical no comportamento dos grupos de pesquisa em computação no Brasil. Como participei de quase todo o processo de desenvolvimento desta área acadêmica, só para exemplificar quando voltei do doutorado tínhamos cerca de 60 doutores em informática fazendo pesquisa, tenho uma visão histórica do tema. No início havia uma grande solidariedade dentro dos grupos, o objetivo era de construir uma comunidade competente e de qualidade na área. O tempo passou e percebo, cada vez mais, uma visão individualista dos novos pesquisadores.

Basta olhar para perceber que os indivíduos tornam-se, mais e mais individualistas, muito mais orientados para a busca e o atendimento de seus interesses imediatos, exclusivos, indiferentes ao grupo. Fizemos um grande esforço para a qualificação de nossos programas de pós-graduação mas o resultado foi que objetivo entendido pelos jovens é que ter mais artigos publicados com QUALIS A1 é o essencial. Isto se tornou mais real quando até IES sem nenhuma pesquisa passam a exigir QUALIS para a admissão de novos docentes. O pior é a posição de muitos programas de pós-graduação que para dar uma dose de esteroides na avaliação da CAPES dividem os pontos obtidos em publicações pelo número de professores do grupo. Então um professor prefere trabalhar com colegas de outros departamentos para não perder pontuação, ou mesmo descredenciamento na pós. Esqueceu-se de que a prioridade não é de somente publicarmos mas sim de construir grupos competentes e coesos que, estes, gerarão a produção de qualidade. Até parece que o QUALIS é o culpado pelo individualismo! Mas precisamos ter consciência de que a tecnologia, aqui representada pela bibliometria atrás do QUALIS, é apenas uma ferramenta e se não construirmos valores humanos e éticos, se estas tecnologias não forem utilizadas com uma análise e comprometimento social os resultados podem ser muito ruins. O resultado poderá ser, e neste caso foi, uma baixa na qualidade do relacionamento humano intragrupos e do comportamento social.

Há bastante tempo estou me questionando sobre o modo de avaliação dos pesquisadores e de seus resultados acadêmicos. Minha grande dúvida tem sido se uma avaliação exclusivamente baseada na produção individual é fair. Pode alguém produzir resultados adequados e justos socialmente em trabalho isolado? Se esta pessoa for alguém como o filósofo Kant que nunca saiu de sua cidade de Königsberg e revolucionou a filosofia com sua Crítica da Razão Pura, tudo bem. Mas nós, simples mortais, financiados pela Sociedade podemos ser avaliados e trabalhar em ermitagem? Esta dúvida e reflexão se aplicam para os pesquisadores em todas as áreas em que equipes são essenciais. Talvez este raciocínio não possa ser considerado para os pesquisadores realmente teóricos. Mas mesmo assim tenho dúvidas sobre se o ambiente não é um elemento essencial para estimular estes trabalhos. 

O trabalho de pesquisa em tecnologia depende de equipamentos e de equipe. Um fato que causa certa revolta é a concessão de prêmios Nobel para alguns pesquisadores que somente conseguiram o destaque devido ao ambiente e equipe com que trabalharam. Sentimos bem este problema, em dimensão completamente diferente, com os jovens doutores que retornam de grandes centros de pesquisa e laboratórios de ponta. A produção bibliográfica que trazem raramente é mantida nas condições brasileiras de trabalho. Estes pesquisadores foram infectados por alguma rara doença tropical em seu retorno? Acho que não, apenas o contexto é diferente. Há uma burocracia enorme e há o famoso Custo Brasil. O CNPq reconheceu este fato e criou uma cláusula de barreira exigindo um tempo depois do doutorado para a postulação a uma bolsa de produtividade em pesquisa. Estava lendo as páginas amarela de uma antiga Revista Veja quando encontrei esta parte da entrevista de uma cientista do CERN¸ Fabiola Gianotti, sobre o Premio Nobel de Física; fiquei impressionado! Mas é claro que o proposto não aconteceu devido au culto às personalidades.

