Somos Diferentes?

“A essência da tecnologia não é algo tecnológico “
Heidegger

A citação de Heidegger tem o objetivo de salientar que a essência da utilização natural e integrada no dia-a-dia da comunidade de computação não tem valor por si mesma. Por utilizarmos esta tecnologia de forma natural nossos hábitos de trabalho e nossa cultura foram profundamente modificados. Por isto acredito que realmente Somos Diferentes. O problema é que uma grande parte da comunidade científica ainda vive em dias passados. Como foram precursores criaram uma cultura enraizada e não aceitam diferenças. A diversidade enriquece, mas querem nos bitolar e convenceram muitos dos nossos que devemos ser bem-comportados fazendo tudo como os antigos dizem que é adequado, querem nos curar das características próprias que desenvolvemos. Há uma batalha pela frente, e não será fácil, mas a vitória está assegurada. Talvez tenhamos que esperar que uma geração se extinga, afinal nem Moises entrou na Terra Prometida, toda uma nova geração teve que se criar sem a influência da servidão no Egito para poder desfrutar do novo lar.

A minha posição, exposta nesta crônica, é que a ênfase na publicação de artigos em conferências, a publicação aberta e o declínio de publicações em revistas não é uma cultura específica e inferior em computação, mas é a materialização do novo mundo apoiado pelas Tecnologias de Informação.  Sim “Somos Diferentes”, e prezo esta diferença. É esta diferença que nos posiciona em uma situação de rápida evolução e disseminação do conhecimento. Outras modificações encontradas em nossa área são a hipercriticalidade, a ênfase exagerada em uma bibliometria naïf e o consequente estímulo a uma pesquisa e resultados de curto prazo. Aqui é importante salientar que precisamos mudar nossa forma de avaliação, o importante é a qualidade intrínseca do trabalho e não o quanto aparece ou seja, a sua popularidade. A revista Science publicou aquela que, na opinião de seus editores, foi considerada a pesquisa do ano de 2006 – a solução da Conjectura de Poincaré pelo matemático russo Grigori Perelman. Pelo critério do “impacto”, Perelman e sua pesquisa não existem. Autor e obra são ausentes na base ISI.

Em decorrência da difusão ampla das Tecnologias da Informação em nossa comunidade novas formas de publicar estão nascendo como a publicação livre. Surge, então, uma forte tensão entre os defensores do modelo econômico de lucro das grandes casas editoras e os defensores da publicação livre. Já tratei sobre a qualidade da pesquisa e das várias formas de publicações em “Livros, Revistas e Artigos Eletrônicos: Cultura, Qualidade e Tecnologia”. Mas a pergunta que precisamos tratar é “Será que somos diferentes?” – isto é porque a Comunidade de Computação tem um modelo diferente de outras comunidades, porque eles querem nos impor seus modelos ultrapassados?

Uma pequena história sobre a evolução das publicações poderia começar em 1455 quando Johann Gutenberg inventou o tipo móvel e iniciou a imprensa moderna. Esta invenção foi um dos elementos que provocaram o fim da Idade Média estimulando a Renascença. A disseminação do conhecimento clássico permitiu muitas pessoas a interpretá-lo a partir das fontes originais, para criar novas versões e aumentar a possibilidade de divulgar seus pensamentos mais livremente. Depois dos livros apareceram os periódicos como uma ferramenta para difusão do conhecimento. Os artigos, através de um processo de avaliação externa, são considerados fontes confiáveis ​​e respeitadas. Além disso, as bibliotecas ricas têm grandes coleções de periódicos impressos. Novamente nos deparamos com a interpretação de que a qualidade e relevância são parcialmente asseguradas pela ampla disponibilidade. Finalmente a Web e suas aplicações permitiram a publicação livre: a revolução foi iniciada pelo uso e pela disseminação da TI por toda a nossa comunidade. Apesar disto o status quo econômico mantém o velho paradigma de que a persistência das informações oferecidas por livros e revistas é o indicador de qualidade.

Dado que a Comunidade de Pesquisa de Computação tem o domínio da tecnologia foi possível integrar este conhecimento em nosso ambiente cultural. O problema agora é mudar a mentalidade para aceitar que a qualidade não está ligada com a aparência física da mídia, mas ele está intrinsecamente associado à qualidade do conteúdo. Estamos vivendo num mundo em mudança e um desafio muito grande é apoiar a nova realidade contra a cultura estabelecida

A nova realidade pode ser apresentada nas seguintes perguntas: Por que oferecer resultados de pesquisa a empresas privadas sem um retorno econômico real? Por que a comunidade deve aceitar que os livros e revistas tem a qualidade assegurada pelo seu custo? Por que não desenvolver um processo de nova avaliação para certificar a qualidade das publicações abertas e livre? Como permitir que a cultura científica e os resultados sejam disponíveis a todos os países, desde o mais rico até os países subdesenvolvidos? Para algumas agências de fomento à pesquisa qual é a diferença entre popularidade e qualidade de uma pesquisa?

Algumas ações devem ser tomadas rapidamente:

  • A comunidade deve aceitar que nós não somos prejudicados pela singularidade do modelo de publicação das pesquisas em computação em conferências, workshops e em publicações livres, nós somos os precursores de uma nova era.
  • Um novo modelo de avaliação deve ser desenvolvido para garantir a qualidade global de uma pesquisa e das publicações associadas. O processo de avaliação (do qual o QUALIS é um exemplo) atual não é suficientemente transparente e não escala para um grande número de conferências, workshops e publicações.
  • Agora que o mundo é global, a comunidade precisa criar metodologias não-tendenciosas para avaliação da qualidade. O próprio TIMES em “World University Rankings” aceita expressamente que “Os pesquisadores de países como França, Alemanha, Suíça, Itália e Espanha e da América Latina e Índia, estavam ausentes ou mal representados em termos das citações recebidas”.
  • As Universidades dos países Nórdicos criaram uma avaliação específica com a publicação de “Indicadores Bibliométricos para as Universidades Nórdicas” para disponibilizar dados e tratar deste problema de viés nas avaliações.
  • As publicações abertas jornais são regular players, mas não temos qualquer processo de avaliação real da qualidade para certificar a qualidade dos trabalhos publicados.
  • Um novo modelo econômico deve ser criado para permitir publicações de baixo custo de resultados científicos isto associado a uma retribuição justa para as organizações fundadoras e autores.
  • A natureza multi-étnica e multi-cultural das decisões sobre a pesquisa deve ser levada em conta, a fim de permitir uma integração harmoniosa global.