Veja: Por ter liderado equipes que somaram mais de 3000 físicos e engenheiros empenhados na descoberta do Higgs, dá-se como certo que a senhora vai ganhar o Prêmio Nobel de Física. Analisando friamente, isso é inevitável, não?
Fabiola Gianotti: Sinto-me honrada por ter me tornado a face desta que é uma das descobertas mais importantes dos últimos 100 anos. Mas acho errado que uma só pessoa, ou duas, ou três levem o Nobel por isso. Não acharia certo que o prêmio viesse apenas para a minha mão. Se o comitê do Nobel achar apropriado consagrar nossa pesquisa, peço publicamente que os agraciados sejam os times de milhares de cientistas que formularam a teoria, como Peter Higgs, e que a testaram na prática, como as equipes que guiei. O prêmio deveria ir para o Cern e para a comunidade em torno dele. Para isso ocorrer, teriam de ser mudadas as atuais regras do Nobel. Mas está na hora das transformações. Hoje, as experiências científicas mais relevantes não são feitas apenas por um ou por alguns indivíduos. Os responsáveis são grupos imensos de intelectuais ultraqualificados, cada um com uma função específica e vital na condução do experimento. Muitos atuaram remotamente, via internet, de diversas partes do mundo. A maneira de fazer ciência mudou muito, e a organização do Nobel deveria refletir isso.

Ai encontramos uma pessoa que entendeu a mudança da realidade. Mais do que isto, não tem um ego tão inflado que mataria todos em seu redor se explodisse. Este é o ponto em que estamos falhando: o exagerado culto à personalidade e o individualismo exacerbado. Penso que este é um caminho que está levando ao problema atual de individualismo exacerbado na pesquisa. A avaliação é baseada quase exclusivamente em um único critério: publicar, publicar e publicar em meios QUALIficados. A participação em eventos brasileiros pouco vale. A organização de cursos, minicursos e trabalhos de relevância social também pouco é considerada. Ai vem a justificativa, dita científica, o que vale é o que publicamos. Qual o estímulo para um jovem pesquisador participar, por exemplo, das atividades da SBC? Um programa de pós-graduação deve ter muitos alunos para poder publicar muito, não para formar pesquisadores competentes. Está na hora de dar um basta neste estado de coisas. Caso contrário só estaremos estimulando o individualismo: quanto mais eu publicar e de preferência sozinho melhor, meus colegas não terão mais publicações. Não citar brasileiros, ótimo, ai eles não competirão comigo no h-index.

Claro que a avaliação bibliométrica é um prazer para os burocratas, um número não implica na necessidade de um julgamento humano. A justificativa é que, por exemplo na avaliação da CAPES, há outros critérios. Mas de fato estes critérios saturam e pior muitos pesquisadores seniores acham que estes critérios não são relevantes: o que vale é publicar! Algum de vocês já viu um coordenador de pós-graduação enfatizando a necessidade de termos mais alunos para formarmos pesquisadores competentes ou de termos mais interação entre os pesquisadores para termos melhor avaliação? Em todos os locais que conheço a ladainha é a mesma: publicar, publicar e publicar. Para uma boa avaliação são necessários menos dados mas de boa qualidade, isto se denomina redução dimensional: quais as melhores publicações, onde estão os melhores alunos formados, quais os melhores projetos conseguidos, qual a interação entre os pesquisadores e com os alunos.

Então a minha conclusão é: o QUALIS não é o culpado, nós somos os culpados pela sua má utilização. A CAPES tem insistido que esta é uma ferramenta para a avaliação dos programas de pós-graduação e não dos pesquisadores. Mas isto é um mito, se a avaliação dos programas é funcionalmente dependente das produções bibliográficas dos pesquisadores quem não vai transferir esta avaliação para estes pesquisadores? Não sou contrário a boas publicações, ao contrário acho isto essencial, mas não O critério exclusivo. Está na hora de estimularmos a cooperação e não o individualismo e a competição exacerbada. Esta competição radical, este egoísmo feroz, como diz Saramago, estão criando a violência em nossas cidades e piorando a cooperação em nossos grupos de pesquisa. Vamos ter a humildade de reconhecer que o mérito é da equipe. Não sou contra critérios quantitativos, inclusive trabalho e publico artigos com boa densidade, o que não concordo é com a predominância quase exclusiva das publicações e com o individualismo exacerbado que está crescendo nos grupos de pesquisa. Acho que enfatizamos tanto a qualidade das publicações que o tema se tornou uma obsessão para os jovens pesquisadores.